Brasil

O Alquimista é fantasia?

O Alquimista raramente aparece quando se discute a história da fantasia brasileira. O romance de Paulo Coelho costuma ser apresentado como fábula espiritual, narrativa alegórica, romance de formação, literatura de inspiração ou simplesmente como um fenômeno editorial cuja circulação ultrapassou as divisões convencionais do mercado literário. Há uma curiosidade nessa ausência: publicado originalmente em 1988, o livro acompanha um protagonista movido por um sonho profético, apresenta presságios capazes de orientar decisões, inclui pedras divinatórias, um personagem identificado como um rei bíblico, uma concepção de mundo na qual seres humanos podem acessar uma espécie de consciência universal e um alquimista capaz de realizar aquilo que a alquimia historicamente prometeu. Não são apenas metáforas mencionadas pelo narrador; algumas delas produzem acontecimentos concretos dentro da história.

A pergunta sobre seu pertencimento à fantasia ganhou um motivo especialmente oportuno para ser retomada. A adaptação em mangá realizada por Tamaki Nakamura foi publicada no Japão pela Kadokawa em novembro de 2024 e chegou ao Brasil pela JBC em 31 de agosto de 2026. Na própria página brasileira da coleção, entre as categorias utilizadas para apresentar a obra, aparece explicitamente Fantasia, ao lado de “One Shot” e “E-Books/Digitais”. A edição possui 296 páginas e integra a KADOKAWA Masterpiece Comics, coleção criada para transformar clássicos da literatura mundial em mangá.

A classificação pode parecer apenas uma decisão comercial tomada décadas depois da publicação do romance, mas justamente por isso é interessante. O Alquimista não mudou de enredo para se tornar mangá. Santiago continua sendo um pastor andaluz que abandona sua vida depois de sonhar com um tesouro nas pirâmides do Egito; continua encontrando Melquisedeque, atravessando o deserto, aprendendo a interpretar sinais e aproximando-se do alquimista que dará nome ao livro. O que mudou foi o contexto no qual a história precisou ser novamente apresentada ao público. Nesse novo enquadramento editorial, “fantasia” tornou-se uma descrição suficientemente natural para aparecer na ficha da obra.

Isso sugere que talvez exista algo mais interessante para investigar do que simplesmente decidir se O Alquimista deve ocupar uma ou outra prateleira. O romance mostra como nossas definições de fantasia dependem não apenas daquilo que acontece numa narrativa, mas também das tradições críticas e comerciais utilizadas para apresentá-la. Ao olhar para Paulo Coelho a partir desse problema, descobrimos que as fronteiras do fantástico podem dizer quase tanto sobre a maneira como organizamos literatura quanto sobre os livros que tentamos organizar.

Há magia em O Alquimista, e ela não está apenas no título

Santiago inicia a jornada porque tem repetidamente um sonho no qual uma criança o conduz às pirâmides do Egito e lhe indica a existência de um tesouro. Ele não trata a experiência apenas como manifestação psicológica de um desejo de viajar. Procura uma mulher capaz de interpretar sonhos, recebe dela uma leitura profética e, pouco depois, encontra um velho que se identifica como Melquisedeque, rei de Salém. Esse homem demonstra conhecer aspectos da vida de Santiago que o rapaz não lhe contou, orienta-o em relação à sua “Lenda Pessoal” e lhe entrega Urim e Tumim, pedras que poderão ajudá-lo a compreender sinais quando não conseguir interpretá-los sozinho.

O desenvolvimento do romance amplia continuamente essa lógica. Coincidências são percebidas como manifestações de uma ordem maior, presságios podem transmitir informações sobre acontecimentos futuros e Santiago aprende que diferentes elementos do mundo compartilham uma espécie de linguagem. O vento, o deserto e o sol deixam de funcionar apenas como componentes físicos da paisagem e tornam-se partes de uma realidade na qual matéria, espírito, destino e consciência estão conectados. Aquilo que inicialmente poderia ser interpretado apenas como crença do protagonista passa a interferir concretamente naquilo que acontece.

Essa distinção importa porque O Alquimista permite uma leitura simbólica quase a cada página. O tesouro evidentemente pode representar realização pessoal; a viagem pode ser entendida como processo de autoconhecimento; a alquimia serve como imagem da transformação interior; o deserto funciona como espaço de provação. Nada disso, porém, obriga o leitor a concluir que os acontecimentos sobrenaturais desaparecem quando descobrimos seus significados metafóricos. Um objeto pode ser simultaneamente mágico dentro da história e simbólico dentro da interpretação.

