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Ensaios

Por que continuamos imaginando alienígenas como invasores?

Muito antes de encontrarmos qualquer evidência de uma civilização extraterrestre, já decidimos em nossas histórias que ela provavelmente chegará armada. De H. G. Wells a Independence Day, de Space Invaders a O Problema dos Três Corpos, a invasão alienígena atravessou mais de um século adaptando-se aos medos de cada geração. Mas talvez essas histórias revelem muito menos sobre possíveis habitantes de outros mundos do que sobre nós mesmos.

Quando uma nave desconhecida aparece sobre uma cidade no cinema, quase nunca precisamos esperar muito para entender o que está acontecendo. Governos entram em alerta, militares são mobilizados, ruas começam a esvaziar e alguém tenta descobrir como enfrentar aquilo que acabou de chegar. Ainda não sabemos quem está dentro da nave, de onde veio, o que deseja ou sequer se compreende a ideia humana de hostilidade, mas a possibilidade da guerra costuma surgir antes de qualquer tentativa de conversa. A ficção científica repetiu essa situação tantas vezes que transformou o invasor extraterrestre em uma espécie de personagem que dispensa apresentação.

Essa associação parece natural porque convivemos com ela desde muito antes de filmes como Independence Day transformarem a destruição de cidades em espetáculo. Marcianos, criaturas disfarçadas de seres humanos, impérios interestelares e espécies interessadas nos recursos da Terra atravessam mais de um século de literatura, cinema, televisão, quadrinhos e videogames. Mesmo obras que tentam escapar desse modelo precisam lidar com a expectativa criada por ele: quando as enormes estruturas alienígenas de A Chegada surgem sobre diferentes pontos do planeta, por exemplo, boa parte da tensão inicial existe porque nós, espectadores, já aprendemos o que uma imagem semelhante deveria significar.

O mais curioso é que essa certeza cultural não nasceu de qualquer conhecimento sobre extraterrestres. Não temos experiência com uma civilização alienígena e não sabemos se inteligência complexa surgiu em algum outro lugar do universo, muito menos quais valores, comportamentos ou formas de organização poderia desenvolver. Quando imaginamos seres de outro planeta interessados em conquistar território, controlar populações, disputar recursos e eliminar quem estiver em seu caminho, estamos atribuindo a algo completamente desconhecido um conjunto de atitudes que conhecemos muito bem. Antes de dizer qualquer coisa sobre eles, a invasão extraterrestre talvez revele bastante sobre nós.

O alienígena invasor nasceu de um medo muito terrestre

H. G. Wells ocupa um lugar inevitável nessa história por causa de A Guerra dos Mundos, mas a ideia de uma sociedade sendo surpreendida por uma força tecnologicamente superior não começou em Marte. Durante a segunda metade do século XIX, especialmente na Europa, tornou-se popular um tipo de literatura que imaginava conflitos futuros e invasões de grandes potências. Um dos exemplos mais conhecidos é The Battle of Dorking, publicado por George Tomkyns Chesney em 1871, no qual a Inglaterra é derrotada por um inimigo estrangeiro mais preparado militarmente.

Essas histórias faziam sentido dentro de um continente atravessado por rivalidades nacionais, expansão imperial e mudanças rápidas na tecnologia de guerra. Seus leitores estavam acostumados a acompanhar disputas territoriais e a imaginar quais países poderiam se tornar mais fortes nas décadas seguintes. A ameaça vinha do outro lado de uma fronteira conhecida, mas a estrutura fundamental da futura invasão alienígena já estava disponível: uma força externa aparece, demonstra uma superioridade que parecia impossível e transforma uma sociedade poderosa em vítima.

A passagem da fronteira terrestre para o espaço aconteceu antes mesmo de Wells. Em The Germ Growers, publicado em 1892 pelo escritor australiano Robert Potter, seres extraterrestres assumem aparência humana e desenvolvem agentes infecciosos para atacar a humanidade. A obra permaneceu muito menos conhecida, mas mostra que a ideia de uma ameaça vinda de outro mundo já circulava quando Wells começou a escrever sobre seus marcianos.

