ARQUIVO DO FANTÁSTICO

A Criatura de Frankenstein

A Criatura de Frankenstein é o ser criado por Victor Frankenstein no romance Frankenstein; ou, o Prometeu Moderno, publicado anonimamente por Mary Shelley em 1818. Embora tenha se tornado uma das figuras mais reconhecíveis do terror e da cultura popular, o personagem literário é consideravelmente diferente da imagem consolidada pelo cinema: não possui cabeça achatada, parafusos no pescoço, movimentos permanentemente rígidos nem a capacidade intelectual limitada associada a muitas versões posteriores. No livro, trata-se de um ser consciente, articulado e capaz de aprender sozinho, que desenvolve linguagem, lê obras literárias, reflete sobre sua própria existência e procura inicialmente estabelecer algum tipo de relação com os seres humanos. A tragédia nasce justamente do contraste entre essa interioridade complexa e a reação quase imediata de repulsa provocada por sua aparência.

Há também uma questão de nomenclatura importante. Mary Shelley não dá um nome próprio à Criatura, e por isso tratá-la simplesmente como “Frankenstein” confunde criador e criação. Ao longo do romance aparecem palavras como creature, being, wretch, daemon e também monster, utilizadas sobretudo por Victor e por outros personagens como descrições ou insultos; em determinado momento, a própria Criatura utiliza “monster” ao falar de como passou a perceber a si mesma diante da rejeição. Portanto, não seria correto afirmar que Shelley jamais emprega a palavra “monstro”, mas também não existe no romance um personagem formalmente chamado “o Monstro”. A expressão “Frankenstein’s monster”, transformada posteriormente quase em nome próprio, pertence muito mais à tradição crítica, editorial e popular criada ao redor da obra do que à identificação dada por Shelley ao personagem.

Essa diferença importa porque a maneira como chamamos o personagem já orienta a interpretação. Quando reduzido a “monstro”, ele tende a ser entendido inicialmente como ameaça; quando tratado como Criatura, sua condição de ser produzido, abandonado e obrigado a construir sozinho uma identidade fica mais evidente. Shelley não elimina a responsabilidade pelos assassinatos que ele posteriormente comete, mas constrói uma trajetória na qual violência, consciência, abandono e desejo de pertencimento estão intimamente conectados. A Criatura não nasce com uma personalidade assassina pronta: aprende a observar o mundo, deseja aproximar-se dele e chega à violência depois de sucessivas experiências de rejeição.

A criação de Victor Frankenstein

Victor Frankenstein decide produzir vida depois de anos dedicados ao estudo das ciências naturais, da anatomia e dos processos relacionados à decomposição. A experiência não nasce simplesmente do desejo de construir um servo ou demonstrar uma teoria científica. Victor imagina ser capaz de ultrapassar uma das limitações fundamentais da condição humana, concedendo vida à matéria morta e abrindo a possibilidade de uma nova espécie que pudesse reconhecê-lo como seu criador. Na edição de 1818, Shelley descreve esse período como uma obsessão que progressivamente o isola de família, amigos e de qualquer relação equilibrada com o mundo ao redor.

A Criatura é montada em tamanho superior ao de um ser humano comum porque Victor considera mais fácil trabalhar com estruturas maiores. O romance não oferece, entretanto, o procedimento técnico detalhado que adaptações posteriores transformariam em laboratório cheio de equipamentos elétricos. Shelley deliberadamente evita explicar exatamente como Victor consegue produzir vida. O momento decisivo é descrito através do resultado, não por uma sequência científica reproduzível: numa noite de novembro, a criatura abre um olho e começa a respirar.

A escolha é importante porque preserva a atenção sobre as consequências, não sobre o mecanismo. Frankenstein não funciona como manual especulativo sobre como construir uma pessoa; pergunta o que acontece depois que alguém consegue fazê-lo. O problema central de Victor começa exatamente quando seu experimento alcança o objetivo que perseguiu durante tanto tempo.

O abandono acontece imediatamente

Victor escolhe cuidadosamente características que considera belas durante a montagem do corpo, mas, quando a criatura ganha vida, a combinação desses elementos produz nele uma reação de horror. Shelley descreve pele amarelada que mal cobre músculos e artérias, cabelos negros, dentes muito brancos, olhos aquosos e uma compleição que Victor considera incompatível com sua ideia inicial de beleza. A aparência do personagem é perturbadora, mas está muito distante da caracterização visual consolidada em 1931 pela Universal.

O acontecimento decisivo não é apenas Victor sentir medo. Ele abandona imediatamente aquilo que criou, recusando-se a assumir qualquer responsabilidade por um ser que acabou de entrar no mundo sem conhecimento, linguagem ou compreensão de si. Quando a Criatura procura aproximar-se dele, Victor foge.

Essa decisão estrutura praticamente toda a tragédia posterior. O criador desejava a glória de produzir vida, mas não havia pensado seriamente sobre o compromisso que surgiria caso tivesse sucesso. Shelley transforma, assim, a criação artificial em um problema de responsabilidade: produzir um ser consciente é apenas o início de uma relação, e não sua conclusão.

Um ser que começa sem linguagem

Uma das diferenças mais profundas entre a Criatura literária e várias de suas adaptações está em seu desenvolvimento intelectual. No momento em que ganha vida, ela não possui linguagem nem entendimento do mundo e precisa descobrir gradualmente sensações básicas como luz, frio, fome, calor e dor. Shelley apresenta esse aprendizado retrospectivamente quando a própria Criatura conta sua história a Victor.

Depois de fugir, ela aprende a sobreviver observando o ambiente e percebe progressivamente a existência de outras pessoas. Esse desenvolvimento possui quase a estrutura de uma segunda infância, mas sem pais, educação ou proteção. A Criatura precisa aprender sozinha aquilo que um ser humano normalmente adquire dentro de uma comunidade.

