Quando pensamos no futuro, raramente começamos do zero. Antes mesmo de tentar imaginar como serão as cidades, as relações sociais, o trabalho ou a tecnologia daqui a cinquenta ou cem anos, já carregamos uma quantidade enorme de imagens prontas. Arranha-céus cobertos de telas, carros autônomos, drones, inteligência artificial em todos os lugares, grandes corporações ocupando o espaço antes reservado aos governos e uma população vivendo espremida entre tecnologia avançada e alguma forma de decadência social. Às vezes esse futuro é luminoso, limpo e organizado; outras vezes é chuvoso, sujo e coberto de neon. Em quase todos os casos, porém, ele parece ter sido construído em algum lugar entre Los Angeles, Tóquio, Londres, Hong Kong e as cidades imaginárias que décadas de cinema, literatura, quadrinhos, games e animação nos ensinaram a reconhecer como futuristas.
Não há nada de errado nisso por si só. A ficção científica sempre foi feita de trocas, influências e apropriações. Escritores brasileiros leram autores estrangeiros, assim como autores estrangeiros foram influenciados por tradições que não nasceram em seus próprios países. O cyberpunk não pertence exclusivamente a uma cidade, assim como viagens espaciais, robôs ou inteligência artificial não precisam respeitar fronteiras nacionais para funcionar como temas de ficção. O problema aparece quando uma determinada forma de imaginar o futuro se torna tão dominante que começamos a tratá-la não mais como uma possibilidade entre muitas, mas como uma espécie de futuro padrão.
É nesse ponto que a pergunta se torna interessante para nós. Quando a ficção brasileira olha para as próximas décadas ou séculos, ela está realmente imaginando o que poderia surgir daqui ou apenas transportando para cá um futuro construído em outro lugar? Quantas vezes mudamos o nome da cidade, colocamos personagens brasileiros no centro da história e preservamos praticamente intacta a lógica daquele mundo? A questão não é defender uma espécie de pureza nacional na ficção científica, o que seria tão artificial quanto qualquer tentativa de isolar nossa cultura das influências externas. O que vale perguntar é por que um país tão complexo, desigual, diverso e contraditório ainda aparece tão pouco como ponto de partida para aquilo que imaginamos sobre o amanhã.
O futuro que aprendemos a reconhecer
A ficção científica não inventou apenas histórias sobre o futuro. Ela também criou uma linguagem visual e narrativa para representá-lo. Depois de décadas de repetição, alguns elementos passaram a funcionar quase como sinais. Uma cidade cheia de hologramas e publicidade invasiva nos diz imediatamente que estamos diante de uma sociedade tecnologicamente avançada. Uma corporação com poder maior que o de governos nos coloca no terreno do cyberpunk. Um planeta coberto por estruturas metálicas e corredores impecavelmente brancos comunica outra ideia de progresso, mais próxima da ficção científica espacial. São convenções úteis porque permitem que uma obra estabeleça rapidamente seu universo sem precisar explicar cada detalhe.
O problema é que convenções muito bem-sucedidas também podem limitar nossa imaginação. Quando determinada imagem se repete por tempo suficiente, começamos a associá-la ao próprio conceito de futuro. Não pensamos apenas que uma cidade futurista pode ter letreiros luminosos, prédios gigantescos e sistemas de vigilância; passamos a sentir que ela deve ter essas coisas para parecer futurista. Uma rua de terra, uma casa simples, um mercado de bairro ou uma comunidade ribeirinha parecem pertencer ao passado, mesmo que continuem existindo daqui a cem anos e estejam cercados por tecnologias que hoje sequer conseguimos prever.
Essa associação entre futuro e determinados tipos de paisagem revela algo que vai além da estética. Ela também estabelece quais espaços consideramos importantes o suficiente para sobreviver até amanhã. Grandes centros urbanos aparecem naturalmente no futuro porque já foram incorporados ao nosso repertório de modernidade. Outros lugares, quando aparecem, costumam ser representados como aquilo que ficou para trás ou como vítimas de alguma transformação maior. É muito mais fácil encontrar na ficção uma metrópole verticalizada do que uma cidade amazônica projetada para conviver de maneira diferente com seus rios, uma comunidade do sertão reorganizada em torno de novas formas de produção de energia ou uma periferia que tenha desenvolvido seus próprios sistemas tecnológicos.
