A ficção científica brasileira não começou agora, nem dependeu de um único movimento para existir. O gênero atravessa diferentes momentos de nossa literatura, encontrou autores interessados em imaginar tecnologia, cidades, autoritarismo, alterações do corpo e futuros possíveis e, durante muito tempo, circulou também por editoras pequenas, revistas, antologias e comunidades especializadas. O que parece estar mudando nos últimos anos é a visibilidade que algumas dessas vozes passaram a conquistar dentro de um mercado editorial mais amplo.
Um sinal particularmente interessante aparece em setembro de 2026. A editora Aleph, historicamente associada no Brasil à publicação de autores estrangeiros como Frank Herbert, Isaac Asimov, Ursula K. Le Guin e William Gibson, programou para 1º de setembro quatro romances brasileiros de ficção científica: A besta, de Felipe Castilho; Uma longa órbita, de Jana Bianchi; Sol de Limão, de Lady Sybylla; e Repetição, de Alexey Dodsworth. A própria editora passou a reuni-los em uma seção dedicada à ficção científica nacional.
A coincidência permite observar algo mais interessante do que simplesmente quatro lançamentos chegando às livrarias ao mesmo tempo. Os livros partem de ideias bastante diferentes: há exploração planetária, inteligência artificial, imortalidade, bioética, cidades dominadas por corporações e a comercialização digital da memória de pessoas mortas. Em vez de procurar uma característica única que defina a ficção científica feita no Brasil, talvez seja mais produtivo observar justamente quantas direções ela consegue seguir.
Por isso, estes cinco livros não foram escolhidos para formar uma lista das “melhores ficções científicas brasileiras”, nem poderiam representar sozinhos uma tradição muito maior. Eles funcionam como uma porta de entrada para alguns caminhos recentes do gênero e mostram que imaginar o futuro a partir do Brasil pode produzir mundos bastante diferentes entre si.
1. A besta, de Felipe Castilho — imortalidade para quem pode continuar no topo

Felipe Castilho já transitou pela fantasia urbana, pelo folclore, pelos quadrinhos e pela ficção especulativa em obras como O legado folclórico e Serpentário. Em A besta, com lançamento marcado para 1º de setembro de 2026, o escritor parte para um futuro posterior a uma grande guerra e constrói uma sociedade que aparentemente conseguiu alcançar estabilidade política e equilíbrio ecológico. Como seria de esperar de uma distopia, essa estabilidade não está distribuída igualmente.
Fora da estrutura oficial desse novo mundo existem os chamados tecnofeudos do Vetor, ilhas artificiais transformadas em territórios corporativos onde bilionários conseguem prolongar o poder que possuíam antes da reorganização global. Uma delas é Amaranth, descrita como uma espécie de Manhattan do hemisfério Sul, onde tecnologia, crime organizado e experimentação biológica passam a se encontrar quando uma criatura considerada extinta escapa de um carregamento clandestino.
A premissa permite que Castilho trabalhe uma questão recorrente na ficção científica por um ângulo bastante contemporâneo: o que acontece quando o avanço tecnológico não elimina a desigualdade, mas oferece às elites novas maneiras de prolongá-la? A possibilidade de superar limites biológicos não significa necessariamente uma conquista coletiva. Quando longevidade, território e recursos continuam submetidos às mesmas relações de poder, até a imortalidade pode funcionar como instrumento de concentração.
O livro também mistura registros que nem sempre aparecem juntos na FC brasileira. Há cidades-estado corporativas, biotecnologia e questões geopolíticas, mas também arenas clandestinas, crime organizado e uma criatura capaz de empurrar parte da narrativa para o território do horror. Para quem gosta de ficção científica construída a partir do encontro entre cyberpunk, biologia e ação, A besta oferece um ponto de entrada bastante diferente dos modelos clássicos de exploração espacial.
2. Uma longa órbita, de Jana Bianchi — explorar outro planeta sem conseguir pisar nele

