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5 filmes para conhecer o terror brasileiro contemporâneo – parte 2

Na nossa primeira seleção de terror brasileiro contemporâneo, passamos por As Boas Maneiras, Trabalhar Cansa, O Animal Cordial, Morto Não Fala e Enterre Seus Mortos. Juntos, aqueles filmes já mostravam que o horror feito no Brasil havia se espalhado muito além de uma única tradição: havia lobisomens e fantasmas, mas também relações de trabalho, violência social, corpos, cidades e estradas brasileiras transformados em matéria de gênero.

Ainda assim, cinco títulos estavam muito longe de esgotar essa produção. Basta continuar procurando para encontrar um horror mais artesanal e ligado à cultura popular, filmes que aproximam fundamentalismo religioso e fantasia, experiências queer com o gótico, histórias que transformam tragédias climáticas brasileiras em terror sobrenatural e até uma produção que procura monstros dentro da Guerra do Paraguai. O que aparece, mais uma vez, não é uma estética capaz de definir “o terror brasileiro”, mas justamente a dificuldade de reduzir essa produção a uma única forma.

Por isso, esta segunda seleção não tenta corrigir ou substituir a primeira. Ela amplia o mapa. Os cinco filmes abaixo foram escolhidos porque trabalham com tipos bastante diferentes de medo e ajudam a perceber como realizadores brasileiros e produções ligadas ao país continuam encontrando novas maneiras de ocupar o terror.

Confira a Parte 1: 5 filmes para conhecer o terror brasileiro contemporâneo

1. A Mata Negra — quando o horror brasileiro entra mata adentro

O cinema de Rodrigo Aragão ocupa um espaço muito particular dentro do terror brasileiro contemporâneo. Seus filmes carregam monstros, sangue, maquiagem, efeitos práticos e uma relação com o fantástico que parece muito menos preocupada em tornar o gênero “respeitável” do que em explorar tudo aquilo que ele pode fazer. Em A Mata Negra, lançado em 2018, essa disposição encontra também um repertório profundamente ligado ao imaginário popular brasileiro.

A história acompanha Clara, uma jovem que vive numa região de mata no interior e encontra o chamado Livro Perdido de Cipriano. O objeto promete poder e riqueza, mas também permite que forças muito mais perigosas entrem naquela realidade. O ponto de partida recupera a longa circulação popular do nome de São Cipriano associado a livros de feitiços, orações, proteção e magia, utilizando essa tradição como combustível para uma história de ambição, desejo e consequências sobrenaturais.

Aragão poderia ter usado tudo isso apenas como uma variação brasileira de objetos amaldiçoados bastante conhecidos do terror internacional. O que faz A Mata Negra funcionar melhor é a maneira como a paisagem, os personagens e a materialidade dos monstros tornam aquela experiência particular. A floresta não é uma decoração genérica em torno da qual uma história poderia acontecer em qualquer país; ela é o espaço que concentra isolamento, crença e perigo, enquanto o filme deixa que criaturas e transformações apareçam com a fisicalidade típica do trabalho do diretor com efeitos práticos.

Essa característica também ajuda a compreender por que Rodrigo Aragão é uma figura importante para quem quer explorar o gênero no país. Seu cinema assume abertamente influências do horror fantástico e do gore, mas não precisa abandonar referências locais para participar dessa tradição. O resultado é um terror que pode ser grotesco, divertido, sombrio e folclórico ao mesmo tempo, sem a obrigação de escolher apenas uma dessas identidades.

Onde assistir no Brasil: sem opção legal de streaming no momento.

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2. Medusa — quando a busca pela pureza também produz monstros

Em Medusa, Anita Rocha da Silveira começa com uma forma de violência muito diferente. Mariana, interpretada por Mari Oliveira, pertence a uma comunidade cristã ultraconservadora em que aparência, comportamento e sexualidade precisam obedecer a padrões rígidos. Junto com outras jovens, ela transforma esses valores em vigilância ativa, atacando mulheres consideradas inadequadas e tentando impor a elas um modelo de pureza.

A diretora começou a desenvolver o projeto em meio ao avanço do conservadorismo político no Brasil e pesquisou casos de grupos de mulheres que agrediam outras jovens por comportamentos considerados promíscuos, além de discursos religiosos e influenciadores ligados à extrema direita. Esse material foi combinado à figura mitológica de Medusa e a referências assumidamente estilizadas de horror, incluindo o cinema de Dario Argento. O resultado não abandona a fantasia para falar de política; faz justamente o contrário, usando a fantasia para ampliar o desconforto produzido por comportamentos que já existem fora da tela.

Visualmente, o filme está muito distante do naturalismo. Há neon, música, performances coreografadas, máscaras e um universo religioso apresentado quase como espetáculo permanente. Essa escolha funciona especialmente bem porque aquelas personagens vivem sob uma obrigação constante de parecer felizes, bonitas e moralmente corretas. Quanto mais perfeita precisa parecer a superfície, mais violento se torna o esforço necessário para mantê-la.

