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Críticas & Análises

American Horror Story virou refém do próprio passado?

Quando American Horror Story estreou em 2011, parte de sua graça estava numa ideia que hoje parece simples, mas era bastante ousada para uma série de televisão: terminar uma temporada significava realmente terminar aquela história. Murder House podia matar personagens, fechar arcos e levar sua casa assombrada até as últimas consequências porque, no ano seguinte, Ryan Murphy e Brad Falchuk não precisariam encontrar uma desculpa para continuar acompanhando a família Harmon. A segunda temporada poderia colocar Jessica Lange, Sarah Paulson, Evan Peters, Lily Rabe e outros atores diante do público novamente, mas como pessoas completamente diferentes, em outra época, outro lugar e outro tipo de horror. O elenco permanecia familiar enquanto a série tinha permissão para apagar quase todo o resto.

Esse formato ajudou American Horror Story a se tornar uma das principais referências da chamada antologia sazonal, na qual cada temporada conta uma história relativamente independente. A estrutura permitia mudar de uma casa assombrada em Los Angeles para um manicômio nos anos 1960, depois para uma escola de bruxas em Nova Orleans, um circo de aberrações, um hotel e assim por diante. Havia elementos recorrentes, principalmente o gosto de Murphy pelo exagero, pelo grotesco e por personagens que pareciam sempre a um passo de transformar uma tragédia em espetáculo, mas a expectativa era justamente descobrir que tipo de série AHS decidiria ser naquele ano.

Quinze anos depois, a 13ª temporada está sendo vendida de uma maneira quase oposta. American Horror Story: 13, que estreia em 24 de setembro, reúne Jessica Lange, Sarah Paulson, Evan Peters, Angela Bassett, Kathy Bates, Emma Roberts, Gabourey Sidibe e vários outros nomes associados à história da série. Só que não se trata apenas de trazer os atores de volta para novos papéis: personagens de Murder House, Coven, Freak Show, Hotel, Cult e Apocalypse também retornam, e alguns intérpretes aparecem em várias de suas antigas funções. Ryan Murphy descreveu a proposta como uma temporada de “grandes sucessos” e comparou a reunião à ideia de um “Vingadores” de American Horror Story.

Murphy insiste que não está simplesmente fazendo Coven outra vez. Em entrevista à Vogue, explicou que não queria produzir um reboot da terceira temporada e que estava interessado também em recuperar grandes vilões espalhados pela história da série. O trailer divulgado em 10 de setembro reforça isso: Cordelia Goode, Madison Montgomery, Constance Langdon, Kai Anderson, James Patrick March e Twisty aparecem ao lado de outras figuras antigas, enquanto atores como Jessica Lange, Sarah Paulson e Evan Peters assumem múltiplos personagens. No Brasil, a temporada terá 13 episódios de aproximadamente meia hora, com os três primeiros chegando ao Disney+ em 24 de setembro.

A reunião é atraente justamente porque American Horror Story acumulou personagens que muita gente gostaria de encontrar novamente. O problema é que ela também expõe uma mudança curiosa no coração da série. Uma antologia que nasceu da liberdade de abandonar o próprio passado está chegando à sua temporada mais simbólica apostando quase tudo na possibilidade de recuperá-lo. A questão não é se nostalgia é necessariamente ruim, mas em que momento uma série criada para recomeçar passa a depender daquilo que já fez.

A grande ideia de American Horror Story era poder jogar tudo fora

Hoje é fácil olhar para Murder House apenas como a primeira parte de um universo maior, mas a experiência em 2011 era outra. A temporada apresentava uma família chegando a uma casa marcada por décadas de mortes, fantasmas e ressentimentos, e utilizava praticamente todos os excessos que depois seriam associados à série. Havia assassinatos, adultério, gravidez, adolescentes perturbados, fantasmas que conviviam com vivos e Jessica Lange dominando qualquer cômodo em que entrasse como Constance Langdon. A temporada funcionava como uma história que podia ser encerrada porque não precisava preparar a próxima aventura da família Harmon.

