Brasil

Renan Bernardo

A trajetória de Renan Bernardo ajuda a compreender uma mudança importante na posição da ficção científica brasileira dentro do cenário internacional. Brasileiro, autor de ficção científica e fantasia e escrevendo tanto em português quanto em inglês, Bernardo construiu parte significativa de sua carreira em revistas e editoras estrangeiras, com histórias publicadas em veículos como Clarkesworld, Reactor, Apex Magazine, Escape Pod, Samovar, Solarpunk Magazine e Translunar Travelers Lounge. Seus textos já circularam em português, inglês, chinês, alemão, italiano e japonês, formando uma bibliografia que não depende de um único mercado editorial para existir.

Esse percurso é particularmente relevante para um Arquivo dedicado à literatura fantástica brasileira porque desloca uma associação ainda comum entre nacionalidade literária e cenário narrativo. Bernardo escreve histórias ambientadas no Brasil e trabalha diretamente com questões brasileiras, mas também produz space opera, ficção de primeiro contato, fantasia de mundos secundários e narrativas que poderiam se passar muito longe do país. Sua obra demonstra como um escritor brasileiro contemporâneo pode participar da nossa tradição de ficção científica ao mesmo tempo em que publica diretamente para leitores internacionais e utiliza repertórios que não precisam apresentar o Brasil como assunto central de todas as histórias.

A projeção internacional tornou-se especialmente visível com duas indicações ao Nebula Award. “A Short Biography of a Conscious Chair”, publicada pela Samovar em 2023, foi finalista na categoria noveleta; dois anos depois, a novela Disgraced Return of the Kap’s Needle recebeu nova indicação, dessa vez na categoria Melhor Novela, na edição dos Nebula Awards referente às obras de 2025 e cuja cerimônia aconteceu em junho de 2026. O reconhecimento confirma uma trajetória que já vinha sendo construída sobretudo através da ficção curta, mas não resume aquilo que torna sua produção interessante: clima, tecnologia, desigualdade, família, memória e as consequências humanas de sistemas em crise reaparecem em diferentes gêneros e escalas.

De leitor brasileiro a escritor bilíngue

A formação de Bernardo como leitor de ficção científica não corresponde exatamente ao percurso canônico frequentemente utilizado para narrar a história do gênero nos Estados Unidos. Em um ensaio publicado pela Apex Magazine em 2024, ele escreveu sobre crescer no Brasil tendo acesso irregular a vários dos autores considerados fundamentais para a ficção científica anglófona. Escritores como Ursula K. Le Guin, Octavia Butler, Isaac Asimov e William Gibson entraram em sua formação mais tarde, enquanto histórias de super-heróis, videogames e até programas sobre supostos antigos alienígenas fizeram parte de seu contato inicial com ideias especulativas.

Essa experiência é importante porque questiona a ideia de que todo escritor de ficção científica precise atravessar o mesmo repertório para pertencer ao gênero. O mercado brasileiro historicamente recebeu traduções de maneira desigual, com determinados autores chegando rapidamente e outros permanecendo anos ou décadas sem edições acessíveis. Bernardo cita, por exemplo, Neuromancer, cuja primeira tradução brasileira chegou sete anos depois da publicação original, e lembra como outros nomes tiveram presença muito mais limitada no país.

Sua relação com a língua também se tornou parte da construção da carreira. Em entrevista de 2022, Bernardo explicou que o português é sua primeira língua, mas que uma parcela significativa de sua ficção passou a ser escrita em inglês. Isso permitiu que histórias fossem submetidas diretamente a revistas internacionais ao mesmo tempo em que continuava publicando em português, criando um percurso diferente daquele em que uma obra primeiro obtém reconhecimento nacional para depois alcançar traduções.

Essa circulação entre línguas não deve ser entendida apenas como estratégia comercial. Ela interfere também no lugar ocupado pelo autor dentro do gênero. Bernardo pode escrever uma narrativa profundamente ligada ao Rio de Janeiro para uma publicação norte-americana, enquanto outra história escrita pelo mesmo brasileiro se passa em um futuro interestelar sem qualquer compromisso de representar diretamente o país. A nacionalidade do autor permanece parte de sua formação e de sua perspectiva, mas não funciona como uma obrigação temática.