Não se trata de substituir um cenário pelo outro por obrigação. Uma São Paulo cyberpunk pode render uma ótima história, assim como uma estação espacial construída a partir de referências internacionais. A questão é perceber que o Brasil oferece muito mais possibilidades do que simplesmente servir de localização para modelos de futuro que já conhecemos.
O Brasil não precisa de ajuda para produzir contradições futuristas
Uma das características mais interessantes do Brasil como matéria-prima para a ficção científica é a maneira como diferentes tempos convivem no mesmo espaço. Aqui, novidade tecnológica e precariedade raramente se substituem de maneira organizada. Elas se acumulam. Uma pessoa pode usar um sistema bancário extremamente digitalizado e morar em uma região com infraestrutura urbana deficiente. Pode trabalhar para uma empresa internacional sem nunca pisar em um escritório, enquanto leva horas para atravessar a própria cidade. Pode usar inteligência artificial no cotidiano e ainda depender de serviços públicos construídos segundo lógicas de décadas atrás.
Isso já oferece uma diferença importante em relação a muitos futuros tradicionais da ficção científica. Em boa parte deles, a tecnologia aparece como uma força capaz de reorganizar completamente a sociedade. Quando determinada inovação surge, o mundo se transforma em torno dela. É claro que existem inúmeras obras mais complexas do que isso, mas a ideia de progresso tecnológico como sucessão de etapas ainda está profundamente presente no gênero. O novo substitui o antigo, mesmo quando essa substituição produz consequências terríveis.
A experiência brasileira sugere um processo muito menos ordenado. Aqui, tecnologias novas frequentemente convivem com estruturas sociais antigas sem eliminá-las. A modernização não chega ao mesmo tempo para todo mundo, não produz os mesmos efeitos em todas as regiões e tampouco distribui suas vantagens de forma igual. Se levarmos essa lógica a sério, um futuro brasileiro provavelmente não seria uma sociedade uniformemente avançada ou atrasada. Seria um país onde diferentes níveis de acesso à tecnologia, infraestrutura, educação e poder continuariam produzindo realidades paralelas que às vezes existem a poucos quilômetros umas das outras.
Uma cidade brasileira do futuro poderia ter bairros inteiros administrados por sistemas automatizados de energia, segurança e transporte enquanto outras regiões criariam soluções próprias para problemas que o poder público ainda não resolveu. Algumas pessoas talvez utilizassem tecnologias médicas caríssimas para prolongar a vida, enquanto outras continuariam enfrentando dificuldades de acesso a cuidados básicos. Serviços digitais poderiam se tornar ainda mais sofisticados sem eliminar formas bastante conhecidas de exploração do trabalho. Não seria necessário inventar do zero uma distopia para chegar a esse cenário. Bastaria imaginar o desenvolvimento tecnológico ocorrendo dentro das mesmas desigualdades que já organizam grande parte da sociedade brasileira.
Essa possibilidade talvez seja mais perturbadora do que vários futuros em que tudo desmorona. É relativamente confortável imaginar que uma catástrofe transformará completamente a sociedade, porque isso cria uma separação clara entre o nosso presente e aquele mundo distante. Muito mais incômodo seria imaginar um futuro no qual quase tudo continua reconhecível, apenas com ferramentas melhores, sistemas mais eficientes e desigualdades atualizadas para um novo século.
Importamos cenários, mas também importamos preocupações
Toda ficção científica nasce de algum tipo de presente. Mesmo quando uma história acontece a milhares de anos de distância ou em outro planeta, ela costuma carregar perguntas que faziam sentido para a sociedade que a produziu. O medo da guerra nuclear deixou marcas profundas na ficção do século XX. O avanço das corporações, a expansão dos sistemas de vigilância, a informatização da vida cotidiana e a ansiedade em torno das novas tecnologias ajudaram a construir o cyberpunk. Mais recentemente, inteligência artificial, crise climática, redes sociais e concentração de dados passaram a ocupar um espaço cada vez maior em nossas especulações sobre o futuro.
