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5 HQs brasileiras de fantasia, terror e ficção científica para conhecer

Quando se fala em quadrinhos brasileiros, é relativamente fácil lembrar de personagens infantis, tiras de jornal, humor ou adaptações históricas. Fantasia, terror e ficção científica também possuem uma produção extensa no país, mas boa parte dela circula por caminhos menos visíveis: campanhas de financiamento coletivo, feiras, lojas dos próprios autores, pequenas editoras, plataformas digitais e projetos que só depois de conquistar leitores independentes chegam a uma publicação de maior escala.

Essa diversidade de circulação também aparece nas próprias histórias. Há quadrinistas utilizando o cyberpunk para imaginar o sertão e as grandes cidades brasileiras, autores que aproximam ficção científica e horror da vida no interior, webcomics que encontraram milhares de leitores antes de chegarem às livrarias e obras que procuram nas tradições culturais brasileiras um repertório visual muito diferente daquele que costuma dominar a fantasia estrangeira.

Por isso, esta não é uma lista das cinco “melhores HQs brasileiras” de gênero. A proposta é mais simples: apresentar cinco portas de entrada bastante diferentes para quem quer descobrir o que quadrinistas daqui estão fazendo dentro dos territórios da fantasia, do terror e da ficção científica.

1. Contos dos Orixás, de Hugo Canuto — a mitologia afro-brasileira encontra a linguagem dos quadrinhos épicos

Antes de se transformar em livro, Contos dos Orixás nasceu de uma experiência visual. O quadrinista baiano Hugo Canuto começou recriando imagens inspiradas nos quadrinhos clássicos de super-heróis, especialmente no trabalho de artistas como Jack Kirby, substituindo aquele repertório por figuras provenientes das tradições iorubás. O interesse despertado pelas ilustrações acabou crescendo até se transformar em um projeto muito maior, desenvolvido a partir de pesquisa sobre cultura, oralidade e religiosidade de matrizes africanas. (hugocanuto.com)

A HQ acompanha divindades e heróis ancestrais em um passado mítico no qual Orum e Aiyê, céu e terra, ainda mantêm uma relação muito mais próxima. Xangô, Oyá, Exu, Ogum, Oxum e outras figuras participam de batalhas, disputas de poder e episódios inspirados nos itan, narrativas tradicionais transmitidas oralmente. Canuto transpõe esses relatos para uma linguagem visual deliberadamente grandiosa, utilizando recursos associados aos quadrinhos de aventura e super-heróis para construir cenas de combate, manifestações divinas e cidades monumentais. (hugocanuto.com)

Há uma distinção importante aqui. Colocar Contos dos Orixás numa seleção relacionada à fantasia não significa tratar as tradições religiosas afro-brasileiras como se fossem simplesmente um universo ficcional. A obra parte de uma herança cultural e espiritual viva, e o próprio autor desenvolveu o projeto em diálogo com pesquisa, sacerdotes, estudiosos e referências históricas. O elemento fantástico aparece na maneira como essas narrativas míticas são traduzidas para a linguagem épica dos quadrinhos, sem apagar a origem cultural daquilo que está sendo contado.

A trajetória editorial também é interessante. Contos dos Orixás começou como publicação independente, tornou-se finalista do Prêmio Jabuti em 2020 e posteriormente ganhou edição internacional pela Abrams Books nos Estados Unidos. Atualmente, a Editora Trem Fantasma mantém uma nova edição brasileira em catálogo, enquanto Canuto continuou esse universo com O Rei do Fogo e outros trabalhos. (premiojabuti.com.br) (editoratremfantasma.com.br)

Para quem procura fantasia produzida a partir de um repertório cultural diferente do medievalismo europeu dominante no gênero, é uma excelente entrada — e também um exemplo de como a publicação independente brasileira pode crescer sem abandonar a identidade que a originou.

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2. Cangaço Overdrive, de Zé Wellington e colaboradores — o sertão entrou no cyberpunk

Cyberpunk costuma trazer consigo um conjunto de imagens facilmente reconhecíveis: cidades gigantescas, megacorporações, próteses cibernéticas, desigualdade extrema e redes digitais que atravessam quase todos os aspectos da vida. Cangaço Overdrive mantém boa parte desse vocabulário, mas o transfere para um futuro brasileiro no qual a seca, o sertão e a memória do cangaço continuam interferindo diretamente no presente.