Renan Bernardo Fonte: Site oficial

Ficção curta e publicação internacional

Antes das coletâneas e novelas, a produção de Bernardo construiu presença sobretudo através dos contos e noveletas. Sua bibliografia passou por publicações dedicadas à ficção especulativa de diferentes perfis, incluindo Daily Science Fiction, On Spec, Escape Pod, Apex Magazine, Solarpunk Magazine, Samovar, Clarkesworld e Reactor. Esse circuito de revistas é especialmente importante na ficção científica anglófona, onde histórias curtas continuam funcionando como espaço de experimentação e também como uma das principais portas de entrada para novos autores.

A variedade das publicações corresponde à amplitude temática de sua obra. Algumas histórias estão diretamente associadas ao solarpunk e à ficção climática, enquanto outras exploram inteligência artificial, primeiro contato, viagem interestelar, memória, identidade ou fantasia. A apresentação do autor pela Tor Publishing Group resume esse intervalo como uma produção que vai da fantasia de mundos secundários à ficção científica sombria, embora destaque como interesse recorrente a interseção entre clima, ciência, tecnologia e relações humanas.

Uma das histórias que ampliaram sua projeção foi “A Short Biography of a Conscious Chair”, publicada pela Samovar Magazine em 2023 tanto em inglês quanto em português. A narrativa acompanha um drama familiar através do ponto de vista de uma cadeira consciente, premissa que utiliza uma inteligência artificial incomum para observar passagem do tempo, memória e vínculos entre pessoas. A história tornou-se finalista do Nebula de Melhor Noveleta e também recebeu indicações ao Ignyte e ao brasileiro Prêmio Argos.

A indicação ao Nebula foi particularmente significativa porque demonstrou que a inserção internacional do autor não dependia apenas da quantidade de publicações. Uma história de um brasileiro publicada por uma revista internacional bilíngue chegou a uma das principais premiações da ficção especulativa norte-americana sem que fosse necessário passar primeiro por uma edição comercial brasileira tradicional.

A Theory of Missing Affections e o alienígena que permanece diferente

Em 2024, Bernardo publicou “A Theory of Missing Affections” na edição 216 da Clarkesworld, uma das revistas mais influentes da ficção científica contemporânea. A história trabalha com vestígios de uma espécie alienígena extinta, memória, culpa e relações familiares, utilizando a arqueologia de uma cultura extraterrestre para colocar em conflito interpretações muito pessoais sobre aquilo que foi perdido.

Esse tipo de construção revela uma característica recorrente na obra do autor. A tecnologia ou o elemento científico raramente existem apenas como mecanismo de enredo. Objetos, sistemas e descobertas alteram relações humanas e obrigam os personagens a lidar com questões que já estavam presentes antes da tecnologia entrar em cena. A especulação oferece novas condições para o conflito, mas não substitui seus componentes afetivos.

Essa preocupação ajuda também a explicar por que a produção de Bernardo não cabe integralmente dentro do solarpunk, apesar da importância que o movimento possui em sua carreira. Ficção climática, space opera e histórias de primeiro contato podem utilizar estruturas muito diferentes, mas frequentemente retornam a comunidades, famílias, responsabilidades e às consequências produzidas quando sistemas tecnológicos ou sociais deixam de funcionar como prometido.

Different Kinds of Defiance

O primeiro grande conjunto capaz de mostrar essa dimensão da obra em um único volume foi Different Kinds of Defiance, coletânea publicada pela Android Press em março de 2024. O livro reúne dez histórias de solarpunk e ficção climática e foi posteriormente incluído na lista longa do British Science Fiction Award na categoria de melhor coletânea.

Os contos apresentam futuros transformados pela crise climática, mas não adotam uma única resposta emocional ao problema. A editora descreve histórias sobre regiões costeiras modificadas, poluição, desigualdade, infraestrutura, saúde e tecnologias destinadas a recuperar ambientes degradados. Em “Eight Steps to Steal a Yacht and Build a Hospital”, por exemplo, um iate pertencente aos ricos é convertido em hospital para atender comunidades em um Brasil inundado; outras narrativas acompanham personagens tentando preservar territórios ou encontrar novas maneiras de viver em ambientes profundamente alterados.