Há ainda uma inversão importante em relação a muitas histórias sobre repressão religiosa. As jovens de Medusa não aparecem apenas como vítimas de estruturas construídas por homens; aprenderam a fiscalizar umas às outras e a reproduzir a violência que as controla. O terror nasce também desse processo de internalização, no qual a personagem começa a perceber que aquilo que considerava proteção e virtude pode ser outra forma de aprisionamento.

O longa estreou mundialmente na Quinzena dos Realizadores de Cannes e, no Festival do Rio de 2021, venceu Melhor Longa-Metragem de Ficção, além de render a Anita Rocha da Silveira o prêmio de direção e a Lara Tremouroux o de atriz coadjuvante.

Onde assistir no Brasil: Globoplay e Telecine Amazon Channel.

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3. A Herança — quando voltar para casa significa entrar numa família que você não conhece

A Herança começa com uma situação reconhecível para o gótico: uma morte familiar, uma propriedade antiga e alguém retornando a um lugar ligado ao próprio passado. João Cândido Zacharias, porém, utiliza essa estrutura para construir um terror queer brasileiro em que herança significa muito mais do que receber uma casa.

Thomas vive fora do país e retorna ao Brasil depois da morte da mãe, acompanhado do namorado, Beni. Ao chegar, descobre uma propriedade pertencente à avó que nunca conheceu e encontra duas tias idosas que o recebem com uma intimidade quase imediata. Thomas se sente progressivamente atraído pela ideia de recuperar uma história familiar que lhe faltava, enquanto Beni percebe sinais de que aquela hospitalidade talvez esconda algo muito menos acolhedor.

Essa diferença de percepção é essencial para o filme. A casa oferece a Thomas aquilo que ele deseja: pertencimento, memória e uma sensação de origem. O terror não precisa obrigá-lo a permanecer ali porque existe uma razão emocional para que ele queira ficar. Beni, por estar ligeiramente fora desse vínculo de sangue, consegue observar com maior desconfiança tradições e comportamentos que Thomas está disposto a interpretar como parte da família que acabou de reencontrar.

O fato de os protagonistas formarem um casal gay também interfere nessa relação sem transformar o filme num drama exclusivamente sobre homofobia. Zacharias explicou que essa escolha modifica situações e tensões de maneira muitas vezes sutil, especialmente dentro de uma casa carregada por códigos familiares e valores pertencentes a outro tempo. O diretor define o filme como um encontro entre terror, melodrama e cinema queer, interessado menos em usar a orientação dos protagonistas como problema e mais em perguntar o que muda quando personagens que raramente ocupam o centro dessas narrativas finalmente passam a ocupá-lo.

Há algo especialmente brasileiro nessa utilização do melodrama familiar. A ameaça não chega de fora para destruir uma família aparentemente segura; ela cresce dentro da própria ideia de família, dos segredos que permanecem escondidos e da expectativa de que determinados vínculos devem ser preservados apenas porque pertencem ao sangue. O gótico encontra assim um ambiente rural brasileiro sem precisar simplesmente imitar casarões ingleses ou histórias estrangeiras sobre linhagens amaldiçoadas.

O filme passou pela mostra Midnight Movies do Festival do Rio de 2024 e circulou por festivais de gênero e queer dentro e fora do país.

Onde assistir no Brasil: sem opção legal de streaming no momento.

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4. Abraço de Mãe — a tempestade lá fora e aquilo que espera dentro da casa

O terror de Abraço de Mãe começa com um acontecimento que não precisa de qualquer elemento sobrenatural para ser assustador. Em fevereiro de 1996, durante um dos temporais mais violentos registrados no Rio de Janeiro, uma equipe de bombeiros é enviada para evacuar um asilo ameaçado de desabamento. O problema surge quando os próprios moradores parecem não querer sair.

Dirigido pelo argentino Cristian Ponce e produzido no Brasil, o filme coloca Marjorie Estiano no papel de Ana, bombeira que entra naquele prédio enquanto a cidade é castigada pela chuva. O espaço deveria funcionar como uma missão profissional relativamente clara — localizar os moradores e retirá-los antes que a estrutura ceda —, mas as pessoas que vivem ali possuem seus próprios planos para a tempestade. Ponce descreveu o longa como um survival horror construído sobre a enchente real de 1996, misturando seitas, criaturas e traumas de infância à situação de desastre.

Essa combinação faz Abraço de Mãe ocupar um território pouco explorado pelo horror brasileiro. A chuva não serve somente para isolar os personagens de maneira conveniente: ela pertence a uma memória concreta do Rio de Janeiro e transforma a própria cidade numa força hostil. Enquanto ruas alagam e estruturas ameaçam desabar, a casa cria um segundo nível de perigo, fazendo com que sair dali seja difícil e permanecer talvez seja ainda pior.

