ARQUIVO DO FANTÁSTICO

Mary Shelley

Mary Shelley tinha apenas dezoito anos quando começou a imaginar a história que se tornaria Frankenstein. A juventude da autora costuma fazer parte da lenda em torno do livro, mas pode também esconder algo mais interessante: ela não surgiu do nada. Filha de dois dos pensadores mais radicais de seu tempo, criada em uma casa frequentada por escritores, filósofos e cientistas, Mary cresceu cercada por discussões sobre política, educação, liberdade, direitos das mulheres, religião e os limites do conhecimento humano. Frankenstein nasceu desse ambiente, mas sua carreira não terminou ali. Ao longo das décadas seguintes, ela escreveu sobre guerra, poder, mulheres aprisionadas por estruturas sociais, pandemias, solidão e colapso político, construindo uma obra muito maior do que o monstro que acabou dominando sua memória.

Poucos escritores foram tão completamente absorvidos pela própria criação quanto Mary Shelley. Frankenstein tornou-se um nome universal, mas ocorreu algo curioso nesse processo: primeiro o nome do cientista passou popularmente para sua criatura; depois a criatura se distanciou do livro; e, durante muito tempo, a própria mulher que imaginou os dois permaneceu numa posição secundária, frequentemente apresentada apenas como “esposa de Percy Bysshe Shelley”. A história de Mary é quase o contrário dessa imagem. Ela cresceu num dos ambientes intelectualmente mais incomuns da Inglaterra do começo do século XIX, viveu uma juventude que desafiava convenções sociais, atravessou perdas pessoais devastadoras e continuou escrevendo profissionalmente durante décadas depois da morte do marido.

Filha de dois radicais

Mary Wollstonecraft Godwin nasceu em 30 de agosto de 1797, em Londres, numa família que já carregava dois nomes conhecidos — e controversos — do pensamento britânico. Seu pai era William Godwin, filósofo, romancista e defensor de ideias políticas radicais, autor de Enquiry Concerning Political Justice e do romance Caleb Williams. Sua mãe era Mary Wollstonecraft, escritora, filósofa e autora de Reivindicação dos Direitos da Mulher (A Vindication of the Rights of Woman, 1792), uma das obras fundamentais da história do pensamento feminista. Os dois haviam defendido posições pouco convencionais sobre casamento, educação, autoridade política e organização da sociedade, embora tenham se casado pouco antes do nascimento da filha.

Mary praticamente não conheceu a mãe. Wollstonecraft morreu em 10 de setembro de 1797, onze dias depois do parto, em consequência de uma infecção decorrente de complicações após o nascimento. A ausência materna acompanharia Mary de maneiras que não podem ser reduzidas a uma explicação simples de sua literatura, mas é difícil ignorar o lugar que mães ausentes, famílias desfeitas, nascimento, responsabilidade parental e abandono ocupariam posteriormente em seus livros. A própria trajetória intelectual de Wollstonecraft, preservada nos livros e na memória familiar, permaneceu ao alcance da filha mesmo quando a mulher já não estava presente.

A casa dos Godwin estava longe de ser uma família convencional. Mary cresceu ao lado de Fanny Imlay, filha de Wollstonecraft com o norte-americano Gilbert Imlay, adotada por Godwin. Em 1801, William casou-se novamente, desta vez com Mary Jane Clairmont, que levou para a família seus filhos Charles e Claire; posteriormente nasceu William Godwin Jr. A relação de Mary com a madrasta foi frequentemente difícil, mas o ambiente doméstico permanecia intelectualmente extraordinário. Godwin educava os filhos em grande parte em casa, sem fazer entre meninos e meninas a separação educacional que seria comum naquele período, e Mary tinha livre acesso a sua biblioteca.

Além dos livros, havia as pessoas que atravessavam aquela casa. Mary cresceu num círculo em que podiam aparecer escritores, filósofos e cientistas. Ainda criança, ouviu Samuel Taylor Coleridge recitar A Balada do Velho Marinheiro, poema cuja atmosfera, culpa e estrutura de relato reapareceriam de maneiras interessantes em Frankenstein. Entre os conhecidos de Godwin estavam também cientistas como Humphry Davy e William Nicholson, ligados às discussões contemporâneas sobre química, eletricidade e natureza da matéria. A futura autora não recebeu uma formação universitária, algo praticamente inacessível para uma mulher em sua situação, mas viveu dentro de uma educação informal extremamente ampla.

Mary começou a escrever ainda criança. A história de sua primeira publicação é um pouco mais complicada do que algumas biografias antigas sugerem: um texto ligado a Mounseer Nongtongpaw, publicado quando ela tinha cerca de dez anos, tem sua participação discutida pelos estudiosos, embora documentos indiquem que Mary produziu ao menos uma versão em prosa relacionada à obra. Mais importante que estabelecer um “primeiro livro” é perceber que escrever já fazia parte de sua vida muito antes de Percy Shelley ou de Frankenstein. Ela cresceu numa família que administrava inclusive uma editora voltada a livros juvenis e conviveu desde pequena com o processo concreto de transformar ideias em texto impresso.

Aos quatorze anos, Mary passou períodos na Escócia com a família de William Baxter, amigo de seu pai. As temporadas perto de Dundee tiveram importância particular para sua imaginação. Anos depois, ao recordar sua formação literária, ela relacionaria aquelas paisagens ao desenvolvimento de sua capacidade de inventar histórias. A experiência de observar lugares e transformá-los mentalmente permaneceria importante em toda sua obra: Alpes, lagos, florestas, regiões italianas e, mais tarde, os espaços vazios de uma Europa destruída por uma epidemia nunca são simples pano de fundo em seus romances.