O primeiro álbum, lançado em 2018 pela Editora Draco, tem roteiro de Zé Wellington, desenhos de Walter Geovani e Luiz Carlos B. Freitas e cores de Dika Araújo e Tiago Barsa. A história imagina um Ceará atingido por uma seca extrema e abandonado aos interesses de grandes conglomerados. Nesse cenário, um antigo cangaceiro é trazido de volta à vida por meio da tecnologia e acaba envolvido num conflito entre comunidades locais, forças policiais e interesses corporativos. (editoradraco.com.br)

A mistura poderia funcionar apenas como uma brincadeira estética — chapéu de cangaceiro acompanhado por implantes cibernéticos —, mas o quadrinho procura fazer com que suas duas tradições conversem estruturalmente. A narrativa incorpora o cordel, enquanto concentração de terra, abandono político, violência e resistência continuam fundamentais para compreender aquele futuro. O cyberpunk deixa de depender de uma metrópole inspirada em Tóquio ou Los Angeles porque vários dos conflitos essenciais do gênero encontram equivalentes bastante reconhecíveis na própria história brasileira.

A série ganhou uma continuação em 2024, Cangaço Overdrive: Além das Raízes. Desta vez, Cotiara chega a São Paulo e cruza o caminho de ativistas envolvidos na resistência contra despejos de ocupações urbanas. O roteiro continua com Zé Wellington, agora acompanhado pelos artistas Rafael Dantas e Rodrigo Matos e pelo colorista PH Gomes. A mudança de cenário permite levar as mesmas discussões sobre território, corporações e poder do sertão para a maior metrópole do país. (editoradraco.com.br)

Os dois volumes permanecem disponíveis pela Draco. Para quem gosta de Neuromancer, Cyberpunk 2077 e outras variações do gênero, Cangaço Overdrive oferece algo mais interessante do que simplesmente copiar seus códigos visuais: mostra como o cyberpunk muda quando seus problemas atravessam o Nordeste e São Paulo.

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3. Silvestre, de Wagner Willian — quando entrar na mata significa aceitar outra lógica

Silvestre começa com um velho caçador vivendo isolado numa cabana. A partir dessa situação aparentemente simples, Wagner Willian constrói uma graphic novel em que floresta, memória, criaturas e divindades progressivamente deixam de respeitar os limites que normalmente separam natureza, humanidade e sobrenatural.

Publicado pela DarkSide Books em 2019, o quadrinho dialoga inicialmente com Walden, de Henry David Thoreau, e com a ideia de afastar-se da sociedade para observar outra forma de existência. A semelhança, porém, logo encontra caminhos muito mais estranhos. O cheiro de uma torta assada pelo caçador atravessa a floresta e atrai animais e criaturas fantásticas, enquanto sua jornada passa a conversar com lendas, entidades extintas e relações entre aquilo que o ser humano retira da terra e aquilo que devolve a ela. (darksidebooks.com.br)

A própria linguagem visual participa dessa transformação. Wagner Willian trabalha com desenho, pintura, texturas e composições que frequentemente escapam da organização convencional das páginas. A floresta parece invadir os próprios limites dos quadrinhos, o que combina particularmente bem com uma história interessada em dissolver fronteiras entre personagem e ambiente.

Essa abordagem levou Silvestre a conquistar o Prêmio Jabuti de Histórias em Quadrinhos em 2020. O reconhecimento é significativo porque a obra ocupa um território pouco interessado em se acomodar completamente dentro de uma única classificação: há fantasia, elementos de horror, mitologia, experiência sensorial e uma preocupação constante com a relação humana com a natureza. (premiojabuti.com.br)

A edição continua disponível pela DarkSide. Para quem procura uma HQ em que o fantástico esteja menos interessado em explicar regras de magia e mais em produzir estranhamento, Silvestre é provavelmente o título mais singular desta seleção.

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4. Rei de Lata, de Jefferson Ferreira — da webcomic para as livrarias

Nem toda HQ brasileira precisa começar numa editora. Rei de Lata, criada por Jefferson Ferreira, conhecido também como Panda de Capa, encontrou seu público primeiro como webcomic, publicada gratuitamente na plataforma Tapas. Ali, a série ultrapassou a barreira do milhão de visualizações antes de também ganhar uma edição física pela NewPOP. (tapas.io)

A história acontece depois de uma guerra durante a qual uma arma biológica praticamente destruiu um país. As crianças nascidas posteriormente começam a manifestar habilidades anormais associadas a situações extremas, trauma ou instinto de sobrevivência. Ao mesmo tempo em que são capazes de sobreviver ao ambiente contaminado, tornam-se temidas pelos adultos e precisam formar seus próprios grupos para enfrentar caçadores, disputas territoriais e outros jovens dotados de poderes. (newpop.com.br)

Há referências facilmente identificáveis aos mangás de ação e às narrativas de superpoderes, mas Jefferson utiliza essa linguagem para construir um mundo pós-guerra protagonizado por crianças que precisaram desenvolver suas próprias estruturas sociais. O poder de cada personagem não existe isoladamente da experiência que o produziu, fazendo com que conflitos pessoais, medo e sobrevivência participem diretamente da construção das habilidades.

