Há muitas histórias de primeiro contato construídas em torno da dificuldade de conversar com uma inteligência extraterrestre. Solaris parte de um problema mais profundo: antes de tentar estabelecer uma comunicação, talvez fosse necessário descobrir se os seres humanos seriam capazes de reconhecer como inteligência algo que não pensa, não age e não existe de maneira remotamente semelhante a eles. No romance de Stanisław Lem, a humanidade encontra vida fora da Terra, estuda-a por mais de um século e acumula bibliotecas inteiras de conhecimento sobre ela. Mesmo assim, continua sem saber exatamente o que encontrou.
Publicado originalmente em 1961, Solaris tornou-se a obra mais conhecida de Lem e uma das referências fundamentais da ficção científica dedicada ao contato com o alienígena. Seu cenário contém elementos familiares ao gênero — um planeta distante, uma estação espacial, cientistas, viagens interestelares e uma forma de vida extraterrestre —, mas quase todos são utilizados para frustrar expectativas tradicionais. Não há uma civilização com quem negociar, um idioma a decifrar ou uma tecnologia cujos princípios possam ser compreendidos. Há apenas o oceano de Solaris, uma presença planetária aparentemente viva e inteligente que responde aos observadores humanos de uma maneira que eles são incapazes de interpretar. O próprio acervo oficial de Lem considera o livro central para a ficção científica justamente por combinar uma das concepções mais originais de vida alienígena do gênero com um problema essencialmente ligado aos limites do conhecimento.
Essa recusa em oferecer respostas fáceis é o que preserva a força de Solaris. O romance começa como uma investigação sobre acontecimentos inexplicáveis em uma estação científica, passa por uma experiência profundamente íntima de culpa e memória e acaba voltando ao problema que existia antes da chegada de qualquer personagem: o oceano continua ali, observado, classificado e submetido a teorias humanas, sem que ninguém consiga afirmar com segurança o que ele é, o que pretende ou sequer se conceitos como intenção e comunicação fazem sentido quando aplicados a ele.
Stanisław Lem e a publicação de Solaris
Stanisław Lem já possuía uma carreira literária consolidada quando Solaris apareceu na Polônia. O romance foi publicado pela primeira vez em 1961 pela Wydawnictwo Ministerstwa Obrony Narodowej, em uma edição de 196 páginas. Nas décadas seguintes, a obra atravessou fronteiras com muito mais facilidade do que seu protagonista conseguiria atravessar a distância intelectual entre humanos e o oceano solariano, tornando-se um dos livros poloneses de ficção científica mais conhecidos internacionalmente.
Lem escrevia em um período no qual a exploração espacial deixava rapidamente de pertencer apenas à imaginação. O primeiro satélite artificial havia chegado à órbita poucos anos antes, e em 1961 Yuri Gagarin realizaria o primeiro voo humano ao espaço. O escritor, entretanto, não respondeu a esse momento apenas imaginando distâncias maiores, naves mais sofisticadas ou civilizações tecnologicamente superiores. Seu interesse recorrente estava nos problemas que poderiam surgir quando o avanço científico encontrasse fenômenos para os quais as categorias humanas fossem insuficientes.
Essa perspectiva também diferencia Solaris de uma leitura política excessivamente direta. Embora Lem escrevesse na Polônia comunista e tenha enfrentado as condições editoriais e ideológicas do período, ele rejeitou interpretações que transformavam automaticamente o oceano ou a estação em alegorias do sistema soviético. Em entrevistas posteriores, chegou a recordar com ironia leituras que procuravam converter Solaris em uma representação da União Soviética e os cientistas em seus países vizinhos. Para Lem, o núcleo do romance estava muito mais próximo da impossibilidade de alcançar aquilo que existe para além das categorias humanas de compreensão.
A história da tradução inglesa acabou acrescentando outra camada curiosa a um livro preocupado com os problemas da comunicação. A primeira versão em inglês, publicada em 1970, não foi traduzida diretamente do polonês, mas a partir de uma tradução francesa. Somente em 2011 surgiu uma nova versão inglesa realizada diretamente do original por Bill Johnston, encomendada pelo espólio de Lem.