Percy Shelley e uma vida fora das convenções

Quando Mary voltou definitivamente para Londres, reencontrou Percy Bysshe Shelley, jovem poeta que admirava profundamente William Godwin e frequentava a casa da família. Percy era alguns anos mais velho, defendia ideias políticas radicais e já era casado com Harriet Westbrook. Mary e Percy se apaixonaram e, em julho de 1814, quando ela tinha dezesseis anos, fugiram juntos para a Europa continental, acompanhados por Claire Clairmont. A decisão provocou um rompimento temporário com Godwin e colocou Mary numa posição social particularmente vulnerável: ela era uma adolescente vivendo publicamente com um homem casado numa sociedade que tratava homens e mulheres de maneira muito diferente diante desse tipo de transgressão.

A viagem pela França, Suíça e região do Reno foi difícil, feita com pouco dinheiro e em circunstâncias muitas vezes precárias. Mary manteve registros da experiência, que mais tarde seriam transformados, juntamente com material de Percy, em História de uma Viagem de Seis Semanas (History of a Six Weeks’ Tour, 1817). É um detalhe importante porque mostra que Frankenstein não foi exatamente a estreia de uma jovem que, subitamente, decidiu escrever um romance: Mary já registrava viagens, observava paisagens, construía narrativas e trabalhava literariamente suas experiências.

Quando retornaram à Inglaterra, a situação financeira era ruim e Percy enfrentava credores. Mary também engravidou. Sua primeira filha nasceu prematuramente em 1815 e morreu poucas semanas depois. Em janeiro de 1816 nasceu William. Nos anos seguintes, a maternidade seria acompanhada repetidamente pela perda: outros dois filhos de Mary e Percy morreriam ainda pequenos, e apenas Percy Florence Shelley, nascido em 1819, chegaria à idade adulta. Essa sequência de gestações, nascimentos e mortes ocorreu justamente no período em que Mary escrevia sobre criação da vida, responsabilidade e abandono — uma proximidade biográfica que alimentou importantes interpretações feministas de sua obra, embora seja reducionista tratar Frankenstein simplesmente como um código autobiográfico sobre maternidade.

Foi no meio dessa vida emocionalmente turbulenta que surgiu o livro capaz de redefinir a maneira como a cultura imaginaria a criação artificial da vida.

Frankenstein ou o Prometeu Moderno

A origem de Frankenstein ou o Prometeu Moderno (Frankenstein; or, The Modern Prometheus) tornou-se quase tão famosa quanto a história do próprio romance. No verão de 1816, Mary, Percy e Claire viajaram para a região do lago de Genebra, onde encontraram Lorde Byron e o médico John William Polidori. O clima daquele ano estava excepcionalmente frio e chuvoso em consequência das perturbações globais provocadas pela erupção do monte Tambora, ocorrida no ano anterior. Presos durante longos períodos dentro das casas, o grupo leu histórias sobrenaturais e discutiu literatura, filosofia e ciência. Byron propôs então que cada um escrevesse uma história de fantasmas.

Mary demorou a encontrar uma ideia. As conversas entre Percy e Byron, entretanto, haviam passado pela questão que inquietava muitos pesquisadores e pensadores do período: o que separava matéria viva de matéria morta? Experimentos envolvendo eletricidade e contrações musculares, associados especialmente ao trabalho de Luigi Galvani e às discussões posteriores sobre galvanismo, haviam tornado concebível a possibilidade de que fenômenos aparentemente vitais pudessem ser produzidos artificialmente. Mary não escreveu um tratado científico disfarçado de romance, mas encontrou nessas discussões uma linguagem contemporânea para uma pergunta muito mais antiga: o que aconteceria se o homem adquirisse o poder de produzir vida?

A resposta teria surgido numa imagem que Mary descreveu posteriormente como uma espécie de visão entre vigília e sonho: um jovem estudioso diante do ser que acabara de produzir, observando-o começar a demonstrar sinais de vida. A cena não lhe sugeriu apenas um monstro. O aspecto que parece tê-la perturbado era a reação do criador diante da própria obra. Ele deseja produzir vida, consegue realizar aquilo que parecia impossível e imediatamente descobre que não suporta olhar para o resultado.

É aí que se encontra uma diferença essencial entre o romance de Mary Shelley e boa parte das versões populares posteriores. Victor Frankenstein não é simplesmente um cientista louco que cria um monstro perigoso. Ele é um jovem extremamente inteligente e ambicioso que consegue ultrapassar um limite extraordinário e, quando a criação exige dele responsabilidade, foge. O fracasso moral decisivo de Victor acontece depois do sucesso científico. Ele abandona a criatura no instante em que ela abre os olhos.

Essa escolha altera completamente o sentido do livro. A criatura não nasce assassina, tampouco aparece incapaz de pensar. Ao longo de uma das seções mais importantes do romance, ela narra sua própria história e descreve como aprendeu a observar seres humanos, compreender a linguagem e ler. Entra em contato com obras como Paraíso Perdido, de John Milton, as Vidas Paralelas, de Plutarco, e Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Desenvolve consciência moral e deseja companhia, mas descobre repetidamente que sua aparência basta para condená-la antes que possa demonstrar qualquer outra característica. O ser que Victor considera monstruoso aprende a se reconhecer como monstro através do olhar dos outros.

Mary construiu essa transformação de forma lenta. A criatura observa a família De Lacey e aprende não apenas palavras, mas também afeto, pobreza, desigualdade e organização social. A bondade inicial não garante sua permanência porque o mundo que encontra não lhe oferece espaço. Quando a violência começa, o romance não absolve seus crimes, mas faz algo muito mais desconfortável: obriga o leitor a compreender como ele chegou até ali. A pergunta deixa de ser apenas “o que Victor criou?” e passa a ser “o que Victor e a sociedade fizeram com aquilo que ele criou?”.

