A produção brasileira de fantasia, terror e ficção científica é grande demais para caber em uma única seleção. Depois de reunirmos quinze nomes em nossa primeira lista de autores brasileiros do fantástico, voltamos a esse mapa com escritores que alcançaram públicos muito diferentes: alguns construíram séries populares, outros ganharam espaço em grandes editoras ou no exterior, e há também quem trabalhe há décadas para ampliar as possibilidades da literatura de gênero no país.
Nesta segunda parte, a proposta continua sendo abrir caminhos de leitura, não estabelecer um ranking. Por isso, cada perfil vem acompanhado de algumas obras para conhecer e de um ponto de partida especialmente indicado. Os nomes dos autores levam às suas principais redes ou páginas sociais, facilitando também acompanhar lançamentos, eventos e novos trabalhos.
Raphael Draccon
Raphael Draccon é um dos autores que ajudaram a ampliar o público da fantasia brasileira nas últimas duas décadas. Sua série Dragões de Éter parte de contos de fadas, mitos e arquétipos conhecidos para construir o reino de Arzallum, onde essas referências são reorganizadas dentro de uma aventura própria. O sucesso da saga abriu espaço para outros projetos literários e para seu trabalho como roteirista e produtor no audiovisual. É um bom ponto de entrada para leitores que procuram fantasia de grande escala, ritmo de aventura e universos seriados.
Obras para conhecer:
- Dragões de Éter: Caçadores de Bruxas
- Dragões de Éter: Corações de Neve
- Cemitério de Dragões
Affonso Solano
Affonso Solano tornou-se conhecido por públicos diferentes: pela internet e pelos podcasts de cultura pop, mas também pela fantasia de O Espadachim de Carvão. A série acompanha Adapak em um mundo de povos, criaturas e religiões próprias, usando a jornada do protagonista para revelar aos poucos uma mitologia bem maior do que ele compreende inicialmente. Solano também escreveu histórias derivadas e expandiu esse universo em novos volumes ao longo dos anos. Para quem gosta de aventura fantástica, construção de mundo e protagonistas deslocados dentro do próprio cenário, é uma entrada bastante acessível.
Obras para conhecer:
- O Espadachim de Carvão
- O Espadachim de Carvão e as Pontes de Puzur
- O Espadachim de Carvão e a Voz do Guardião Cego
Nikelen Witter
Nikelen Witter combina fantasia, ficção histórica e especulação com uma atenção constante a personagens colocados diante de mundos em transformação. Viajantes do Abismo, finalista do Prêmio Jabuti, acompanha uma jornada por um cenário fantástico marcado por tensões políticas, culturais e religiosas. Em outros trabalhos, a autora também explora história alternativa, horror e narrativas compartilhadas. Sua produção é especialmente interessante para quem procura fantasia brasileira que não dependa das mesmas estruturas medievais europeias usadas por tantas sagas do gênero.
Obras para conhecer:
- Viajantes do Abismo
- Guanabara Real: A Alcova da Morte
- Territórios Invisíveis
Eric Novello
Eric Novello transita com facilidade entre fantasia urbana, horror, ficção especulativa e histórias sobre pessoas que tentam encontrar algum espaço de pertencimento. Ninguém Nasce Herói imagina um Brasil autoritário em que jovens transformam resistência e amizade em formas de sobrevivência, enquanto Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues mergulha em magia, demônios e uma cidade sobrenatural. Livros mais recentes, como Neon Azul e A Sombra no Sol, mostram como sua produção continua mudando de registro sem abandonar o interesse pelo estranho. É um autor indicado para quem gosta de fantasia contemporânea e de fronteiras pouco rígidas entre gêneros.
Obras para conhecer:
- Ninguém Nasce Herói
- Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues
- Neon Azul
Jim Anotsu
Jim Anotsu escreve principalmente para leitores jovens, usando aventura, humor, monstros e referências à cultura pop sem tratar o público juvenil como um gênero menor. Seus livros já circularam fora do Brasil e passam por histórias fantásticas de tons bastante diferentes, de Annabel & Sarah a O Serviço de Entregas Monstruosas. Em Rani e o Sino da Divisão, a fantasia se aproxima de uma aventura de formação em que o mundo imaginário cresce junto com os conflitos da protagonista. É uma escolha particularmente boa para leitores que procuram fantasia nacional ágil e acessível.
