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Fantasia

Infinitas Formas Indica: A Sereia da Floresta, de Hiro Kawahara

Uma sereia sobrevive ao desaparecimento do mundo que conhecia, aceita um pacto sobrenatural e desperta em outro corpo, muito longe do lugar ao qual pertencia. É assim que A Sereia da Floresta, de Hiro Kawahara, começa a deslocar uma criatura que conhecemos principalmente dos contos de fadas para um cenário bem menos acolhedor: uma Europa medieval atingida pela peste, marcada pela intolerância religiosa e por comunidades nas quais ser diferente pode rapidamente significar tornar-se uma ameaça.

Brissen, a sereia que atravessa essa transformação, encontra Kui, uma médica e alquimista persa que também vive à margem daquele mundo. As duas possuem origens, experiências e maneiras de compreender a vida muito diferentes, mas compartilham uma condição importante: nenhuma delas se encaixa perfeitamente no lugar em que está. A convivência entre as personagens transforma o que poderia ser apenas uma fantasia sombria sobre monstros, bruxas e perseguição em uma história sobre adaptação, sobrevivência e sobre o trabalho, nem sempre simples, de aprender a conviver com alguém que enxerga as coisas de outro modo.

É uma HQ que chama atenção rapidamente pelo cenário e pela arte, mas aquilo que permanece depois da leitura está muito mais ligado às personagens. Kawahara usa referências reconhecíveis da fantasia e do imaginário europeu sem depender delas para carregar a narrativa. Existe uma sereia, há pactos e elementos sobrenaturais, mas o conflito principal não está em descobrir as regras de um sistema mágico ou derrotar uma grande ameaça. O que realmente interessa é acompanhar o que Brissen fará com a existência que conseguiu preservar.

Por que vale a pena ler?

A Sereia da Floresta vale a pena porque consegue trabalhar com fantasia sombria sem transformar sofrimento em decoração. A peste, a perseguição religiosa e a violência daquele período estão presentes, mas não aparecem simplesmente para deixar a história mais pesada. Elas criam um ambiente em que sobrevivência e pertencimento nunca são garantidos, especialmente para duas personagens que já chegam ao mundo carregando diferenças que os outros podem usar contra elas.

Brissen funciona particularmente bem porque Kawahara não parece interessado em transformá-la imediatamente em uma personagem humana apenas porque agora ocupa um corpo diferente. Ela continua carregando uma maneira própria de compreender relações, escolhas e sobrevivência. Isso provoca momentos de estranhamento, inclusive para o leitor, porque algumas de suas decisões não obedecem exatamente àquilo que esperaríamos de uma protagonista construída a partir de valores inteiramente humanos. É uma escolha importante, porque permite que a sereia continue parecendo realmente outra criatura, e não apenas uma mulher à qual o roteiro acrescentou uma origem fantástica.

Kui, por sua vez, oferece um contraste muito bom. Ela conhece aquele mundo melhor do que Brissen, mas também está longe de ocupar uma posição confortável dentro dele. Seu conhecimento médico e alquímico é valioso em um período dominado pela doença, ao mesmo tempo que pode alimentar suspeitas e preconceitos. A proximidade entre as duas, portanto, não nasce da ideia fácil de que duas pessoas marginalizadas automaticamente se entenderão. Elas precisam aprender como a outra pensa, estabelecer confiança e lidar com diferenças que não desaparecem apenas porque existe afeto.

É justamente nessa relação que a HQ encontra sua parte mais interessante. A fantasia oferece o cenário e os conflitos externos, mas a história ganha força quando começa a observar as escolhas que as personagens fazem para proteger aquilo que construíram. Kawahara trabalha temas como maternidade, identidade e responsabilidade sem transformar a narrativa em uma sequência de discursos explicativos. Muitas dessas questões aparecem naturalmente nas decisões das personagens, e o leitor precisa lidar com elas antes que o próprio texto ofereça respostas muito confortáveis.

