A ficção científica brasileira nem sempre se apresenta com naves espaciais, laboratórios futuristas ou cidades cobertas de néon. Em boa parte do nosso cinema, o fantástico especulativo aparece misturado ao drama, ao documentário, ao faroeste, à sátira política e ao realismo social. Essa mistura não enfraquece o gênero; ao contrário, ajuda a explicar por que alguns dos filmes mais interessantes produzidos no país usam o futuro para observar problemas muito concretos do presente.
A seleção abaixo parte justamente dessa ideia. São cinco filmes que recorrem a distopias, deslocamentos temporais, acontecimentos impossíveis ou futuros próximos para imaginar versões diferentes do Brasil. Alguns são reconhecidos abertamente como ficção científica; outros preferem permanecer nas fronteiras entre gêneros. Em comum, todos tratam o especulativo menos como decoração e mais como uma maneira de reorganizar aquilo que já conhecemos.
O Último Azul — um futuro em que envelhecer também se torna um problema de Estado
O Último Azul, dirigido por Gabriel Mascaro, parte de um Brasil quase distópico em que pessoas idosas são compulsoriamente afastadas da sociedade e enviadas para colônias habitacionais. Tereza, interpretada por Denise Weinberg, tem 77 anos e decide fugir desse destino para realizar um último desejo antes de perder a autonomia sobre a própria vida. O ponto de partida poderia conduzir a uma distopia de regras muito explicadas, mas o filme prefere acompanhar a personagem por um país ao mesmo tempo reconhecível e deslocado. A ficção científica surge no modo como instituições, tecnologias e políticas públicas reorganizam uma realidade que continua sendo brasileira.
A força da proposta está em transformar o envelhecimento em questão política sem reduzir a personagem a um símbolo. O futuro imaginado por Mascaro permite discutir produtividade, exclusão, controle estatal e a dificuldade de uma sociedade em conviver com pessoas que não se encaixam mais na lógica econômica dominante. O filme recebeu o Urso de Prata — Grande Prêmio do Júri na Berlinale de 2025 e chegou aos cinemas brasileiros em agosto daquele ano. Para quem procura uma ficção científica nacional recente que não dependa das imagens mais familiares do gênero, é um ótimo ponto de entrada.

Bacurau — o futuro próximo como continuação do Brasil que já existe
Em Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o futuro não aparece como uma ruptura radical com o presente. A pequena comunidade do sertão pernambucano continua lidando com abandono político, falta de água, desigualdade e isolamento, mas começa a perceber que algo ainda mais estranho está acontecendo quando o povoado desaparece dos mapas digitais. A partir daí, o filme mistura ficção científica, faroeste, suspense e cinema de ação sem se subordinar completamente a nenhum desses modelos. O contraste entre tecnologias avançadas e estruturas sociais arcaicas faz parte da própria leitura de Brasil proposta pelo longa.
O Festival de Cannes descreveu Bacurau como uma obra situada em um futuro próximo em que o arcaico e o hipermoderno se encontram, e o filme recebeu o Prêmio do Júri, dividido com Les Misérables, em 2019. Mais importante do que classificar cada elemento é perceber como o gênero funciona dentro da narrativa: drones, mapas digitais, vigilância e outras tecnologias não criam um mundo separado do nosso, mas tornam mais visíveis relações de poder já existentes. É uma ficção científica em que o futuro serve para ampliar tensões históricas, não para escondê-las atrás de uma paisagem futurista.

Branco Sai, Preto Fica — viagem no tempo para investigar uma violência real
Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, talvez seja o filme desta lista que mais desmonta as fronteiras tradicionais entre documentário e ficção científica. O ponto de partida está ligado a um episódio real de violência policial ocorrido em um baile de black music na Ceilândia, mas o longa introduz Dimas Cravalanças, um personagem enviado do futuro para investigar os acontecimentos e reunir provas contra o Estado brasileiro. A presença dessa figura não transforma o filme em uma aventura convencional de viagem no tempo. Ela cria uma camada especulativa que permite observar o passado como algo ainda aberto, disputado e politicamente vivo.
A Ceilândia filmada por Adirley é simultaneamente espaço concreto e cenário de uma ficção futurista construída com poucos recursos, ruínas urbanas, próteses, máquinas improvisadas e som. O Instituto Moreira Salles destaca justamente como o cinema do diretor trabalha com temporalidades sobrepostas, fazendo passado, presente e futuro se contaminarem. Para quem associa ficção científica apenas a grandes efeitos visuais, Branco Sai, Preto Fica oferece uma resposta brasileira muito particular: o gênero também pode nascer de um contêiner, de uma periferia e de uma memória que o poder preferiria encerrar.