A verdadeira prova do formato veio no ano seguinte. Em vez de procurar outra casa assombrada ou uma maneira de acompanhar personagens sobreviventes, Asylum levou boa parte do elenco para uma instituição psiquiátrica administrada pela Igreja Católica em 1964. Jessica Lange deixou de ser Constance e virou a irmã Jude; Evan Peters passou de Tate Langdon para Kit Walker; Sarah Paulson trocou Billie Dean Howard pela jornalista Lana Winters. A série conservava aquilo que o público já gostava nos atores, mas obrigava todos a reconstruírem suas relações com eles.

Esse mecanismo foi essencial porque criou uma familiaridade que não precisava depender de continuidade. Ver Lange aparecer numa nova temporada produzia expectativa, mas não porque alguém queria descobrir “o que aconteceu depois” com sua personagem anterior. A curiosidade estava em saber quem ela seria daquela vez. O mesmo valia para Peters, Paulson, Lily Rabe, Frances Conroy e Denis O’Hare, que começaram a formar uma espécie de companhia de repertório do horror televisivo.

Esse modelo também dava à série uma vantagem que dramas tradicionais raramente possuem. Uma ideia podia ser levada longe demais sem condenar a produção inteira. Se determinada temporada se tornasse excessivamente confusa, o ano seguinte oferecia outro cenário, outro tempo e outra oportunidade de acertar. Se um personagem morresse de forma definitiva, o ator poderia reaparecer poucos meses depois sem que ninguém precisasse ressuscitá-lo. A reinvenção não era apenas uma escolha estética; funcionava como um mecanismo de sobrevivência criativa.

Coven descobriu que alguns personagens eram maiores que a própria temporada

A terceira temporada alterou discretamente essa relação. Coven continuava obedecendo ao formato de antologia: Nova Orleans, bruxaria, uma academia para jovens bruxas e personagens novos. Porém, ela produziu algo que as temporadas anteriores ainda não haviam experimentado na mesma intensidade: um conjunto de figuras que começou a existir para os fãs para além da história específica em que tinha aparecido.

Fiona Goode, Cordelia, Madison Montgomery, Myrtle Snow, Marie Laveau e Misty Day não ficaram marcadas apenas porque pertenciam a uma boa temporada. Elas se tornaram parte de uma identidade visual e cultural muito forte de AHS. O figurino preto, a ideia da Suprema, as frases afiadas, as disputas entre gerações de bruxas e o elenco formado por atrizes como Jessica Lange, Sarah Paulson, Angela Bassett, Frances Conroy e Emma Roberts produziram uma combinação que continuou circulando muito depois do fim da história. A própria FX ainda apresenta Coven como uma das temporadas centrais da identidade da série, e sua permanência na memória do público ajuda a explicar por que qualquer notícia sobre o retorno das bruxas imediatamente ganha atenção.

Não existe nada de errado nisso. Toda série gostaria de criar personagens capazes de sobreviver culturalmente ao episódio em que aparecem. A complicação começa quando a popularidade dessas figuras oferece uma solução aparentemente fácil para um formato cuja principal obrigação era inventar algo novo todos os anos.

A partir dali, a pergunta deixou de ser apenas “qual será a próxima história?”. Começou a existir também uma curiosidade sobre quando determinadas pessoas voltariam, quais temporadas estavam secretamente relacionadas e se havia um grande universo por trás de tudo. Essa transformação não aconteceu de uma vez, mas mudou aos poucos a relação do público com a antologia.

As conexões começaram como detalhes e viraram uma segunda forma de assistir à série

Nas primeiras temporadas, reconhecer um ator era uma brincadeira permitida pelo formato. Com o tempo, a própria série começou a transformar reconhecimento em continuidade. Freak Show trouxe Pepper, personagem apresentada originalmente em Asylum, e mostrou uma parte anterior de sua vida. Hotel recuperou Marcy, a corretora de Murder House, e posteriormente colocou Queenie, de Coven, dentro de sua história. Outros detalhes, sobrenomes e personagens começaram a sugerir que aquelas temporadas aparentemente independentes dividiam o mesmo universo.

A mudança agradava porque oferecia uma recompensa aos espectadores mais fiéis sem necessariamente inviabilizar cada história isolada. Quem lembrava das temporadas anteriores reconhecia conexões adicionais; quem não lembrava ainda conseguia acompanhar o enredo principal. O Hulu, ao apresentar atualmente a ordem das temporadas, mantém justamente essa dupla leitura: cada ano possui seus próprios personagens e histórias, mas existem referências e cruzamentos que se tornam mais claros para quem acompanha a série em sequência.