Essa condição ajuda a tornar ainda mais grave o abandono de Victor. A inteligência extraordinária da Criatura não significa que ela nasce sabendo como utilizar essa inteligência. Suas capacidades precisam de experiência, exemplos e linguagem para se desenvolver, e o único modelo disponível inicialmente é o comportamento das pessoas que encontra.

A família De Lacey

O período mais importante dessa aprendizagem acontece quando a Criatura encontra abrigo próximo à casa da família De Lacey. Escondida, passa a observar Felix, Agatha e o pai cego e aprende gradualmente a interpretar suas relações, emoções e dificuldades. Quando Safie chega à casa e começa a receber instruções linguísticas, a Criatura aproveita essas mesmas lições para aprender a falar e compreender a língua.

Shelley utiliza essa situação para acompanhar o nascimento de uma consciência social. Ao observar os De Lacey, a Criatura aprende não apenas palavras, mas conceitos como família, pobreza, amizade, desigualdade e afeto. Ela começa a compreender que os habitantes da casa sofrem e passa secretamente a ajudá-los, realizando tarefas durante a noite e evitando consumir recursos que lhes fariam falta.

Esse período é fundamental porque torna impossível tratar o personagem como alguém naturalmente incapaz de empatia. Antes de cometer qualquer assassinato, a Criatura demonstra preocupação com o sofrimento alheio e deseja fazer parte daquela comunidade. Sua educação inicial não conduz à violência; conduz ao desejo de aproximação.

A educação através dos livros

A inteligência da Criatura torna-se ainda mais evidente quando ela encontra livros e aprende a lê-los. Entre as obras que chegam às suas mãos estão ** Paradise Lost, de John Milton; The Sorrows of Young Werther, de Goethe; e Lives, de Plutarco**. Essas leituras passam a funcionar como ferramentas para interpretar a sociedade e, principalmente, sua própria existência.

Paradise Lost adquire importância especial. A Criatura compara-se tanto a Adão quanto a Satã. Como Adão, foi criada por um ser que lhe deu vida; diferentemente dele, porém, não recebeu proteção, companhia ou um lugar preparado para sua existência. A comparação com Satã surge à medida que observa a felicidade humana da qual se sente excluída e transforma admiração em ressentimento.

A leitura demonstra também que sua inteligência está muito distante daquela associada à Criatura cinematográfica mais conhecida. O personagem de Shelley argumenta sobre filosofia, moralidade, história e literatura e constrói discursos elaborados para explicar sua posição. Ele não é incapaz de pensar; parte de sua tragédia decorre justamente de pensar suficientemente bem para compreender aquilo que lhe foi negado.

Quando descobre quem é

A Criatura também encontra os registros de Victor sobre o processo de sua fabricação. Ao lê-los, descobre como seu próprio criador reagiu ao corpo que havia produzido e percebe que a repulsa que encontra entre estranhos já estava presente naquele que deveria ter sido responsável por sua existência.

Esse conhecimento acrescenta uma dimensão nova à rejeição. A Criatura não pode simplesmente imaginar que encontrou pessoas particularmente intolerantes; descobre que a pessoa que deliberadamente a construiu também considerou sua aparência insuportável.

Sua identidade passa então a ser formada parcialmente pelo olhar dos outros. Ela aprende que possui aparência diferente porque vê pessoas fugirem, atacarem ou rejeitarem sua presença, e essa experiência altera gradualmente a maneira como passa a compreender a si mesma.

Há uma passagem significativa em que, ao observar seu reflexo, percebe a distância entre sua aparência e os corpos dos De Lacey. É nesse contexto que a própria palavra “monster” aparece relacionada à maneira negativa como aprende a olhar para si. O termo não funciona como nome dado por Shelley, mas como consequência de uma identidade construída pela experiência da rejeição.

O homem cego e a tentativa de aproximação

A Criatura percebe que o velho De Lacey é cego e imagina que, pela primeira vez, poderá conversar com alguém sem que sua aparência determine imediatamente a reação. A estratégia inicialmente funciona. Ele consegue estabelecer um diálogo e apresentar sua situação como a de alguém solitário que busca auxílio e compreensão.

O encontro muda quando os outros membros da família retornam e veem a Criatura. A reação é imediata e violenta, destruindo a esperança de que pudesse ser aceita se primeiro demonstrasse quem era através da linguagem e do comportamento.

A cena concentra um dos problemas centrais do romance: existe uma diferença enorme entre aquilo que a Criatura é capaz de expressar e aquilo que seu corpo comunica aos outros antes que tenha oportunidade de falar. A aparência torna-se uma barreira social que frequentemente antecede qualquer avaliação moral de suas ações.

Depois dessa experiência, a disposição para confiar nos seres humanos sofre uma transformação profunda. A Criatura ainda não se reduz automaticamente a uma máquina de matar, mas o ressentimento começa a substituir a expectativa de integração.

William Frankenstein e o primeiro assassinato

O primeiro assassinato deliberado cometido pela Criatura é o de William Frankenstein, irmão mais novo de Victor. O encontro é especialmente significativo porque, a princípio, ela imagina que uma criança poderia não possuir os preconceitos dos adultos e talvez fosse capaz de aceitá-la.

Quando descobre que William pertence à família Frankenstein e também reage com medo e rejeição, a situação se transforma. A Criatura mata o menino e posteriormente coloca uma joia de sua vítima entre os pertences de Justine Moritz, provocando a acusação que levará à execução de uma mulher inocente.