O próprio clímax da passagem de Santiago pelo deserto dificulta bastante uma leitura em que toda a magia seja reduzida à imaginação do personagem. Obrigado a demonstrar que consegue transformar-se em vento, Santiago estabelece uma espécie de comunicação sucessiva com o deserto, o vento e o sol, até alcançar aquilo que o romance apresenta como uma inteligência ou princípio maior que organiza a existência. Uma tempestade de vento efetivamente acontece e altera a percepção das pessoas que observam o episódio. Mais tarde, a alquimia também recebe uma demonstração material quando o alquimista realiza a transmutação de metal em ouro.

Pode-se interpretar tudo isso espiritualmente, religiosamente ou filosoficamente, mas o nível alegórico não apaga o nível narrativo. Dentro do universo de O Alquimista, existem acontecimentos que não podem ser explicados pelas leis ordinárias do nosso mundo sem que seja necessário rejeitar aquilo que o próprio romance apresenta ao leitor. Essa constatação já aproxima consideravelmente a obra do território da fantasia.

Adquira o livro O Alquimista na Amazon

Fantasia não exige castelos, elfos ou sistemas de magia

Uma parte da dificuldade em classificar O Alquimista nasce do modo como a fantasia se consolidou comercialmente durante o século XX. O impacto de Tolkien e de seus sucessores tornou tão reconhecível determinado modelo de fantasia — mundos secundários, sociedades pré-industriais, mapas, guerras, criaturas não humanas e magia — que muitas vezes passamos a tratar essas características como se fossem definições do gênero, quando são apenas uma de suas tradições mais influentes.

A teoria literária oferece um campo muito mais amplo. Na introdução de The Cambridge Companion to Fantasy Literature, Edward James e Farah Mendlesohn observam que importantes teóricos da fantasia divergem consideravelmente sobre suas fronteiras, mas convergem em torno da presença daquilo que seria impossível segundo a compreensão ordinária da realidade. A própria coletânea da Cambridge percorre manifestações muito diferentes do fantástico, tratando desde tradições góticas até realismo mágico e romances paranormais, o que demonstra como “fantasia” pode designar um território muito mais amplo do que aquele sugerido pelas estantes comerciais dedicadas à fantasia épica.

Sob esse critério, O Alquimista não apresenta um problema particularmente difícil. O romance inclui acontecimentos impossíveis ou sobrenaturais e não pede que o leitor os descarte como alucinações ou truques. Seu mundo se parece geograficamente com o nosso — Andaluzia, norte da África e Egito pertencem a uma realidade reconhecível —, mas incorpora uma ordem metafísica que atua de maneira objetiva sobre essa realidade.

A ausência de um sistema mágico detalhado também não oferece um argumento convincente contra a classificação. Sistemas com regras explícitas, custos, classificações e limitações tornaram-se especialmente populares em parte da fantasia contemporânea, mas não constituem requisito histórico do gênero. Contos de fadas, mitos, lendas e muitas obras fundamentais da fantasia trabalham com acontecimentos mágicos cujo funcionamento nunca é transformado em mecanismo compreensível para o leitor.

Paulo Coelho faz justamente o contrário de uma chamada magia sistematizada. Em O Alquimista, compreender completamente o funcionamento do extraordinário destruiria parte de sua função. Os sinais precisam ser interpretados, a Linguagem do Mundo precisa ser aprendida e a alquimia é tanto transformação da matéria quanto forma de conhecimento espiritual. O mistério não representa uma lacuna do sistema; constitui parte daquilo que o livro pretende dizer.

Se aceitarmos que Gandalf pode permanecer fantástico sem explicar matematicamente o funcionamento de cada poder que exerce, não existe razão formal para exigir de Santiago uma tabela de regras antes de reconhecer a presença da fantasia. O problema está menos na magia que O Alquimista apresenta do que na imagem de magia que aprendemos a associar ao gênero.