A chegada de Kris Kelvin
O romance acompanha Kris Kelvin, psicólogo enviado a uma estação científica que orbita Solaris. Ele chega esperando integrar uma equipe dedicada ao estudo do planeta, mas rapidamente percebe que alguma coisa aconteceu antes de sua chegada. A estação encontra-se desorganizada, seus corredores parecem abandonados e os pesquisadores restantes demonstram um comportamento que alterna medo, hostilidade e tentativa de esconder alguma coisa.
Kelvin procura o cientista Gibarian, que havia sido uma figura importante em sua formação, mas descobre que ele se suicidou. Os outros dois pesquisadores principais, Snaut e Sartorius, não oferecem explicações satisfatórias. Snaut está exausto e assustado, enquanto Sartorius se isola em seu laboratório e claramente tenta impedir que Kelvin veja o que existe ali. Além deles, o recém-chegado começa a perceber pessoas que simplesmente não deveriam estar na estação.
Lem constrói essa parte inicial como uma investigação quase claustrofóbica. Apesar de toda a tecnologia envolvida na exploração de outro planeta, Kelvin encontra um ambiente no qual ninguém parece capaz de explicar a situação racionalmente. O cientista chega preparado para estudar Solaris e descobre que o objeto de pesquisa parece ter invertido a relação: alguma coisa no planeta começou a agir sobre aqueles que o observam.
A ameaça não se apresenta como invasão ou ataque. Não existem criaturas atravessando os corredores para exterminar os pesquisadores, e a estação continua tecnicamente funcional. O que está destruindo sua tripulação é muito mais difícil de enfrentar porque assume formas íntimas, particulares e impossíveis de compartilhar completamente com outra pessoa.
O oceano de Solaris
O planeta Solaris orbita um sistema de duas estrelas e chamou a atenção humana inicialmente por uma peculiaridade astronômica. Sua órbita deveria ser instável, mas permanece regular de uma maneira que levou pesquisadores a suspeitar que algum mecanismo estivesse corrigindo continuamente seu percurso. A investigação acabou conduzindo ao gigantesco oceano que cobre quase toda a superfície do planeta, uma massa que passou progressivamente a ser considerada não apenas matéria orgânica, mas possivelmente um único organismo de escala planetária.
Essa descoberta deveria representar um dos maiores acontecimentos da história humana. Pela primeira vez, a humanidade parece ter encontrado uma inteligência extraterrestre inequívoca. O problema é que nada no oceano corresponde às formas pelas quais os homens aprenderam a reconhecer inteligência. Ele não possui cidades, ferramentas, máquinas, instituições ou qualquer estrutura social identificável. Não constrói objetos destinados a um uso que os observadores possam compreender e não responde de maneira previsível às tentativas de comunicação.
O oceano produz, entretanto, fenômenos extraordinariamente complexos. Sua superfície cria estruturas gigantescas que os pesquisadores classificam com nomes como mimoides, simetríadas e assimetríadas, formas temporárias que podem atingir proporções monumentais e obedecer a processos que desafiam qualquer explicação simples. Algumas parecem reproduzir elementos que lhes são apresentados; outras desenvolvem arquiteturas tão complexas que toda tentativa de descrevê-las parece ficar aquém daquilo que está acontecendo.
Lem dedica longas passagens do romance a essas formações, e elas cumprem uma função maior do que simplesmente demonstrar a estranheza visual do planeta. O leitor é colocado na mesma posição dos solaristas: existe claramente alguma coisa acontecendo, existe uma ordem aparente e existe uma complexidade que dificilmente poderia ser reduzida a movimentos aleatórios. O que não existe é uma ponte segura entre observar esse comportamento e compreender seu significado.
