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Fantasia

Cronologia de The Legend of Zelda

Como funciona a cronologia oficial de Zelda, por que Ocarina of Time divide a história e onde começam as maiores incertezas da linha temporal.

A cronologia de The Legend of Zelda existe oficialmente, mas isso não significa que a franquia tenha sido concebida desde seu primeiro jogo como uma única sequência histórica planejada em todos os detalhes. Durante décadas, cada novo título priorizou a aventura que pretendia contar, estabelecendo relações com histórias anteriores por meio de personagens, lugares, objetos, referências e continuações diretas, enquanto grande parte da organização do conjunto permanecia fora dos jogos. A publicação de Hyrule Historia representou uma mudança importante nesse cenário ao reunir essas conexões numa cronologia oficial abrangente e apresentar de maneira sistemática a divisão da história após Ocarina of Time.

Essa organização tornou possível visualizar como aventuras muito diferentes podem pertencer à mesma história sem formar uma sequência inteiramente linear. Alguns jogos acompanham diretamente personagens ou acontecimentos anteriores; outros estão separados por períodos tão extensos que reinos desapareceram, povos se transformaram e antigos acontecimentos já se tornaram lendas. Depois de Ocarina of Time, a situação torna-se ainda mais complexa porque a cronologia passa a possuir três ramificações, cada uma desenvolvendo um futuro diferente a partir dos acontecimentos relacionados ao Herói do Tempo.

A linha temporal oficial deve, porém, ser utilizada com algum cuidado. Novos jogos continuaram sendo lançados depois de Hyrule Historia, posições foram acrescentadas ou ajustadas em materiais posteriores e Breath of the Wild e Tears of the Kingdom introduziram um período cuja relação exata com as três ramificações clássicas não foi definida publicamente pela Nintendo. A cronologia continua sendo a melhor estrutura oficial disponível para organizar a história de Hyrule, mas não transforma todas as lacunas entre os jogos em períodos completamente documentados.

Antes de Hyrule e as primeiras eras

A história começa num passado mítico anterior ao próprio reino. A tradição apresentada pela série atribui a Din, Nayru e Farore a criação do mundo e relaciona a partida das três deusas à Triforce, mas os primeiros acontecimentos acompanhados diretamente pela cronologia pertencem a uma época muito posterior, quando Hylia protege os humanos e a relíquia contra Demise. A guerra força a deusa a enviar parte da humanidade para os céus e prepara as condições encontradas em Skyward Sword, situado no início da sequência histórica dos jogos.

Durante essa aventura, Zelda descobre ser Hylia depois que a deusa abandonou sua condição divina e renasceu como mortal, enquanto Link participa dos acontecimentos que conduzem à formação da Master Sword e à derrota de Demise. Depois do conflito, a humanidade pode voltar a estabelecer-se na superfície. O reino de Hyrule, contudo, ainda não existe naquele momento, e um longo intervalo separa o encerramento de Skyward Sword da organização política conhecida nos jogos posteriores.

Materiais cronológicos oficiais distribuem parte desse desenvolvimento entre períodos como a Era do Caos e a Era da Prosperidade. São fases muito mais resumidas do que as aventuras mostradas diretamente nos jogos, relacionadas à proteção da Triforce, às disputas envolvendo o Reino Sagrado e à progressiva organização do mundo depois do retorno dos humanos à superfície. Em algum momento desse processo, Hyrule estabelece-se como reino e sua família real assume uma posição duradoura na história.

A cronologia passa então pelos acontecimentos de The Minish Cap e Four Swords. Essa fase apresenta Vaati e desenvolve outra tradição heroica relacionada inicialmente à Picori Blade e depois à Four Sword, mostrando que a história antiga do reino acumulou conflitos e artefatos antes que Ganondorf se tornasse sua ameaça mais recorrente. Esses jogos permanecem na parte compartilhada da linha temporal: nesse momento, ainda existe uma única sequência histórica para Hyrule.