O que A Guerra dos Mundos fez foi transformar essa possibilidade em algo muito maior. Publicado inicialmente no fim do século XIX, o romance não apresentava apenas monstros impressionantes ou máquinas avançadas. Wells criou uma situação em que habitantes da maior potência imperial de sua época descobriam, de maneira brutal, como era estar diante de uma civilização que os considerava tecnologicamente inferiores e que não demonstrava qualquer obrigação de respeitar sua existência. É justamente aí que a história deixa de ser apenas uma aventura sobre extraterrestres.

Quando o império encontra alguém mais poderoso

No fim do século XIX, o Império Britânico controlava territórios espalhados pelo planeta e participava de um sistema colonial que se apresentava frequentemente como evidência de superioridade civilizacional. A distância tecnológica e militar entre colonizadores europeus e muitos dos povos submetidos por eles era utilizada como parte da justificativa para conquista, ocupação e exploração. Wells escreve dentro desse mundo, mas coloca seus leitores do lado que normalmente não ocupavam.

Os marcianos chegam à Inglaterra sem demonstrar qualquer interesse pela importância que os ingleses atribuem a si mesmos. Armas humanas mostram-se quase inúteis, cidades são destruídas e pessoas comuns passam a fugir de uma força cuja tecnologia está muito além daquilo que conseguem enfrentar. Para os invasores, a posição ocupada pela humanidade não é muito diferente daquela que os próprios seres humanos haviam reservado a outras populações e espécies.

O romance deixa essa comparação bastante clara. Wells lembra a violência produzida pela expansão europeia e obriga o leitor a considerar a possibilidade de que uma civilização superior pudesse utilizar exatamente a mesma lógica contra nós. O horror não depende apenas da aparência dos marcianos, portanto, mas da sensação desconfortável de reconhecer alguma coisa em seu comportamento. Eles nos tratam de uma maneira que a história humana já havia demonstrado ser perfeitamente possível.

Essa inversão ajudou a construir uma característica que permaneceria ligada às invasões extraterrestres por muitas décadas. Como ninguém sabe quais seriam as motivações de uma inteligência surgida em outro planeta, a ficção preenche esse espaço com experiências humanas. Colonização, expansão territorial, competição por recursos, guerra preventiva e destruição de povos considerados inferiores tornam-se modelos disponíveis para explicar aquilo que uma civilização alienígena poderia querer.

Não significa que toda narrativa de invasão seja conscientemente sobre colonialismo. Significa que, quando precisávamos imaginar o encontro com algo radicalmente desconhecido, uma das primeiras histórias que nos ocorreu foi repetir em escala planetária aquilo que seres humanos já haviam feito uns com os outros.

Os alienígenas mudam quando nossos medos mudam

Uma das razões para a sobrevivência do invasor extraterrestre é sua capacidade de assumir significados diferentes sem abandonar a mesma estrutura básica. O marciano de Wells podia dialogar com o imperialismo do século XIX, mas não havia motivo para que os alienígenas das décadas seguintes continuassem representando exatamente a mesma ansiedade. Bastava adaptar a ameaça ao mundo que agora a imaginava.

Isso fica especialmente evidente no cinema norte-americano da década de 1950. O início da Guerra Fria colocou espionagem, armas nucleares, infiltração política e medo do comunismo no centro da vida pública dos Estados Unidos. Nesse ambiente, nem todo extraterrestre precisava chegar disparando contra cidades. Às vezes, era mais assustador imaginar que ele já estivesse aqui e que não fosse possível reconhecê-lo.

Vampiros de Almas, lançado em 1956, transformou essa paranoia em uma das imagens mais duradouras do período. Pessoas aparentemente normais são substituídas por cópias que mantêm sua aparência, mas perdem características fundamentais de sua individualidade. O perigo não está apenas do lado de fora da comunidade. Ele pode ser o vizinho, o colega ou alguém da própria família.