A ciência chamada Solarística
Durante mais de um século, milhares de pesquisadores dedicam suas carreiras ao estudo de Solaris. Surge uma disciplina inteira, a Solarística, acompanhada por escolas teóricas, controvérsias, especialistas, classificações e uma literatura científica tão extensa que nenhum indivíduo seria capaz de dominá-la completamente. Kelvin conhece essa tradição e passa parte do romance consultando seus textos na tentativa de interpretar aquilo que está acontecendo na estação.
A história da Solarística é uma das grandes ironias intelectuais do livro. A ciência não fracassa porque os pesquisadores sejam incompetentes ou porque se recusem a estudar o objeto diante deles. Pelo contrário, produzem uma quantidade gigantesca de observações rigorosas. Catalogam os movimentos do oceano, registram suas estruturas, constroem modelos matemáticos e elaboram sucessivas hipóteses sobre sua natureza. O conhecimento factual aumenta enormemente, mas a compreensão fundamental praticamente não avança.
As teorias se acumulam e frequentemente contradizem umas às outras. O oceano já foi considerado organismo, sistema biológico, formação geológica extraordinária, máquina natural, inteligência e algo próximo de uma entidade de escala planetária. Cada classificação revela alguma característica verdadeira, mas nenhuma parece capaz de explicar o conjunto. A própria Solarística começa a adquirir uma história comparável à de disciplinas terrestres antigas, com períodos de entusiasmo, crises, escolas rivais e pesquisadores que passam mais tempo discutindo interpretações anteriores do que observando diretamente seu objeto.
Lem utiliza essa situação para explorar uma diferença importante entre acumular informação e compreender. Os homens podem medir Solaris com extraordinária precisão e ainda assim não saber o que ele é. A ciência continua sendo a melhor ferramenta de investigação disponível aos personagens, mas o romance recusa a ideia de que todo fenômeno necessariamente se tornará inteligível caso receba dados, tecnologia e tempo suficientes.
Os visitantes
O mistério da estação começa a adquirir uma forma mais concreta quando Kelvin encontra uma mulher que conhece perfeitamente. Harey, sua antiga companheira na Terra, aparece diante dele exatamente como ele a recordava. Há, porém, um problema impossível de ignorar: Harey está morta havia anos, depois de cometer suicídio em consequência de uma relação marcada por um episódio do qual Kelvin continua carregando culpa.
A mulher que surge em Solaris não é um fantasma nem uma alucinação. Ela possui corpo, ocupa espaço e interage fisicamente com o ambiente. Também não é simplesmente uma cópia mecânica. Inicialmente parece depender quase completamente de Kelvin e possuir lacunas fundamentais sobre sua própria existência, mas progressivamente demonstra emoções, consciência de si e capacidade de tomar decisões que não correspondem apenas às lembranças do homem a partir do qual foi criada.
Os outros pesquisadores também receberam seus próprios visitantes. Lem deliberadamente não revela todos eles, preservando a intimidade e a vergonha associadas ao fenômeno. Cada manifestação parece ter sido construída a partir de lembranças profundamente gravadas na mente do cientista correspondente, incluindo pessoas ou imagens que talvez jamais fossem escolhidas conscientemente para serem trazidas de volta.
A hipótese predominante é que o oceano de alguma forma examinou as mentes dos pesquisadores e utilizou as informações encontradas para produzir essas figuras. Os cientistas chegam a descobrir que os visitantes não possuem uma estrutura biológica comum, sendo constituídos em um nível subatômico que desafia as condições normais da matéria. Mesmo essa descoberta resolve apenas o mecanismo parcial do fenômeno. Ela não responde à pergunta mais importante: por que Solaris está fazendo isso?
Harey e a impossibilidade de uma cópia perfeita
A presença de Harey transforma o problema abstrato do contato em uma experiência pessoal para Kelvin. Sua primeira reação é de pânico. Ele sabe que aquela mulher não pode ser a pessoa que morreu na Terra e tenta livrar-se dela de maneira brutal, apenas para descobrir que Solaris é capaz de produzi-la novamente. O oceano parece não compreender, ou simplesmente não considerar relevante, a distinção humana entre uma lembrança e a pessoa à qual ela se refere.