Ocarina of Time e a divisão da cronologia

É com Ocarina of Time que essa estrutura muda. Ganondorf, rei dos Gerudo, procura alcançar a Triforce e utiliza a abertura do caminho para o Reino Sagrado para chegar até a relíquia. Como não possui Poder, Sabedoria e Coragem em equilíbrio, a Triforce se divide: ele conserva a parte do Poder, enquanto as partes da Sabedoria e da Coragem passam a Zelda e Link. O Herói do Tempo desperta sete anos depois num reino dominado por Ganondorf e, com a ajuda de Zelda e dos sábios, participa do confronto que determina os futuros possíveis de Hyrule.

A cronologia oficial trabalha com três desdobramentos a partir desse período. Um deles considera um resultado no qual o Herói do Tempo é derrotado no confronto contra Ganon. Os outros dois decorrem da vitória do herói: depois que Ganondorf é derrotado, Zelda envia Link de volta à própria infância, separando o futuro adulto que continua existindo sem ele do passado ao qual o herói retorna com conhecimento daquilo que aconteceu.

É importante perceber que as duas linhas decorrentes da vitória não correspondem simplesmente a finais alternativos independentes. O mundo adulto continua existindo depois da partida de Link, enquanto o herói retorna a um período anterior e altera o desenvolvimento daquela história ao advertir a família real sobre Ganondorf. Dessa maneira, um mesmo conjunto de acontecimentos passa a produzir futuros diferentes. A terceira possibilidade, associada à derrota do herói, completa a estrutura tripartida apresentada oficialmente em Hyrule Historia.

A partir desse ponto, já não é possível falar no “próximo acontecimento” da história de Zelda sem identificar qual ramificação está sendo observada. Cada linha desenvolve sua própria sequência de jogos, seus próprios períodos históricos e um destino diferente para Hyrule.

A linha da derrota do herói

Na ramificação associada à derrota do Herói do Tempo, Ganon alcança a Triforce completa e os acontecimentos conduzem posteriormente ao conflito conhecido como Imprisoning War. É dentro dessa continuidade que se encontra A Link to the Past, cuja Hyrule vive sob as consequências de uma história relacionada ao Reino Sagrado, à transformação daquele domínio no Dark World e ao selamento de Ganon. O Link dessa era derrota o antagonista e restaura a Triforce, mas sua própria trajetória não termina necessariamente naquele jogo.

A organização oficial posiciona depois Link’s Awakening e os títulos Oracle of Ages e Oracle of Seasons, embora a relação precisa de ordem entre alguns desses jogos tenha recebido ajustes em materiais oficiais ao longo do tempo. Mais adiante aparecem A Link Between Worlds e Tri Force Heroes, pertencentes a uma Hyrule muito posterior àquela de A Link to the Past, mas ainda inserida na mesma grande continuidade histórica.

Materiais oficiais mais recentes também colocam Echoes of Wisdom nessa ramificação, ampliando novamente uma linha que por muito tempo parecia terminar apenas nos jogos clássicos. O título apresenta outra etapa da história de Hyrule e uma Zelda que assume diretamente o protagonismo da aventura, sem exigir que a estrutura geral da linha temporal seja reorganizada.

A sequência avança finalmente para um período de declínio do reino. É nessa parte tardia da cronologia que se encontram o The Legend of Zelda original e Zelda II: The Adventure of Link. A posição desses jogos é particularmente interessante porque transforma as primeiras aventuras publicadas da franquia em acontecimentos muito posteriores dentro da história posteriormente organizada: o Hyrule de 1986 acabou situado perto do final de uma longa sucessão de conflitos, restaurações e enfraquecimento político.

Os dois futuros da vitória do Herói do Tempo

A chamada linha da criança nasce quando Zelda envia Link de volta ao passado no encerramento de Ocarina of Time. De posse do conhecimento sobre aquilo que Ganondorf faria, o herói consegue advertir a família real antes que os acontecimentos ocorram da mesma maneira. Majora’s Mask acompanha esse mesmo Link depois de sua partida de Hyrule e o leva a Termina, criando uma continuação direta da trajetória pessoal do Herói do Tempo sem reproduzir imediatamente o conflito pela Triforce.