Obras para conhecer:
- Rani e o Sino da Divisão
- O Serviço de Entregas Monstruosas
- Annabel & Sarah
Ana Paula Maia
Ana Paula Maia ocupa um território em que horror, brutalidade cotidiana e literatura social frequentemente se encontram. Seus personagens costumam exercer trabalhos duros, lidar com corpos, animais, morte e ambientes degradados, enquanto a violência surge menos como espetáculo do que como parte de estruturas que já estavam presentes naquele mundo. De Gados e Homens é uma das melhores portas de entrada para essa escrita seca e desconfortável, seguida por romances como Assim na Terra como Embaixo da Terra e Enterre Seus Mortos. Mesmo quando não trabalha o sobrenatural, sua obra dialoga fortemente com leitores do horror pela maneira como observa aquilo que há de perturbador na experiência humana.
Obras para conhecer:
- De Gados e Homens
- Assim na Terra como Embaixo da Terra
- Enterre Seus Mortos
Bruno Ribeiro
Bruno Ribeiro mistura horror, violência, crítica social e distorções da realidade em livros que raramente oferecem ao leitor um espaço confortável. Porco de Raça acompanha uma trajetória de degradação marcada por racismo e desigualdade, enquanto a coletânea Como Usar um Pesadelo mostra seu interesse por formas curtas do estranho. Em 2026, O Dono e o Mal levou essa escrita para uma narrativa familiar atravessada por uma presença maléfica e pela violência sistêmica na Paraíba. É um autor para quem procura horror brasileiro contemporâneo disposto a aproximar o monstruoso de problemas muito concretos.
Obras para conhecer:
- O Dono e o Mal
- Porco de Raça
- Como Usar um Pesadelo
Marcos DeBrito
Marcos DeBrito construiu sua carreira entre literatura e cinema, duas linguagens que se encontram com frequência em seu trabalho de horror. À Sombra da Lua, romance indicado ao Prêmio Jabuti, revisita o lobisomem em território brasileiro, enquanto O Escravo da Capela e A Casa dos Pesadelos exploram outras faces do sobrenatural e da violência. Como cineasta, também esteve ligado a produções como Condado Macabro, ampliando a presença do gênero para além dos livros. Essa circulação entre página e tela torna seu trabalho uma boa referência para quem acompanha o crescimento recente do horror brasileiro em diferentes formatos.
Obras para conhecer:
- À Sombra da Lua
- O Escravo da Capela
- A Casa dos Pesadelos
Márcio Benjamin
Márcio Benjamin trabalha um horror profundamente ligado ao sertão, ao folclore, à oralidade e às crenças que atravessam pequenas comunidades. Em vez de importar cenários tradicionais do gênero, livros como Maldito Sertão, Fome, Agouro e Sina encontram o medo em paisagens e histórias reconhecíveis do Nordeste brasileiro. Seu trabalho também passa por teatro e audiovisual, preservando um interesse constante por histórias que parecem ter sido transmitidas de pessoa para pessoa antes de chegar à página. É uma leitura especialmente interessante para quem busca horror rural com identidade regional forte.
Obras para conhecer:
- Maldito Sertão
- Fome
- Agouro
Paula Febbe
Paula Febbe escreve um horror interessado em desejo, violência, corpo e nos limites morais que as pessoas constroem para si mesmas. Vantagens que Encontrei na Morte do Meu Pai ajudou a apresentar sua ficção a um público maior, enquanto Vermelho reúne histórias atravessadas por erotismo, relações de poder e situações deliberadamente desconfortáveis. Psicanalista e roteirista além de escritora, Febbe costuma aproximar o terror de impulsos e comportamentos que seus personagens nem sempre conseguem compreender ou controlar. Sua obra é voltada a leitores que preferem um horror adulto, psicológico e corporal.
Obras para conhecer:
- Vermelho
- Vantagens que Encontrei na Morte do Meu Pai
- Relato Inspirado por Orelhas
Ale Santos
Ale Santos trabalha entre afrofuturismo, fantasia, história e cultura afro-brasileira. Em O Último Ancestral, tecnologia, religiosidade e ancestralidade coexistem em um futuro que parte de referências negras brasileiras para imaginar suas próprias estruturas sociais e seus conflitos. A Malta Indomável amplia esse universo por outra perspectiva, enquanto Rastros de Resistência mostra também o trabalho do autor com memória histórica. Sua ficção é uma boa entrada para leitores interessados em futuros que não tratam a experiência brasileira apenas como cenário, mas como base para a própria imaginação especulativa.