À medida que convivem, entretanto, a situação torna-se mais complicada. Harey começa a perceber que não é a mulher original, entende as circunstâncias de sua existência e passa a sofrer por aquilo que essa descoberta significa. Se ela fosse apenas uma projeção psicológica de Kelvin, seu desenvolvimento poderia ser interpretado como uma dramatização da culpa do protagonista. Lem impede que a questão permaneça tão simples ao conceder à visitante uma crescente autonomia.
Surge então uma dificuldade filosófica que acompanha o problema científico. A mulher diante de Kelvin foi produzida a partir de suas memórias, mas não parece permanecer limitada a elas. Possui consciência, medo e desejo próprios. Descartá-la como uma falsificação passa a significar negar a experiência subjetiva de um ser que aparentemente é capaz de sofrer.
O romance encontra nessa relação uma de suas dimensões emocionais mais fortes sem permitir que ela substitua o problema de Solaris. O próprio Lem rejeitaria posteriormente adaptações que transformassem a história fundamentalmente em um romance sobre Kelvin e Harey. Para ele, o retorno da mulher era um exemplo concreto de algo inalcançável: o contato com uma realidade cuja natureza permanece para além daquilo que conseguimos conhecer plenamente.
Comunicação sem linguagem
Quando humanos imaginam um primeiro contato, geralmente partem da expectativa de que duas inteligências tentarão trocar informações. Elas podem não possuir a mesma língua, os mesmos sentidos ou sequer a mesma forma física, mas pressupõe-se que exista uma intenção compartilhada de comunicar alguma coisa. Matemática, imagens, sinais ou padrões poderiam então criar uma ponte entre as duas espécies.
Solaris questiona a própria validade dessa expectativa. O oceano responde aos seres humanos, mas seus atos não formam uma mensagem reconhecível. Criar Harey e os outros visitantes poderia constituir uma tentativa de comunicação, uma experiência científica realizada por Solaris, uma reação defensiva, uma forma de curiosidade ou simplesmente uma atividade para a qual não existe equivalente humano.
Nada garante sequer que essas possibilidades sejam adequadas. Palavras como curiosidade, experiência e defesa já atribuem ao oceano categorias desenvolvidas para interpretar comportamento humano ou animal. Ao tentar explicar Solaris dessa maneira, os pesquisadores podem estar repetindo exatamente o erro que os impede de compreendê-lo.
Lem afirmou posteriormente que desejava apresentar uma forma de existência nem humana nem humanoide e eliminar os caminhos que permitiriam personificar o oceano. O contato acontece de alguma maneira no romance, mas não segue o modelo interpessoal que domina tantas histórias sobre extraterrestres. O problema deixa de ser descobrir o idioma do alienígena e passa a ser determinar se a própria ideia humana de comunicação é suficientemente ampla para reconhecer aquilo que está ocorrendo.
O antropocentrismo diante do alienígena
A maior dificuldade dos solaristas não está apenas na falta de informações sobre o oceano. Está nas ferramentas intelectuais que utilizam para interpretar essas informações. Todo conhecimento humano nasce de experiências humanas e, por isso, conceitos como indivíduo, sociedade, linguagem, pensamento, vontade e finalidade carregam pressupostos que talvez não existam fora das formas de vida conhecidas na Terra.
A ficção científica frequentemente tenta resolver esse problema criando extraterrestres muito diferentes na aparência, mas ainda reconhecíveis em seu comportamento. Eles formam governos, travam guerras, desenvolvem tecnologias, procuram recursos, criam religiões ou estabelecem relações diplomáticas. Mesmo quando possuem três olhos, seis membros ou corpos completamente artificiais, continuam participando de atividades compreensíveis para os leitores porque suas motivações permanecem essencialmente humanas.
O oceano de Solaris não oferece esse conforto. Não há maneira segura de determinar se ele possui uma personalidade única, múltiplas consciências ou nenhuma dessas coisas. Também não sabemos se percebe o tempo como os humanos, se compreende a estação como presença estrangeira, se reconhece os cientistas como indivíduos ou se os visitantes representam algo importante para ele. Até a palavra “inteligência” pode carregar limitações, porque normalmente definimos inteligência a partir das atividades que nossa própria espécie considera significativas.