A coletânea ajuda a afastar uma interpretação simplificada do solarpunk como futuro confortável no qual painéis solares e jardins resolveram os conflitos sociais. O próprio Bernardo organiza sua produção climática em torno de histórias com diferentes graus de esperança, muitas delas atravessadas por desigualdade, perdas ambientais e disputas sobre quem recebe os benefícios das soluções tecnológicas. Em seu site, ele identifica explicitamente interseções ligadas ao Sul Global e ao Brasil como componentes importantes desses textos, sem restringir todo o conjunto a um único país.

A esperança presente em Different Kinds of Defiance é, portanto, menos uma previsão de que as coisas necessariamente darão certo do que uma preocupação com aquilo que pessoas podem fazer dentro de condições adversas. A resiliência não elimina o dano climático, e a tecnologia não aparece como solução independente das estruturas sociais que determinam quem terá acesso a ela.

Esse caráter também foi observado na recepção da coletânea. A Publishers Weekly destacou que seus dez futuros são afetados por mudanças climáticas, guerra, desigualdade econômica e ganância, mas que os personagens procuram reorganizar comunidades e produzir respostas concretas em vez de permanecer apenas diante do colapso.

Clima sem transformar o futuro em cenário

A ficção climática de Bernardo frequentemente trata o ambiente como uma força capaz de reorganizar relações sociais. A elevação dos oceanos, a poluição e a escassez não funcionam somente como imagens que tornam um futuro visualmente diferente. Alteram trabalho, deslocamento, acesso à saúde, moradia e a maneira como diferentes grupos conseguem sobreviver.

O Rio de Janeiro aparece em algumas dessas histórias não apenas porque oferece uma paisagem facilmente reconhecível, mas porque sua geografia permite imaginar de maneira particularmente concreta os efeitos de mudanças no nível do mar e na ocupação urbana. A própria apresentação em português do autor descreve “O rio que passou em minha vida” a partir de um futuro em que pessoas ricas passaram a viver em estações espaciais enquanto uma personagem de 63 anos procura retornar a um Rio de Janeiro profundamente modificado pela elevação das águas.

Ao mesmo tempo, seu catálogo climático ultrapassa o Brasil. A lista organizada pelo próprio autor inclui histórias como “When It’s Time to Harvest”, “A Shoreline of Oil and Infinity”, “Soil of Our Home, Storm of Our Lives”, “Maitake-by-the-Sea”, “The Plasticity of Being” e “Wet Socks Drying in the Tide”. A crise ambiental funciona como problema transnacional, ainda que as respostas e vulnerabilidades dependam das sociedades em que cada personagem vive.

Essa abordagem permite que o clima permaneça ligado à experiência humana sem ser transformado em metáfora genérica. Quem possui recursos para abandonar um lugar? Quem precisa permanecer? Quem controla uma nova tecnologia? Quem paga pela adaptação? Perguntas sociais desse tipo aparecem porque um futuro climático não é apenas uma projeção meteorológica; é também uma distribuição de consequências.

Tecnologia e relações humanas

A tecnologia ocupa espaço recorrente na produção de Bernardo, mas raramente aparece como um agente neutro capaz de produzir resultados sozinho. Sua ficção tende a perguntar quem controla determinado sistema, por que ele foi desenvolvido, quem tem acesso a seus benefícios e que tipo de relação surge entre usuários, máquinas e instituições.

“The Plasticity of Being”, publicado pela Reactor, acompanha uma jornalista brasileira diante de uma comunidade vivendo em um aterro e das consequências de escolhas feitas no passado. A apresentação da Tor coloca diretamente a narrativa na interseção entre tecnologia e condições sociais, combinação que reaparece em outras partes de sua obra.

“A Short Biography of a Conscious Chair” leva essa relação para um espaço mais íntimo. A consciência artificial não é utilizada principalmente para discutir se máquinas acabarão dominando a humanidade, mas para observar uma família através de um ser tecnológico colocado dentro de seu cotidiano. A mudança de ponto de vista permite que a inteligência artificial participe de questões como afeto e memória sem transformar a história em uma variação do conflito entre humanos e robôs.