Muito tempo depois, Twilight Princess mostra as consequências do futuro produzido pelo retorno de Link. Ganondorf foi capturado e condenado, mas a tentativa de execução fracassou e seu destino acabou ligado ao Twilight Realm. O jogo apresenta outra geração de Link e Zelda, além de desenvolver o conflito envolvendo Midna e Zant. A ramificação prossegue posteriormente até Four Swords Adventures, que apresenta outra fase da história e um novo Ganondorf, distinção importante para não tratar todas as aparições do personagem como a sobrevivência contínua do mesmo indivíduo.

A linha adulta segue na direção oposta. Nela, o futuro salvo em Ocarina of Time continua existindo depois que Link retorna à infância, o que significa que o Herói do Tempo já não está presente quando Ganondorf volta a ameaçar o reino. Hyrule acaba inundada, e The Wind Waker se passa gerações depois num mundo em que o antigo território permanece sob o Grande Mar. O Link dessa era não é simplesmente o Herói do Tempo retornando; sua aventura desenvolve uma nova tradição heroica num mundo que ainda vive sob a memória do antigo salvador.

Phantom Hourglass continua diretamente a viagem desse Link e de Tetra depois de The Wind Waker. A sequência histórica avança então muitas gerações até Spirit Tracks, situado numa nova Hyrule fundada em outra terra. Essa característica diferencia profundamente a linha adulta das demais: o reino original não é restaurado e a continuidade do nome Hyrule passa por uma nova fundação, mostrando que uma mesma ramificação pode preservar tradições mesmo depois do desaparecimento físico do lugar em que elas surgiram.

As linhas da criança e do adulto, portanto, partem da mesma vitória, mas seguem caminhos independentes. Uma acompanha o passado modificado pelo retorno de Link; a outra acompanha o futuro que permaneceu depois de sua partida. Essa distinção é fundamental para compreender por que Twilight Princess e The Wind Waker, apesar de ambos se relacionarem diretamente às consequências de Ocarina of Time, apresentam versões tão diferentes do destino de Ganondorf e de Hyrule.

Breath of the Wild, Tears of the Kingdom e a cronologia recente

Breath of the Wild introduziu uma situação diferente daquela dos jogos anteriormente organizados. Sua história ocorre numa Hyrule marcada por um passado extraordinariamente remoto, com referências a nomes, povos e elementos encontrados em diferentes momentos da franquia. Entretanto, a Nintendo não o inseriu publicamente em uma das três ramificações clássicas no mesmo diagrama utilizado para organizar os títulos anteriores. A enorme distância temporal permite reconhecer heranças da história de Zelda sem fornecer uma resposta definitiva sobre qual sequência de acontecimentos levou exatamente àquela Hyrule.

Essa ausência de posicionamento não significa que Breath of the Wild esteja fora do cânone. Também não confirma a teoria popular de que as três linhas teriam necessariamente voltado a se fundir. A existência de referências provenientes de diferentes períodos pode alimentar interpretações desse tipo, mas referências não substituem uma declaração cronológica. O que pode ser afirmado com segurança é que o jogo pertence a uma era extremamente distante e que sua relação exata com as ramificações clássicas permanece sem definição pública conclusiva.

Tears of the Kingdom torna a questão ainda mais complexa porque acrescenta um passado remoto próprio para essa Hyrule. As memórias de Zelda apresentam Rauru como primeiro rei daquele reino e mostram uma antiga guerra contra Ganondorf, posteriormente conhecida como Imprisoning War. Como a cronologia clássica já possuía um conflito chamado Imprisoning War na linha da derrota, a coincidência dos nomes levantou novas questões sobre a relação entre os períodos, mas não é suficiente para identificar automaticamente as duas guerras.