A exploração espacial costuma começar com uma pergunta aparentemente simples: como chegaremos até outro mundo? Uma longa órbita, primeiro romance de ficção longa de Jana Bianchi, prefere começar quando parte desse problema já foi resolvida. A humanidade chegou a Tau Ceti f e estabeleceu ali uma colônia científica. O obstáculo agora é descobrir como continuar vivendo num planeta que nunca foi feito para receber seres humanos.
Tarsila, uma bióloga convocada para integrar um comitê de crise, precisa investigar organismos bioluminescentes que estão produzindo biofilmes capazes de corroer o sistema de captação de água do assentamento. A gravidade da superterra impede que ela desça pessoalmente até a superfície, o que exige o uso dos gaiatos, corpos sintéticos por meio dos quais sua consciência pode atuar remotamente no planeta.
A combinação entre biologia especulativa e corpos artificiais permite que o romance trabalhe duas fronteiras ao mesmo tempo. Existe a questão científica de compreender organismos extraterrestres dentro de um ecossistema desconhecido, mas também uma questão corporal: o que significa experimentar outro ambiente quando o corpo utilizado para tocá-lo não é exatamente o seu? Distância, presença e identidade deixam de ser apenas problemas filosóficos quando uma pessoa pode viver parte de sua existência através de um organismo construído tecnologicamente.
Jana Bianchi também se afasta da ideia de que a exploração espacial precisa ser estruturada principalmente em torno de conquista, guerra ou descoberta de civilizações alienígenas. O conflito parte de micro-organismos, abastecimento de água e adaptação, elementos capazes de determinar a sobrevivência de uma colônia inteira. É uma escala aparentemente menor que coloca a ciência no centro da aventura e aproxima a exploração de outro planeta de problemas que uma comunidade real precisaria resolver para continuar existindo.
Para quem procura uma ficção científica brasileira interessada em astrobiologia, senciência, corpos sintéticos e relações humanas mantidas através de distâncias enormes, Uma longa órbita é provavelmente o título mais diretamente ligado à tradição da FC científica entre os cinco selecionados.
3. Sol de Limão, de Lady Sybylla — quanto de uma pessoa permanece quando suas memórias desaparecem?

Em Sol de Limão, Lady Sybylla não precisa abandonar a Terra para encontrar uma fronteira tecnológica. Seu futuro está em São Paulo, numa sociedade que ainda convive com consequências de uma longa ditadura teocrática e na qual novas tecnologias oferecem possibilidades que começam a ultrapassar os limites conhecidos da medicina. O romance chega às livrarias em 1º de setembro de 2026.
A protagonista, Letícia, conhecida como Leca, tem 35 anos e trabalha como ilustradora quando recebe um diagnóstico de Alzheimer precoce. A progressiva perda das palavras, cores e lembranças que estruturavam sua identidade encontra então uma possibilidade inesperada: uma tecnologia experimental e ilegal que envolve inteligência artificial, nanotecnologia e intervenções capazes de colocar a personagem no centro de uma conspiração maior.
É uma premissa particularmente adequada para a ficção científica porque transforma uma pergunta antiga sobre memória e identidade em um problema tecnológico concreto. Se nossas experiências podem ser registradas, reproduzidas ou preservadas através de máquinas, em que ponto aquilo que permanece ainda pode ser chamado de pessoa? E quem deveria ter o direito de decidir quais intervenções são aceitáveis quando a alternativa é assistir ao desaparecimento gradual de elementos que alguém considera fundamentais para ser quem é?
Lady Sybylla, que também atua como pesquisadora e divulgadora de ficção científica, aproxima essas questões de uma realidade brasileira futura em vez de construir uma tecnologia abstrata separada da sociedade que a utiliza. O histórico político desse mundo, os interesses envolvidos na tecnologia e a condição individual de Leca transformam bioética e inteligência artificial em decisões que possuem consequências pessoais.
Sol de Limão pode interessar especialmente a quem prefere ficção científica centrada em pessoas e dilemas médicos, sem que isso signifique abandonar questões maiores sobre política e tecnologia. O futuro aparece aqui menos como um catálogo de invenções e mais como um lugar em que novos recursos científicos obrigam seres humanos a reconsiderar aquilo que entendiam como limites naturais da própria existência.
4. Repetição, de Alexey Dodsworth — quando a saudade vira um serviço vendido por algoritmos

A ideia de recriar digitalmente uma pessoa morta deixou de pertencer inteiramente à ficção científica. Fotografias, mensagens, vídeos, registros de voz e outras pegadas digitais já oferecem material suficiente para que sistemas computacionais reproduzam partes reconhecíveis de alguém. Repetição, de Alexey Dodsworth, leva essa possibilidade muito além e pergunta o que aconteceria se a indústria descobrisse como transformar o luto em um produto quase irresistível. O romance também tem lançamento previsto para 1º de setembro de 2026.
A história atravessa diferentes momentos do futuro. Em 2030, uma empresa desenvolve um serviço capaz de reconstruir pessoas mortas utilizando dados digitais, mensagens e registros deixados por elas. Gael entra em contato com essa tecnologia depois da morte do irmão gêmeo e vê sua mãe encontrar conforto em um “repetidor”, uma reconstrução virtual do filho perdido. O sistema deixa de parecer apenas uma curiosidade tecnológica quando a simulação passa a reproduzir elementos cada vez mais convincentes daquela presença.
Décadas depois, em uma Paulistânia hipertecnológica de 2100, a relação da humanidade com morte e envelhecimento já mudou profundamente. Gael pertence a uma minoria que ainda aceita envelhecer enquanto procura enfrentar consequências de escolhas tecnológicas iniciadas muito antes. O romance combina, segundo a apresentação da editora, inteligência artificial, biotecnologia, neurofisiologia e eugenia corporativa.
A especulação é interessante porque não começa perguntando se uma inteligência artificial poderá algum dia desenvolver consciência. O problema imediato é muito mais humano: o que estamos dispostos a aceitar quando uma tecnologia promete devolver alguém de quem sentimos falta? Um sistema nem sequer precisaria produzir uma ressurreição perfeita para transformar profundamente a maneira como uma sociedade enfrenta a morte. Bastaria produzir algo convincente o bastante para que deixar de utilizá-lo começasse a parecer uma segunda perda.
Isso faz de Repetição uma ficção científica sobre tecnologia, mas também sobre mercado. Se a saudade pode ser convertida em dados e os dados podem ser transformados em uma experiência comercializável, empresas passam a controlar uma parte extremamente íntima da relação das pessoas com o passado.
5. Olhos de Pixel, de Lucas Mota — cyberpunk num Brasil de vigilância, religião e exclusão