Ser uma fábula espiritual não impede uma obra de ser fantasia

A principal resistência talvez esteja em outro lugar. O Alquimista é lido fundamentalmente como uma narrativa sobre autoconhecimento, propósito e transformação espiritual. A própria Fundação Paulo Coelho descreve o livro como a história mística de Santiago e apresenta sua jornada como aprendizagem sobre ouvir o coração, perceber oportunidades e interpretar os sinais encontrados pelo caminho. Pesquisas acadêmicas também têm abordado extensamente sua dimensão simbólica, seu conceito de destino e sua apropriação de diferentes tradições espirituais.

Nada disso, porém, estabelece uma oposição necessária à fantasia. A interpretação simbólica explica o que os elementos narrativos podem significar; a classificação de gênero procura descrever, entre outras coisas, como a história constrói sua realidade. São perguntas diferentes. Uma espada mágica pode representar poder político e continuar sendo uma espada mágica. Uma viagem por um mundo sobrenatural pode funcionar como alegoria moral sem deixar de pertencer ao fantástico.

A alquimia é particularmente importante porque demonstra como essas duas dimensões convivem em O Alquimista. Theodore Ziolkowski, em seu estudo The Alchemist in Literature: From Dante to the Present, acompanha a transformação da figura do alquimista na literatura ocidental e distingue historicamente a busca pela transmutação material de uma tradição que passa a compreender a alquimia como transformação espiritual. Ao chegar às manifestações contemporâneas, dedica parte de sua discussão justamente à popularização literária da alquimia e classifica The Alchemist, de Paulo Coelho, como fantasia.

Essa tradição ajuda a entender por que procurar uma separação entre “alquimia verdadeira dentro da história” e “alquimia como metáfora” pode ser um falso problema. O romance depende exatamente da união das duas coisas. Transformar metais possui importância porque simboliza outra transformação; a Pedra Filosofal interessa porque representa uma forma de aperfeiçoamento que não se esgota no ganho material; a jornada externa de Santiago existe porque torna visível sua jornada interior.

A fantasia fornece ao romance uma linguagem particularmente eficiente para fazer conceitos abstratos produzirem acontecimentos. Destino torna-se presságio, transformação espiritual torna-se alquimia, conexão com o universo torna-se comunicação com a natureza e vocação pessoal torna-se uma força que parece reorganizar encontros e coincidências. Retirar completamente a dimensão fantástica exigiria transformar todos esses elementos em figuras de linguagem e ignorar a maneira como eles realmente operam dentro da narrativa.

Página do mangá de O Alquimista. Fonte: reprodução

O fantástico de Paulo Coelho está muito próximo do maravilhoso

Existe ainda uma complicação terminológica importante. Em português, usamos frequentemente “fantástico” como categoria ampla para obras que contêm elementos impossíveis, sobrenaturais ou especulativos. Na teoria de Tzvetan Todorov, entretanto, “fantástico” possui um significado mais restrito: surge da hesitação diante de um acontecimento aparentemente sobrenatural, enquanto personagem e leitor não conseguem decidir se existe uma explicação natural ou se realmente ocorreu algo que rompe as leis conhecidas do mundo. Quando essa dúvida é resolvida pela aceitação do sobrenatural, aproximamo-nos do que Todorov chama de maravilhoso.

Essa distinção é interessante para O Alquimista porque o romance raramente constrói seu efeito a partir da hesitação. Santiago não passa a história tentando provar que Melquisedeque é uma fraude, que os presságios são coincidências ou que a alquimia é impossível. Quanto mais avança, mais aprende a aceitar que existe uma ordem do mundo que ultrapassa aquilo que inicialmente sabia.

Nesse sentido mais estrito, poderíamos argumentar que O Alquimista está frequentemente mais próximo do maravilhoso do que do fantástico todoroviano. Mas isso não o afasta da fantasia entendida em sentido contemporâneo; pelo contrário, mostra apenas que utilizamos palavras semelhantes para categorias teóricas diferentes. Uma história na qual o impossível é incorporado ao funcionamento do universo pode se encaixar perfeitamente na fantasia justamente porque não precisa manter uma dúvida permanente sobre a existência da magia.

O romance também não se organiza como horror sobrenatural, no qual a ruptura das leis naturais precisa produzir medo. Para Santiago, descobrir que o universo possui uma linguagem não representa a invasão ameaçadora de algo impossível. Representa uma ampliação de sua compreensão da realidade.

Essa aceitação é decisiva para a tonalidade do livro. O mundo não se torna estranho porque contém magia; ele se torna mais completo quando Santiago aprende a percebê-la. É uma fantasia construída sobre revelação, e não sobre ruptura.