Essas questões não deixam de ser importantes para o Brasil apenas porque ganharam força em outros lugares. Seria absurdo pensar assim. Mudanças climáticas, automação, concentração econômica, inteligência artificial e vigilância são problemas globais, ainda que se manifestem de maneiras diferentes em cada sociedade. O ponto é que, quando importamos modelos narrativos inteiros, podemos acabar importando também uma hierarquia de preocupações. Começamos a imaginar o futuro a partir dos medos que já foram transformados em ficção por outros países e deixamos de perceber que nossas próprias experiências podem produzir perguntas diferentes.
O Brasil, por exemplo, conhece há muito tempo conflitos em torno de terra, água, recursos naturais e deslocamentos populacionais. Conhece cidades onde enchentes e deslizamentos atingem de maneira muito desigual diferentes grupos sociais. Convive com territórios em que o avanço de atividades econômicas modifica ecossistemas inteiros e altera modos de vida construídos durante gerações. Tem grandes regiões metropolitanas cuja organização urbana já produz consequências sociais profundas, ao mesmo tempo em que possui áreas imensas onde distância, infraestrutura e presença do Estado são questões completamente distintas.
Se projetarmos essas tensões para o futuro, não precisamos abandonar os temas tradicionais da ficção científica. Pelo contrário: podemos fazê-los ganhar outro significado. A inteligência artificial deixa de ser apenas uma ameaça abstrata ao emprego e passa a levantar a questão de quais trabalhos serão automatizados primeiro e quem terá acesso à formação necessária para ocupar as novas funções. A crise climática deixa de ser apenas a imagem de um planeta mais quente e passa a envolver deslocamentos internos, conflitos por água, transformação das cidades e novas desigualdades na capacidade de adaptação. A biotecnologia deixa de ser somente uma discussão sobre os limites éticos da ciência e passa também pela pergunta de quem poderá pagar por seus benefícios.
Nesse sentido, imaginar futuros brasileiros não exige necessariamente inventar temas completamente inéditos. Exige olhar para problemas conhecidos a partir da nossa própria posição.
Um futuro brasileiro não pode ter apenas uma geografia
Quando a ficção científica brasileira quer imaginar uma grande metrópole do futuro, São Paulo surge quase naturalmente. Há bons motivos para isso. A cidade oferece verticalização, congestionamento, desigualdade, riqueza, infraestrutura tecnológica, publicidade, multidões e contrastes urbanos em uma escala capaz de alimentar qualquer narrativa futurista. É fácil enxergar ali vários elementos que o cyberpunk transformou em ícones, e não seria estranho imaginar versões ainda mais extremas desses mesmos elementos.
O risco está em transformar São Paulo em uma espécie de substituta brasileira das grandes metrópoles que dominam o imaginário internacional. Nesse caso, mudamos a localização sem mudar a lógica. O futuro brasileiro continua sendo essencialmente urbano, vertical, densamente povoado e construído a partir da experiência de uma única parte do país, enquanto todo o resto aparece pouco ou surge apenas como contraste.
Pensar seriamente no futuro do Brasil exigiria aceitar que as mudanças do próximo século provavelmente produzirão resultados muito diferentes de acordo com a região. Uma cidade costeira ameaçada pela elevação do nível do mar enfrentará desafios completamente distintos daqueles de uma cidade do interior submetida a períodos prolongados de seca. Grandes centros urbanos poderão sofrer com ondas de calor, impermeabilização do solo e crises de mobilidade, enquanto regiões agrícolas precisarão lidar com mudanças nos ciclos de chuva, automação e transformações econômicas. Na Amazônia, os efeitos das alterações climáticas, da urbanização e da exploração de recursos naturais poderão gerar cenários que não se parecem com nada que aconteça no Sudeste.