O problema é que universos compartilhados possuem uma força gravitacional difícil de controlar. Uma conexão discreta gera especulação sobre outra, que gera teorias, que transformam coincidências em pistas e personagens antigos em possibilidades permanentes de retorno. A antologia começa a acumular uma mitologia que passa a competir com sua capacidade de recomeçar.

Isso muda até a maneira como uma temporada nova é recebida. Em vez de olhar apenas para o que aquela história está construindo, uma parte do público passa a procurar relações com aquilo que veio antes. Um nome pode não ser apenas um nome; um lugar pode esconder ligação com uma temporada antiga; um ator pode estar interpretando alguém novo ou alguma variação de um personagem conhecido. A série ganha uma camada divertida de continuidade, mas perde um pouco da inocência de simplesmente abrir uma porta e entrar num pesadelo diferente.

Apocalypse mudou definitivamente o contrato com o público

A oitava temporada foi o momento em que essa tendência deixou de ser periférica. Apocalypse, exibida em 2018, começou com uma premissa de fim do mundo e rapidamente se revelou uma continuação direta de histórias iniciadas em Murder House e Coven. Michael Langdon, apresentado ainda bebê na primeira temporada, tornou-se o Anticristo; as bruxas voltaram com papéis centrais; Jessica Lange retornou como Constance; personagens e elementos de Hotel também passaram pela narrativa. A própria FX apresenta Apocalypse como a oitava parte da antologia, mas a temporada funciona de maneira muito mais satisfatória para quem já conhece esse passado.

Não foi um acidente nem algo que a série tentou esconder. Apocalypse tinha prazer em reencontrar ambientes, personagens e situações antigas. Um episódio praticamente retornava a Murder House para mostrar o que havia acontecido com pessoas que não víamos desde 2011. Para fãs que acompanharam a série desde o começo, o efeito podia ser delicioso justamente porque transformava sete anos de memória televisiva em material dramático.

Mas ali a natureza da antologia havia mudado. Antes, acompanhar Murder House tornava mais interessante reconhecer atores que surgiam em Asylum. Em Apocalypse, acompanhar Murder House e Coven ajudava efetivamente a compreender por que determinadas aparições, relações e resoluções importavam. O passado já não era apenas um detalhe para quem lembrava; começava a carregar parte do peso emocional do presente.

O sucesso dessa estratégia também deixou uma possibilidade que nunca desapareceu completamente. As bruxas poderiam voltar de novo. A casa continuava existindo. Personagens mortos já haviam demonstrado que, dentro das regras sobrenaturais da franquia, a morte nem sempre encerrava uma trajetória. Quanto maior ficava o arquivo de American Horror Story, mais fácil se tornava abrir esse arquivo em vez de construir outro do zero.

Só que AHS nunca abandonou completamente a vontade de experimentar

Dizer que a série virou simplesmente uma franquia de continuações seria injusto. Depois de Apocalypse, 1984 mergulhou no terror slasher e na nostalgia dos anos 1980; Double Feature dividiu sua temporada em duas histórias diferentes; NYC assumiu uma abordagem mais sombria e concentrada, usando o horror para falar da comunidade gay e da crise da AIDS; Delicate seguiu outro caminho e adaptou o romance Delicate Condition, de Danielle Valentine. Mesmo depois de transformar sua continuidade em atração, AHS continuou procurando maneiras de romper com ela.

Essa oscilação talvez explique parte da identidade confusa, mas também interessante, da série atual. American Horror Story quer possuir as vantagens de uma antologia e de uma franquia ao mesmo tempo. Quer poder começar do zero quando encontra uma ideia nova, mas também quer manter à disposição quinze anos de personagens, relações, lugares e imagens que o público reconhece imediatamente.

Não existe uma regra dizendo que isso seja incompatível. Histórias independentes podem coexistir com uma mitologia maior. O problema aparece quando uma das estruturas começa a servir como compensação para a outra. Se a promessa de uma temporada nova deixa de ser suficientemente atraente sozinha, reencontrar personagens queridos se torna um atalho muito tentador.