Paulo Coelho. Foto: Alex Teuscher / Rolling Stone Brasil

E o realismo mágico?

A expressão também aparece em discussões acadêmicas sobre Paulo Coelho. Stephen M. Hart publicou em Romance Quarterly um estudo especificamente dedicado a O Alquimista sob a perspectiva da hibridez cultural, do realismo mágico e da linguagem da magia. Outros trabalhos posteriores retomaram essa leitura ao discutir a maneira como o romance incorpora acontecimentos extraordinários a uma narrativa simbólica sobre destino e transformação pessoal.

Isso não resolve a classificação, porque “realismo mágico” também possui uma história crítica própria e sua aplicação indiscriminada a qualquer escritor latino-americano que utilize acontecimentos sobrenaturais cria outros problemas. O Alquimista não precisa ser colocado automaticamente ao lado de Gabriel García Márquez, Alejo Carpentier ou Juan Rulfo simplesmente porque foi escrito por um brasileiro e incorpora o maravilhoso ao cotidiano.

O aspecto útil dessa discussão está em perceber que categorias podem se sobrepor. Uma obra pode ser analisada como romance alegórico, narrativa espiritual, romance de formação e literatura fantástica sem que uma definição automaticamente destrua as demais. Gêneros literários não funcionam como espécies biológicas nas quais cada exemplar precisa pertencer exclusivamente a uma classe.

Isso se torna ainda mais evidente quando olhamos para a história da fantasia. The Cambridge Companion to Fantasy Literature inclui explicitamente o realismo mágico no amplo campo de variedades examinado pelo volume, situando-o na extremidade mais “literária” de uma tradição fantástica que inclui manifestações muito diferentes. A escolha não significa que todo realismo mágico seja simplesmente fantasia com outro nome, mas demonstra que a fronteira entre esses territórios é permeável e depende também da pergunta crítica que fazemos à obra.

Portanto, descobrir uma expressão mais específica para a técnica narrativa de Paulo Coelho não nos obriga a expulsá-lo de uma categoria mais ampla. O problema talvez seja justamente nossa tendência de tratar “fantasia” como um rótulo comercial estreito, enquanto permitimos que termos considerados mais literários convivam com enorme diversidade interna.

Por que, então, quase nunca colocamos Paulo Coelho na fantasia brasileira?

A resposta mais interessante talvez esteja fora do texto. O Alquimista foi publicado em 1988, num mercado brasileiro muito diferente daquele em que atualmente discutimos fantasia nacional como uma cena editorial reconhecível, formada por autores, editoras, comunidades de leitores, eventos, influenciadores e categorias de divulgação. Seu sucesso cresceu rapidamente e acabou transformando o livro num fenômeno internacional que circulava por caminhos muito maiores do que qualquer nicho específico.

A escala dessa circulação é excepcional. A Fundação Paulo Coelho registra edições de O Alquimista em 88 idiomas. A JBC informa que o livro foi publicado em mais de 170 países, enquanto perfis editoriais contemporâneos do autor registram dezenas de milhões de exemplares vendidos. Paulo Coelho também possui recordes relacionados à extraordinária quantidade de traduções de sua obra; o Guinness registra, por exemplo, a ocasião em que ele assinou 53 versões linguísticas diferentes de O Alquimista numa única sessão na Feira de Frankfurt, em 2003.

Quando um livro atinge essa dimensão, a categoria de gênero perde parte de sua função comercial. Não é necessário apresentar O Alquimista como “uma fantasia brasileira” para encontrar seu público porque o título e o nome de Paulo Coelho já funcionam como categorias próprias. O mesmo fenômeno acontece com outros autores cuja circulação ultrapassa nichos: leitores podem consumir uma obra cheia de elementos especulativos sem entrar em contato com ela pela prateleira de fantasia.

A imagem pública do livro também foi construída em torno de aspectos diferentes. Capas, sinopses, recomendações e discussões sobre O Alquimista enfatizaram reiteradamente sonhos, autodescoberta, espiritualidade, realização pessoal e capacidade de transformar a própria vida. A edição brasileira do mangá continua fazendo isso: a descrição comercial da Companhia das Letras/JBC apresenta a jornada de Santiago sobretudo como processo de autodescoberta envolvendo “espiritualidade, sabedoria e misticismo”, embora a página específica da JBC também utilize a categoria Fantasia.