Uma história contada por vozes dentro de outras vozes

A estrutura de Frankenstein é parte fundamental desse efeito. O romance começa com as cartas do explorador Robert Walton para sua irmã Margaret Saville. No Ártico, Walton encontra Victor Frankenstein, que começa a contar sua história. Dentro do relato de Victor, a criatura assume a narrativa e conta a própria versão dos acontecimentos. Depois, a história retorna a Victor e finalmente a Walton. Essa construção de relatos encaixados impede que exista uma única perspectiva completamente soberana.

Victor chama sua criação de demônio e monstro. Quando finalmente ouvimos a criatura, porém, encontramos alguém capaz de argumentar, sofrer, interpretar literatura e explicar sua própria formação moral. O leitor passa a saber algo que Victor evita reconhecer durante boa parte do romance: por trás do corpo que provoca repulsa existe uma consciência. Ao permitir que o ser fale por si, Mary Shelley transforma aquilo que poderia ser apenas uma história de perseguição em um conflito sobre responsabilidade, reconhecimento e humanidade.

O recurso também estabelece um paralelo entre Victor e Walton. Os dois são homens extremamente ambiciosos que desejam alcançar algo nunca realizado antes. Victor pretende dominar a geração da vida; Walton deseja conquistar regiões desconhecidas do Ártico. O relato de Frankenstein funciona, portanto, como uma advertência oferecida a outro homem que pode cometer uma versão diferente do mesmo erro. Mary não condena a curiosidade ou a descoberta em si. O que questiona é uma ambição que transforma outras vidas em material secundário para a realização pessoal.

É uma diferença importante porque Frankenstein costuma ser simplificado como uma advertência contra a ciência. O livro é muito mais interessante do que isso. Victor não é destruído porque estudou demais. É destruído porque separou conhecimento de responsabilidade, criação de cuidado e ambição individual das consequências que ela produz sobre outras pessoas. Essa leitura continua presente em estudos contemporâneos sobre ciência e ética no romance e ajuda a explicar por que Frankenstein é constantemente retomado sempre que surgem novas tecnologias capazes de modificar vida, corpo ou inteligência.

O Prometeu moderno

O subtítulo já indica que Mary pretendia trabalhar numa escala maior que a de uma simples história de fantasmas. Prometeu, na mitologia grega, é associado ao roubo do fogo dos deuses e à entrega desse poder aos homens, recebendo como consequência uma punição terrível. Outras tradições também o relacionavam à criação da humanidade. Ao apresentar Frankenstein como o “Prometeu moderno”, Mary coloca seu jovem cientista dentro de uma história muito mais antiga sobre conhecimento, criação e transgressão.

Mas Victor é um Prometeu peculiar. Depois de roubar seu equivalente do fogo, não sabe o que fazer com ele. Seu problema não é apenas ter atravessado a fronteira entre vida e morte; é imaginar que a capacidade de criar lhe dá o direito de abandonar a criação quando ela não corresponde àquilo que havia idealizado.

Essa discussão ajuda também a entender por que muitos estudiosos tratam Frankenstein como uma das obras fundadoras da ficção científica. O romance preserva elementos fundamentais do gótico — paisagens sombrias, perseguição, morte, ruínas emocionais e uma atmosfera de fatalidade —, mas o acontecimento que coloca tudo em movimento não depende de uma maldição ou intervenção divina. Victor procura descobrir um processo natural e utiliza conhecimento humano para produzir algo novo. O extraordinário nasce de uma extrapolação das discussões científicas de seu próprio tempo.

A mulher escondida dentro de Frankenstein

Ler Frankenstein apenas como narrativa sobre ciência também deixa muita coisa para trás. Mary Shelley era filha da mulher que havia escrito Reivindicação dos Direitos da Mulher, mas isso não significa que tenha simplesmente transformado as ideias de Wollstonecraft em discursos feministas pronunciados por suas personagens. Sua estratégia foi geralmente mais indireta, e parte da riqueza do romance está justamente na tensão entre aquilo que ele mostra e aquilo que seus personagens são capazes de perceber.

Um dos aspectos mais discutidos é a própria criação da criatura. Victor encontra uma maneira de produzir vida sem participação feminina. Apropria-se de uma função biológica ligada à gestação e ao nascimento e acredita poder executá-la sozinho. O resultado não é necessariamente uma condenação abstrata da ciência masculina, mas o romance deixa evidente o que desaparece do projeto: relação, cuidado e responsabilidade depois do nascimento. O criador deseja o momento da descoberta; não deseja aquilo que vem depois dela. Estudos feministas sobre Frankenstein apontam justamente para essa separação entre uma ciência masculina voltada para conquista e uma esfera de cuidado que a sociedade atribuía às mulheres.

A ideia se torna ainda mais clara quando a criatura exige uma companheira. Victor começa a produzir um segundo ser e depois o destrói antes de lhe dar vida. Seu medo não se limita à possibilidade de que ela também seja perigosa. Ele imagina que a nova criatura possa tomar decisões próprias, rejeitar o parceiro planejado para ela e, sobretudo, reproduzir-se. Victor deseja controlar não apenas a criação feminina, mas também sua sexualidade e sua capacidade reprodutiva. A cena tornou-se um dos pontos centrais das leituras feministas do romance porque coloca, nas mãos de um homem, o poder de decidir se uma mulher que ainda não existe terá direito a existir e determinar o próprio futuro.