A mesma cautela vale para a fundação mostrada no jogo. A cronologia anterior já descrevia o estabelecimento de Hyrule depois das eras mais antigas, enquanto Tears of the Kingdom apresenta uma fundação associada a Rauru e Sonia. Diferentes explicações podem ser formuladas para conciliar essas informações — entre elas a possibilidade de uma refundação muito posterior —, mas enquanto uma conexão definitiva não for estabelecida, essas soluções permanecem interpretações. O dado canônico é que Rauru é apresentado como primeiro rei da Hyrule mostrada naquela narrativa; sua posição diante de toda a história anterior continua aberta.

Esse cuidado tornou-se ainda mais relevante com materiais posteriores que expandem o período da antiga Guerra do Aprisionamento. Eles podem acrescentar acontecimentos àquela era sem necessariamente resolver a posição de Breath of the Wild e Tears of the Kingdom diante das três ramificações clássicas. A cronologia recente, portanto, possui bastante história interna conhecida e, ao mesmo tempo, uma conexão externa deliberadamente incompleta com a organização anterior da franquia.

Uma cronologia oficial que continua em construção

A publicação de Hyrule Historia foi fundamental porque transformou décadas de relações entre jogos numa estrutura oficial abrangente. Ela estabeleceu uma sequência para as primeiras eras, organizou as consequências de Ocarina of Time em três ramificações e deu aos jogos já existentes posições dentro de uma história comum. Isso não tornou a cronologia imutável. Materiais posteriores acrescentaram títulos, ajustaram relações e passaram a lidar com jogos produzidos depois que aquela primeira grande organização já havia sido publicada.

Essa possibilidade de mudança não diminui a importância da linha temporal. Pelo contrário, é justamente por existir uma estrutura oficial que podemos distinguir uma relação confirmada de uma teoria criada para preencher seus espaços vazios. Skyward Sword ocupa o início conhecido das aventuras; Ocarina of Time permanece como ponto de ramificação; The Wind Waker e Twilight Princess pertencem a futuros diferentes; os jogos da linha da derrota possuem uma sequência própria. Onde a Nintendo oferece essas relações, elas constituem a base mais sólida disponível.

O mesmo princípio precisa ser aplicado às incertezas. A posição exata dos jogos mais recentes diante das ramificações clássicas não deve ser preenchida apenas porque uma teoria parece elegante, da mesma maneira que contradições aparentes entre tradições não precisam ser resolvidas artificialmente. Zelda frequentemente apresenta seu passado através de lendas, ruínas e memórias incompletas, enquanto a própria franquia continua acrescentando novas histórias a esse passado.

A cronologia de The Legend of Zelda é, assim, simultaneamente uma estrutura histórica e uma obra ainda aberta. Ela permite acompanhar uma trajetória que começa numa era anterior a Hyrule, atravessa a formação do reino, divide-se depois do Herói do Tempo e alcança futuros radicalmente diferentes. Ao mesmo tempo, suas regiões menos definidas lembram que essa história continua sendo escrita. A linha temporal organiza a lenda, mas não encerra todas as perguntas que ela deixou pelo caminho.

Fontes consultadas

Nintendo — The Legend of Zelda: About. Página oficial utilizada como referência para a cronologia de Hyrule, a sequência dos jogos e as ramificações posteriores a Ocarina of Time.

Nintendo — The Legend of Zelda

Nintendo / Dark Horse — The Legend of Zelda: Hyrule Historia. Obra oficial que consolidou a organização cronológica da franquia, incluindo as primeiras eras e a divisão posterior à Era do Herói do Tempo.

Nintendo / Dark Horse — The Legend of Zelda Encyclopedia. Compêndio oficial utilizado como referência complementar para a organização dos jogos, eras e acontecimentos posteriores à publicação de Hyrule Historia.

Nintendo — The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom. Material oficial utilizado para os acontecimentos relacionados à Hyrule de Breath of the Wild, Rauru, Ganondorf e ao passado apresentado na sequência.

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