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Do Brasil

Infinitas Formas Indica: Carnecracia, de Fernando Belucci

Em uma distopia na qual animais e vegetais desapareceram, Fernando Belucci imagina uma humanidade que transformou o próprio corpo em recurso. O mundo pode exigir algumas concessões do leitor, mas o comportamento de quem vive nele é desconfortavelmente reconhecível.

Imagine se a humanidade chegasse ao ponto de acabar com todas as fontes de alimento que o planeta pode prover. Animais e vegetais deixam de existir completamente, todos os recursos desaparecem com o crescimento populacional. O que sobra? Somente a humanidade, ou parte dela. É desta premissa que parte Carnecracia. Depois que tudo aquilo que poderia servir de alimento deixa de existir, com a fome persistindo, só resta ao homem ser o próprio alimento do homem. Por consequência, antigas estruturas econômicas e sociais deixam de existir. O canibalismo, porém, não aparece apenas como resultado desesperado de um colapso. Com o passar do tempo, ele é incorporado à organização da sociedade, ganha regras, instituições e justificativas próprias. Um governo totalitário se estabelece e a chamada A Capital cria a Lei da Carne, segundo a qual cada pessoa é simultaneamente beneficiária e propriedade do sistema, podendo ter o próprio corpo tomado como pagamento de dívidas ou punições. Aquilo que começou como resposta à fome passa a determinar quem vive, quem morre e até quanto vale uma vida.

Fernando Belucci publicou o romance originalmente em 2022 e chegou, em 2026, à terceira edição independente. A história acompanha diferentes personagens ligados a essa sociedade e, principalmente, a uma força encarregada de perseguir aqueles que foram colocados à margem da lei. Professor, Ingrid, Marcus e Cassius não observam a brutalidade de fora: todos participam de alguma maneira da engrenagem que caça pessoas, conduz julgamentos e abastece um sistema no qual corpos podem terminar como alimento.

A narrativa é desenvolvida a partir dos quatro membros da força-tarefa, cada um com sua visão singular sobre o processo do qual participa Esta opção funciona muito bem pois ajuda o livro a mostrar que a violência não se sustenta apenas por causa de indivíduos especialmente cruéis. Ela continua funcionando porque há pessoas cumprindo ordens, outras encontrando justificativas para aquilo que fazem e muitas tentando sobreviver sem questionar demais o que tornou essa sobrevivência possível.

Aviso de conteúdo: Carnecracia contém violência gráfica, canibalismo, mutilação, tortura, abuso sexual, violência contra mulheres e crianças, morte e situações de extrema degradação humana. O próprio material de apresentação da obra alerta que algumas passagens podem ser especialmente perturbadoras para leitores sensíveis a esses temas.

Um mundo que já parece ter perdido o futuro

A sociedade criada em Carnecracia não transmite a impressão de estar tentando se reconstruir. Ela parece ter encontrado uma forma de continuar existindo mesmo depois de perder qualquer perspectiva real de futuro. Ainda há trabalho, famílias, autoridades, tribunais e algum comércio, mas praticamente tudo foi reorganizado para administrar uma escassez que não tem solução. A humanidade destruiu as fontes das quais dependia para sobreviver e, diante disso, não abandonou a lógica que a levou até ali. Continuou consumindo e, para isso, apenas mudou aquilo que passou a ser consumido.

A Capital é a expressão mais completa dessa adaptação. Em vez de combater a desumanização provocada pela fome, o governo a organiza. Criminosos podem ser transformados em alimento, condenados são enviados para a Zona de Gado e o sistema judicial trabalha de acordo com uma lógica em que preservar ou aproveitar o corpo pode importar mais do que investigar adequadamente aquilo que aconteceu. Dentro da Reserva de Gado, a própria automutilação é tratada como destruição de um recurso pertencente à Capital, deixando claro que a pessoa já não possui nem mesmo pleno direito sobre o próprio corpo. A autoridade lembra em alguns momentos a lógica de Jogos Vorazes, especialmente pela existência de um poder central que transforma desigualdade e violência em elementos necessários para a manutenção da ordem. Em Carnecracia, no entanto, esse domínio chega ao ponto de transformar fisicamente seus cidadãos em patrimônio.

Aqui não há uma resposta para a extinção, e a Capital não se importa com isso. Ela apenas decide quem será consumido primeiro e cria argumentos para apresentar essa escolha como justa. O sistema consegue até produzir períodos de aparente prosperidade quando presos e condenados passam a abastecer novamente as mesas, uma melhora temporária que não altera o fato de que a população está destruindo o único recurso que ainda possui. O resultado é um mundo que continua funcionando por inércia, sustentado pela esperança de que a fome de hoje possa ser resolvida mesmo que isso torne o amanhã ainda menos possível.