Obras para conhecer:
- O Último Ancestral
- A Malta Indomável
- Rastros de Resistência
Hache Pueyo
Hache Pueyo é um dos nomes brasileiros que hoje circulam com destaque no mercado internacional da ficção especulativa. Sua escrita combina fantasia, horror, desejo e personagens queer, frequentemente usando criaturas e relações de poder para desmontar expectativas sobre quem ocupa o papel de monstro em uma história. A novela But Not Too Bold foi publicada em 2025, seguida por Cabaret in Flames em 2026, enquanto novos projetos já mantêm sua produção em movimento. Para leitores brasileiros, é também um exemplo interessante de uma carreira construída diretamente em diálogo com o cenário anglófono do fantástico.
Obras para conhecer:
- But Not Too Bold
- Cabaret in Flames
- A Study in Ugliness & Outras Histórias
Fábio Fernandes
Fábio Fernandes é escritor, tradutor, professor e pesquisador, com uma trajetória que conecta a ficção científica brasileira a diferentes tradições internacionais do gênero. Como tradutor, trabalhou em obras fundamentais como Neuromancer; como autor, publicou romances, contos e experimentos que passam por distopia, steampunk e futuros alternativos. Back in the USSR foi finalista do Prêmio Jabuti, enquanto O Torneio de Sombras venceu o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica em 2025 e ganhou continuação. Sua bibliografia é particularmente útil para quem quer observar como a ficção científica brasileira dialoga com história, tecnologia e contracultura.
Obras para conhecer:
- O Torneio de Sombras
- Back in the USSR
- Os Dias da Peste
Cirilo S. Lemos
Cirilo S. Lemos trabalha com ficção científica, fantasia e distopia, alternando cenários brasileiros com construções especulativas de escala maior. E de Extermínio é uma das obras associadas ao seu nome e usa uma premissa de ficção científica para explorar conflito, sobrevivência e transformação social. O Alienado e Um Milhão de Mim mostram outras possibilidades de sua produção, que também inclui contos publicados em antologias e projetos coletivos. É um autor indicado para leitores que procuram ficção especulativa brasileira diretamente ligada às tradições populares do gênero.
Obras para conhecer:
- E de Extermínio
- O Alienado
- Um Milhão de Mim
Roberto de Sousa Causo
Roberto de Sousa Causo é um dos nomes mais persistentes da ficção científica brasileira, atuando como escritor, editor, pesquisador e crítico do gênero. Sua produção passa por ficção científica militar, space opera, fantasia e histórias de contato, ao mesmo tempo em que seu trabalho crítico ajuda a registrar a formação e as diferentes gerações da literatura fantástica no país. Glória Sombria: A Primeira Missão do Matador e Mestre das Marés integram o Universo GalAxis, cenário compartilhado que reúne aventuras espaciais e personagens recorrentes. Para quem quer conhecer não apenas livros isolados, mas também parte da história e da organização da ficção científica nacional, Causo é uma referência importante.
Obras para conhecer:
- Glória Sombria: A Primeira Missão do Matador
- Mestre das Marés
- Anjo de Dor
Há muito mais fantástico brasileiro para descobrir
Somadas, as duas partes desta seleção chegam a trinta autores e ainda deixam muita gente de fora. Isso não é um problema da lista, mas um sinal de quanto a produção brasileira de fantasia, terror e ficção científica cresceu, se diversificou e encontrou públicos diferentes. Há espaço para fantasia épica e urbana, horror rural e corporal, afrofuturismo, space opera, distopia, ficção histórica especulativa e histórias que desafiam qualquer tentativa de caber confortavelmente em uma única categoria.
O melhor caminho, portanto, é tratar estas listas como pontos de partida. Siga os autores, procure as obras que mais combinam com seus interesses e continue explorando o fantástico produzido por aqui. E, se ainda não leu a primeira seleção, volte à Parte 1 para conhecer outros quinze nomes.