As mulheres humanas do livro também ocupam posições reveladoras. Elizabeth, Justine e outras personagens estão fortemente ligadas à esfera doméstica, enquanto os homens estudam, viajam, exploram, investigam e tomam decisões públicas. A princípio, isso pode parecer apenas uma reprodução das convenções do período. O problema é que essa organização não funciona: as mulheres acabam sofrendo ou morrendo em consequência das ações de homens que controlam o conhecimento e a autoridade, mas falham justamente quando precisariam assumir responsabilidade. Justine é condenada por um crime que Victor sabe que ela provavelmente não cometeu, e ele permanece em silêncio. O romance mostra, portanto, mulheres com pouco poder sendo atingidas pelas decisões de homens que possuem muito mais liberdade de ação.

Por isso é difícil encaixar Mary Shelley confortavelmente numa definição simples de “romancista feminista”. Ela podia escrever mulheres enquadradas em papéis domésticos ao mesmo tempo em que expunha o custo dessas estruturas. O mesmo ocorre em obras posteriores, nas quais personagens femininas negociam casamento, dependência econômica, autoridade familiar e poder político. Estudos recentes sobre sua carreira enfatizam justamente que sua relação com o legado de Wollstonecraft não ocorreu apenas pela repetição explícita das ideias da mãe, mas pela incorporação de questões sobre direitos, liberdade e desigualdade dentro das situações vividas por seus personagens.

Política sem transformar o romance em panfleto

O outro grande fantasma intelectual da infância de Mary era William Godwin. Seu pai havia escrito sobre justiça política, hierarquia, propriedade e liberdade individual, e essas discussões faziam parte do ambiente em que ela foi educada. Mary, porém, cresceu vendo também os custos pessoais de uma vida construída em torno de grandes princípios. Em sua ficção, é frequente encontrar homens idealistas ou ambiciosos cujos projetos públicos produzem consequências terríveis nas relações privadas.

Frankenstein pode ser lido dentro dessa tensão. Victor acredita na extraordinária capacidade do indivíduo e fecha-se progressivamente num projeto particular que considera maior que qualquer obrigação familiar ou social. O resultado é quase uma crítica ao mito do gênio isolado. Não basta possuir razão, talento e liberdade se essas qualidades são desligadas de empatia e responsabilidade.

A criatura, por sua vez, aprende sobre organização política justamente enquanto aprende a ser humano. Ao observar os De Lacey e estudar livros, descobre que existem riqueza e pobreza, propriedade, poder e desigualdade; aprende que nascimento e posição social determinam como indivíduos são tratados antes mesmo que suas qualidades pessoais sejam conhecidas. Logo depois ele próprio experimenta uma forma extrema do mesmo fenômeno: nenhuma ação é suficiente para fazê-lo superar a categoria em que os outros o colocaram pela aparência. Nesse sentido, sua monstruosidade é ao mesmo tempo física e social.

Mary continuaria usando a ficção para discutir política de maneira indireta. Seus romances históricos permitem observar tirania, guerra e autoridade através do passado, enquanto O Último Homem desloca essas preocupações para o futuro e imagina instituições políticas enfrentando uma catástrofe que torna seus projetos de poder quase absurdos. A obra da filha de Godwin e Wollstonecraft permaneceu política; apenas aprendeu a esconder a discussão dentro de pessoas, famílias e histórias.

O que a maternidade tem a ver com Frankenstein?

Poucos aspectos da biografia de Mary produziram tantas interpretações quanto sua relação com nascimento e morte. A mãe morreu depois de trazê-la ao mundo; sua primeira filha morreu poucas semanas depois de nascer; durante a composição e publicação de Frankenstein, Mary atravessava gestações e maternidade; nos anos seguintes perderia outras crianças. É compreensível que críticos tenham encontrado no romance uma série de imagens ligadas às ansiedades da criação e do nascimento.

Ainda assim, a relação mais produtiva não é imaginar Victor simplesmente como uma versão masculina de Mary Shelley. O romance parece estar muito mais interessado na obrigação criada pelo ato de dar vida. Victor deseja intensamente produzir um ser, mas nunca pensa seriamente no que deverá a ele depois. A criatura nasce sem família, sem nome, sem educação e sem qualquer comunidade à qual pertença. Precisa praticamente criar a si mesma.

Essa perspectiva torna o livro estranhamente atual. A pergunta de Mary não termina no laboratório. Qual é a responsabilidade de alguém diante daquilo que colocou no mundo? O que acontece quando a capacidade técnica de produzir alguma coisa avança mais rápido que a reflexão sobre suas consequências? E até onde um criador continua responsável quando sua criação se torna independente? Essas questões explicam parte da facilidade com que Frankenstein atravessou dois séculos e passou a ser associado sucessivamente à industrialização, engenharia genética, clonagem, inteligência artificial e outras tecnologias que Mary jamais poderia ter previsto.

Receptividade

Frankenstein foi publicado anonimamente em 1º de janeiro de 1818. A edição não trazia o nome de Mary Shelley, e o prefácio havia sido escrito por Percy. O livro recebeu um número significativo de resenhas para uma pequena edição anônima, mas a reação foi bastante dividida. Alguns críticos reconheceram sua imaginação e força; outros consideraram a história absurda, desagradável ou moralmente problemática. Walter Scott esteve entre os leitores que perceberam qualidades extraordinárias no romance, embora inicialmente tenha suspeitado que Percy pudesse ser o autor.

A confusão em torno da autoria revela algo importante sobre o contexto em que Mary escrevia. Uma jovem de vinte anos produzir uma narrativa desse tipo não correspondia facilmente às expectativas culturais sobre literatura feminina. Quando sua autoria se tornou conhecida, parte da recepção passou também a julgar o livro através de seu sexo, de sua família e da reputação política dos Godwin e dos Shelley. O romance era estranho por si mesmo, mas o fato de ter saído da imaginação de uma mulher tornava-o ainda mais desconfortável para alguns leitores.