Os quatro livros anteriores chegam praticamente juntos ao mercado, mas o atual momento da ficção científica brasileira não começou com esses lançamentos. Olhos de Pixel, de Lucas Mota, ajuda a ampliar a fotografia. O romance venceu o Prêmio Jabuti e ganhou uma nova edição pela Rocco em 2024, com epílogo inédito, permanecendo disponível em edição física e digital.
Seu mundo parte de elementos reconhecíveis do cyberpunk — vigilância tecnológica, hackers, corporações de poder e personagens empurrados para as margens —, mas os reorganiza dentro de uma realidade explicitamente brasileira. Nina, Tera e Iza realizaram o chamado root, utilizando um software para escapar parcialmente do sistema de monitoramento governamental. A consequência dessa liberdade é viver com direitos restringidos e sob perseguição da poderosa Santa Igreja de Salomão.
Depois que Nina é presa, o grupo recebe uma proposta: ajudar a polícia a localizar Kalango, considerado o maior hacker do país, em troca da possibilidade de partir para uma colônia espacial. O conflito leva os personagens para dentro das relações entre Estado, religião e tecnologia que sustentam o próprio sistema do qual tentavam escapar.
O cyberpunk sempre se interessou pela desigualdade criada quando tecnologias extremamente avançadas convivem com sociedades profundamente desiguais. Olhos de Pixel aproveita essa estrutura, mas não precisa reproduzir Los Angeles, Tóquio ou alguma metrópole estrangeira coberta de néon para fazê-la funcionar. Questões de repressão, religião, marginalização e desigualdade assumem configurações próprias dentro de sua distopia.
Essa localização importa porque mostra uma das possibilidades mais interessantes da ficção científica brasileira contemporânea. Utilizar gêneros consolidados internacionalmente não exige abandonar as experiências locais. Cyberpunk, exploração espacial, biotecnologia ou inteligência artificial podem funcionar como ferramentas para imaginar futuros que continuam carregando questões brasileiras, mesmo quando parte da humanidade já vive em outros planetas.
Não existe um único futuro brasileiro
Colocar esses cinco livros lado a lado ajuda a desfazer uma impressão que ainda acompanha parte da recepção da ficção científica nacional: a de que produzir FC no Brasil significaria necessariamente encontrar uma versão “brasileira” de modelos criados em outros países. Os romances desta seleção mostram justamente o contrário. O interessante não está em descobrir qual elemento nacional substituirá os componentes tradicionais do gênero, mas em observar o que diferentes autores fazem quando usam essas ferramentas a partir de suas próprias preocupações.
Felipe Castilho imagina tecnofeudos corporativos e uma disputa em torno dos limites biológicos da humanidade. Jana Bianchi leva uma cientista a outro planeta para pensar ecologia alienígena, corpos artificiais e isolamento. Lady Sybylla aproxima inteligência artificial e nanotecnologia da deterioração da memória. Alexey Dodsworth transforma saudade e morte em produtos de uma economia algorítmica. Lucas Mota utiliza o cyberpunk para construir uma sociedade marcada por vigilância, religião e exclusão.
Também seria um erro imaginar esses cinco nomes como representantes de tudo que está sendo produzido. A ficção científica brasileira contemporânea se espalha por romances, contos, quadrinhos, publicações independentes e editoras de diferentes tamanhos. Autores como Alê Santos, Fábio Kabral, Lu Ain-Zaila, Sandra Menezes, Clinton Davisson, Octavio Aragão, Gerson Lodi-Ribeiro, André Carneiro e muitos outros ajudam a formar uma tradição muito mais extensa do que qualquer lista poderia comportar.
O que setembro de 2026 oferece é uma boa oportunidade para olhar novamente para essa produção. Quatro romances brasileiros chegando simultaneamente ao catálogo de uma editora fortemente identificada com a ficção científica e uma obra vencedora do Jabuti disponível em nova edição não significam que a FC nacional tenha acabado de surgir. Significam que livros que durante muito tempo precisaram disputar espaço para demonstrar que esse futuro também poderia ser imaginado daqui estão encontrando novas maneiras de chegar aos leitores.