A Nuvem Rosa — quando o absurdo reorganiza a vida cotidiana
Em A Nuvem Rosa, escrito e dirigido por Iuli Gerbase, uma nuvem misteriosa e mortal se espalha pelo mundo e obriga as pessoas a permanecerem dentro de casa. Giovana e Yago, que praticamente não se conheciam quando o confinamento começa, passam anos dividindo o mesmo espaço enquanto constroem expectativas muito diferentes sobre aquela nova vida. O filme não se interessa tanto por explicar cientificamente a origem do fenômeno quanto por acompanhar seus efeitos emocionais, afetivos e sociais. A premissa especulativa funciona como uma pressão contínua sobre os personagens.
A coincidência com a pandemia de Covid-19 tornou o filme especialmente inquietante quando estreou no Festival de Sundance em 2021, mas a obra não depende desse paralelo para continuar funcionando. O que importa é a maneira como uma condição impossível passa a parecer rotina e como pessoas diferentes reagem à perda prolongada de liberdade. A ficção científica brasileira, aqui, abandona a escala nacional explícita de outros títulos da lista e entra na intimidade. O resultado mostra como um único elemento fantástico pode ser suficiente para reconstruir toda a lógica de uma vida cotidiana.

Divino Amor — religião, burocracia e tecnologia no Brasil de 2027
Divino Amor, também dirigido por Gabriel Mascaro, imagina o Brasil de 2027 a partir de elementos que parecem ao mesmo tempo estranhos e próximos. Joana trabalha em um cartório e usa sua posição para tentar impedir divórcios, guiada por uma fé evangélica que ocupa um espaço cada vez maior na vida pública. Nesse mundo, religião, Estado, sexualidade, reprodução e tecnologia convivem de maneira pouco confortável. O futuro não é apresentado como uma sociedade totalmente nova, mas como uma extrapolação de tendências que o espectador reconhece.
Essa proximidade é justamente o que torna a proposta eficaz. A ficção científica de Divino Amor não precisa de uma catástrofe para produzir estranhamento; basta reorganizar instituições e relações sociais até que aquilo que parece familiar revele outra lógica. O filme circulou por Sundance e pela Berlinale em 2019, sempre apresentado como uma obra situada em um Brasil próximo. É uma boa escolha para quem se interessa por distopias que trabalham menos com regimes explicitamente totalitários e mais com mudanças graduais naquilo que uma sociedade passa a considerar normal.

Um futuro brasileiro não precisa parecer estrangeiro
Vistos em conjunto, esses filmes ajudam a desmontar uma expectativa persistente sobre a ficção científica: a de que imaginar o futuro significa importar a aparência de futuros criados em outros países. Bacurau continua no sertão; Branco Sai, Preto Fica continua na Ceilândia; O Último Azul percorre paisagens brasileiras; Divino Amor encontra o futuro em cartórios e igrejas; A Nuvem Rosa reduz a escala até o interior de uma casa. Em todos os casos, o elemento especulativo nasce do lugar em que a história está sendo contada.
Essa talvez seja uma das características mais interessantes da ficção científica produzida no Brasil nas últimas décadas. Em vez de perguntar apenas quais tecnologias existirão amanhã, esses filmes perguntam o que aconteceria se certas estruturas sociais, políticas e afetivas fossem levadas um pouco adiante. Quem quiser seguir por esse caminho também pode conhecer nossa seleção de 5 livros para descobrir a nova ficção científica brasileira. Juntos, cinema e literatura mostram que há muitas maneiras de imaginar o futuro sem deixar o Brasil para trás.