Também ajuda bastante o fato de A Sereia da Floresta ser uma história relativamente compacta. São 160 páginas, publicadas em volume único, o que permite conhecer esse universo sem assumir o compromisso de acompanhar uma série extensa. Há momentos em que sentimos que algumas ideias poderiam ser desenvolvidas por mais tempo, principalmente porque o próprio autor já contou que a concepção inicial da obra era bem maior, mas a concentração também favorece a leitura. A HQ entra rapidamente em seu conflito, desenvolve a relação central e chega ao fim sem parecer estar preparando indefinidamente o terreno para algo que só será explicado em outros volumes.

Visualmente, o trabalho também possui personalidade. Kawahara reúne influências de quadrinhos japoneses, europeus e brasileiros sem produzir uma obra que pareça estar imitando diretamente qualquer uma dessas tradições. Há atenção aos cenários e às expressões, mas também uma disposição para deixar algumas sequências respirarem, utilizando desenho e cor para construir atmosfera em vez de explicar tudo por meio de diálogos. A colorização de Nicole Spada acompanha muito bem essas mudanças, principalmente quando a narrativa sai de momentos mais íntimos e entra em ambientes de maior tensão.

Por isso, embora seja fácil apresentar A Sereia da Floresta como “uma releitura sombria de A Pequena Sereia”, essa definição acaba sendo pequena demais para o que o livro faz. A referência existe e foi assumida pelo próprio Kawahara, mas a HQ encontra outro caminho rapidamente. A transformação da protagonista deixa de ser uma história sobre alcançar o mundo humano por amor e passa a colocar uma pergunta mais incômoda: o que acontece quando sobreviver exige abandonar parte daquilo que definia quem você era?

Uma história que mudou durante a criação

O processo de criação ajuda bastante a entender o resultado final. Hiro Kawahara contou que A Sereia da Floresta nasceu originalmente como uma história muito diferente. A primeira versão se passaria durante a Segunda Guerra Mundial, no Oceano Pacífico, envolveria duas espécies de sereias e não teria protagonistas humanas. Cerca de trinta páginas chegaram a ser produzidas antes que o projeto fosse abandonado e reconstruído.

A mudança aconteceu durante a pandemia, período em que Kawahara começou a pensar com mais atenção em temas como ignorância e adaptação. A nova versão levou a história para a Europa medieval e incorporou elementos relacionados à peste, perseguição religiosa, medicina e superstição. A sereia permaneceu, mas aquilo que a cercava mudou completamente, e essa transformação parece ter ajudado o autor a encontrar o centro emocional que a primeira concepção ainda não possuía.

Kawahara também cita A Pequena Sereia como uma referência importante, embora sua interpretação se afaste rapidamente do conto mais conhecido, e menciona A Bruxa, de Robert Eggers, como influência para a atmosfera. Essa combinação explica bem o tom da HQ. Existe algo de fábula na trajetória de Brissen, mas o mundo ao redor dela possui uma dureza histórica que impede que a história assuma completamente a lógica de um conto de fadas.

O projeto também precisou se adaptar às condições de publicação. Segundo o autor, A Sereia da Floresta inicialmente teria aproximadamente o dobro da extensão, mas os custos tornariam a edição independente difícil de viabilizar. Kawahara decidiu concentrar a narrativa e posteriormente começou a trabalhar em material relacionado ao período anterior da história. Saber disso ajuda a entender por que algumas partes do universo parecem maiores do que aquilo que aparece diretamente nas páginas, embora o volume publicado funcione sozinho.

Há uma relação curiosa entre esse processo e o próprio assunto da HQ. A Sereia da Floresta é uma obra sobre personagens obrigadas a se adaptar a circunstâncias que não escolheram, e sua criação também passou por sucessivas mudanças de formato, cenário e tamanho até encontrar a versão que poderia realmente ser publicada. Não é necessário romantizar limitações de produção para reconhecer que, neste caso, elas acabaram ajudando Kawahara a chegar a uma história mais concentrada.

