Para quem ainda associa o terror brasileiro principalmente a José Mojica Marins e ao Zé do Caixão, as últimas duas décadas podem reservar uma surpresa. O gênero se espalhou por caminhos muito diferentes, encontrou espaço no cinema independente e em grandes festivais, misturou-se ao drama social, ao fantástico, ao slasher e à ficção científica e revelou cineastas com projetos bastante particulares.
Juliana Rojas, Marco Dutra, Gabriela Amaral Almeida, Dennison Ramalho, Rodrigo Aragão, Anita Rocha da Silveira e Guto Parente estão entre os nomes que ajudaram a mostrar que não existe uma única forma de fazer horror no Brasil. Algumas dessas produções trabalham diretamente com monstros e violência gráfica; outras deixam o sobrenatural crescer lentamente dentro de situações aparentemente comuns, usando o gênero para falar de trabalho, desigualdade, família, preconceito ou relações de poder.
Os cinco filmes abaixo não pretendem resumir toda essa produção. Funcionam melhor como uma porta de entrada para algumas das vertentes que o terror brasileiro contemporâneo passou a explorar.
1. As Boas Maneiras — um lobisomem muito longe do terror tradicional
Dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, As Boas Maneiras começa quase como um drama de relações sociais. Clara, interpretada por Isabél Zuaa, é contratada por Ana, vivida por Marjorie Estiano, para trabalhar como babá do filho que ainda vai nascer. A convivência entre as duas aproxima mulheres de realidades muito diferentes enquanto a gravidez passa a apresentar sinais de que existe alguma coisa incomum naquela casa.
O que se desenvolve a partir daí envolve lobisomens, transformação corporal, maternidade, desejo e diferenças de classe, mas Rojas e Dutra evitam tratar esses elementos como simples peças de um filme de criatura. O fantástico cresce dentro da vida cotidiana e muda também de tom ao longo da história. Há momentos de romance, horror físico e até uma delicadeza quase de conto de fadas que convive com imagens bastante brutais.
Essa combinação ajudou o filme a circular muito além do nicho do terror. As Boas Maneiras recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Locarno de 2017 e conquistou, entre outras distinções, Melhor Filme e o prêmio da crítica Fipresci no Festival do Rio daquele ano. É uma boa escolha para perceber como parte do horror brasileiro recente prefere atravessar gêneros em vez de permanecer presa às convenções de apenas um deles.
Na consulta realizada em agosto de 2026, o filme estava disponível por assinatura no Reserva Imovision Amazon Channel, além de opções de aluguel e compra na Apple TV.
2. Trabalhar Cansa — quando abrir um mercadinho começa a parecer um pesadelo
Antes de As Boas Maneiras, Juliana Rojas e Marco Dutra já haviam mostrado como elementos de horror podiam surgir no meio de situações absolutamente brasileiras. Em Trabalhar Cansa, Helena decide abrir um pequeno mercado ao mesmo tempo em que o marido perde o emprego. O que deveria representar uma oportunidade de estabilidade começa a revelar problemas financeiros, tensões domésticas e acontecimentos cada vez mais estranhos dentro do estabelecimento.
O terror aqui é menos interessado em sustos do que em desconforto. Desemprego, relações entre patrões e empregados, medo de perder posição social e insegurança econômica dividem espaço com odores inexplicáveis, manchas nas paredes e algo que parece existir escondido no próprio edifício. O sobrenatural nunca elimina o problema material: ele parece crescer junto com ele.
Não por acaso, o filme foi selecionado para a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2011, onde Rojas e Dutra apresentaram seu primeiro longa. Na ocasião, os próprios diretores explicaram que buscavam estabelecer um diálogo com o horror e o fantástico sem simplesmente aplicar os clichês do gênero às histórias que contavam.
Trabalhar Cansa é especialmente interessante para quem gosta da ideia de horror social, mas quer encontrá-la em uma realidade que reconhecemos facilmente. Atualmente, o longa aparece no catálogo da Itaú Cultural Play, ao lado de outras produções brasileiras.
3. O Animal Cordial — o monstro pode estar atrás do balcão
Um restaurante de classe média em São Paulo está encerrando o expediente quando é assaltado. Esse acontecimento aparentemente simples fornece a Gabriela Amaral Almeida o espaço fechado de que precisa para desmontar gradualmente a cordialidade de seus personagens.
Inácio, interpretado por Murilo Benício, administra o lugar com mão de ferro. Ao seu redor estão funcionários, clientes e invasores que carregam relações de classe, raça, gênero e poder para dentro de um ambiente que se torna progressivamente mais violento. O Animal Cordial assume o sangue e a brutalidade do slasher, mas sua violência não aparece desconectada das relações sociais que já existiam antes do primeiro golpe.
A ideia do filme nasceu depois que Gabriela Amaral Almeida e Luana Demange estiveram em um restaurante que havia sido assaltado. A partir da situação, começaram a pensar no medo como instrumento de controle e na suposta cordialidade brasileira escondendo preconceitos e agressões. A própria diretora relacionou o filme às contradições de uma sociedade que se considera cordial, mas frequentemente demonstra o contrário.