As duas classificações coexistem na mesma edição. Isso é quase uma demonstração perfeita do problema. A sinopse vende a experiência espiritual; a ficha reconhece a fantasia.

Existe também uma questão de prestígio e tradição editorial

A dificuldade não está apenas no caso de Paulo Coelho. A própria palavra “fantasia” carregou durante muito tempo associações comerciais específicas que nem sempre foram aplicadas a obras publicadas no circuito de literatura geral. Narrativas com fantasmas, mitos, milagres, metamorfoses, seres impossíveis e acontecimentos sobrenaturais podem receber classificações como gótico, alegoria, realismo mágico, fabulismo, surrealismo ou literatura fantástica dependendo da tradição crítica, do país, da editora e do público ao qual são apresentadas.

O resultado é uma espécie de assimetria. Quando um romance é publicado desde o início com capa, coleção e divulgação associadas à fantasia, a presença do impossível confirma uma classificação que já esperávamos. Quando a mesma estrutura aparece numa obra apresentada como literatura geral, espiritual ou alegórica, o leitor tende a considerar o sobrenatural apenas parte de outra proposta estética.

James e Mendlesohn chamam atenção justamente para a dificuldade de fixar uma definição estável da fantasia e para a influência das práticas editoriais sobre a maneira como reconhecemos o gênero. A própria amplitude histórica do campo torna problemática qualquer tentativa de construí-lo somente a partir das categorias do mercado contemporâneo.

O Alquimista expõe essa fragilidade de maneira especialmente clara porque quase ninguém precisaria modificar seu enredo para vendê-lo como fantasia hoje. Seria suficiente alterar o paratexto. Uma nova capa poderia destacar deserto, pirâmides e elementos alquímicos; a apresentação editorial poderia enfatizar o rei misterioso, as pedras divinatórias, os presságios e a magia; algumas referências comparativas poderiam posicioná-lo ao lado de outras fantasias filosóficas. A história permaneceria exatamente a mesma, mas nossa expectativa de leitura mudaria antes da primeira página.

É importante reconhecer isso porque gêneros não são definidos exclusivamente pelo conteúdo. Eles também são comunidades de leitura. Uma obra passa a integrar determinada tradição quando leitores, críticos, livreiros, editoras e autores começam a colocá-la em diálogo com outras obras daquela tradição.

A alquimia do romance é simultaneamente mágica e espiritual

O próprio título oferece talvez o melhor caminho para entender essa sobreposição. A alquimia possui uma longa história situada numa fronteira desconfortável entre práticas materiais, especulação filosófica, religião, ocultismo e aquilo que posteriormente passamos a separar como ciência e magia. Uma tese defendida na Universidade de São Paulo em 2023 utiliza precisamente O Alquimista como um dos pontos de uma investigação histórica sobre alquimia, magia e ocultismo, demonstrando como o romance contemporâneo continua mobilizando uma tradição muito anterior à própria separação moderna entre essas categorias.

Na literatura, a figura do alquimista também passou por diversas transformações. Ziolkowski observa que, conforme a alquimia perdeu seu antigo lugar como empreendimento material plausível, escritores passaram progressivamente a utilizá-la como imagem da transformação intelectual, artística e espiritual. A possibilidade de converter metais inferiores em ouro tornou-se também uma linguagem para falar sobre converter um indivíduo incompleto numa versão diferente de si mesmo.

Paulo Coelho leva essa tradição quase à sua forma mais transparente. Santiago procura inicialmente um tesouro material. Ao longo do caminho, aprende uma sucessão de princípios relacionados a desejo, medo, amor, destino, persistência e compreensão do mundo. O ouro existe e o tesouro existe, mas a jornada altera o significado de ambos.

Isso poderia ser realizado sem qualquer elemento sobrenatural. Um romance realista também pode contar a história de alguém que viaja à procura de dinheiro e termina transformado pela experiência. Paulo Coelho, porém, escolhe outra estratégia: faz o universo inteiro participar da transformação. Sonhos apontam caminhos, presságios antecipam perigos, a natureza comunica-se e a alquimia concretiza a ideia de que diferentes formas da matéria podem alcançar outro estado.

A fantasia, portanto, não é um ornamento colado sobre a mensagem espiritual. É uma das linguagens através das quais essa mensagem se torna narrativa.