Essa preocupação ultrapassa Solaris e atravessa grande parte da obra de Lem. Em outros textos, o autor questionou explicitamente a tendência humana de reconhecer inteligência apenas quando ela se manifesta através de caminhos semelhantes aos nossos. Uma inteligência surgida sob condições radicalmente diferentes poderia desenvolver comportamentos tão distintos que procurar nela versões extraterrestres das características humanas seria como procurar apenas um tipo conhecido de árvore e concluir que uma floresta composta por outras espécies não contém árvores.
Encontramos Solaris ou apenas a nós mesmos?
Em determinado momento, Snaut formula uma das acusações mais importantes presentes no romance: a humanidade diz procurar outros mundos, mas frequentemente parece desejar apenas novas versões da Terra. O astronauta imaginado pela cultura humana leva consigo seus conceitos, valores e expectativas, esperando encontrar no universo alguma coisa que possa ser traduzida para eles.
A experiência da estação leva essa tendência ao extremo. Quando o oceano finalmente produz algo que pode ser reconhecido pelos cientistas, ele não oferece uma representação de si mesmo. Retira de suas próprias mentes imagens humanas e as devolve materializadas. A primeira forma concreta de contato torna-se literalmente um espelho construído a partir das lembranças daqueles que desejavam conhecer o alienígena.
Há uma ironia cruel nessa situação. Os pesquisadores passaram gerações querendo que Solaris respondesse e, quando alguma resposta finalmente acontece, continuam incapazes de determinar o que ela significa. O fenômeno fornece informações extraordinárias sobre a memória, a matéria e talvez sobre a capacidade do oceano de investigar cérebros humanos, mas quase nada permite afirmar o que Solaris pensa.
Kelvin acaba aprendendo muito sobre a própria culpa e sobre Harey, enquanto os demais pesquisadores são confrontados por partes de suas histórias que preferiam manter escondidas. O contato produz conhecimento, mas esse conhecimento é novamente sobre os seres humanos. A inteligência extraterrestre permanece do outro lado da relação.
Solaris é consciente?
O romance oferece evidências suficientes para tornar difícil tratar o oceano como um fenômeno puramente natural e insuficientes para determinar que tipo de consciência ele possui. A manutenção anormal da órbita do planeta, a complexidade de suas estruturas, sua reação às experiências humanas e sobretudo a criação dos visitantes indicam uma capacidade de processar informações que ultrapassa qualquer organismo conhecido.
Ainda assim, inteligência e consciência não são necessariamente sinônimos, e Lem evita fechar a questão. Pode existir um pensamento oceânico cujo funcionamento não tenha equivalência com a experiência individual humana. Solaris também pode ser algo para o qual a distinção entre organismo e ambiente, pensamento e matéria ou indivíduo e mundo simplesmente não se aplique.
No final do romance, surgem inclusive especulações próximas do religioso. Kelvin considera possibilidades relacionadas a uma espécie de divindade imperfeita, um ser poderoso mas limitado, incapaz de compreender completamente aquilo que cria. A hipótese não funciona como revelação sobre a verdadeira natureza de Solaris. É mais uma tentativa humana de encontrar uma categoria capaz de acomodar aquilo que continua escapando às categorias anteriores.
Essa abertura é essencial. Transformar Solaris em um deus, supercomputador, animal planetário ou cientista extraterrestre resolveria justamente o problema que Lem desejava preservar. Todas essas respostas converteriam o oceano em uma coisa conhecida ampliada a uma escala extraordinária. O romance insiste na possibilidade mais desconfortável: talvez o alienígena verdadeiro não possa ser reduzido a nenhuma metáfora humana satisfatória.
O fracasso da Solarística
Depois de décadas de entusiasmo, a Solarística encontra-se em decadência quando Kelvin chega ao planeta. Grande parte da comunidade científica perdeu a esperança de estabelecer contato, e a própria estação parece um vestígio de um projeto que já viveu dias mais ambiciosos. Os especialistas continuam produzindo trabalhos, mas a perspectiva de uma descoberta capaz de finalmente organizar todo o conhecimento acumulado parece cada vez mais distante.