A partir desse ponto, não é mais possível considerar a Criatura apenas vítima passiva das decisões de Victor. Shelley constrói uma personagem que sofreu abandono e violência, mas que passa conscientemente a provocar sofrimento em pessoas que não são responsáveis por sua criação.

Essa tensão é essencial. Explicar a origem de sua violência não significa absolver suas escolhas. O romance funciona justamente porque Victor e Criatura acumulam responsabilidades diferentes dentro de uma relação que se torna cada vez mais destrutiva.

O encontro entre criador e criatura

Quando finalmente confronta Victor nos Alpes, a Criatura não o ataca imediatamente. Exige primeiro ser ouvida e apresenta um relato extenso de tudo aquilo que aconteceu desde o momento em que foi abandonada. É nesse ponto que o romance transfere temporariamente o centro narrativo para sua perspectiva.

A capacidade de argumentação é impressionante. A Criatura acusa Victor de produzir um ser consciente sem assumir as obrigações decorrentes desse ato e sustenta que sua disposição inicial era benevolente. Sua violência teria surgido depois de descobrir que nenhum esforço parecia suficiente para superar a repulsa das pessoas.

Essa defesa não precisa ser aceita integralmente para ser levada a sério. Shelley permite que a personagem exponha seus próprios argumentos e obriga Victor — e o leitor — a considerar se a monstruosidade deve ser localizada apenas nas ações posteriores ou também nas circunstâncias que contribuíram para produzi-las.

A relação deixa, portanto, de funcionar como uma divisão simples entre cientista e monstro. Criador e criação começam a refletir um ao outro, cada qual atribuindo ao outro a responsabilidade por sua própria ruína.

O pedido por uma companheira

A principal exigência da Criatura é que Victor construa uma companheira semelhante a ela. Seu argumento parte da experiência de que nenhum ser humano aceitará sua presença e, portanto, somente outra criatura artificial poderia oferecer uma relação de igualdade.

Ela promete abandonar a sociedade humana e viver em regiões afastadas caso Victor aceite o pedido. Para a Criatura, a solução responde diretamente ao problema que domina sua existência: não deseja inicialmente dominar seres humanos, mas encontrar alguém para quem sua aparência não represente uma barreira absoluta.

Victor aceita temporariamente, mas começa a imaginar consequências que considera impossíveis de controlar. A nova criatura poderia rejeitar o primeiro ser, poderia desejar aproximar-se da humanidade ou poderia reproduzir-se, dando origem a uma população inteira que ele não teria capacidade de deter.

Essas preocupações levam Victor a destruir o segundo corpo antes de animá-lo. A decisão produz uma nova ruptura entre ambos porque, para a Criatura, representa a destruição deliberada da única possibilidade concreta de pertencimento que lhe havia sido oferecida.

A companheira que nunca chega a existir

A destruição da segunda criatura é importante também porque revela como Victor continua tomando decisões sobre a existência de seres conscientes a partir exclusivamente de suas próprias expectativas. Na primeira experiência, cria vida sem considerar o que fará depois. Na segunda, destrói um corpo porque teme aquilo que aquela nova pessoa poderia escolher fazer se fosse animada.

A Criatura testemunha essa destruição e interpreta o gesto como confirmação de que Victor nunca pretende reconhecer qualquer obrigação em relação a ela. A promessa de vingança que se segue intensifica a trajetória de violência e leva diretamente a novas mortes.

Esse episódio seria posteriormente transformado pela cultura popular em A Noiva de Frankenstein, especialmente depois do filme de James Whale de 1935. A adaptação cria uma criatura feminina viva, interpretada por Elsa Lanchester, que rejeita o personagem de Boris Karloff. No romance, porém, Victor jamais conclui a criação da companheira e ela nunca adquire consciência.

Criador e criatura como espelhos

À medida que a narrativa avança, Victor e sua criação tornam-se cada vez mais semelhantes em determinados comportamentos. Ambos vivem progressivamente isolados, ambos passam a organizar a própria existência ao redor da vingança e ambos atribuem ao outro a responsabilidade por aquilo que perderam.

Victor atravessa continentes perseguindo sua criação, enquanto a Criatura passa a manipular deliberadamente esse movimento. A relação entre eles deixa de ser apenas perseguidor e perseguido e se torna uma forma de dependência destrutiva.

Essa estrutura também ajuda a explicar por que o nome Frankenstein acabou culturalmente migrando do criador para a criatura. Embora seja incorreto dentro do romance, a confusão possui uma espécie de coerência simbólica: as identidades dos dois tornam-se progressivamente inseparáveis na tradição cultural porque o desastre de um existe em relação constante ao outro.

Ainda assim, manter a distinção é importante para a leitura. Victor Frankenstein é o criador; a Criatura permanece sem nome próprio. A ausência de nome também reforça sua exclusão de estruturas familiares e sociais que normalmente ajudam a estabelecer uma identidade.

A Criatura é má?

O romance não oferece uma resposta confortável. A Criatura é capaz de compaixão, aprendizagem, admiração pela beleza e desejo de companhia, mas também assassina pessoas inocentes de maneira consciente. Sua inteligência impede que seus crimes sejam explicados como movimentos involuntários de um ser incapaz de compreender consequências.

Ao mesmo tempo, Shelley não constrói essa violência como característica original e inevitável. Há uma trajetória reconhecível entre abandono, tentativas de aproximação, rejeição, ressentimento e vingança. A Criatura aprende tanto a solidariedade quanto a crueldade observando seres humanos.

Essa ambiguidade é uma das razões pelas quais o personagem permaneceu mais complexo do que vários de seus descendentes cinematográficos. Ele pode ser simultaneamente vítima e agressor, alguém digno de compaixão e alguém responsável por atos terríveis.