Isso deveria ser uma oportunidade extraordinária para a ficção científica. Em vez de procurar uma única imagem capaz de representar o futuro brasileiro, poderíamos imaginar futuros diferentes coexistindo dentro do mesmo país. Esse talvez seja, inclusive, um caminho muito mais coerente com o Brasil que já existe. Nunca fomos uma experiência homogênea de modernidade, e não há motivo para supor que nos tornaremos uma no futuro.
A Amazônia não precisa existir apenas como advertência
A Amazônia ocupa um espaço curioso no imaginário sobre o futuro. Quando aparece, frequentemente surge associada à destruição. A floresta está desaparecendo, já desapareceu ou se tornou o último grande território natural de um planeta devastado. Em outras histórias, ela é tratada como uma espécie de reserva biológica cujo valor está principalmente naquilo que pode oferecer ao restante do mundo. Essas narrativas fazem sentido diante da gravidade das ameaças ambientais, mas também revelam como é fácil reduzir uma região extremamente complexa a uma única função narrativa.
A Amazônia não é apenas floresta ameaçada. É também uma região habitada por milhões de pessoas, com cidades grandes e pequenas, universidades, pesquisas científicas, sistemas econômicos, movimentos sociais, culturas locais e formas específicas de lidar com rios, distâncias, chuvas e deslocamentos. Quando pensamos em seu futuro apenas como uma escolha entre preservação e destruição, deixamos de imaginar como as próprias sociedades amazônicas poderiam se transformar.
Uma ficção científica construída a partir dessa região poderia fazer perguntas completamente diferentes daquelas encontradas nas grandes metrópoles. Como seriam cidades adaptadas de maneira mais profunda aos ciclos das águas? Que formas de transporte fariam sentido em um futuro marcado por mudanças ambientais importantes? Como conhecimentos produzidos por populações locais poderiam dialogar com novas tecnologias de monitoramento, produção de energia, agricultura ou medicina? Que conflitos surgiriam quando diferentes concepções de desenvolvimento disputassem o mesmo território?
Há um terreno enorme entre imaginar a Amazônia como uma floresta intocada e imaginá-la como uma região destruída. Nesse espaço existem futuros possíveis envolvendo ciência, urbanização, preservação, conflitos políticos, culturas locais e novas formas de viver em um território que nunca se encaixou perfeitamente nos modelos de desenvolvimento pensados para outras regiões do país.
O futuro também precisa ter memória
Existe uma ideia de modernidade profundamente arraigada em boa parte da ficção científica: o futuro é aquilo que surge quando certas coisas do passado desaparecem. Mesmo quando uma obra critica o progresso tecnológico, ela frequentemente parte da premissa de que o avanço histórico transforma ou elimina tradições anteriores. Religiões diminuem de importância, comunidades se desfazem, culturas locais se misturam até perder suas particularidades e o mundo parece caminhar em direção a alguma forma de uniformidade tecnológica.
Essa perspectiva faz sentido dentro de determinadas experiências históricas, mas não deveria ser aceita automaticamente. O Brasil é um país onde tradições muito antigas convivem com tecnologias recentes, e essa convivência nem sempre acontece como oposição. Pessoas utilizam redes sociais para organizar festas religiosas, registram tradições orais com equipamentos digitais, divulgam manifestações culturais em plataformas globais e empregam tecnologias modernas dentro de comunidades que preservam conhecimentos construídos ao longo de séculos. O passado não desaparece simplesmente porque uma novidade chegou.
Essa é uma das razões pelas quais o afrofuturismo se tornou tão importante para pensar outras maneiras de imaginar o amanhã. Seu valor não está apenas em colocar personagens negros em ambientes futuristas ou associar referências africanas a tecnologias avançadas. Há algo mais profundo na maneira como essas narrativas questionam a ideia de que futuro e ancestralidade precisam ocupar extremos opostos. Memória, identidade e tecnologia podem coexistir, e o futuro não precisa exigir que determinados grupos abandonem aquilo que os conecta ao passado.
O mesmo tipo de pergunta pode ser ampliado para outras experiências brasileiras. Quando imaginamos o país daqui a cem anos, onde estão as religiões de matriz africana? Onde estão os povos indígenas? Onde estão as comunidades quilombolas, ribeirinhas, sertanejas ou as culturas populares que hoje fazem parte da sociedade? Muitas vezes, nossa ficção consegue imaginar com facilidade inteligência artificial consciente, viagens interplanetárias e alterações genéticas profundas, mas trata a continuidade de determinados grupos culturais como algo menos plausível.