O mangá não transformou O Alquimista em fantasia

A adaptação de Tamaki Nakamura torna esse argumento particularmente visível porque muda a linguagem da obra sem alterar sua estrutura fundamental. A edição japonesa foi lançada em 26 de novembro de 2024 e faz parte da KADOKAWA Masterpiece Comics, projeto que adapta obras de diferentes países para quadrinhos. O site internacional da coleção identifica The Alchemist como obra originária do Brasil e apresenta Santiago, sua travessia pelo deserto e o encontro com o alquimista como núcleo da história.

Quando a JBC trouxe essa versão ao Brasil em agosto de 2026, “Fantasia” apareceu entre suas categorias oficiais. Não há qualquer necessidade de interpretar essa decisão como descoberta definitiva de uma verdade escondida sobre o romance. Editoras classificam obras por razões comerciais, logísticas e editoriais, e uma mesma história pode receber rótulos diferentes em mercados distintos.

A importância do caso está justamente no fato de a classificação parecer tão pouco estranha. Colocar a palavra “Fantasia” ao lado de um mangá sobre um garoto guiado por profecias, alquimistas, sinais e forças sobrenaturais dificilmente exige grande esforço conceitual. O estranhamento surge quando lembramos que estamos falando de O Alquimista, de Paulo Coelho, porque carregamos quase quatro décadas de outras maneiras de apresentar esse título.

A mudança de mídia funciona, assim, como uma espécie de experimento involuntário. Retirado momentaneamente de parte de sua história editorial e reapresentado como quadrinho, o mesmo enredo revela características que sempre estiveram ali. A adaptação não acrescentou a fantasia; apenas entrou num ambiente em que reconhecê-la se tornou mais natural.

Mangá O Alquimista

Adquira o mangá O Alquimista na Amazon

Incluir O Alquimista na fantasia brasileira mudaria alguma coisa?

Mudaria principalmente nossa percepção sobre a história do gênero no país. Quando procuramos uma genealogia da fantasia brasileira, existe a tendência de privilegiar obras que se aproximam das formas que hoje reconhecemos mais facilmente como fantasia: mitologias reelaboradas, mundos secundários, aventuras sobrenaturais, fantasia urbana, fantasia épica ou narrativas deliberadamente divulgadas como parte da literatura de gênero.

Essa seleção é compreensível, mas pode produzir uma história excessivamente organizada pelo presente. Obras anteriores ou paralelas a essa tradição podem conter estruturas claramente fantásticas e ainda desaparecer de nossas genealogias porque chegaram aos leitores através de outras categorias.

Aceitar O Alquimista como parte possível da fantasia brasileira criaria uma situação provocadora. Um dos romances brasileiros de maior circulação internacional também seria uma das fantasias brasileiras mais lidas da história, embora raramente tenha sido incorporado ao modo como fãs e críticos do gênero narram sua própria tradição. A ironia não provaria que estivemos “classificando o livro errado” durante quase quarenta anos. Mostraria que histórias literárias dependem das lentes utilizadas para construí-las.

Também obrigaria a ampliar aquilo que entendemos por fantasia nacional. Santiago não percorre o Brasil, não utiliza folclore brasileiro como fundamento da narrativa e não vive num mundo imaginário inspirado diretamente na história nacional. Mas a literatura brasileira nunca exigiu que todas as obras de escritores brasileiros fossem ambientadas no país para serem brasileiras. Se aplicássemos esse requisito exclusivamente à fantasia, estaríamos impondo ao gênero uma obrigação que não utilizamos da mesma maneira em outros campos literários.

A incorporação de Paulo Coelho não precisaria ainda significar colocá-lo no centro de uma linhagem que conduziria diretamente aos autores brasileiros contemporâneos de fantasia. As influências, mercados e comunidades podem ser diferentes. Uma história de gênero não precisa ser uma árvore genealógica na qual cada escritor influenciou o seguinte; pode também registrar obras que, em diferentes momentos, utilizaram instrumentos semelhantes para realizar projetos completamente distintos.

Nesse sentido, O Alquimista seria particularmente interessante justamente porque não se parece com aquilo que normalmente procuramos quando dizemos “fantasia brasileira”.

Então, O Alquimista é fantasia?