Seria simplificador reduzir o filme a uma tradução direta de uma única ideologia política, e sua história permite leituras diferentes. Ainda assim, é difícil separar a força adquirida por aquela narrativa de uma sociedade em que a suspeita de infiltração fazia parte do debate cotidiano. O extraterrestre funcionava tão bem justamente porque não possuía uma identidade fixa. Cada geração podia utilizar sua presença para falar de um inimigo diferente.

O mesmo período produziu também um dos contrapontos mais importantes dessa tradição. Em O Dia em que a Terra Parou, de 1951, Klaatu chega à Terra não para conquistá-la, mas para advertir uma humanidade que havia desenvolvido formas cada vez mais eficientes de destruir a si mesma. Nesse caso, o visitante não confirma nossas expectativas sobre a violência extraterrestre. Ele observa a violência humana e encontra nela o verdadeiro problema.

Desde cedo, portanto, a ficção científica percebeu que o encontro com outra inteligência podia servir tanto para alimentar nosso medo do estrangeiro quanto para questioná-lo.

Por que a invasão funciona tão bem como história?

Existe uma razão menos filosófica para continuarmos voltando ao tema: invasões extraterrestres são narrativamente eficientes. Uma civilização desconhecida chegando à Terra cria uma ameaça imediatamente compreensível, aumenta a escala do conflito e permite que praticamente qualquer cidade, país ou grupo humano faça parte da mesma história. Poucos conceitos conseguem transformar um problema local em uma crise de toda a espécie com tanta facilidade.

Essa estrutura também resolve uma dificuldade antiga das histórias de guerra. Conflitos humanos exigem contexto, interesses políticos, responsabilidades históricas e algum nível de explicação sobre quem está enfrentando quem. Um invasor vindo de outro planeta pode ser transformado em inimigo sem que o público saiba absolutamente nada sobre ele. Se as naves começam destruindo cidades, a justificativa para enfrentá-las já está pronta.

Space Invaders mostrou como essa lógica podia ser reduzida ao essencial. Lançado em 1978, o jogo não precisava explicar a sociedade dos seres que desciam pela tela, apresentar suas razões ou oferecer qualquer possibilidade de negociação. O jogador compreendia imediatamente sua função porque o próprio título já havia resolvido a questão: eram invasores. Defender-se era suficiente.

Essa simplicidade teria uma enorme descendência nos videogames, mas o mesmo princípio também ajudaria o cinema. Em Independence Day, de 1996, enormes naves estacionam sobre grandes cidades e rapidamente deixam claro que não estão interessadas em diplomacia. O filme utiliza praticamente todo o repertório acumulado pela ficção de invasão e o reorganiza como espetáculo, com destruição de monumentos, batalhas aéreas e uma ameaça poderosa o bastante para transformar diferenças nacionais em algo secundário.

Existe uma fantasia política interessante nesse tipo de história. A humanidade, que passa boa parte do tempo dividida em países, religiões, culturas e interesses incompatíveis, finalmente encontra alguma coisa diante da qual pode se perceber como um único grupo. O alienígena não precisa apenas representar “o outro”; sua presença também cria, talvez pela primeira vez, um “nós” que inclui todo o planeta.

Por isso tantas invasões terminam contando histórias sobre união humana. O inimigo extraterrestre pode ser uma projeção de nossos medos, mas também oferece uma situação em que imaginamos abandonar temporariamente parte das divisões que nós mesmos criamos.

A Guerra dos Mundos continua mudando porque o medo também muda

Poucas obras demonstram tão bem a capacidade de adaptação desse imaginário quanto A Guerra dos Mundos. A mesma história atravessou diferentes períodos históricos porque cada adaptação encontrou uma maneira de reorganizar seus elementos em torno dos medos do próprio tempo.