Mesmo quando a escala aumenta para naves e sociedades interestelares, a tecnologia continua associada a estruturas de poder. Isso se torna particularmente evidente em Disgraced Return of the Kap’s Needle, na qual sistemas de suporte à vida deixam de representar apenas engenharia espacial e passam a determinar quem terá acesso ao próprio ar.

Disgraced Return of the Kap’s Needle

Publicada pela Dark Matter Ink em abril de 2025, Disgraced Return of the Kap’s Needle marcou a passagem de Bernardo para uma narrativa mais longa e para uma forma mais sombria de space opera. A história se passa depois do fracasso de uma missão colonizadora: a nave geracional Kap’s Needle, lançada em 2144 para estabelecer uma nova comunidade em outro mundo, precisa retornar à Terra enquanto seus ecossistemas artificiais entram em colapso e o oxigênio se torna cada vez mais escasso.

A protagonista, Reva, trabalha com o suporte à vida da nave, mas a deterioração dos sistemas transforma seu cargo em algo politicamente brutal. Respirar passa a depender da distribuição de um recurso insuficiente, fazendo com que decisões técnicas se tornem decisões sobre quem terá condições de continuar vivo. Paralelamente, o capitão Horvat inicia uma campanha contra suposta corrupção enquanto tenta esconder seus próprios fracassos, colocando Reva em risco e obrigando-a a cooperar com a primeira-oficial Torres, com quem mantém uma relação anterior marcada por ressentimento.

A premissa permite que Bernardo trabalhe com elementos reconhecíveis da space opera — nave geracional, fracasso de colonização, ambientes artificiais e crise de comando — sem abandonar as preocupações presentes em seus contos climáticos. Ecologia, distribuição de recursos e estruturas políticas continuam conectadas. A diferença é que o território vulnerável agora está fechado dentro de uma nave viajando entre as estrelas.

O fracasso ambiental da Kap’s Needle também altera a função tradicional da nave geracional na ficção científica. Em muitas histórias, esse tipo de veículo representa a capacidade humana de levar a civilização para outros sistemas. Bernardo parte do momento posterior à derrota desse projeto. A colônia não funcionou e a promessa de um novo mundo foi substituída pela necessidade de retornar enquanto a própria infraestrutura construída para garantir a sobrevivência se deteriora.

Essa estrutura aproxima a novela das inquietações presentes em Different Kinds of Defiance, embora o tom seja muito mais sombrio. Quando um ecossistema entra em crise, a pergunta não é apenas se existe tecnologia suficiente para repará-lo. Importa também quem decide como os recursos restantes serão distribuídos e quais comportamentos surgem quando uma comunidade percebe que talvez não exista solução capaz de salvar todos.

A segunda indicação ao Nebula

Disgraced Return of the Kap’s Needle colocou Bernardo novamente entre os finalistas do Nebula Award, dessa vez na categoria de Melhor Novela. Oficialmente, a SFWA registra o título entre os indicados do ciclo de 2025; a cerimônia aconteceu em 6 de junho de 2026, quando The River Has Roots, de Amal El-Mohtar, recebeu o prêmio da categoria.

Era a segunda indicação de Bernardo ao Nebula em poucos anos. A página oficial da premiação registra anteriormente “A Short Biography of a Conscious Chair” entre as noveletas indicadas em 2023. A sequência é relevante porque envolve formatos e propostas bastante distintos: primeiro uma história sobre uma cadeira consciente e relações familiares; depois, uma space opera sombria sobre colapso ambiental, poder e sobrevivência.

Em 2026, sua presença nas principais premiações internacionais continuou com “The Hungry Mouth at the Edge of Space and the Goddess Knitting at Home”, publicado pela Reactor em 2025 e anunciado como finalista do World Fantasy Award na categoria de ficção curta. O conto também havia aparecido na lista de leituras recomendadas da Locus, ampliando uma trajetória que já não pode ser compreendida apenas como uma sequência de publicações ocasionais no exterior.

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Fantasia, space opera e a recusa de uma única identidade literária

A associação de Bernardo ao solarpunk é compreensível porque Different Kinds of Defiance reuniu parte importante de sua produção e porque o escritor participa ativamente de discussões sobre ficção climática. Isso não significa, porém, que seu trabalho esteja restrito ao movimento. Sua apresentação profissional inclui explicitamente fantasia e ficção científica sombria, além das histórias climáticas.