Também é importante corrigir uma ideia repetida com frequência: Percy Shelley não foi o verdadeiro autor de Frankenstein. Os manuscritos preservados pela Bodleian Library, em Oxford, permitem acompanhar o processo de escrita e mostram as intervenções editoriais de Percy sobre o texto de Mary. Ele sugeriu palavras, alterou passagens e participou de uma relação intelectual bastante próxima com a esposa, algo normal dentro da parceria literária dos dois. Isso é muito diferente de transferir-lhe a autoria. Estudos estilométricos modernos, inclusive, reforçam que a assinatura estilística do romance pertence a Mary Shelley.

A transformação cultural do romance começou muito cedo. Em 1823, apenas cinco anos depois da publicação, Richard Brinsley Peake levou aos palcos Presumption; or, The Fate of Frankenstein. A adaptação simplificou elementos do livro, transformou a criatura em figura teatral e alcançou enorme popularidade. O sucesso das versões de palco ajudou a ampliar o interesse pelo romance e coincidiu com a publicação de uma segunda edição, desta vez identificando Mary Shelley como autora.

Mary ainda retornaria profundamente ao livro. A edição de 1831, aquela que durante muito tempo se tornou a versão mais difundida, não é simplesmente uma reimpressão. Ela revisou o texto, modificou passagens, acrescentou uma introdução contando a famosa história do verão de 1816 e alterou alguns aspectos filosóficos da narrativa. Estudos comparativos costumam observar que a versão de 1818 preserva de maneira mais forte certas tensões materialistas, políticas e científicas de sua juventude, enquanto a de 1831 dá maior espaço a ideias de destino e fatalidade. As duas são Frankenstein, mas representam momentos diferentes da mesma autora.

Depois de Frankenstein

A publicação do romance não trouxe estabilidade à vida de Mary. Em 1818, ela e Percy deixaram a Inglaterra e passaram os anos seguintes principalmente na Itália. Foi um período intelectualmente fértil, mas pessoalmente devastador. Seus filhos Clara e William morreram ainda pequenos, e Mary atravessou longos períodos de luto e depressão. Percy Florence, nascido em Florença em 1819, tornou-se o único filho do casal a sobreviver até a idade adulta.

Em 1822, ocorreu a perda que transformaria definitivamente sua vida. Percy Bysshe Shelley morreu afogado aos 29 anos quando seu barco naufragou na costa italiana. Mary tinha apenas 24 anos. No ano seguinte, voltou para a Inglaterra com o filho e iniciou uma segunda etapa da carreira que é frequentemente esquecida quando sua biografia termina junto com a de Percy.

Ela continuou escrevendo romances, contos, ensaios, biografias e livros de viagem, ao mesmo tempo em que trabalhou extensamente na organização, edição e publicação das obras do marido. Esse trabalho foi decisivo para a construção da reputação póstuma de Percy Shelley. Existe, portanto, uma ironia histórica: durante muito tempo Mary foi tratada como uma figura secundária na biografia do grande poeta romântico, embora tenha sido justamente ela uma das principais responsáveis por garantir que os textos dele permanecessem disponíveis para as gerações seguintes.

Shelley além de Frankenstein

A sombra de Frankenstein é tão grande que pode produzir a impressão de que Mary Shelley teve apenas uma grande ideia quando ainda era adolescente. Sua carreira mostra exatamente o contrário. Os livros seguintes não repetem simplesmente a fórmula da criatura e do criador; exploram história, política, família, epidemias, relações entre homens e mulheres e diferentes formas de isolamento.

Mathilda

Mathilda é talvez o caso mais evidente de uma Mary Shelley que permaneceu escondida durante muito tempo. Escrita por volta de 1819–1820, a novela acompanha uma jovem cuja relação com o pai assume uma dimensão incestuosa e psicologicamente devastadora. Mary enviou o manuscrito a William Godwin, mas ele não o encaminhou para publicação, provavelmente por considerar o tema escandaloso demais. A obra permaneceria inédita durante a vida da autora e só seria publicada integralmente no século XX.

O livro interessa não apenas pela ousadia temática. Mathilda trabalha luto, culpa, desejo, autoridade paterna e dificuldade de uma mulher construir identidade fora das relações que os homens estabelecem para ela. Também mostra que Mary estava disposta a explorar territórios emocionalmente desconfortáveis mesmo depois da recepção controversa de Frankenstein.

Valperga

Publicado em 1823, Valperga leva a discussão política para a Itália medieval. O romance acompanha a ascensão do líder militar Castruccio Castracani, mas Mary desloca parte importante do centro moral da narrativa para mulheres que enfrentam as consequências de sua ambição, especialmente Euthanasia. Em vez de celebrar o conquistador como grande homem da história, o livro contrapõe poder militar, guerra e tirania a outras formas de comunidade e autoridade.

É um exemplo claro de como Shelley conseguia inserir suas preocupações políticas sem escrever um tratado. Utilizando o passado, discutia problemas muito próximos de seu próprio presente: quem paga pela ambição dos líderes, qual o lugar das mulheres dentro das estruturas de poder e até onde a glória política pode justificar violência.

O Último Homem

Se existe uma obra de Mary Shelley que mais merece ser recuperada da sombra de Frankenstein, provavelmente é O Último Homem (The Last Man), publicado em 1826. O romance se passa num futuro distante para os leitores do século XIX, no final do século XXI, e acompanha uma epidemia que se espalha progressivamente até ameaçar toda a humanidade. Guerras continuam, governos tentam reagir, líderes mantêm projetos políticos e sociedades procuram preservar rotinas enquanto uma força indiferente torna essas estruturas cada vez menos relevantes.