Há argumentos bastante sólidos para responder que sim. O romance constrói uma realidade na qual sonhos podem transmitir informações verdadeiras sobre o futuro, presságios possuem significado objetivo, personagens demonstram conhecimentos impossíveis por meios ordinários, a natureza participa de uma ordem espiritual acessível ao protagonista e a alquimia ultrapassa o estatuto de crença histórica para produzir efeitos concretos. Esses acontecimentos não são tratados como invasões incompatíveis com o universo narrativo; fazem parte de sua lógica.

Existe inclusive respaldo crítico para essa leitura. Theodore Ziolkowski utiliza diretamente a palavra “fantasy” ao discutir The Alchemist em seu estudo publicado pela Oxford University Press, enquanto Stephen M. Hart analisa o livro por meio do realismo mágico e da linguagem da magia. A edição brasileira do mangá, por sua vez, chegou às lojas classificada pela JBC como Fantasia. Nenhuma dessas referências encerra a discussão, mas juntas demonstram que a classificação está longe de ser uma excentricidade.

O cuidado necessário está no que fazemos depois dessa resposta. Dizer que O Alquimista é fantasia não significa afirmar que é apenas fantasia. Fábula espiritual, romance alegórico, narrativa de formação, literatura de inspiração e fantasia descrevem aspectos diferentes da mesma obra. Dependendo do propósito da análise, algumas dessas categorias serão mais úteis do que outras.

Talvez essa seja justamente a contribuição mais interessante de Paulo Coelho para uma discussão sobre o gênero. Estamos acostumados a perguntar se determinadas obras possuem elementos suficientes para entrar na fantasia, como se houvesse uma fronteira que precisássemos vigiar. O Alquimista sugere outra pergunta: quantas obras fantásticas deixamos de reconhecer como fantasia simplesmente porque aprendemos a encontrá-las em outra prateleira?

A adaptação de Tamaki Nakamura não resolve esse debate, mas chegou num momento perfeito para torná-lo visível. Quase quatro décadas depois da publicação do romance, a palavra “Fantasia” aparece oficialmente ao lado de uma nova versão de uma história que nunca precisou mudar para recebê-la. Santiago continua seguindo um sonho profético através do deserto, conversando com um mundo que possui uma ordem além das leis ordinárias e aprendendo com um homem capaz de transformar matéria enquanto ele próprio se transforma.

Talvez O Alquimista nunca tenha estado fora da fantasia. Durante muito tempo, nós é que não procuramos por ele ali.


Fontes consultadas:

  • JBC. O Alquimista. Página oficial da edição brasileira do mangá, com ficha técnica, descrição e classificação da obra como Fantasia.
  • Grupo Companhia das Letras / JBC. O Alquimista (Mangá). Informações sobre a edição brasileira, tradução de Caio Pacheco e lançamento em 31 de agosto de 2026.
  • KADOKAWA Masterpiece Comics. The Alchemist. Página oficial da adaptação de Tamaki Nakamura, publicada originalmente no Japão em 26 de novembro de 2024.
  • Paulo Coelho & Christina Oiticica Foundation. The Alchemist. Arquivo oficial sobre o romance, primeira publicação em 1988 e circulação internacional da obra.
  • HART, Stephen M. Cultural Hybridity, Magical Realism, and the Language of Magic in Paulo Coelho’s The Alchemist. Romance Quarterly, v. 51, n. 4, 2004. Estudo sobre realismo mágico, hibridez e magia no romance.
  • ZIOLKOWSKI, Theodore. The Alchemist in Literature: From Dante to the Present. Oxford University Press, 2015. Estudo histórico da figura do alquimista na literatura, incluindo O Alquimista, de Paulo Coelho, entre suas manifestações contemporâneas.
  • JAMES, Edward; MENDLESOHN, Farah (orgs.). The Cambridge Companion to Fantasy Literature. Cambridge University Press, 2012. Referência sobre as diferentes definições, tradições e fronteiras da fantasia literária.
  • GUERCIO, Maria Rita. Alquimia e Magia: uma linha do tempo passando por De Occulta Philosophia de Cornelius Agrippa ao O Alquimista de Paulo Coelho. Tese de doutorado, Universidade de São Paulo, 2023.
  • Guinness World Records. Most translations of a single title signed by the author in 1 sitting. Registro relacionado às múltiplas traduções de O Alquimista.
Sua privacidade importa

Usamos cookies necessários para o funcionamento do site e, com sua autorização, cookies de análise e recursos externos para melhorar sua experiência.

Política de Cookies