O filme também utiliza muito bem a profissão da protagonista. Ana não entra no prédio porque resolveu investigar uma lenda ou ignorou uma advertência obviamente suspeita. Ela está ali porque salvar pessoas é literalmente seu trabalho. Quando os moradores recusam ajuda, a obrigação profissional entra em conflito com o instinto que manda abandonar aquele lugar, uma tensão que dá mais peso às decisões tomadas durante a noite.

Isso aproxima o horror de algo muito brasileiro sem transformar o filme numa alegoria excessivamente explicada. Chuvas extremas, edifícios precários, equipes de emergência e uma cidade que continua funcionando no limite fazem parte do mundo reconhecível; seitas e criaturas entram depois, quando o cotidiano já forneceu condições suficientes para produzir ansiedade.

Onde assistir no Brasil: Netflix.

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5. A Própria Carne — quando a guerra não é a pior coisa que pode acontecer

A Própria Carne leva esta segunda seleção para um lugar ainda diferente: a Guerra do Paraguai. Dirigido por Ian SBF e lançado em 2025, o filme acompanha três soldados brasileiros que desertam do conflito em 1870 e encontram uma casa isolada na fronteira. O lugar parece oferecer abrigo, alimento e a possibilidade de sobreviver longe da guerra, mas é habitado por um fazendeiro e uma jovem cuja presença rapidamente transforma a sensação de segurança em ameaça.

A escolha do período histórico é importante porque muda quem são esses personagens quando o terror começa. Eles não chegam inocentes a uma situação de violência. Vêm de uma guerra, carregam fome, medo e a experiência de já ter convivido com corpos destruídos e morte em escala coletiva. Quando encontram algo terrível dentro da casa, o filme pode trabalhar com uma pergunta especialmente incômoda: o que ainda é capaz de horrorizar alguém que acabou de desertar de um conflito dessa natureza?

Esse encontro entre história e gênero permite também olhar para a Guerra do Paraguai por uma perspectiva incomum no cinema brasileiro popular. O objetivo não é reconstruir o conflito como uma grande narrativa militar ou patriótica, mas utilizá-lo como origem de personagens que já foram empurrados para os limites da sobrevivência. A própria casa funciona quase como continuação dessa violência por outros meios.

O projeto também representa outra mudança na maneira como filmes de gênero podem surgir no Brasil. A produção reúne Ian SBF, Carolina Alves, Deive Pazos e Alexandre Ottoni, nomes ligados a comunidades digitais, podcasts, RPG e produção audiovisual, mostrando como públicos construídos em outras mídias podem ajudar a sustentar projetos de horror fora dos caminhos tradicionais do cinema nacional.

Entre os cinco títulos desta lista, é também o que leva a seleção mais perto do presente. O terror brasileiro contemporâneo já consegue encontrar monstros em florestas, igrejas, casas familiares, asilos e necrotérios; A Própria Carne lembra que também podemos procurar o horror dentro da própria história do país.

Onde assistir no Brasil: Apple TV Store e Amazon Video, para aluguel ou compra.

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Ainda há muitos caminhos para seguir

Somando esta seleção à primeira, chegamos a dez filmes e quase nenhuma repetição de linguagem. Trabalhar Cansa encontrou horror nas relações econômicas; O Animal Cordial levou a violência social para dentro de um restaurante; Morto Não Fala fez cadáveres continuarem contando histórias; Enterre Seus Mortos aproximou trabalho, estrada e apocalipse; As Boas Maneiras transformou o lobisomem numa história sobre maternidade, desejo e diferença.

Agora, A Mata Negra leva magia popular e criaturas para dentro da mata; Medusa transforma fundamentalismo e controle do corpo feminino em fantasia sombria; A Herança aproxima melodrama familiar, gótico e protagonismo queer; Abraço de Mãe encontra terror numa tempestade histórica do Rio de Janeiro; A Própria Carne utiliza a Guerra do Paraguai como ponto de partida para outra forma de pesadelo.

Talvez seja mais interessante observar essa diversidade do que procurar definir exatamente “como é” o terror brasileiro. A produção contemporânea já passou do ponto em que precisa demonstrar que o gênero existe por aqui. A pergunta mais produtiva agora é quantas formas diferentes ele ainda consegue assumir.

E essa segunda lista continua longe de encerrar o assunto. Filmes como A Sombra do Pai, Abraço de Mãe — agora incluído aqui —, produções independentes que circulam primeiro por festivais e novos trabalhos de realizadores já conhecidos mostram que existe espaço para uma terceira seleção no futuro sem precisar recorrer aos mesmos títulos. O terror brasileiro contemporâneo não está se organizando em torno de um único monstro, uma única paisagem ou uma única preocupação. Está justamente aprendendo a utilizar todos eles.

Leia mais: 5 histórias de terror em que o luto abre a porta para algo pior

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