A pergunta mais produtiva, portanto, talvez não seja determinar qual dos dois — Victor ou sua criação — é o “verdadeiro monstro”. O romance distribui responsabilidade de maneiras diferentes e mostra como decisões tomadas por ambos ampliam uma tragédia que nenhum deles consegue posteriormente interromper.

Aparência no romance

Mary Shelley fornece características físicas suficientes para estabelecer a repulsa causada pela Criatura, mas sua descrição não corresponde ao rosto hoje reconhecido imediatamente como Frankenstein. Victor escolhe membros proporcionais e traços que inicialmente considera belos, mas a animação produz um conjunto que passa a percebê-los de outra maneira.

A pele é descrita como amarelada e parcialmente translúcida sobre músculos e artérias; os cabelos são longos e negros, os dentes são muito brancos e os olhos possuem aparência aquosa. O corpo tem proporções gigantescas e força muito superior à humana. O personagem também é rápido, resistente e capaz de sobreviver em ambientes extremamente hostis.

Não aparecem no romance a cabeça plana, os parafusos no pescoço ou as grandes cicatrizes que se tornariam fundamentais à imagem popular. Esses elementos foram desenvolvidos muito mais tarde, sobretudo pela interpretação cinematográfica da Universal em 1931. A Library of Congress destaca explicitamente que a combinação visual hoje considerada arquetípica foi criada para aquela produção.

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Não existe pele verde em Mary Shelley

A pele verde também não pertence à descrição original. Shelley fala de uma tonalidade amarelada que deixa parcialmente visíveis as estruturas corporais abaixo da pele. O verde tornou-se associado ao personagem principalmente através da cultura visual construída ao redor das adaptações cinematográficas.

Há uma ironia histórica nisso porque Frankenstein de 1931 foi produzido em preto e branco. Fotografias promocionais, materiais posteriores, brinquedos, quadrinhos e reproduções coloridas ajudaram gradualmente a transformar a pele verde em característica quase obrigatória.

A imagem tornou-se tão específica que a combinação criada pela Universal — pele verde, cabeça achatada, parafusos e outras características — adquiriu proteção própria como representação artística, apesar de o personagem literário de Shelley estar em domínio público. A Library of Congress utiliza justamente esse caso para explicar a diferença entre um personagem literário público e uma versão visual posterior protegida.

Esse desenvolvimento demonstra como uma adaptação pode tornar-se culturalmente mais conhecida do que a fonte. Muitos leitores chegam ao romance esperando encontrar a figura de Karloff e descobrem um personagem fisicamente e intelectualmente muito diferente.

Inteligência, fala e eloquência

Talvez nenhuma alteração cinematográfica tenha modificado tanto o personagem quanto sua capacidade de falar. A Criatura de Shelley aprende linguagem com rapidez extraordinária e posteriormente se expressa de maneira elaborada, capaz de construir argumentos extensos sobre sua experiência, seus direitos e sua relação com Victor.

Sua leitura de Milton, Goethe e Plutarco fornece referências para pensar moralidade, sociedade e identidade. Essa educação transforma a solidão em algo ainda mais doloroso porque a Criatura compreende aquilo do qual está excluída. Não sofre apenas por falta de companhia física; entende estruturas familiares, amizade, história e pertencimento e sabe que não possui lugar evidente dentro delas.

A eloquência também cria um conflito narrativo interessante. Victor deseja que sua criação seja percebida como algo repulsivo e perigoso, mas quando ela assume a própria voz o leitor encontra uma consciência que não cabe facilmente nessa descrição.

Retirar a fala, como fizeram algumas adaptações, transforma profundamente a relação. O personagem deixa de poder apresentar diretamente sua acusação contra o criador, e boa parte da complexidade moral do romance desaparece.

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Boris Karloff e o Frankenstein de 1931

A versão cinematográfica de Frankenstein, dirigida por James Whale em 1931 e estrelada por Boris Karloff como a Criatura, produziu uma das imagens mais influentes da história do cinema. O rosto alongado, a cabeça achatada, as cicatrizes, a testa pesada e os eletrodos laterais criados pelo maquiador Jack Pierce estabeleceram um modelo que seria repetido, imitado e parodiado durante décadas. A Library of Congress reconhece essa representação como origem direta da aparência arquetípica posteriormente associada ao personagem.

O filme também modifica profundamente sua personalidade. A criatura de Karloff possui linguagem extremamente limitada e comportamento inicialmente infantilizado, embora a atuação consiga preservar grande vulnerabilidade emocional. Parte da violência é ainda explicada pelo roteiro através da ideia de que um cérebro considerado “anormal” teria sido utilizado durante sua criação, elemento inexistente no romance.

Essa transformação simplifica o personagem intelectualmente, mas acrescenta outros recursos dramáticos. Karloff trabalha com expressão corporal, gestos e olhar para transmitir confusão, medo e desejo de contato, criando uma criatura diferente da de Shelley sem transformá-la simplesmente em vilão.

A influência foi tamanha que a representação passou a modificar retrospectivamente a percepção do livro. Quando alguém imagina Frankenstein hoje, frequentemente está pensando primeiro no cinema de 1931 e apenas indiretamente na descrição publicada em 1818.

A menina junto ao lago

Uma das cenas mais famosas da adaptação de 1931 também não existe daquela forma no romance. A criatura encontra uma menina chamada Maria, que não reage imediatamente com medo e brinca com ela jogando flores na água. Quando as flores acabam, a criatura tenta repetir a lógica da brincadeira e joga a menina no lago, sem compreender que ela não flutuará da mesma maneira.