Esse fracasso não transforma os solaristas em figuras ridículas. O trabalho que realizaram produziu um acervo extraordinário sobre um fenômeno igualmente extraordinário. O problema está na expectativa de que todo programa científico precise necessariamente culminar em uma explicação completa. Solaris permite conhecer muito e compreender pouco, estabelecendo uma diferença que se torna cada vez mais inquietante conforme as informações aumentam.
A própria quantidade de literatura sobre o planeta passa a representar o impasse. Livros respondem a livros, classificações substituem classificações e novas gerações revisam aquilo que as anteriores acreditavam ter descoberto. A ciência que deveria aproximar o homem do alienígena também cria uma camada crescente de discurso humano entre o observador e aquilo que está sendo observado.
Lem não apresenta isso como uma rejeição à ciência. Seu ceticismo é dirigido sobretudo à ideia de que a capacidade científica humana seja ilimitada por princípio. A existência de uma realidade objetiva não garante que a mente humana tenha evoluído com instrumentos adequados para compreendê-la em sua totalidade. Em Solaris, o método científico encontra não uma força sobrenatural, mas um possível limite epistemológico.
O conhecimento e seus limites
A questão central de Solaris pode ser colocada de uma maneira ainda mais ampla do que o problema do primeiro contato. Como podemos saber que compreendemos alguma coisa? Os pesquisadores conseguem observar efeitos, medir fenômenos e estabelecer correlações, mas toda explicação exige transformá-los em conceitos. Se os conceitos disponíveis foram produzidos por uma espécie específica vivendo em determinado ambiente, talvez existam aspectos da realidade que resistam permanentemente a essa tradução.
O alienígena de Lem torna essa dificuldade visível porque está biologicamente distante da humanidade. O mesmo problema, porém, acompanha qualquer tentativa de alcançar uma realidade independente da percepção. Kelvin nunca pode conhecer completamente Solaris, mas também não consegue recuperar a Harey original. A visitante foi construída a partir das memórias que ele possuía dela, e essas memórias sempre foram uma representação parcial de outra pessoa.
Essa dimensão impede que o romance seja apenas uma demonstração abstrata sobre filosofia da ciência. O limite do conhecimento aparece tanto diante de um oceano planetário quanto no relacionamento entre dois indivíduos. Podemos observar, interpretar e amar outra pessoa sem jamais possuir acesso completo à experiência que existe dentro dela.
Lem associou posteriormente o retorno de Harey à ideia filosófica da coisa em si, aquilo que existe independentemente de nossa capacidade de conhecê-lo diretamente. Essa interpretação ajuda a perceber por que o drama íntimo e o problema extraterrestre não precisam competir entre si no romance. Ambos colocam Kelvin diante da mesma impossibilidade fundamental: existe sempre alguma coisa do outro lado que sua consciência não consegue atravessar completamente.
Um primeiro contato sem conquista
Grande parte da ficção científica produzida ao longo do século XX tratou o espaço como uma nova fronteira. Planetas poderiam ser explorados, colonizados, conquistados ou incorporados progressivamente ao conhecimento humano. Mesmo quando uma história alertava para os perigos desse processo, a expansão continuava pressupondo que o universo era, em princípio, acessível à compreensão.
Solaris resiste a essa lógica. Os humanos chegam ao planeta, constroem uma estação sobre ele e passam décadas estudando sua superfície. Em termos tecnológicos, realizaram uma façanha extraordinária. Em termos intelectuais, permanecem praticamente diante da porta.
O resultado é uma inversão do mito da exploração. A distância física foi vencida, mas chegar até uma inteligência não significa alcançá-la. O avanço tecnológico consegue colocar Kelvin a poucos quilômetros do oceano e ainda assim pode haver entre ambos uma distância maior do que aquela existente entre a Terra e Solaris.