Isso diz muito sobre quem estamos acostumados a colocar no futuro.
Não é necessário transformar cada tradição em um elemento espetacular de ficção científica. Um povo indígena não precisa desenvolver naves espaciais inspiradas em sua cosmologia para ter direito a existir numa narrativa futurista. Às vezes, o gesto mais radical é simplesmente imaginar sua continuidade, suas transformações internas, seus conflitos e sua relação com tecnologias futuras sem tratá-lo como vestígio de uma época anterior.
Tecnologia brasileira não precisa parecer estrangeira para ser tecnologia
Há também uma questão estética que merece cuidado. Quando tentamos “abrasileirar” o futuro, existe sempre o risco de cair numa espécie de decoração temática. Mudamos os letreiros, acrescentamos grafites, colocamos algumas referências locais, espalhamos símbolos reconhecíveis e consideramos o trabalho concluído. O resultado pode ser visualmente interessante, mas ainda se baseia na mesma estrutura que tentávamos questionar.
Um futuro brasileiro convincente não depende necessariamente de objetos que pareçam brasileiros à primeira vista. Ele depende mais das relações que aquela sociedade construiu com a tecnologia. Uma ferramenta desenvolvida para resolver um problema específico de uma cidade brasileira pode não ter qualquer elemento visual associado à cultura nacional, mas sua existência naquele universo já conta uma história sobre o lugar em que surgiu.
Talvez a característica mais brasileira de determinada tecnologia não esteja em sua aparência, mas em sua adaptação informal. Podemos imaginar sistemas criados com determinada finalidade sendo utilizados de maneiras completamente diferentes pelas pessoas. Equipamentos sofisticados reparados com peças improvisadas. Plataformas originalmente centralizadas ganhando usos comunitários inesperados. Tecnologias importadas sendo modificadas para responder a problemas locais. Soluções desenvolvidas nas periferias circulando depois por outras partes da sociedade sem que sua origem seja reconhecida.
Tudo isso conversa com uma realidade bastante conhecida. A tecnologia nunca chega a uma sociedade como objeto neutro. Ela é apropriada, modificada, contornada e reinterpretada de acordo com as necessidades de quem a utiliza. Para a ficção científica brasileira, talvez exista mais material interessante nesse processo do que em qualquer tentativa de criar um design futurista nacional facilmente reconhecível.
A periferia não precisa ser sempre o lugar onde o futuro deu errado
Há um hábito antigo na ficção distópica de organizar espacialmente a desigualdade. No centro estão os lugares ricos, limpos e tecnologicamente avançados; nas bordas, as regiões pobres, caóticas e perigosas. Esse modelo funciona porque traduz visualmente uma hierarquia social, mas pode se tornar simplificador quando repetido sem questionamento. A periferia passa a existir apenas como prova de que aquela sociedade fracassou.
No Brasil, essa leitura é particularmente limitada. As periferias são também espaços de produção cultural, organização social, comércio, inovação cotidiana e criação de soluções para problemas que muitas vezes não recebem respostas adequadas do poder público. Reconhecer isso não significa romantizar abandono, pobreza ou falta de infraestrutura. Seria perverso transformar a necessidade de improvisar diante da precariedade em uma espécie de virtude que justificasse a própria precariedade.
O interessante para a ficção científica está em imaginar como esses processos poderiam se transformar em outras condições. O que aconteceria se determinadas comunidades tivessem acesso real a recursos tecnológicos e autonomia para decidir como utilizá-los? Que formas de mobilidade, produção energética, educação ou comunicação poderiam nascer quando as soluções fossem pensadas a partir das necessidades daqueles territórios, e não simplesmente transferidas de modelos desenvolvidos para outras partes da cidade?