A morte é trágica porque nasce de incompreensão, não de intenção homicida, reforçando a caracterização cinematográfica de um ser perigoso justamente por possuir enorme força e compreensão limitada. Essa concepção é quase oposta aos assassinatos praticados pelo personagem literário, que age com conhecimento muito maior das consequências.

A diferença exemplifica como adaptações alteraram não apenas acontecimentos, mas a própria natureza moral da criatura. Shelley constrói alguém intelectualmente capaz de justificar e planejar vingança; o filme de Whale apresenta muitas vezes uma figura que causa destruição porque não entende plenamente o mundo ao redor.

Ambas as versões conseguem produzir compaixão, mas fazem isso por caminhos diferentes. No romance, a compaixão nasce da consciência e do abandono; no cinema, frequentemente nasce da inocência limitada e da incapacidade de compreender.

O fogo também mudou de significado

O medo de fogo tornou-se outra característica popular associada ao personagem, especialmente através das adaptações cinematográficas. No romance, porém, a Criatura descobre o fogo durante seu aprendizado e rapidamente percebe tanto sua utilidade quanto sua capacidade de causar dor. Aprende a utilizá-lo para aquecer-se e preparar alimentos.

A diferença é relevante porque o personagem literário não se comporta como criatura instintivamente aterrorizada por chamas. Sua relação com o fogo é cognitiva: experimenta, sofre uma queimadura e aprende suas propriedades.

Mais tarde, o próprio fogo adquire funções destrutivas dentro de sua trajetória. Depois da rejeição pelos De Lacey, a Criatura incendeia a casa que havia observado durante tanto tempo, transformando aquilo que inicialmente aprendera como ferramenta de sobrevivência em instrumento de vingança.

A associação popular entre Frankenstein e multidões carregando tochas pertence sobretudo à história de suas adaptações. Como tantas outras características, tornou-se tão familiar que passou a parecer parte da narrativa original.

Frankenstein não é o nome da Criatura

Provavelmente nenhuma confusão associada ao personagem é tão comum quanto chamá-lo de Frankenstein. No romance, esse é o sobrenome de Victor e de sua família. A Criatura não recebe um nome próprio.

A confusão já existia relativamente cedo na história cultural da obra. A Library of Congress registra que, ainda no século XIX, a fronteira entre o cientista e aquilo que criou começava a se tornar menos clara na recepção popular. O cinema intensificou o processo porque “Frankenstein” aparecia como título de histórias cuja imagem promocional era dominada visualmente pela Criatura.

Com o tempo, o nome acabou funcionando informalmente para os dois. Em linguagem popular, dizer “Frankenstein” frequentemente produz a imagem da criatura de cabeça achatada, não a do cientista.

Para um verbete dedicado especificamente ao personagem de Mary Shelley, entretanto, Criatura de Frankenstein é uma denominação mais precisa. Ela reconhece a ausência de nome e preserva a relação essencial com o criador sem transformar seu sobrenome em identidade da criação.

“Monstro” também não é seu nome

A situação da palavra “monstro” exige uma precisão semelhante. Shelley utiliza monster no romance, assim como outros termos depreciativos empregados principalmente na perspectiva de Victor, e a própria Criatura acaba utilizando a palavra ao falar da percepção negativa que desenvolveu sobre si. O que Shelley não faz é conceder-lhe “Monstro” como nome próprio ou designação oficial.

Essa diferença parece pequena, mas muda bastante a interpretação. “O Monstro de Frankenstein” tornou-se uma fórmula cultural posterior que define a personagem antes mesmo que ela aja. No romance, a ausência de nome faz parte de sua condição de exclusão, enquanto os diferentes epítetos utilizados pelos personagens revelam como ela é percebida.

Também é significativo que a Criatura aprenda a aplicar a linguagem da monstruosidade a si mesma depois de entrar em contato com outras pessoas. Sua identidade não nasce pronta com o corpo; é construída através do contraste entre aquilo que sente ser e aquilo que o mundo afirma que ela é.

Por isso, neste verbete, Criatura é uma escolha editorial mais adequada. “Monstro” pode ser utilizado ao discutir recepção, adaptação ou a linguagem do próprio romance, mas não como se Mary Shelley tivesse batizado o personagem dessa maneira.

A primeira adaptação cinematográfica

A associação entre Frankenstein e cinema começou antes de Boris Karloff. Em 1910, a Edison Manufacturing Company produziu uma adaptação curta dirigida por J. Searle Dawley, hoje preservada pela Library of Congress. Charles Ogle interpretou a criatura, cuja aparência era muito diferente tanto da descrição de Shelley quanto da imagem criada pela Universal duas décadas depois.

O filme já demonstra como adaptações começaram cedo a modificar a história. A criação ocorre por um processo visual envolvendo produtos químicos, e a criatura assume uma função simbólica relacionada aos aspectos sombrios da personalidade de Frankenstein.

A versão é importante justamente porque mostra que nunca houve apenas uma representação visual inevitável da Criatura. Antes que Karloff estabelecesse a imagem dominante, cinema e teatro já haviam experimentado maneiras bastante diferentes de apresentar aquele corpo.

Isso reforça a diferença entre personagem literário e ícone cultural. A Criatura que hoje reconhecemos instantaneamente é resultado de mais de dois séculos de interpretações acumuladas sobre um texto que originalmente deixava vários aspectos de sua criação visual abertos.

Bride of Frankenstein e a recuperação da fala

Bride of Frankenstein, lançado em 1935 novamente sob direção de James Whale, aprofundou a interpretação de Karloff e devolveu ao personagem alguma capacidade de linguagem. A Criatura estabelece relação com um homem cego que não reage à sua aparência, numa sequência claramente relacionada ao episódio de De Lacey no romance, embora bastante modificada.