É por isso que a 13ª temporada oferece um caso tão interessante. Ela não é apenas mais uma história que decidiu incluir referências antigas. É uma produção construída conscientemente como celebração da própria história da série, justamente quando American Horror Story retorna depois de mais de dois anos sem episódios inéditos e chega ao número 13, impossível de ignorar numa franquia de horror.

Jessica Lange explica melhor que ninguém o que mudou

Poucas pessoas representam a primeira fase de American Horror Story tão bem quanto Jessica Lange. Entre Murder House e Freak Show, ela interpretou quatro personagens diferentes em quatro temporadas consecutivas: Constance Langdon, irmã Jude, Fiona Goode e Elsa Mars. O interesse estava justamente em vê-la reconstruída todos os anos. Às vezes poderosa, às vezes decadente, frequentemente as duas coisas ao mesmo tempo, Lange ajudou a dar unidade à série sem precisar interpretar a mesma pessoa.

Quando saiu após Freak Show, sua ausência passou a representar também o fim de uma determinada fase de AHS. Lange ainda retornaria brevemente como Constance em Apocalypse, mas a ideia de vê-la novamente como presença regular parecia cada vez mais distante. Em 2026, Murphy contou que só imaginava realizar a proposta da temporada 13 com ela e que, depois de convencê-la a retornar, procurou Sarah Paulson e Evan Peters.

O detalhe mais curioso é que Lange não volta apenas como mais uma personagem nova. Ela retorna como suas antigas personagens. Paulson fará seis papéis e Peters, cinco; o material divulgado mostra diferentes identidades de temporadas anteriores se encontrando dentro da mesma história. Aquilo que originalmente tornava o elenco especial — assistir aos mesmos atores se transformando em outras pessoas — é agora utilizado para produzir o efeito contrário: reconhecer todas as pessoas que eles já foram.

Isso resume muito bem a mudança da franquia. Antes, Jessica Lange era a memória afetiva que acompanhava o espectador enquanto a história recomeçava. Agora, a própria memória afetiva se tornou a história.

A nostalgia não é o problema por si só

Seria fácil transformar essa análise numa reclamação sobre falta de ideias, mas isso reduziria demais uma série que chegou à 13ª temporada justamente porque soube mudar de forma várias vezes. Depois de quinze anos, realizar uma temporada comemorativa é perfeitamente compreensível. Poucas produções de horror na televisão conseguem acumular personagens suficientes para que uma reunião desse tamanho sequer seja possível, e a própria existência desse elenco mostra quanto AHS marcou uma geração de espectadores.

Também existe prazer legítimo em reencontrar personagens. Constance Langdon não se torna menos interessante porque já apareceu antes, e Angela Bassett como Marie Laveau continua sendo uma combinação que muita gente gostaria de rever. Quando uma história constrói boas figuras, não há virtude automática em abandoná-las para sempre apenas para preservar uma regra de formato.

A temporada 13 pode inclusive utilizar esse passado de maneira inteligente. Colocar personagens de épocas e histórias diferentes diante uns dos outros cria combinações que a série nunca teve oportunidade de explorar. Um ator interpretando múltiplas figuras permite até brincar com a própria natureza da antologia, transformando uma convenção de produção que o público aceita há quinze anos em parte explícita da narrativa.

A questão é outra. Nostalgia funciona melhor quando acrescenta alguma coisa à história presente. Quando sua função principal é provocar a reação de reconhecer alguém, ela começa a substituir desenvolvimento por lembrança. American Horror Story: 13 vai precisar demonstrar que Constance, Cordelia, Madison, Kai, Twisty e os demais estão ali porque existe uma boa história para contar com eles, e não apenas porque seus nomes produzem mais entusiasmo do que personagens novos.

O risco maior é transformar a própria série em um catálogo

A divulgação da temporada deixa claro quanto o reconhecimento está sendo utilizado como atração. O anúncio oficial brasileiro destaca o retorno de Constance Langdon, Cordelia Goode, Madison Montgomery, Marie Laveau, o Homem de Borracha, Twisty e Kai Anderson. O trailer lançado agora funciona quase como uma sequência de reencontros, e boa parte da cobertura da imprensa gira em torno de descobrir quais papéis cada ator retomará.