É uma premissa surpreendentemente moderna, mas o interesse do livro vai muito além da antecipação de histórias contemporâneas de pandemia. A epidemia permite a Mary perguntar o que acontece com política, nacionalismo, religião, classe e poder quando as instituições humanas enfrentam algo que não pode ser negociado ou conquistado. Pesquisadores contemporâneos têm justamente retornado ao romance para discutir a relação entre crise, liderança política, isolamento e comportamento coletivo.

Há também uma dimensão profundamente pessoal. Personagens do romance carregam traços que os leitores e críticos relacionaram a Percy Shelley e Lorde Byron, ambos mortos quando Mary escreveu o livro. Assim, o fim do mundo pode ser lido também como transformação imaginativa de um sentimento muito particular: a experiência de uma mulher ainda jovem que havia visto desaparecer boa parte do círculo com o qual imaginara seu futuro.

Quando foi lançado, O Último Homem não encontrou o mesmo reconhecimento que Frankenstein. A ideia de escrever sobre uma humanidade quase extinta, somada ao pessimismo e à estrutura extensa do romance, provocou incompreensão e críticas. Durante muito tempo ficou entre as obras menores de Shelley. Sua recuperação moderna, especialmente no contexto do crescimento da ficção pós-apocalíptica e dos debates sobre pandemias, mostrou o quanto o livro estava adiantado em relação a parte das expectativas de seus primeiros leitores.

The Fortunes of Perkin Warbeck

Em The Fortunes of Perkin Warbeck, de 1830, Mary voltou ao romance histórico e à discussão sobre legitimidade política, guerra e ambição. Como em Valperga, o passado oferecia distância suficiente para que questões contemporâneas fossem examinadas sem que a narrativa assumisse a forma de um manifesto. A própria escolha de personagens historicamente controversos permitia questionar a maneira como poder e legitimidade são construídos.

Lodore e Falkner

Os romances tardios Lodore, de 1835, e Falkner, de 1837, podem parecer menos espetaculares quando comparados a um cadáver reanimado ou ao fim da humanidade, mas são importantes para compreender a continuidade das preocupações de Mary. Família, casamento, dependência econômica, educação feminina e as limitações impostas às mulheres ocupam lugar central nessas histórias. Estudos recentes sobre sua carreira mostram que essas obras continuam a discutir direitos das mulheres e formas mais igualitárias de comunidade, embora através do registro do romance doméstico.

Há algo particularmente interessante nisso. Mary Shelley não passou a vida tentando escrever outro Frankenstein. Ela mudou de gênero, escala e cenário conforme as questões que queria explorar. A autora do monstro também escreveu romance histórico, narrativa psicológica, distopia pandêmica, biografia, ensaio e literatura de viagem.

Influências, parceiros e um círculo extraordinário

Nenhuma influência foi provavelmente tão permanente quanto seus próprios pais. Mary Wollstonecraft ofereceu um legado de pensamento sobre educação, autonomia feminina, razão e igualdade; William Godwin, discussões sobre política, justiça, responsabilidade individual e organização social. Mary não repetiu nenhum dos dois de maneira servil. Seus romances frequentemente parecem testar as grandes ideias radicais que herdou, perguntando o que acontece quando princípios abstratos entram em contato com famílias, relações afetivas e vulnerabilidades reais.

Percy Bysshe Shelley foi ao mesmo tempo companheiro, interlocutor intelectual, leitor e editor. O manuscrito de Frankenstein preserva suas anotações, tornando possível observar concretamente o diálogo entre os dois durante a composição. Mary também leu e comentou o trabalho de Percy, e posteriormente dedicaria anos a organizar sua obra. É mais produtivo compreender os Shelley como um casal intelectualmente colaborativo do que repetir tanto a antiga imagem de Mary como discípula do marido quanto a teoria inversa de que ele teria escrito seu romance.

Lorde Byron teve importância menos direta, mas o encontro de 1816 foi decisivo. A provocação para escrever histórias sobrenaturais colocou em movimento não apenas Frankenstein. John Polidori, que também participava do grupo, utilizou o mesmo episódio como ponto de partida para O Vampiro (The Vampyre), publicado em 1819 e fundamental para o desenvolvimento do vampiro aristocrático na literatura. Em poucos dias de conversas à beira do lago de Genebra, portanto, surgiram sementes de dois dos grandes arquétipos do horror moderno.

Entre as influências literárias de Mary estavam também John Milton, especialmente Paraíso Perdido, cuja presença dentro de Frankenstein é explícita; Samuel Taylor Coleridge, Goethe, Plutarco e a tradição do romance gótico que a precedeu. Mas sua obra não se limitou a combinar esses modelos. Mary colocou o gótico em contato com ciência contemporânea, filosofia política e problemas sociais, produzindo algo que já apontava para caminhos que a literatura só desenvolveria plenamente nas décadas seguintes.

De Frankenstein ao mundo moderno

O legado de Mary Shelley possui duas dimensões que às vezes parecem contraditórias. De um lado existe o romance, complexo, filosófico e cheio de vozes conflitantes. Do outro existe Frankenstein como mito cultural, uma história que escapou de seu livro e passou a ser recontada por pessoas que muitas vezes nunca leram o original.

Isso começou quase imediatamente com o teatro. A adaptação Presumption, de 1823, já modificava a criatura e simplificava a narrativa para funcionar no palco. Nas décadas seguintes, numerosas peças repetiram o processo. Quando o cinema finalmente encontrou Frankenstein, portanto, não estava adaptando apenas Mary Shelley: estava recebendo também mais de um século de transformações teatrais.

O cinema criou outro Frankenstein

O filme Frankenstein, dirigido por James Whale em 1931 e estrelado por Boris Karloff como a criatura, tornou-se provavelmente a adaptação mais importante para a construção da imagem popular do personagem. A cabeça achatada, os eletrodos no pescoço, o andar rígido e a fala extremamente limitada não vêm diretamente do romance de Mary Shelley. O filme simplificou a dimensão filosófica da criatura e incorporou elementos da tradição teatral, mas criou uma imagem visual tão poderosa que passou a competir com o próprio livro pela definição do que “Frankenstein” significa.