O filme também desenvolve a criação de uma companheira, transformando em acontecimento aquilo que Victor impede de acontecer no livro. Quando a nova criatura é finalmente animada, rejeita imediatamente o pretendente que havia esperado por ela.

Esse acréscimo se tornou tão influente que a Noiva de Frankenstein adquiriu existência cultural independente, apesar de sua contraparte literária jamais chegar à vida. A expansão demonstra como a história da Criatura deixou rapidamente de depender apenas do material de Shelley.

Ao mesmo tempo, o filme recupera parte da dimensão emocional perdida na adaptação anterior. A necessidade de companhia, a experiência da rejeição e o sofrimento diante da impossibilidade de pertencer aproximam novamente a versão cinematográfica de temas fundamentais do romance.

Corpo artificial e identidade

A Criatura ocupa posição importante na história do fantástico porque seu corpo reúne diferentes problemas que posteriormente seriam desenvolvidos por histórias sobre robôs, androides, clones e inteligência artificial. Ela foi fabricada por um ser humano, não possui família biológica convencional e precisa descobrir se o fato de ter sido construída modifica seu direito a ser reconhecida como pessoa.

Entretanto, tratá-la simplesmente como antepassado de um robô seria reduzir sua especificidade. O corpo da Criatura é orgânico e produzido a partir de matéria associada à morte, enquanto o processo exato de animação permanece deliberadamente pouco explicado. Seu conflito também nasce de uma sociedade que reconhece imediatamente sua aparência como não humana ou deformada.

O que aproxima essas tradições é sobretudo a pergunta sobre pessoa e criação. Um ser precisa nascer biologicamente para possuir dignidade? Inteligência suficiente produz responsabilidade moral? Um criador possui obrigações diante de uma consciência que deliberadamente trouxe à existência?

Essas questões permitiram que Frankenstein permanecesse relevante em debates tecnológicos muito posteriores. O romance não “previu inteligência artificial”, mas forneceu uma estrutura poderosa para pensar responsabilidades que surgem quando alguém cria agentes capazes de experimentar o mundo de maneira própria.

A relação com o Golem

A Criatura também é frequentemente comparada ao golem da tradição judaica. As duas figuras envolvem seres produzidos artificialmente por seres humanos e podem ser associadas a narrativas sobre criação que ultrapassa limites tradicionais. Essa aproximação permite construir uma história cultural mais ampla das criaturas artificiais.

As diferenças, porém, são tão importantes quanto as semelhanças. O golem tradicional costuma ser definido pela incompletude, ausência de fala ou obediência a instruções, enquanto a Criatura de Shelley possui linguagem extraordinariamente desenvolvida, consciência individual, desejo próprio e capacidade de desafiar diretamente seu criador.

Também não existe documentação suficiente para tratar o golem como fonte direta e comprovada de Frankenstein. A formação do romance envolve debates sobre ciência, galvanismo, vitalismo, anatomia, literatura gótica e o mito de Prometeu, entre outras influências.

A relação funciona melhor como comparação entre tradições do que como genealogia simples. Golem e Criatura de Frankenstein mostram maneiras diferentes de imaginar uma criação humana que adquire existência própria e obriga o criador a enfrentar consequências que não havia considerado.

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Prometeu moderno

O subtítulo do romance, “The Modern Prometheus”, fornece uma chave importante para interpretar tanto Victor quanto sua criação. Prometeu pertence à mitologia grega e foi associado, em diferentes tradições, à formação dos seres humanos e ao roubo do fogo divino em benefício deles. Sua punição tornou-se símbolo das consequências de ultrapassar determinadas fronteiras.

Victor assume a posição prometeica ao tentar dominar o princípio da vida. Sua ambição não é apenas científica; envolve criar uma nova espécie e ocupar diante dela uma posição comparável à de um criador.

A Criatura, porém, é quem suporta grande parte das consequências concretas desse experimento. Ela não pediu para existir, não escolheu o corpo que recebeu e não possui inicialmente qualquer comunidade capaz de orientá-la.

A dimensão prometeica, portanto, não pode ser reduzida à ideia de “ciência proibida”. Shelley está igualmente interessada na responsabilidade daquele que adquire poder. O fracasso de Victor não consiste apenas em descobrir algo que talvez não devesse; consiste em abandonar imediatamente aquilo que sua descoberta tornou possível.

Natureza ou criação social?

A trajetória da Criatura também coloca o romance em diálogo com debates sobre natureza humana, educação e ambiente. Quando começa a observar os De Lacey, demonstra compaixão e desejo de ajudar. A violência surge progressivamente quando aprende que sua aparência basta para excluí-la repetidamente das relações que deseja estabelecer.

Seria simplista concluir que a sociedade é exclusivamente responsável por tudo aquilo que ela faz posteriormente. A Criatura torna-se capaz de escolhas conscientes e decide atingir pessoas inocentes para provocar sofrimento em Victor.

Ainda assim, Shelley recusa a ideia de uma monstruosidade essencial estabelecida desde o nascimento. O personagem possui uma história, aprende valores, muda de comportamento e interpreta suas experiências. Aquilo que ele se torna não está presente de forma completa no instante da criação.

Esse desenvolvimento é uma das razões pelas quais a obra permanece aberta a leituras políticas, filosóficas e psicológicas tão diferentes. O corpo pode marcar a Criatura como exterior à sociedade, mas sua consciência é formada através da própria sociedade que a rejeita.

Masculinidade, maternidade e criação sem mulher

Outro campo importante de interpretação está na maneira como Victor procura produzir vida eliminando a participação feminina do processo reprodutivo. Ele deseja criar uma nova espécie sozinho e imagina que seus descendentes artificiais reconheceriam nele a origem de sua existência.