A transmissão radiofônica realizada por Orson Welles e o Mercury Theatre on the Air em 1938 tornou-se um episódio fundamental dessa trajetória. Parte da dramatização utilizava a linguagem de boletins jornalísticos, fazendo com que acontecimentos fantásticos fossem apresentados como interrupções de uma programação comum. Alguns ouvintes realmente se assustaram ou se confundiram, embora a versão posteriormente popularizada de que milhões de norte-americanos teriam entrado em pânico seja muito maior do que as evidências sustentam.

Ainda assim, a força cultural daquela transmissão não depende da existência de uma histeria nacional. Seu efeito duradouro está na maneira como mostrou que a invasão podia ser narrada utilizando a própria linguagem da informação cotidiana. O extraterrestre já não pertencia apenas ao livro. Durante alguns minutos, podia parecer parte do mundo que entrava pelas ondas do rádio.

A adaptação cinematográfica de 1953 reapresentou a história em plena Guerra Fria, quando a possibilidade de destruição em grande escala fazia parte de um medo bastante concreto. Mais de meio século depois, Steven Spielberg voltou ao romance em 2005 e encontrou outro contexto completamente diferente. Seu filme está cheio de pessoas fugindo sem entender o que aconteceu, famílias separadas, desaparecidos e imagens de destruição que carregavam um peso particular poucos anos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001.

Wells continuava ali, mas o medo já não era exatamente o mesmo. É por isso que algumas histórias de invasão sobrevivem tanto tempo: os alienígenas podem permanecer, enquanto nós mudamos tudo aquilo que colocamos dentro deles.

Quando a ficção começa a desconfiar da própria invasão

Se o alienígena hostil se tornou uma convenção, era inevitável que outros autores começassem a perguntar o que aconteceria se o primeiro contato não obedecesse a essa expectativa. Aos poucos, parte da ficção científica passou a usar nosso medo do invasor como elemento da própria história, mostrando personagens que interpretam o desconhecido a partir de uma tradição que talvez diga mais sobre seres humanos do que sobre visitantes extraterrestres.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de 1977, imagina um encontro construído em torno da tentativa de comunicação. E.T. — O Extraterrestre, de 1982, transforma o alienígena em uma criatura vulnerável, assustada e distante da ideia de conquista. Nos dois casos, Steven Spielberg participa de uma tradição quase oposta àquela que revisitariam décadas depois em sua adaptação de Guerra dos Mundos.

Contato, romance publicado por Carl Sagan em 1985 e levado ao cinema em 1997, desloca a questão ainda mais. O primeiro contato não começa com uma nave descendo sobre uma cidade, mas com um sinal cuja origem precisa ser identificada e compreendida. Antes de qualquer encontro existe ciência, interpretação, política, religião e uma enorme dificuldade para decidir o que a descoberta significa.

Essa mudança parece pequena, mas altera completamente nossa posição diante do extraterrestre. Em vez de perguntar imediatamente como poderíamos derrotar aquilo que apareceu, a história precisa lidar com um problema muito mais básico: como conversar com uma inteligência cuja maneira de pensar talvez não tenha qualquer relação com a nossa?

A Chegada, de Denis Villeneuve, transforma essa dificuldade em seu centro dramático. As enormes estruturas que surgem em diferentes lugares do planeta lembram deliberadamente o começo de incontáveis histórias de invasão. Governos se fecham, forças militares cercam os visitantes e o medo de uma possível ameaça se espalha antes que alguém consiga compreender o que está acontecendo.

O filme utiliza justamente a bagagem cultural que levamos para aquela imagem. O espectador viu tantas naves extraterrestres se transformarem em armas que também tende a esperar a guerra. Aos poucos, porém, a narrativa desloca o conflito para a linguagem, para as limitações da comunicação e para o perigo de interpretar a intenção do outro antes de compreendê-lo.

Nesse sentido, A Chegada não abandona a história da invasão extraterrestre. Ele conversa diretamente com ela ao perguntar se nossa expectativa de hostilidade não poderia ser, por si só, parte do problema.