Quando a violência deixa de causar espanto

Embora Carnecracia tenha muitas cenas de violência explícita, seu aspecto mais incômodo aparece na naturalidade com que essa violência faz parte do cotidiano. Os personagens falam sobre carne humana, cotas, julgamentos e pessoas destinadas ao abate com uma familiaridade que seria absurda fora daquele contexto. Quando uma mulher grávida é capturada no início da história, por exemplo, sua condição não desperta apenas preocupação com sua vida; ela também passa a determinar seu valor para o sistema e o destino que a Capital pode dar ao seu corpo e ao bebê que carrega. A brutalidade não precisa ser constantemente anunciada porque já está integrada à linguagem e às decisões das pessoas.

Essa normalização aproxima o romance de obras como A Estrada e The Last of Us, nas quais o colapso modifica profundamente a forma como seres humanos passam a enxergar uns aos outros. A sobrevivência pode transformar qualquer desconhecido em ameaça, aliado ou recurso, e códigos morais precisam ser constantemente adaptados às circunstâncias. Carnecracia leva esse princípio adiante ao imaginar o momento em que aquilo que começou como comportamento extremo deixa de depender de decisões individuais e passa a receber respaldo do Estado. Não é apenas uma pessoa faminta decidindo comer outra; existe uma sociedade inteira que criou profissões, leis e procedimentos para determinar quando isso pode acontecer.

Cadáver Exquisito, de Agustina Bazterrica, também surge como uma associação inevitável pela transformação institucional de pessoas em alimento, embora os dois romances percorram caminhos próprios. O ponto de encontro mais interessante está menos no canibalismo em si e mais no uso de estruturas sociais para retirar progressivamente a humanidade daqueles que serão consumidos. Chamar alguém de gado, classificar corpos segundo sua utilidade ou tratar a carne como recompensa ajuda a criar distância entre aquilo que a sociedade faz e o significado real do ato. Em determinado momento, não é mais necessário convencer cada indivíduo de que aquilo é moralmente aceitável; basta que seja normal.

O mundo exige concessões, as pessoas nem tanto

A construção dessa sociedade também é o ponto em que Carnecracia mais exige colaboração do leitor. Um planeta em que animais e vegetais praticamente desapareceram, mas onde algumas estruturas humanas ainda conseguem permanecer funcionando, levanta questões sobre população, produção, infraestrutura e sobre quanto tempo um sistema baseado no consumo da própria humanidade poderia realmente se sustentar. O romance oferece respostas para parte dessas questões, mas há momentos em que é melhor aceitar as condições estabelecidas pela história do que tentar submetê-las a uma análise rigorosa de viabilidade. Algumas explicações também poderiam confiar mais no que já foi mostrado pelas cenas, sem a necessidade de reforçar ideias que o leitor provavelmente compreendeu.

A plausibilidade humana funciona melhor do que a plausibilidade material desse mundo. Uma vez aceita a situação em que aquelas pessoas vivem, é difícil considerar absurdo o comportamento delas. Marcus, Professor e Ingrid encontram maneiras diferentes de conviver com um sistema brutal sem necessariamente se enxergarem como pessoas cruéis. Existem limites que cada um acredita não ultrapassar, justificativas baseadas na lei e diferenças que parecem importantes entre cumprir uma ordem e cometer uma atrocidade por vontade própria. Marcus é particularmente interessante porque tenta preservar uma imagem moral de si mesmo mesmo participando de uma estrutura violenta, até precisar encarar o peso das próprias escolhas. Cassius ocupa outro extremo e mostra o que acontece quando um sistema criado para responder a uma necessidade também oferece espaço para quem encontra prazer ou poder na violência.

Esse talvez seja o aspecto mais convincente de Carnecracia. A humanidade é capaz de fazer coisas extremas para sobreviver, mas uma prática criada durante uma emergência não permanece necessariamente limitada à emergência. Com o tempo, surgem interesses, privilégios e pessoas que dependem daquela organização para manter a própria posição. A fome explica como a Lei da Carne pôde nascer; sozinha, já não explica tudo aquilo que continua acontecendo depois.

O romance de Fernando Belucci funciona melhor quando observamos seus personagens por esse ângulo. É possível questionar alguns elementos necessários para que a Capital exista exatamente como apresentada, mas é muito mais difícil afirmar que seres humanos jamais encontrariam maneiras de justificar comportamentos semelhantes caso fossem levados a uma situação extrema. Carnecracia imagina uma humanidade que consumiu praticamente tudo ao seu redor e, incapaz de mudar a lógica que a levou ao desastre, começou a consumir a si mesma. O resultado é uma distopia violenta e desconfortável, mas cuja parte mais perturbadora não está apenas no canibalismo. Está na facilidade com que pessoas comuns aprendem a viver em torno dele.

Você pode conhecer mais de Fernando Belucci e Carnecracia no site oficial do autor.

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