A experiência fracassa não no sentido técnico, mas no relacional. Victor consegue produzir vida e demonstra-se incapaz de assumir uma função equivalente à responsabilidade parental que sua ação criou.

Essa dimensão ganha força quando a Criatura pede uma companheira. Victor passa a temer a possibilidade de reprodução entre dois seres artificiais e destrói a figura feminina antes de conceder-lhe vida, assumindo novamente o controle absoluto sobre quem pode ou não existir.

A crítica literária desenvolveu amplamente essas questões através de debates sobre gênero, maternidade, reprodução e autoria. Elas ajudam a mostrar que a criação da Criatura não é apenas uma história sobre laboratório, mas também sobre poder sobre corpos e sobre a tentativa de separar criação de cuidado.

A paisagem e a Criatura

Apesar da associação popular com laboratórios e castelos, grande parte da relação entre Victor e sua criação acontece em paisagens naturais monumentais. Montanhas, geleiras, florestas e regiões árticas acompanham momentos importantes do romance e oferecem escalas diante das quais tanto criador quanto criatura parecem menores.

É nos Alpes que a Criatura consegue finalmente obrigar Victor a ouvi-la, e é em regiões progressivamente mais frias e isoladas que sua perseguição final se desenvolve. A natureza não funciona apenas como pano de fundo; participa da tradição romântica que influenciou Shelley e oferece contraste entre experiências humanas e grandeza do mundo exterior.

A extraordinária resistência física da Criatura permite também que ela atravesse ambientes que Victor encontra com enorme dificuldade. Sua força e capacidade de adaptação reforçam a ironia de um criador que fabricou algo fisicamente superior a si mesmo, mas não planejou o que faria com essa superioridade.

No Ártico, a perseguição finalmente se conecta à narrativa de Robert Walton, fechando a estrutura de relatos encaixados que organiza o romance.

O último encontro

Victor morre a bordo do navio de Walton sem conseguir destruir a criatura. Pouco depois, ela aparece e encontra o corpo de seu criador, encerrando a relação que havia organizado praticamente toda a sua existência adulta.

A reação é importante porque não representa triunfo simples. A Criatura lamenta aquilo que aconteceu, reconhece seus crimes e afirma ter sofrido com aquilo que fez, ainda que o sofrimento não elimine sua responsabilidade pelas mortes.

Sem Victor, sua vingança perde o último objetivo. A Criatura anuncia a intenção de afastar-se e destruir a si mesma, desaparecendo na escuridão do Ártico.

Shelley não oferece ao leitor uma cena confirmando materialmente essa morte. O personagem deixa a narrativa da mesma maneira ambígua com que existiu durante boa parte dela: observado por outros, mas nunca completamente reduzido às interpretações feitas sobre ele.

Entre terror e ficção científica

A Criatura ocupa uma posição particularmente importante porque Frankenstein pode ser lido simultaneamente dentro da tradição gótica, do terror e da história da ficção científica. O medo nasce de cadáveres, isolamento, perseguição e morte, enquanto a origem do personagem está relacionada à tentativa humana de compreender e manipular processos naturais.

A Library of Congress classifica a obra tanto como horror quanto como ficção científica, refletindo uma discussão crítica que acompanha o romance há décadas. A questão não exige escolher uma única categoria, porque justamente a combinação de tradições explica parte de sua importância.

A Criatura é assustadora porque resulta de um procedimento de criação artificial, mas também porque possui consciência suficiente para devolver ao criador perguntas que ele não está preparado para responder. O sobrenatural não precisa explicar integralmente sua existência; a ambição científica é suficiente para desencadear o problema.

Essa combinação se tornaria fundamental para incontáveis histórias posteriores sobre experimentação, mutação, inteligência artificial, engenharia genética e vida artificial.

A transformação em ícone do terror

Ao longo dos séculos XIX e XX, a Criatura deixou de depender do romance para existir culturalmente. Teatro, cinema, quadrinhos, televisão, brinquedos e publicidade transformaram sua imagem em uma das figuras fundamentais do horror popular. Já no final do século XIX, a Library of Congress registra que o nome Frankenstein começava a ser associado à criação tanto quanto ao criador.

O cinema acelerou extraordinariamente o processo. A interpretação de Karloff forneceu um rosto imediatamente reconhecível, enquanto continuações e paródias estabeleceram comportamentos e características que Mary Shelley nunca escreveu.

Isso produziu uma situação incomum em que o personagem possui duas identidades culturais simultâneas. Existe a Criatura literária, eloquente, introspectiva e profundamente marcada pela experiência da rejeição; e existe um conjunto de Frankensteins populares derivados principalmente da tradição audiovisual.

As duas versões podem dialogar, mas não devem ser confundidas. Conhecer a diferença permite perceber quanto daquilo que hoje parece “original” foi na verdade produzido mais de um século depois da publicação do romance.

O que a Criatura de Frankenstein não é

A Criatura não se chama Frankenstein no romance. Frankenstein é Victor e sua família, enquanto o ser que ele cria permanece sem nome próprio. A associação entre o sobrenome e a criação desenvolveu-se na recepção da obra e tornou-se especialmente forte através das adaptações.

Também não é correto dizer que Mary Shelley simplesmente chama o personagem de “Monstro” como se fosse seu nome. A palavra monster aparece no texto, ao lado de creature, being, daemon e outras denominações, mas funciona como descrição e julgamento, não como identidade oficial. A própria Criatura chega a utilizar a linguagem da monstruosidade ao falar de si depois de aprender a enxergar seu corpo através da reação dos outros.

Ela tampouco possui a aparência de Boris Karloff no romance. Não existem cabeça achatada, parafusos no pescoço ou a clássica pele verde; a imagem foi construída pela adaptação de 1931 e por sua enorme influência posterior.