Hiro Kawahara e uma carreira voltada aos quadrinhos

A trajetória do autor também torna o livro interessante dentro dos quadrinhos brasileiros contemporâneos. Hiro Kawahara passou boa parte da carreira trabalhando como ilustrador comercial antes de decidir dedicar cada vez mais espaço aos quadrinhos autorais. Ele já possuía décadas de experiência profissional quando reorganizou sua rotina para diminuir trabalhos comerciais e investir mais diretamente em narrativas próprias e no ensino de desenho.

Essa experiência aparece na segurança visual de A Sereia da Floresta. Kawahara não precisa encher as páginas de informação para demonstrar domínio técnico; há clareza na maneira como conduz o olhar, apresenta ambientes e organiza as sequências. Ao mesmo tempo, seu interesse por autores e escolas muito diferentes ajuda a impedir que a HQ seja facilmente encaixada em uma única tradição.

A colorização também torna o projeto particularmente pessoal. Nicole Spada, filha de Kawahara, foi responsável pelas cores, dando continuidade a uma relação familiar com desenho e criação que o autor já comentou em entrevistas. Não é uma curiosidade necessária para entender a HQ, mas ajuda a perceber que estamos diante de um trabalho autoral construído fora da lógica das grandes equipes industriais de quadrinhos.

O reconhecimento internacional veio em 2025, quando A Sereia da Floresta recebeu o Gold Award do 18º Japan International Manga Award. É uma conquista relevante para uma produção brasileira e certamente ajuda a colocar a obra diante de leitores que talvez não a conhecessem. Ainda assim, o prêmio funciona melhor como porta de entrada do que como argumento definitivo. A HQ merece ser lida porque possui personalidade própria, e não simplesmente porque recebeu reconhecimento fora do país.

Para quem indicamos

Indicamos A Sereia da Floresta para quem gosta de fantasia sombria, mas prefere histórias em que a atmosfera e os elementos sobrenaturais estejam ligados aos conflitos das personagens. Há violência, doença, perseguição e temas adultos, porém a HQ não depende de choque constante nem tenta convencer o leitor de sua maturidade apenas acumulando crueldade.

Também é uma ótima escolha para quem quer conhecer mais dos quadrinhos brasileiros produzidos fora das franquias e personagens mais conhecidos. A obra conversa com mangá, quadrinho europeu, fantasia histórica e conto de fadas, mas a combinação final pertence a Kawahara. Isso é particularmente interessante num momento em que ainda existe uma tendência de olhar para produções nacionais procurando imediatamente descobrir “com o que elas se parecem”, como se uma referência externa fosse necessária para legitimar aquilo que está sendo feito aqui.

E é principalmente por isso que A Sereia da Floresta entra no Infinitas Formas Indica. Não porque seja brasileira, não porque tenha ganhado um prêmio internacional e nem porque possua uma premissa fácil de resumir. Indicamos porque Hiro Kawahara usa uma criatura conhecida, um período histórico carregado de medo e uma relação improvável entre duas mulheres para construir uma fantasia sobre o que significa continuar vivendo quando o mundo em que você sabia existir já não está disponível.

É uma história sobre sobrevivência, mas entende que sobreviver resolve apenas o primeiro problema. Depois disso, ainda é preciso descobrir quem você será.

Ficha rápida

Obra: A Sereia da Floresta
Autor: Hiro Kawahara
Colorização: Nicole Spada
Editora: JBC — selo Start!
Mídia: HQ
Publicação pela JBC: 2023
Formato: volume único
Páginas: 160
Pilar principal: Fantasia
Categoria adicional: Do Brasil
Vertentes: fantasia sombria, fantasia histórica, drama
Classificação indicativa: 16 anos

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