Também é um caso interessante para entender como os quadrinhos brasileiros circulam atualmente. Rei de Lata permaneceu disponível digitalmente enquanto conquistava publicação impressa, e a NewPOP continuou expandindo a coleção em volumes físicos. O catálogo atual da editora já reúne diversos volumes da série. (newpop.com.br)

Para leitores habituados a mangás e webcomics que talvez ainda tenham pouco contato com produções brasileiras, Rei de Lata oferece uma transição especialmente natural. A linguagem é familiar, mas o universo, os personagens e toda a trajetória editorial pertencem à cena nacional.

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5. Corpos-Secos: Tempestade, de Rogério Faria e Ton Albuquerque — ficção científica e horror no interior paulista

Há setenta anos ninguém nasce. Também ninguém consegue morrer.

É dessa alteração fundamental da realidade que surge Corpos-Secos, série criada pelo roteirista Rogério Faria e pelo desenhista Ton Albuquerque. Em vez de colocar sua distopia numa metrópole futurista, a HQ escolhe o interior de São Paulo e utiliza cemitérios, pequenas comunidades, corpos apodrecidos e máquinas improvisadas para construir uma ficção científica que convive diretamente com o horror. (rogeriofaria.com)

Em Corpos-Secos: Mãe, conhecemos uma comunidade instalada num cemitério de Paraibuna, onde vivos e mortos-vivos tentam continuar existindo apesar de uma condição que impede a morte definitiva. A chegada de um ciborgue conhecido como Coronel ameaça esse equilíbrio. Já Corpos-Secos: Tempestade acompanha Miguel e Ju: ele é um mecânico idoso, enquanto a consciência dela permanece dentro de um corpo cibernético cuja bateria está chegando ao fim. Uma tempestade se aproxima enquanto os dois procuram continuar juntos num mundo em que a imortalidade está muito distante de significar juventude eterna. (rogeriofaria.com)

Essa premissa produz uma combinação particularmente brasileira de gêneros. Existem ciborgues, corpos artificiais e uma transformação inexplicável da biologia humana, mas também existe aquilo que os próprios autores chamam de “ficção científica na roça”. O futuro não apagou a paisagem rural, os cemitérios ou as relações comunitárias; apenas os submeteu a um problema novo e terrível. (rogeriofaria.com)

Tempestade foi lançado em 2024 dentro da coleção Contraversão, projeto associado à Editora Draco que procura publicar HQs curtas e acessíveis de diferentes gêneros. Em 2025, o título apareceu ainda entre os semifinalistas da categoria de quadrinhos do Prêmio ABERST, dedicado à literatura policial, de suspense e terror. (catarse.com.br) (quadrinhopedia.com.br)

Para o Infinitas Formas, talvez seja justamente o exemplo mais representativo do que procuramos nesta seleção. Ficção científica e terror aparecem juntos, mas sem exigir que o Brasil desapareça para que o fantástico consiga existir.

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Há muito mais fantástico nos quadrinhos brasileiros

Essas cinco obras já mostram universos muito distantes entre si. Hugo Canuto utiliza a linguagem épica dos quadrinhos para trabalhar tradições afro-brasileiras e iorubás; Zé Wellington e seus colaboradores colocam cangaceiros dentro de uma distopia cyberpunk; Wagner Willian transforma a mata em espaço de uma experiência fantástica e quase ritual; Jefferson Ferreira constrói uma sociedade pós-guerra a partir da linguagem das webcomics e dos mangás de ação; Rogério Faria e Ton Albuquerque colocam ciborgues e mortos-vivos no interior paulista.

A lista poderia continuar facilmente. Danilo Beyruth passou da ficção científica de Astronauta: Magnetar ao terror vampiresco de Love Kills; Rafael Calça e Diox construíram em O Fim da Noite outro caminho para o fantástico brasileiro; pequenas editoras e autores independentes continuam lançando horror em projetos como Tenebras, enquanto feiras e plataformas digitais revelam trabalhos que muitas vezes só chegarão às livrarias depois de encontrar primeiro seus leitores em outro lugar. A própria DarkSide mantém hoje uma seção específica de graphic novels nacionais em seu catálogo, algo que ajuda a mostrar como esse espaço editorial cresceu. (darksidebooks.com.br)

Talvez o melhor modo de começar a descobrir HQ brasileira seja justamente abandonar a expectativa de encontrar uma estética que represente todo o país. Assim como acontece na literatura, no cinema e nos games, o fantástico produzido em quadrinhos por aqui já é grande demais para caber em uma única tradição. Entre grandes editoras, selos pequenos, campanhas de financiamento e páginas publicadas gratuitamente na internet, o problema deixou de ser encontrar fantasia, terror ou ficção científica brasileira. O desafio mais interessante agora é escolher por onde começar.

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