Isso faz sentido como marketing, mas também produz uma expectativa diferente daquela que definia as primeiras temporadas. Antes de Asylum, a pergunta era o que Ryan Murphy faria depois de uma casa mal-assombrada. Agora, uma das perguntas principais é quantas versões de Evan Peters aparecerão e quando determinada personagem querida entrará em cena. O prazer da descoberta começa a dividir espaço com o prazer da conferência.

Há uma diferença importante entre referência e memória dramática. Uma referência funciona porque reconhecemos algo; memória dramática funciona porque aquilo que aconteceu antes altera aquilo que está acontecendo agora. Se a temporada conseguir usar quinze anos de história para colocar personagens diante das consequências de suas escolhas, o passado pode funcionar como matéria narrativa. Se apenas empilhar aparições, corre o risco de parecer uma convenção de fãs produzida com orçamento de televisão.

O número de retornos torna esse desafio ainda maior. Sarah Paulson interpretar seis personagens e Evan Peters cinco é tecnicamente divertido e combina perfeitamente com a extravagância de AHS, mas também ocupa espaço. Cada aparição precisa disputar tempo com a nova história, com novos personagens e com qualquer ameaça que pretenda sustentar treze episódios. Quanto mais a temporada precisa celebrar, menos espaço sobra para algo que ainda não possui história suficiente para ser celebrado.

O verdadeiro teste é saber se AHS ainda consegue criar outra Fiona, outra Lana ou outro Tate

Essa talvez seja a pergunta mais importante para além da 13ª temporada. Não é difícil imaginar fãs felizes ao rever Fiona Goode ou Constance Langdon. Mais difícil é imaginar se American Horror Story ainda confia na própria capacidade de criar alguém que, daqui a dez anos, provocaria a mesma reação.

Os personagens que estão voltando se tornaram queridos porque, em algum momento, eram novos. Coven não chegou cercada pela obrigação de homenagear quinze anos de bruxas anteriores; teve espaço para transformar Fiona, Cordelia, Madison, Misty e Marie Laveau nas referências que hoje sustentam parte da divulgação. Asylum pôde criar Lana Winters e irmã Jude porque não precisava interromper seus episódios para explicar como Constance Langdon se encaixava naquela história.

Isso não significa que continuidade impeça novos personagens de funcionar. A própria temporada 13 terá figuras inéditas, incluindo Ben DeSoto, descrito por Murphy como uma espécie de ponto de ancoragem para a nova história. A decisão de colocar alguém novo no centro é significativa porque indica que o criador sabe que uma reunião de personagens antigos precisa de algo além da própria reunião para funcionar.

A preocupação surge quando observamos onde está concentrado o entusiasmo promocional. Quase tudo que chama atenção imediatamente vem do passado: o retorno de Jessica Lange, as bruxas, Twisty, o Homem de Borracha, Constance, Kai, James Patrick March. O personagem novo entra numa festa em que todos os convidados já são famosos. Fazer com que ele não pareça apenas alguém conduzindo o espectador entre atrações conhecidas será parte do desafio.

Uma antologia precisa ter coragem de deixar histórias morrerem

Existe uma liberdade especial numa antologia que séries tradicionais não possuem. Ela pode admitir que uma ideia acabou. Não é necessário transformar todo personagem popular em protagonista permanente, explicar cada mistério ou encontrar uma maneira de manter determinada história funcionando depois que ela já disse o que precisava dizer.

American Horror Story foi criada para aproveitar exatamente essa liberdade. Seu formato permitia cometer excessos porque tudo poderia ser desmontado no fim da temporada. O público podia gostar muito de um personagem e ainda assim aceitar que nunca o veria novamente, porque a recompensa seria descobrir o que aquele ator faria no ano seguinte.

A criação de um universo compartilhado alterou essa relação. Quando sabemos que qualquer pessoa pode reaparecer, despedidas ficam menos definitivas e temporadas deixam de ser completamente fechadas. Isso pode ampliar o mundo, mas também diminui um pouco o valor de terminar uma história.

O dilema não pertence apenas a AHS. Grande parte da cultura pop contemporânea descobriu que personagens conhecidos, universos conectados e referências ao passado facilitam a manutenção de franquias por longos períodos. A diferença é que American Horror Story nasceu quase como uma resposta estrutural a essa lógica: uma série famosa que não precisava continuar a mesma história para continuar existindo. Ver justamente essa produção caminhar para uma grande reunião de sua própria mitologia torna a temporada 13 especialmente simbólica.