A bibliografia mostra essa variedade de maneira mais clara do que qualquer rótulo. Há histórias sobre sociedades alienígenas, inteligência artificial, viagem interestelar, futuros climáticos e mundos que operam através de estruturas fantásticas. Em 2025, “The Hungry Mouth at the Edge of Space and the Goddess Knitting at Home” combinou espaço, morte, herança familiar e uma dimensão próxima do mitológico dentro de uma narrativa que dificilmente precisaria ser encaixada integralmente em uma única subdivisão da ficção especulativa.

Essa amplitude também impede que o interesse por ciência e tecnologia seja confundido com uma defesa automática do progresso tecnológico. Uma máquina ou sistema pode aumentar as possibilidades de uma comunidade e, ao mesmo tempo, reproduzir desigualdades existentes. Uma nave capaz de atravessar o espaço pode representar uma conquista extraordinária e ainda assim transformar oxigênio em instrumento de poder quando seus sistemas começam a falhar.

O ponto de continuidade está menos no subgênero e mais nas pessoas que precisam viver dentro dessas condições. Tecnologia, clima ou elementos fantásticos alteram as regras do mundo, mas os conflitos frequentemente retornam a famílias, comunidades, culpa, solidariedade, desigualdade e responsabilidade.

Um brasileiro que publica para fora

A posição de Bernardo dentro da ficção científica brasileira contemporânea torna-se especialmente interessante quando observamos o caminho editorial utilizado para construir sua carreira. Grande parte de seus trabalhos apareceu originalmente em veículos internacionais e em inglês. Isso não torna essas histórias menos brasileiras, assim como uma narrativa ambientada em uma nave interestelar não deixa de integrar a produção literária de um escritor brasileiro por não conter personagens caminhando pelo Rio de Janeiro ou por não discutir diretamente a história nacional.

O fenômeno ajuda a romper uma fronteira editorial que durante muito tempo foi tratada quase como uma fronteira cultural. No modelo mais tradicional, seria possível imaginar um escritor sendo publicado no Brasil, conquistando leitores brasileiros, recebendo tradução e só então entrando em circulação internacional. A internet, os sistemas digitais de submissão e a existência de revistas especializadas com autores de vários países permitem outros percursos, ainda que as barreiras linguísticas e econômicas continuem existindo.

Bernardo representa de maneira particularmente clara essa possibilidade porque escreve nas duas línguas. Seu primeiro idioma é o português, mas uma parcela considerável de sua produção ficcional é escrita em inglês; seus textos posteriormente podem retornar ao português, circular simultaneamente em mais de um idioma ou seguir para traduções em outros mercados.

A circulação inversa fica evidente também em Disgraced Return of the Kap’s Needle. Depois da publicação internacional pela Dark Matter Ink e da indicação ao Nebula, o site oficial brasileiro do autor informa que a obra será publicada no Brasil pela Editora Aleph, com título e data brasileiros ainda por anunciar. Em vez de o livro brasileiro buscar posteriormente um mercado estrangeiro, uma space opera de um escritor brasileiro retorna ao próprio país depois de construir parte de sua trajetória editorial no exterior.

O Brasil dentro e fora das histórias

Reconhecer esse percurso não significa que o Brasil esteja ausente da produção de Bernardo. Pelo contrário, várias narrativas utilizam espaços, problemas e personagens brasileiros de maneira direta. Different Kinds of Defiance inclui futuros relacionados ao Rio de Janeiro e a comunidades afetadas por transformações ambientais, enquanto “The Plasticity of Being” acompanha uma jornalista brasileira.

A diferença está em não transformar essa presença em exigência. Um autor brasileiro pode escrever sobre o Rio inundado e, no texto seguinte, construir uma sociedade em outro planeta. Pode trabalhar com clima no Sul Global e depois escrever sobre uma nave geracional. A pertença à ficção científica brasileira não depende de repetir continuamente elementos utilizados para provar ao leitor estrangeiro que aquela história veio do Brasil.