A sequência A Noiva de Frankenstein, de 1935, ampliou ainda mais o mito. Curiosamente, o filme começa recuperando a própria Mary Shelley como personagem, interpretada por Elsa Lanchester, antes de continuar uma história que já se afasta significativamente da narrativa original. O cinema passou a criar uma mitologia própria a partir do material de Shelley, com cientistas, assistentes, laboratórios elétricos e noivas monstruosas que se tornaram praticamente inseparáveis de Frankenstein na cultura popular.

Outras adaptações tentaram aproximar-se novamente do romance. Mary Shelley’s Frankenstein, dirigido por Kenneth Branagh em 1994, explicitou essa intenção já no título. Mais recentemente, Guillermo del Toro realizou sua própria versão de Frankenstein, lançada pela Netflix em 2025. Del Toro fala há anos sobre sua ligação pessoal com o livro e, ao explicar sua adaptação, destacou a ansiedade e a dimensão emocional que percebe na narrativa de Mary Shelley, procurando recuperar mais da relação entre criador e criatura do que simplesmente reproduzir o monstro consolidado pelo cinema do século XX.

O monstro nos mangás

No Japão, uma das adaptações mais importantes veio de Junji Ito. O mangaká serializou sua versão de Frankenstein entre 1994 e 1998 e manteve uma relação relativamente próxima com a narrativa original, embora filtrada pelo horror corporal e pelo detalhamento visual característicos de seu trabalho. A edição posteriormente reunida como Frankenstein: Junji Ito Story Collection recebeu reconhecimento internacional e oferece algo especialmente interessante para leitores acostumados apenas com o cinema: uma criatura muito mais próxima do ser eloquente, angustiado e solitário imaginado por Mary Shelley.

Frankenstein nos games

The Wanderer: Frankenstein’s Creature, desenvolvido pela La Belle Games em parceria com a ARTE, escolhe justamente o ponto de vista que muitas adaptações abandonam. O jogador controla a criatura e experimenta o mundo através de alguém que começa sem memória, educação ou compreensão moral pronta. As escolhas e encontros moldam sua experiência, aproximando o jogo de uma das ideias mais importantes do romance: o ser não nasce conhecendo bem e mal; aprende a interpretar o mundo através da forma como é tratado.

Essa abordagem mostra por que Frankenstein funciona tão bem em mídias interativas. A pergunta do romance não é apenas o que a criatura fará, mas aquilo em que poderá se transformar depois de encontrar determinados seres humanos. Transformar essa tensão em escolhas do jogador é uma forma bastante natural de adaptar uma questão que já estava no livro de 1818.

Frankenstein tornou-se uma linguagem

Talvez o maior sinal da importância cultural de Mary Shelley seja o fato de que Frankenstein deixou de ser apenas o nome de um personagem ou de um romance e se tornou uma metáfora. A expressão aparece sempre que uma criação humana parece escapar ao controle do criador: novas tecnologias, organismos modificados, armas, sistemas autônomos e, mais recentemente, inteligência artificial são frequentemente descritos através da imagem de Frankenstein.

A comparação nem sempre é fiel ao livro. Muitas vezes ela reduz a história à ideia de que “mexer com a natureza é perigoso”. Mary Shelley escreveu algo mais sofisticado. Victor não fracassa apenas porque ultrapassou um limite científico; fracassa porque imagina que seu dever termina quando o experimento funciona. O livro pergunta não apenas se podemos criar, mas o que devemos àquilo que criamos.

É provavelmente essa segunda pergunta que mantém Frankenstein tão vivo depois de mais de duzentos anos.

O legado de Mary Shelley

Durante muito tempo, a reputação literária de Mary permaneceu dividida de maneira injusta. Frankenstein sobrevivia como fenômeno cultural enquanto os demais livros da autora eram pouco lidos, e sua biografia era frequentemente organizada ao redor de Percy Shelley. A recuperação crítica do século XX começou a modificar esse quadro, especialmente quando pesquisadoras ligadas aos estudos feministas retornaram a seus romances e aos manuscritos para reconstruir uma carreira que havia sido reduzida a um único livro.

Essa recuperação revelou uma autora muito mais coerente do que a antiga imagem da adolescente genial que teve uma ideia extraordinária e nunca conseguiu repeti-la. Os temas mudam, mas certas perguntas permanecem. O que acontece quando a ambição de um homem se torna mais importante que as pessoas ao seu redor? O que as grandes decisões políticas fazem com a vida privada? Quem tem direito de criar, falar, escolher e participar da sociedade? Qual é a responsabilidade de uma geração diante daquilo que coloca no mundo? E como indivíduos continuam vivendo depois que as estruturas que davam sentido à própria existência desaparecem?

Frankenstein pergunta isso através de um corpo artificial. Valperga utiliza guerra e tirania. Mathilda entra numa família destruída. O Último Homem elimina quase toda a população do planeta. Lodore e Falkner aproximam as mesmas tensões da vida doméstica. Vista dessa maneira, a carreira de Mary Shelley deixa de parecer uma coleção de livros muito diferentes e passa a revelar uma preocupação contínua com o modo como poder e responsabilidade afetam relações humanas.

Ela morreu em 1º de fevereiro de 1851, em Londres, aos 53 anos, provavelmente em consequência de um tumor cerebral. Até então havia produzido romances, contos, biografias, ensaios e relatos de viagem, além do enorme trabalho editorial dedicado a Percy Shelley. Sua obra, porém, continuaria passando por uma transformação que talvez nem ela pudesse imaginar.