Por fim, não se trata de um ser incapaz de falar ou compreender suas ações. A Criatura de Shelley lê, argumenta, aprende idiomas, interpreta literatura e toma decisões conscientes. Algumas das alterações mais conhecidas da cultura popular surgiram justamente ao retirar essas capacidades e substituir um personagem intelectualmente complexo por uma presença predominantemente física.

Criador, criação e responsabilidade

A permanência da Criatura de Frankenstein deve muito à maneira como Shelley evita transformar sua história em advertência simples sobre ciência. Victor realmente ultrapassa limites técnicos extraordinários, mas o romance dedica muito mais espaço ao que acontece depois da criação do que à experiência que lhe concede vida.

Seu maior fracasso talvez não seja conseguir criar, mas acreditar que a responsabilidade termina no instante em que o experimento funciona. Ele produz um ser capaz de aprender, sofrer e desejar relações e depois se recusa a reconhecer qualquer obrigação diante dessa consciência.

A Criatura responde a esse abandono de maneira cada vez mais destrutiva e também precisa responder moralmente por suas escolhas. Shelley não permite que uma única causa explique todas as mortes: Victor abandona, a sociedade rejeita e a Criatura escolhe a vingança.

Essa distribuição de responsabilidade explica por que a história continua produtiva. À medida que novas tecnologias ampliam a capacidade humana de construir, modificar ou automatizar sistemas complexos, Frankenstein continua oferecendo uma pergunta anterior a qualquer tecnologia específica: o que um criador deve àquilo que colocou no mundo?

A permanência da Criatura

Mais de duzentos anos depois de sua primeira publicação, a Criatura permanece uma das figuras fundamentais do fantástico porque pode ser reinterpretada sem perder completamente sua identidade. Já representou medo da ciência, abandono parental, exclusão social, diferença corporal, criação artística, tecnologia sem responsabilidade e o desejo de produzir vida artificial. Nenhuma dessas leituras esgota o personagem porque o romance constrói sua experiência através de conflitos que não possuem solução única.

Sua história também resiste às simplificações da cultura popular. Voltar ao texto de Shelley significa encontrar alguém muito diferente do gigante silencioso que se tornou símbolo do Halloween: um ser que aprende observando uma família, lê Milton e Goethe, discute moralidade com seu criador e compreende perfeitamente a gravidade de sua própria solidão.

Isso não transforma a Criatura em herói inocente. Ela mata, manipula e decide conscientemente produzir sofrimento. O que Shelley faz é permitir que o leitor compreenda como aquela consciência chegou a esse ponto sem exigir que compreensão se transforme em absolvição.

É justamente essa combinação entre vítima e agressor, criação e indivíduo, humanidade intelectual e aparência considerada inumana que tornou a Criatura mais duradoura do que qualquer uma de suas representações específicas. Antes de se tornar o rosto verde de cabeça achatada conhecido por gerações de espectadores, ela já era uma personagem construída para tornar incômoda a fronteira entre aquilo que chamamos de humano e aquilo que aprendemos a chamar de monstro.

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Fontes consultadas:

  • Shelley, Mary Wollstonecraft — Frankenstein; or, The Modern Prometheus. Lackington, Hughes, Harding, Mavor & Jones, 1818. Fonte primária utilizada para a criação e abandono da Criatura, sua aparência, aprendizagem, relação com os De Lacey, leituras, pedido por uma companheira, assassinatos, perseguição a Victor e terminologia empregada no próprio romance.
    Project Gutenberg — edição de 1818 de Frankenstein
  • Library of Congress — Frankenstein; or, The Modern Prometheus. Edição original de 1818. Utilizada para confirmar os dados bibliográficos da primeira publicação e como fonte institucional para o texto original em três volumes.
    Library of Congress — Frankenstein, 1818
  • Library of Congress — “Moving Image Materials: Halloween & Día de Muertos Resources”. Referência para a história cinematográfica da Criatura e para a distinção entre a descrição literária e a aparência criada para Boris Karloff no filme de 1931.
    Library of Congress — Frankenstein no cinema
  • Library of Congress Copyright Blog — “Copyright Horror Stories”. 2020. Utilizada para identificar os elementos visuais associados à versão da Universal — incluindo cabeça achatada, parafusos e pele verde — e distingui-los da personagem originalmente criada por Mary Shelley.
    Library of Congress — Copyright Horror Stories
  • Walker, Malea — “The Evolution of Frankenstein in Comics and Culture: Monster, Villain, and Hero”. Library of Congress, 2018. Referência para a transformação cultural do personagem, a progressiva confusão entre o nome Frankenstein e sua Criatura e sua expansão para outras mídias.
    Library of Congress — The Evolution of Frankenstein in Comics and Culture
  • Library of Congress — Frankenstein. Edison Manufacturing Company, 1910. Dir. J. Searle Dawley. Utilizada para contextualizar a primeira adaptação cinematográfica conhecida do romance e a representação da Criatura por Charles Ogle.
    Library of Congress — Frankenstein, 1910
  • Library of Congress — Bride of Frankenstein. Universal Pictures, 1935. Dir. James Whale. Referência para a transformação cinematográfica do pedido por uma companheira, a criação efetiva da Noiva e a continuação da interpretação de Boris Karloff.
    Library of Congress — Bride of Frankenstein
  • Guston, David H.; Finn, Ed; Robert, Jason Scott et al. (orgs.) — Frankenstein: Annotated for Scientists, Engineers, and Creators of All Kinds. MIT Press, 2017. Edição anotada do texto de 1818 utilizada como referência para a relação entre criação científica, ética e responsabilidade do criador.
    Library of Congress — Frankenstein Annotated
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