É também uma ótima apresentação ao trabalho de Gabriela, que se tornou um dos principais nomes do horror brasileiro contemporâneo. Aqui o gênero não aparece disfarçado: há suspense, sangue e violência gráfica, mas utilizados para expor comportamentos que já estavam presentes quando o restaurante ainda parecia funcionar normalmente.
Em agosto de 2026, O Animal Cordial estava disponível no Globoplay e no Telecine Amazon Channel.
4. Morto Não Fala — fantasmas, necrotério e horror sem economia de sangue
Se os filmes anteriores misturam horror com outras tradições, Dennison Ramalho se aproxima de uma vertente mais diretamente macabra em Morto Não Fala. Stênio, interpretado por Daniel de Oliveira, trabalha durante a noite em um necrotério de uma cidade marcada pela violência. Existe apenas um detalhe incomum em sua rotina: ele consegue ouvir aquilo que os cadáveres têm a dizer.
Durante algum tempo, o dom parece quase fazer parte do trabalho. Os mortos contam como morreram, revelam segredos e transformam as madrugadas de Stênio em uma estranha coleção de histórias. O problema começa quando uma dessas revelações interfere diretamente em sua vida, desencadeando uma sequência de acontecimentos sobrenaturais que atinge também sua família.
Morto Não Fala se aproxima do terror urbano, das histórias de fantasmas e do horror corporal sem demonstrar vergonha de pertencer ao gênero. O necrotério permite a Ramalho trabalhar com cadáveres, decomposição e violência de maneira muito mais explícita do que encontramos em Trabalhar Cansa, por exemplo, enquanto a cidade ao redor parece produzir mortos em quantidade suficiente para que o protagonista nunca fique realmente sozinho.
É provavelmente o título desta seleção mais indicado para quem procura algo próximo do terror sobrenatural tradicional, mas feito dentro de um universo urbano brasileiro. No entanto, na consulta realizada em agosto de 2026, não encontramos uma opção legal de streaming disponível no Brasil.
5. Enterre Seus Mortos — o apocalipse pode começar numa estrada brasileira
O filme mais recente da lista traz Marco Dutra novamente, agora dirigindo sozinho uma adaptação do romance homônimo de Ana Paula Maia. Em Enterre Seus Mortos, Selton Mello interpreta Edgar Wilson, funcionário encarregado de recolher animais mortos nas estradas da fictícia cidade de Abalurdes. Ao seu lado está Tomás, um ex-padre que oferece a extrema-unção aos animais agonizantes, enquanto Nete, interpretada por Marjorie Estiano, supervisiona o trabalho.
Esse cotidiano já seria estranho o suficiente, mas alguma coisa parece estar acontecendo ao redor da cidade. Eventos inexplicáveis, sonhos violentos, animais mortos e sinais religiosos começam a sugerir que Abalurdes talvez esteja assistindo ao início de algo muito maior. O resultado mistura terror rural, ficção apocalíptica, religião e humor sombrio sem abandonar a paisagem brasileira que sustenta a história.
A escolha de Edgar Wilson como protagonista também aproxima o filme de um universo literário que Ana Paula Maia desenvolveu em diferentes livros: trabalhadores responsáveis pelos serviços que a sociedade prefere não enxergar, cercados por animais, cadáveres, resíduos e formas brutais de sobrevivência. Na adaptação, esse mundo encontra o cinema de gênero de Marco Dutra e passa a conviver com sinais de um possível fim dos tempos. O filme chegou ao Globoplay em março de 2026 depois de sua passagem pelos cinemas.
Atualmente, Enterre Seus Mortos pode ser assistido no Globoplay e também aparece no Telecine Amazon Channel.
Há muito terror brasileiro além destes cinco
Colocar esses filmes lado a lado deixa evidente como a produção brasileira recente se afastou da necessidade de definir um modelo único de horror. Trabalhar Cansa encontra o medo dentro das relações de trabalho; As Boas Maneiras transforma o lobisomem em uma história sobre maternidade e diferença; O Animal Cordial utiliza o slasher para rasgar a superfície das relações sociais; Morto Não Fala mergulha no sobrenatural e no grotesco; Enterre Seus Mortos leva o apocalipse para estradas, matadouros e pequenas cidades.
A lista poderia seguir em várias direções. Rodrigo Aragão, por exemplo, construiu uma filmografia de monstros, zumbis e efeitos práticos profundamente ligada às paisagens do Espírito Santo — Mangue Negro é uma ótima próxima parada e está atualmente disponível no Looke. Anita Rocha da Silveira, Guto Parente e outros cineastas levariam a seleção por caminhos completamente diferentes.
Talvez essa diversidade seja justamente o melhor ponto de entrada para quem ainda está descobrindo o terror brasileiro contemporâneo. Depois de Zé do Caixão, o gênero não desapareceu. Ele se fragmentou, mudou de linguagem e encontrou novos monstros — alguns sobrenaturais, outros bastante reconhecíveis.