Essa ideia ajuda a explicar por que o romance continua relevante mesmo depois de tantas transformações na ciência e na própria ficção científica. A pergunta fundamental não depende da tecnologia imaginada em 1961. Mesmo que uma civilização humana futura consiga atravessar sistemas estelares, ela continuará carregando consigo uma mente moldada por sua própria história evolutiva e cultural.
Solaris, de Andrei Tarkóvski
A adaptação mais célebre do romance foi dirigida por Andrei Tarkóvski e lançada em 1972. Com Donatas Banionis como Kelvin e Natalya Bondarchuk como Hari, o filme preserva a estação, o oceano e os visitantes, mas desloca consideravelmente o centro emocional da obra. Tarkóvski amplia a presença da Terra, da família de Kelvin, da memória e da ideia de retorno, construindo uma interpretação muito mais explicitamente voltada à culpa, ao amor e à condição humana.
O resultado é considerado uma das grandes obras da ficção científica cinematográfica, mas não agradou a Lem. O escritor discordava justamente daquilo que se tornou uma das maiores forças do filme como obra independente: Tarkóvski estava muito mais interessado no drama espiritual de Kelvin do que na natureza verdadeiramente alienígena de Solaris. Lem reclamou que desejava ver o planeta e considerava que o diretor havia transformado sua história em algo muito mais próximo de um drama de culpa.
A diferença revela duas interpretações legítimas, mas profundamente distintas. Tarkóvski pergunta o que o encontro com Solaris revela sobre o homem que está diante dele. Lem queria preservar também uma segunda pergunta, talvez ainda mais importante: o que acontece quando existe alguma coisa diante do homem que se recusa a ser transformada em reflexão sobre o próprio homem?
Por isso, tratar o filme como substituto do romance altera significativamente a experiência. A adaptação preserva muitos dos acontecimentos fundamentais, mas reorganiza suas prioridades filosóficas. O Solaris de Tarkóvski é tão marcante justamente porque é também uma obra de Tarkóvski, e não apenas uma tradução visual de Lem.
Solaris, de Steven Soderbergh
Trinta anos depois, Steven Soderbergh realizou uma nova adaptação, lançada em 2002, com George Clooney como Kelvin e Natascha McElhone como Rheya. A versão é muito mais curta do que a de Tarkóvski e concentra-se ainda mais diretamente na relação amorosa entre os dois personagens, transformando a experiência de Solaris em uma investigação sobre luto, memória, culpa e a possibilidade de recuperar alguém que morreu.
Soderbergh descreveu seu interesse pelo projeto como predominantemente conceitual e psicológico, evitando uma ficção científica concentrada em tecnologia ou espetáculo. A abordagem produziu um filme visualmente contido e emocionalmente intimista, mas novamente deslocou para a relação do casal uma história cujo autor considerava fundamentalmente ligada ao encontro com uma forma de existência não humana.
Lem reconheceu que a versão possuía ambição e atmosfera, mas não ficou satisfeito com a importância concedida ao romance. Em uma entrevista à Folha de S.Paulo, explicou que Soderbergh havia escolhido apenas uma das possibilidades contidas no livro e insistiu que, se Solaris fosse fundamentalmente uma história sobre o amor entre um homem e uma mulher, não precisaria receber o nome do planeta.
As duas adaptações mais famosas acabam, portanto, demonstrando involuntariamente uma das questões do próprio romance. Tarkóvski e Soderbergh aproximam Solaris do espectador através de experiências humanas reconhecíveis. Lem estava interessado precisamente na possibilidade de que essa aproximação nunca fosse suficiente.
Por que Solaris permanece diferente
Décadas de ficção científica produziram extraterrestres cada vez mais elaborados, com biologias incomuns, sociedades complexas e formas alternativas de percepção. Mesmo assim, muitas dessas criaturas continuam sendo compreensíveis assim que suas regras são explicadas. O leitor pode inicialmente estranhá-las, mas acaba recebendo uma chave capaz de transformar diferença em conhecimento.