Essa liberdade é particularmente importante quando se pensa na maneira como literaturas de fora dos grandes centros editoriais são apresentadas internacionalmente. Há uma tendência de esperar que determinados escritores funcionem como representantes permanentes de sua nacionalidade, enquanto autores norte-americanos ou britânicos frequentemente recebem maior liberdade para escrever histórias cuja identidade nacional não precisa ser tematizada. O percurso de Bernardo ajuda a mostrar como essa divisão pode ser insuficiente para descrever a ficção especulativa contemporânea.

Isso também não torna sua origem irrelevante. O repertório que descreve ao falar sobre sua formação como leitor, seu contato tardio com parte do cânone anglófono e as preocupações do Sul Global presentes em sua ficção climática demonstram que experiências locais continuam informando sua escrita. A diferença está entre ser formado por um lugar e ser obrigado a transformar esse lugar no assunto de todas as histórias.

Uma carreira ainda em construção

Inserir Renan Bernardo no Arquivo do Fantástico envolve uma diferença importante em relação a autores cuja obra já pode ser observada como um conjunto encerrado. Sua bibliografia continua crescendo e parte significativa de sua trajetória ainda está acontecendo. O próprio catálogo do autor registra novos contos em 2026 e trabalhos já previstos para publicação posterior, além da continuidade da circulação de histórias anteriores em coletâneas e traduções.

Isso torna qualquer tentativa de definir definitivamente sua obra prematura. O solarpunk e a ficção climática representam uma parte importante da produção conhecida até agora, mas a space opera de Disgraced Return of the Kap’s Needle, a fantasia e outras experiências em ficção curta indicam uma atuação bem mais ampla. O que já pode ser observado com segurança é a recorrência de histórias em que grandes questões especulativas ganham importância através de consequências concretas para pessoas e comunidades.

Também já é possível situar Bernardo dentro de uma geração de escritores brasileiros que não precisa organizar a própria carreira a partir de uma separação rígida entre “mercado nacional” e “mercado internacional”. Suas histórias atravessam idiomas e publicações, podem começar em inglês e chegar depois ao português ou surgir em edições bilíngues, enquanto o reconhecimento recebido no exterior passa a fazer parte também da história recente da ficção especulativa produzida por brasileiros.

Essa perspectiva é talvez a principal razão para registrar sua trajetória enquanto ela ainda se desenvolve. O Arquivo do Fantástico não precisa existir somente para explicar retrospectivamente como escritores se tornaram canônicos. Ele também pode acompanhar os caminhos pelos quais a fantasia e a ficção científica brasileiras estão sendo produzidas agora, inclusive quando esses caminhos atravessam revistas norte-americanas, editoras estrangeiras, premiações internacionais e histórias que se passam a muitos anos-luz do Brasil.

Renan Bernardo ocupa esse espaço sem precisar escolher entre escrever ficção brasileira e participar de uma tradição internacional de ficção científica. Sua produção mostra que essas duas condições podem existir ao mesmo tempo: o escritor carrega sua formação, sua língua e sua experiência brasileira para uma literatura que não precisa permanecer geograficamente confinada a elas.

A novela “Breve biografia de uma cadeira lúcida”, finalista do prêmio Nebula 2024, pode ser lida atrás do site oficial do autor, clicando aqui.


Fontes consultadas:

  • BERNARDO, Renan — site oficial, biografia, bibliografia e relação de publicações.
  • BERNARDO, Renan — “Ancient Aliens, Clones, and Growing Up as a SFF Reader in Brazil”, Apex Magazine.
  • BERNARDO, Renan; HELLER, Simone — entrevista “The Building Materials of Stories with Renan Bernardo”.
  • SCIENCE FICTION AND FANTASY WRITERS ASSOCIATION / NEBULA AWARDS — registros das indicações de “A Short Biography of a Conscious Chair” e Disgraced Return of the Kap’s Needle.
  • ANDROID PRESSDifferent Kinds of Defiance.
  • PUBLISHERS WEEKLY — resenha de Different Kinds of Defiance.
  • TOR PUBLISHING GROUP / MACMILLAN — perfil de Renan Bernardo e publicações na Reactor.
  • FUTURE SCIENCE FICTION DIGEST — perfil e bibliografia do autor.

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