Esse tipo de pergunta muda completamente o papel da periferia em uma narrativa futurista. Ela deixa de ser cenário de abandono e passa a ser também lugar de produção de futuro. Isso permite inclusive imaginar conflitos mais complexos, porque nenhuma inovação é automaticamente emancipadora. Tecnologias comunitárias podem criar novas disputas de poder, soluções locais podem entrar em choque com interesses privados e formas alternativas de organização podem gerar seus próprios problemas.
Nem toda ficção científica brasileira precisa ser uma denúncia
Há um cuidado importante em toda essa discussão. Se insistirmos demais nas desigualdades, na crise climática, na violência, nos conflitos territoriais e na precariedade, podemos cair em outra armadilha: transformar o Brasil apenas em matéria-prima para distopias. Nesse caso, continuamos presos a uma visão limitada do país, apenas substituindo o futuro estrangeiro por um futuro brasileiro permanentemente miserável.
Imaginar a partir do Brasil também significa permitir utopias, aventuras, descobertas e futuros desejáveis. Não precisamos justificar cada história brasileira de ficção científica pela capacidade de discutir algum trauma nacional. Um Brasil futuro pode ter cidades melhores, tecnologias públicas eficientes, sistemas energéticos mais sustentáveis e relações sociais diferentes das atuais. Pode participar de explorações espaciais, construir colônias fora da Terra ou desenvolver formas de inteligência artificial que não tenham como função principal repetir os conflitos do presente.
O solarpunk é particularmente interessante nesse sentido porque abriu espaço para imaginar futuros em que tecnologia e sustentabilidade não aparecem necessariamente como adversárias. Mas nem mesmo ele precisa se transformar em uma nova fórmula obrigatória. Se o cyberpunk pode limitar nossa imaginação quando vira sinônimo de futuro, qualquer estética corre o mesmo risco quando começa a funcionar como resposta pronta.
O mais interessante seria permitir que diferentes autores imaginassem futuros incompatíveis entre si. Um escritor pode enxergar esperança onde outro vê desastre. Uma narrativa pode acreditar em instituições públicas renovadas, enquanto outra pode imaginar comunidades organizadas de maneira completamente diferente. Algumas histórias podem considerar a tecnologia parte da solução; outras podem desconfiar profundamente dela.
A força de uma ficção científica brasileira não estaria em chegar a uma definição comum de futuro, mas justamente em produzir muitas respostas para as mesmas perguntas.
Quem tem permissão para existir daqui a cem anos?
Toda narrativa futurista faz a pergunta “quem nós imaginamos que estará lá?”, mesmo quando não percebe. Quando mostramos uma cidade daqui a duzentos anos, estamos implicitamente afirmando que certas pessoas, culturas, instituições, línguas e hábitos sobreviveram enquanto outros desapareceram. Algumas dessas escolhas são deliberadas; outras vêm apenas daquilo que o autor considera normal.
Por isso importa tanto ampliar quem participa da produção de ficção científica. Pessoas diferentes não acrescentam apenas novos personagens às mesmas histórias. Elas trazem perguntas que talvez nunca aparecessem de outra maneira. A experiência de uma mulher negra vivendo numa grande cidade, de um autor indígena, de alguém criado no interior, de uma pessoa da Amazônia, do Nordeste ou de uma periferia urbana pode produzir maneiras muito diferentes de pensar tecnologia, espaço, comunidade e futuro.
Isso não significa transformar escritores em representantes obrigatórios de suas identidades ou regiões. Nenhum autor brasileiro precisa escrever sobre o Brasil, assim como nenhum escritor indígena precisa produzir ficção sobre povos indígenas. A liberdade criativa continua sendo essencial. O ponto é outro: quanto maior a diversidade de pessoas imaginando o amanhã, menor a chance de tratarmos como universal uma única experiência de mundo.
Nesse sentido, o crescimento de diferentes vozes dentro da ficção especulativa brasileira não é apenas uma questão de representatividade no sentido mais imediato. É também uma ampliação do nosso repertório de possibilidades.