Distrito 9 faz a pergunta voltar para nós

Distrito 9, lançado em 2009, realiza outra inversão importante porque seus extraterrestres não chegam à Terra como conquistadores. Eles aparecem debilitados, sem condições de dominar o planeta e dependentes de uma humanidade que rapidamente transforma sua presença em um problema administrativo, político e econômico.

A relação entre as espécies passa a reproduzir segregação, confinamento, exploração e desumanização. Em vez de acompanhar seres humanos tentando sobreviver a colonizadores vindos do espaço, vemos seres humanos utilizando sua posição de poder contra uma população estrangeira vulnerável. A ficção que durante décadas perguntou o que alienígenas fariam conosco começa a perguntar o que nós faríamos com eles.

O resultado funciona porque recupera uma das questões existentes desde Wells, mas desloca novamente o ponto de vista. Se nossa primeira imaginação do contato extraterrestre foi moldada pela experiência da colonização, nada impede que a história também seja utilizada para olhar criticamente para o comportamento de quem ocupa a posição dominante.

É por isso que algumas das melhores narrativas sobre alienígenas acabam falando tão pouco sobre astronomia. O extraterrestre oferece distância suficiente para que preconceito, violência, exploração e medo do diferente possam ser reorganizados em uma situação que parece nova. Depois de algum tempo, percebemos que os mecanismos continuam muito familiares.

Cixin Liu transforma a desconfiança em uma questão cósmica

A trilogia iniciada por O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu, recupera o medo da invasão de maneira diferente. O contato com outra civilização não produz imediatamente uma frota pairando sobre grandes cidades, porque as distâncias envolvidas são tão grandes que a ameaça pode levar gerações para chegar. Saber que existe alguém lá fora deixa de ser apenas uma descoberta científica e passa a alterar a maneira como a humanidade pensa seu próprio futuro.

Esse intervalo é fundamental para a história. Governos, cientistas e pessoas comuns precisam viver com uma informação que transforma a posição da espécie no universo, mas cujas consequências definitivas estão muito além da duração de uma vida. A invasão passa a ser menos importante como batalha imediata do que como problema político, filosófico e civilizacional.

Em A Floresta Sombria, a questão ganha uma dimensão ainda mais pessimista. O universo é imaginado como um ambiente em que diferentes civilizações não possuem meios seguros de conhecer as intenções umas das outras. Mesmo alguém aparentemente pacífico pode mudar, crescer tecnologicamente ou decidir atacar no futuro, e a distância entre as estrelas torna qualquer tentativa de confiança ainda mais complicada.

A famosa ideia da “floresta sombria” leva a tradição do invasor alienígena a uma consequência extrema. Se não existe maneira de saber o que o outro deseja, talvez revelar a própria existência já seja um risco. O medo deixa de começar quando alguém aparece em nosso céu; começa no instante em que percebemos que não estamos sozinhos.

Cixin Liu atualiza, assim, uma pergunta muito antiga da ficção científica sem simplesmente repetir Wells. A ameaça não está apenas em uma civilização agressiva, mas na impossibilidade de compreender completamente uma inteligência que evoluiu longe de nós.

A ciência procura alguma coisa bem menos cinematográfica

Fora da ficção, nossa relação com a possibilidade de vida extraterrestre é muito mais modesta. A descoberta de milhares de exoplanetas mostrou que outros sistemas planetários são comuns e tornou possível estudar mundos que durante boa parte da história existiam apenas como hipótese. Isso ampliou enormemente os lugares em que podemos procurar condições relacionadas à vida, mas não aproximou a realidade das grandes guerras interestelares do cinema.

Uma descoberta importante provavelmente começaria de uma maneira muito menos dramática. Astrônomos podem procurar características atmosféricas que mereçam investigação, sinais artificiais ou outros indícios que precisariam ser examinados durante muito tempo antes de qualquer conclusão. Mesmo uma eventual evidência de inteligência poderia estar tão distante que nenhuma conversa rápida seria possível.