Solaris recusa essa chave. O romance termina sem revelar o significado definitivo do oceano, sem converter seus fenômenos em um idioma e sem estabelecer uma teoria que resolva as contradições acumuladas pela Solarística. Kelvin consegue atravessar uma experiência que transforma profundamente sua relação com o planeta e consigo mesmo, mas não emerge dela carregando uma explicação final.
Essa ausência de solução não significa que nada tenha acontecido entre as duas inteligências. Pelo contrário, o oceano examinou de alguma forma as mentes humanas e produziu seres materializados a partir delas. Os pesquisadores responderam com experimentos, teorias, medo, violência e tentativas de aproximação. Houve interação suficiente para modificar todos os envolvidos. O que não houve foi compreensão mútua.
É nesse ponto que Solaris continua ocupando uma posição singular dentro das histórias de primeiro contato. Lem não pergunta apenas como conversaríamos com extraterrestres, mas se nossa própria definição de conversa sobreviveria ao encontro. Não pergunta somente como reconheceríamos uma inteligência alienígena, mas se conseguiríamos evitar a exigência de que ela demonstrasse sua inteligência de uma maneira que nós já sabemos reconhecer.
O oceano de Solaris permanece diante dos seres humanos como uma inteligência possível, talvez imensa, talvez consciente e certamente capaz de feitos que eles não conseguem reproduzir. Depois de mais de um século de observação, a humanidade ainda não sabe o que ele quer porque talvez a pergunta esteja errada desde o princípio. A força duradoura do romance está justamente nessa possibilidade: o maior obstáculo ao primeiro contato pode não ser a distância entre as estrelas, mas a distância entre duas formas de existência que não compartilham sequer as mesmas maneiras de compreender o que significa existir.
Fontes consultadas
- LEM, Stanisław — Solaris. Fonte primária para Kris Kelvin, a estação Solaris, a Solarística, os visitantes produzidos a partir das memórias dos tripulantes e, sobretudo, a tentativa humana de compreender uma inteligência radicalmente não humana. O site oficial de Lem mantém uma seção dedicada ao romance e registra sua publicação original em 1961. Stanisław Lem — Solaris
- Stanisław Lem — “The Solaris Station”. Comentário do próprio autor sobre o sentido central do romance, no qual explica que pretendia representar um encontro com uma forma de existência que não fosse humana nem humanoide e que não pudesse ser compreendida segundo os padrões convencionais de comunicação. É uma referência especialmente importante para o oceano solariano e para o tema do primeiro contato. Stanisław Lem — The Solaris Station
- Stanisław Lem — entrevista à Folha de S.Paulo. Entrevista utilizada para a interpretação do próprio Lem sobre Solaris e para suas opiniões sobre as adaptações cinematográficas. O escritor afirma explicitamente sua insatisfação com a versão de Andrei Tarkóvski e comenta a ênfase romântica adotada por Steven Soderbergh. Stanisław Lem — entrevista à Folha de S.Paulo
- Stanisław Lem — “Solaris by Tarkovsky”. Material oficial dedicado à adaptação soviética de 1972, com dados do filme e comentários de Lem e do próprio Andrei Tarkóvski sobre as diferenças entre suas concepções da obra. Stanisław Lem — Solaris by Tarkovsky
- Stanisław Lem — “Solaris by Soderbergh”. Material oficial dedicado à adaptação de 2002 dirigida por Steven Soderbergh, com informações sobre o filme, entrevista com o diretor e comentários de Lem sobre essa nova interpretação do romance. Stanisław Lem — Solaris by Soderbergh
- The Criterion Collection — Solaris (1972). Registro da adaptação dirigida por Andrei Tarkóvski, com créditos, informações de produção e materiais complementares sobre o filme. Criterion Collection — Solaris
- LOPATE, Phillip — “Solaris: Inner Space”. The Criterion Collection. Ensaio crítico sobre a adaptação de Tarkóvski, suas diferenças em relação ao romance de Lem, a dimensão psicológica e metafísica do filme e sua posição dentro da obra do diretor. Criterion Collection — Solaris: Inner Space