Então American Horror Story virou refém do próprio passado?

Ainda é cedo para responder de forma definitiva. A temporada 13 nem sequer estreou, e seria injusto concluir que ela não possui ideias novas apenas porque decidiu celebrar as antigas. Ryan Murphy afirma que existe uma nova história e uma nova ameaça por trás da reunião, e insiste que o resultado não é simplesmente outra temporada de Coven. A presença de tantas figuras conhecidas pode ser usada para discutir a própria história da série, confrontar personagens que nunca dividiram espaço e produzir algo que só seria possível depois de quinze anos de continuidade.

Mas é difícil ignorar o paradoxo. A primeira grande força de American Horror Story foi provar que uma série podia abandonar quase tudo e ainda continuar sendo ela mesma. A 13ª temporada chega apostando que o público reconhecerá exatamente aquilo que ela decidiu não abandonar. O elenco recorrente deixou de ser apenas uma ponte entre mundos diferentes e passou a carregar os próprios mundos anteriores consigo.

Isso não significa necessariamente que a série tenha se tornado refém do passado, mas mostra que ela aprendeu a depender dele de uma maneira que não existia no começo. Murder House, Asylum e Coven construíram a marca criando coisas que o público ainda não conhecia. AHS: 13 está vendendo boa parte de sua força pela possibilidade de reencontrá-las.

Talvez esse seja justamente o teste mais interessante da nova temporada. Se, depois dos reencontros, ela conseguir fazer com que nos importemos novamente com alguma coisa que nunca vimos antes, a nostalgia terá servido como ponto de partida. Se os melhores momentos forem apenas aqueles em que reconhecemos uma roupa, uma casa, uma bruxa ou um rosto do passado, a série terá demonstrado uma dependência muito mais difícil de resolver.

Depois de quinze anos, American Horror Story acumulou uma história grande o suficiente para assombrar a si própria. A temporada 13 vai mostrar se essa história ainda funciona como matéria-prima para novos pesadelos ou se a antologia que um dia podia recomeçar todos os anos passou a se sentir mais segura quando olha para trás.

Leia também: Widow’s Bay: quando terror e comédia deixam de ser opostos

Fontes consultadas

  • DISNEY BRASIL — “Já está disponível o primeiro teaser de American Horror Story: 13, do FX, que estreia em 24 de setembro exclusivamente no Disney+”. Disney Press Brasil, 17 ago. 2026. Fonte oficial para data de estreia no Brasil, formato dos 13 episódios, elenco e personagens confirmados para retorno. Disney Press Brasil — American Horror Story: 13
  • DEGRUSHE, Allison; ZIGLER, Brianna — “When does American Horror Story: 13 premiere? Everything we know about the ‘greatest-hits season’ — and who’s returning”. Entertainment Weekly, 10 set. 2026. Reunião das informações mais recentes sobre o trailer, personagens retomados, número de papéis de cada ator e declarações de Ryan Murphy e Evan Peters. Entertainment Weekly — American Horror Story: 13
  • JACKSON, Hannah — “Here’s Your First Look at AHS: 13, with Jessica Lange, Emma Roberts, Angela Bassett, Paul Anthony Kelly—and More”. Vogue, 12 ago. 2026. Entrevista com Ryan Murphy sobre a concepção da temporada de “grandes sucessos”, a volta de Jessica Lange, a reunião do elenco e a decisão de não fazer simplesmente outro Coven. Vogue — primeiro olhar de AHS: 13
  • FX NETWORKS — “American Horror Story”. Página oficial da série. Fonte para a organização das 13 temporadas e para a apresentação institucional de Murder House, Coven, Apocalypse e dos demais capítulos da antologia. FX — American Horror Story
  • HULU — “American Horror Story Seasons in Order”. Hulu Guides. Referência para a estrutura antológica da série e para as conexões que passaram a existir entre diferentes temporadas. Hulu — temporadas de American Horror Story
  • THE GUARDIAN — “Inside the seasonal anthology: TV writers tackle episodic storytelling”. The Guardian, 29 ago. 2016. Discussão sobre American Horror Story e seu papel na popularização do modelo de antologia sazonal, com histórias e personagens renovados a cada temporada. The Guardian — antologias sazonais e American Horror Story
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