A jovem que participou de uma brincadeira de histórias de fantasmas em 1816 terminou criando um dos grandes mitos da modernidade. Só que o mito sobreviveu de maneira tão poderosa que, por algum tempo, quase escondeu sua criadora.

Voltar a Mary Shelley significa inverter esse processo. Frankenstein continua sendo sua grande obra, mas fica ainda melhor quando percebemos que não foi um acidente isolado. Ele nasceu de uma escritora formada entre filosofia radical, ciência, literatura gótica, perdas familiares e debates sobre a posição das mulheres; uma autora que, ao longo de toda a carreira, continuou tentando imaginar aquilo que acontece quando os seres humanos conquistam poder antes de aprender o que fazer com a responsabilidade que acompanha esse poder.

Talvez seja por isso que Victor Frankenstein envelheceu tão pouco.

O laboratório mudou. A pergunta de Mary Shelley, não.


Fontes consultadas

  • LA ROCQUE, Lucia de; TEIXEIRA, Luiz Antonio — “Frankenstein, de Mary Shelley, e Drácula, de Bram Stoker: gênero e ciência na literatura”. História, Ciências, Saúde — Manguinhos. Estudo brasileiro utilizado para a discussão sobre gênero, ciência, papéis sociais, criação e as leituras feministas de Frankenstein. É uma referência muito mais precisa do que manter apenas “SciELO Brasil — estudos sobre Frankenstein”. SciELO — Frankenstein, gênero e ciência na literatura
  • “Frankenstein: quando a Ficção Científica questiona a Ciência”. Ciência & Educação. Artigo utilizado para a relação entre ficção científica, desenvolvimento científico, responsabilidade e os possíveis efeitos sociais do conhecimento e da intervenção tecnológica. SciELO — Frankenstein: quando a Ficção Científica questiona a Ciência
  • DarkSide Books — Mary Shelley. Referência brasileira para a autora e para as edições nacionais de obras como Frankenstein, Mathilda, O Último Homem e Lodore. DarkSide Books — Mary Shelley
  • Editora Landmark — O Último Homem: The Last Man. Fonte para a edição brasileira bilíngue do romance de 1826, com tradução e notas de Marcella Furtado, e para sua apresentação como narrativa de futuro marcada por guerra e uma praga que ameaça a humanidade. Editora Landmark — O Último Homem
  • Romantic Circles — “About Mary Wollstonecraft Shelley”. Base biográfica para infância e família de Mary Shelley, sua formação, relação com William Godwin e Percy Bysshe Shelley, viagens, o verão de 1816 em Genebra, casamento e desenvolvimento de sua carreira literária. Romantic Circles — About Mary Wollstonecraft Shelley
  • Shelley-Godwin Archive — “The Frankenstein Notebooks”. Fonte para os manuscritos de Frankenstein preservados na Bodleian Library e para a distinção entre o rascunho de 1816–1817 e a cópia passada a limpo em 1817, permitindo observar a escrita de Mary Shelley e intervenções de Percy Shelley no processo de composição. Shelley-Godwin Archive — The Frankenstein Notebooks
  • SMITH, Andrew (org.) — The Cambridge Companion to Frankenstein. Cambridge University Press. Coletânea acadêmica utilizada para os contextos social, histórico, científico e literário do romance, sua recepção e diferentes linhas críticas, incluindo gênero, pós-humanismo, ecocrítica e teoria queer. Cambridge University Press — The Cambridge Companion to Frankenstein
  • GORDON, Charlotte — Mary Shelley: A Very Short Introduction. Oxford University Press, 2022. Referência para a vida e a obra de Mary Shelley, sua relação com o legado político e intelectual de Mary Wollstonecraft e William Godwin e a importância de romances posteriores a Frankenstein, como Valperga, O Último Homem, Lodore e Falkner. Oxford Academic — Mary Shelley: A Very Short Introduction
  • “Mary Shelley’s The Last Man: Existentialism and IR meet the post-apocalyptic pandemic novel”. Review of International Studies. Cambridge University Press. Estudo utilizado para a dimensão política, pandêmica, distópica e pós-apocalíptica de O Último Homem e para sua recuperação crítica contemporânea. Cambridge Core — Mary Shelley’s The Last Man
  • Victoria and Albert Museum — “Frankenstein on Stage”. Fonte para a rápida transformação do romance em espetáculo teatral e para adaptações do século XIX, incluindo Presumption; or, The Fate of Frankenstein, encenada em 1823. V&A — Frankenstein on Stage
  • British Film Institute — “Where to begin with the Universal horror cycle”. Referência para Frankenstein (1931), dirigido por James Whale, a interpretação de Boris Karloff, a maquiagem de Jack Pierce e a enorme influência do filme sobre a iconografia posterior da criatura. BFI — Where to begin with the Universal horror cycle
  • Netflix Tudum — “Guillermo del Toro Explains His Adaptation of Frankenstein”. Fonte oficial para a relação pessoal de Guillermo del Toro com o romance de Mary Shelley e para as escolhas de sua adaptação cinematográfica lançada em 2025. Netflix Tudum — Guillermo del Toro Explains His Adaptation of Frankenstein
  • VIZ Media — Frankenstein: Junji Ito Story Collection. Fonte oficial para a adaptação em mangá de Frankenstein realizada por Junji Ito, publicada em inglês pela VIZ em 2018 e creditando Mary Shelley como autora do romance original. VIZ — Frankenstein: Junji Ito Story Collection
  • ARTE / La Belle Games — The Wanderer: Frankenstein’s Creature. Fonte oficial para o jogo narrativo que reinterpreta o romance pela perspectiva da Criatura e estrutura sua jornada a partir de exploração, escolhas e descoberta de sua própria origem. ARTE — The Wanderer: Frankenstein’s Creature

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