Essa diferença ajuda a colocar a ficção em perspectiva. Não imaginamos invasores porque a astronomia tenha fornecido qualquer motivo para acreditar que civilizações extraterrestres desejariam conquistar a Terra. Nós os imaginamos porque histórias precisam transformar o desconhecido em alguma coisa que possa ser compreendida, e nossa própria experiência fornece um repertório muito mais acessível do que uma inteligência realmente alienígena.

É possível pensar em extraterrestres hostis, pacíficos, indiferentes ou tão diferentes que essas categorias sequer façam sentido. A única posição realmente segura, enquanto não tivermos qualquer evidência de outra inteligência, é reconhecer o tamanho dessa ignorância. Quando a cultura popular preenche esse vazio com exércitos, impérios e disputas territoriais, está escolhendo possibilidades que pertencem muito mais claramente à história humana.

Talvez nunca tenhamos imaginado apenas os alienígenas

Existe uma linha que atravessa boa parte das histórias discutidas aqui. Wells observou uma potência colonial e colocou seus habitantes diante de alguém mais poderoso. O cinema da Guerra Fria transformou extraterrestres em ameaças que podiam estar escondidas entre pessoas comuns. Independence Day utilizou um inimigo externo para imaginar uma humanidade temporariamente unificada, enquanto Spielberg voltou a Guerra dos Mundos em uma época na qual a destruição inesperada de cidades havia adquirido outro significado. Distrito 9 mudou novamente nossa posição e mostrou seres humanos reproduzindo contra extraterrestres muitas das violências que costumavam temer neles.

Nada disso exige que exista uma resposta única para o motivo pelo qual continuamos imaginando alienígenas como invasores. A força dessa imagem está justamente em sua capacidade de receber significados diferentes. O alienígena pode representar uma potência colonial, um inimigo ideológico, uma ameaça militar, o medo do desconhecido ou simplesmente a sensação de que nossa posição no universo talvez seja menos segura e importante do que gostamos de imaginar.

Existe, no entanto, algo que todas essas versões têm em comum: conhecemos profundamente os medos humanos que colocamos nelas e não conhecemos absolutamente nada sobre a criatura que deveria provocá-los.

Uma inteligência que surgisse em outro planeta poderia ter passado por uma história evolutiva, social e tecnológica tão diferente da nossa que talvez nem encontrássemos equivalentes satisfatórios para conceitos que tratamos como universais. Não há motivo para presumir que nacionalismo, fronteiras, propriedade territorial, imperialismo ou expansão militar sejam etapas obrigatórias no desenvolvimento de qualquer espécie inteligente. Também não existe fundamento para afirmar que uma civilização extraterrestre necessariamente seria pacífica. O problema é precisamente que qualquer certeza nessa direção diz mais sobre nossa imaginação do que sobre aquilo que poderia existir lá fora.

Talvez por isso o invasor alienígena continue sendo tão útil mesmo depois de mais de um século. Ele oferece uma forma de deslocar nossos próprios conflitos para uma distância cósmica e observá-los como se pertencessem a outra espécie. Quando os extraterrestres desejam nossas terras e recursos, reconhecemos histórias de conquista. Quando se infiltram entre nós, reconhecemos paranoias políticas. Quando uma população alienígena vulnerável é confinada e explorada, reconhecemos mecanismos de exclusão que nunca precisaram de visitantes de outro planeta para existir.

Se algum dia encontrarmos outra inteligência, é perfeitamente possível que ela seja muito diferente de tudo aquilo que inventamos. Nosso primeiro contato talvez aconteça através de um sinal distante, de alguma evidência tecnológica difícil de interpretar ou de um fenômeno que leve anos até ser reconhecido pelo que realmente é. Podemos descobrir, então, que as histórias em que extraterrestres cruzavam o universo para repetir guerras, impérios e disputas humanas nunca foram previsões particularmente convincentes sobre o comportamento de outras espécies.

Elas sempre foram, antes de tudo, histórias sobre a nossa.

Se você quiser conhecer histórias que seguem por outro caminho, reunimos também 5 ficções científicas sobre o primeiro contato que não começam com uma invasão.

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Fontes consultadas

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