Talvez o problema nunca tenha sido importar futuros
A cultura brasileira sempre se construiu por misturas, traduções, apropriações e transformações. Seria estranho defender agora que nossa ficção científica precisasse se libertar completamente das referências estrangeiras para finalmente se tornar legítima. Não precisamos abandonar Blade Runner, Neuromancer, Akira, Ghost in the Shell, Star Trek ou qualquer outra obra que ajudou a formar nosso imaginário. Elas fazem parte da maneira como aprendemos a pensar ficção científica e continuarão fazendo.
A questão é o que fazemos depois de receber essas referências.
Podemos simplesmente reproduzi-las, mudando o endereço da história, ou podemos colocá-las em contato com experiências que as transformem. O cyberpunk pode ganhar novas formas quando encontra uma sociedade marcada por desigualdade urbana, informalidade econômica e relações diferentes com o Estado. O solarpunk pode mudar quando pensado a partir de biomas brasileiros e conhecimentos locais. Histórias sobre inteligência artificial podem assumir outras preocupações quando surgem num país onde acesso à educação e tecnologia continua profundamente desigual.
É assim que culturas normalmente funcionam. Elas não criam do absoluto vazio, mas também não precisam permanecer submissas às referências que recebem. O interessante acontece quando aquilo que veio de fora deixa de ser apenas copiado e começa a ser reorganizado a partir de outras experiências.
A ficção científica brasileira já faz isso. Já existem autores, livros, quadrinhos, filmes e projetos que imaginam futuros ligados a raça, desigualdade, meio ambiente, urbanização, memória, ancestralidade e diferentes experiências regionais. O problema talvez esteja menos na ausência dessas obras do que no espaço reduzido que elas ainda ocupam no imaginário coletivo quando pensamos sobre o futuro.
Um país precisa conseguir imaginar a si mesmo amanhã
Existe algo importante em uma sociedade conseguir se enxergar no futuro. Não porque a ficção científica tenha obrigação de prever aquilo que vai acontecer, mas porque imaginar o amanhã também é uma maneira de discutir o presente. Toda vez que inventamos uma sociedade futura, estamos escolhendo quais tendências atuais merecem continuar, quais problemas podem piorar, quais estruturas podem desaparecer e quais mudanças ainda somos capazes de considerar possíveis.
Quando o futuro que consumimos é quase sempre imaginado a partir de outras sociedades, corremos o risco de deixar parte dessas perguntas nas mãos dos outros. Passamos a discutir o que acontecerá quando a inteligência artificial substituir determinados empregos, mas talvez não perguntemos o suficiente como isso funcionará numa economia como a nossa. Falamos sobre cidades inteligentes utilizando modelos produzidos para países com outros sistemas urbanos. Imaginamos desastres climáticos utilizando referências de lugares cuja relação com território, infraestrutura e desigualdade é bastante diferente.
Não precisamos rejeitar nenhuma dessas discussões. Precisamos apenas acrescentar nossas próprias perguntas.
Como serão as cidades brasileiras quando as temperaturas médias forem maiores? O que acontecerá com regiões costeiras? Como diferentes grupos terão acesso a tecnologias capazes de amenizar esses impactos? Que papel terão as comunidades locais na produção de soluções? Como religiões, culturas populares e formas de organização social se transformarão? O que acontecerá quando determinadas atividades econômicas deixarem de fazer sentido? Que novas desigualdades poderão surgir ao lado das antigas?
Imaginar um futuro brasileiro não significa criar uma estética nacional, montar um catálogo de símbolos reconhecíveis ou procurar alguma fórmula capaz de diferenciar nossa ficção científica da estrangeira. Significa permitir que nossas experiências, contradições, medos, desejos e formas de viver participem da construção do amanhã. Durante muito tempo aprendemos a visitar futuros extraordinários imaginados em outros lugares. Não há razão para parar de visitá-los. A ficção é justamente uma maneira de conhecer experiências que não são nossas e chegar a lugares que jamais existiram.
Mas seria uma perda enorme se, depois de tantas viagens, continuássemos incapazes de olhar para o lugar onde estamos e perguntar o que pode existir depois daqui. Portanto, o futuro brasileiro não precise parecer mais brasileiro, e sim, talvez, ele só precise ser imaginado a partir de sua própria origem, o Brasil.
