
Conan não foi apresentado por Robert E. Howard como um jovem bárbaro no início de uma jornada. Quando surgiu pela primeira vez em “The Phoenix on the Sword”, publicado em 1932, ele já era rei da Aquilônia. Howard partiu do resultado e passou a preencher o passado de seu personagem em histórias posteriores, recuando até os anos de juventude e depois saltando novamente para períodos de pirataria, mercenarismo, guerras, viagens e liderança. Isso explica por que a trajetória de Conan nunca funciona como uma biografia escrita em linha reta. O leitor recebe episódios de diferentes momentos de sua vida, unidos por referências internas, lembranças e mudanças de posição social que permitem reconstruir um percurso amplo, mas não uma cronologia absolutamente fechada.
Essa estrutura também diferencia o Conan original da imagem consolidada posteriormente em algumas continuações, adaptações e cronologias editoriais. Howard deixou pistas suficientes para sabermos que Conan sai da Ciméria ainda jovem, atravessa o norte, conhece cidades do sul, torna-se ladrão, mercenário, pirata, chefe de diferentes grupos e comandante de exércitos antes de conquistar o trono da Aquilônia. Não escreveu, porém, uma saga contínua mostrando cada passagem de uma ocupação para outra. Mesmo a famosa cronologia elaborada por P. Schuyler Miller e John D. Clark, ainda durante a vida de Howard, precisou deduzir posições relativas a partir dos contos e de informações fornecidas pelo próprio escritor. Howard leu o esboço, corrigiu alguns pontos e disse que ele correspondia de maneira bastante próxima àquilo que imaginava, o que lhe dá importância excepcional, mas não transforma cada detalhe daquela reconstrução numa narrativa que ele efetivamente escreveu.
A trajetória mais segura, portanto, aparece quando seguimos os grandes movimentos da vida de Conan sem tentar encaixar cada aventura numa data artificialmente precisa. Algumas posições são claras: “The Tower of the Elephant” mostra um Conan muito jovem e ainda pouco familiarizado com a civilização; “Queen of the Black Coast” pertence ao período em que vive como corsário ao lado de Bêlit; “Black Colossus” mostra sua transformação de soldado mercenário em comandante de um exército; “Beyond the Black River” coloca-o nas fronteiras de Aquilônia antes de sua ascensão; “Wolves Beyond the Border”, embora seja um fragmento no qual ele nem aparece diretamente, ocorre durante a guerra civil em que luta contra o rei Numedides; e “The Phoenix on the Sword”, “The Scarlet Citadel” e The Hour of the Dragon pertencem ao período em que já governa Aquilônia.
O que emerge dessa sequência não é apenas uma escalada de força. Conan começa a história já fisicamente extraordinário e continua sendo um dos combatentes mais perigosos de seu mundo praticamente em todas as fases. O verdadeiro crescimento acontece em outras áreas. Ele aprende línguas, compreende diferentes culturas, conhece estruturas políticas, serve sob comandantes competentes e incompetentes, observa traições de nobres, lidera soldados, navega, negocia, sobrevive a ambientes desconhecidos e descobre que força individual deixa de ser suficiente quando dezenas ou milhares de pessoas dependem de uma decisão. O homem que finalmente se senta no trono de Aquilônia não é simplesmente um bárbaro que chegou até ali por ser mais forte que todos os outros. É alguém que passou boa parte da vida estudando sociedades sem jamais deixar de olhar para elas como estrangeiro.
Essa condição de estrangeiro permanece importante mesmo depois da coroação. Conan aprende a viver dentro da civilização, mas nunca passa a considerá-la naturalmente superior ao mundo em que nasceu. Também não permanece intacto diante dela. Ele começa como alguém capaz de resolver grande parte dos problemas através de rapidez, força e instinto e termina tendo de comandar exércitos, lidar com aristocracias, equilibrar interesses internos e defender um reino cuja população não compartilha sua origem. Howard nunca transforma esse processo numa domesticação completa do personagem. Conan não deixa de ser cimério quando se torna rei; o que muda é o tamanho das consequências de suas escolhas.
Ciméria, Venarium e os primeiros encontros com a civilização
A infância de Conan é uma das partes menos narradas diretamente por Howard. Não existe um conto dedicado à sua família, à vida cotidiana de sua aldeia ou a uma infância semelhante àquela que adaptações posteriores tentariam preencher. Boa parte das informações conhecidas sobre seus primeiros anos aparece indiretamente ou no material utilizado por Miller e Clark para preparar “A Probable Outline of Conan’s Career”. Segundo essa tradição, Conan nasceu entre um clã do noroeste da Ciméria e seu avô havia vindo de uma região meridional depois de fugir de uma disputa de sangue. O próprio Conan teria nascido durante uma batalha, imagem que combina perfeitamente com aquilo que Howard desejava sugerir sobre seu personagem, embora pertença mais a esse material biográfico complementar do que a uma grande cena desenvolvida nos contos.
A primeira passagem decisiva é Venarium. Aquilônia havia avançado sobre territórios próximos da Ciméria e estabelecido ali uma fortificação, tentativa de expandir uma das maiores civilizações hiborianas sobre uma região considerada bárbara. Conan participa do ataque cimério contra a cidade quando ainda é muito jovem. A cronologia construída com informações de Howard coloca-o com cerca de quinze anos nesse momento, já fisicamente muito desenvolvido. O acontecimento tem relevância muito maior que uma aventura adolescente, porque constitui o primeiro contato conhecido entre Conan e o reino que décadas depois ele próprio governará. Antes de ocupar o trono de Aquilônia, ele participa de uma guerra contra a expansão aquiloniana.
Esse início também impede uma leitura simples em que Conan abandona uma terra primitiva e ascende naturalmente até a civilização mais elevada. A relação é muito mais contraditória. Aquilônia aparece inicialmente para ele como potência invasora, enquanto a Ciméria representa sua identidade de origem. Mais tarde, Conan servirá em forças aquilonianas, será lembrado com respeito por homens da fronteira e finalmente liderará uma rebelião contra um rei aquiloniano. Sua relação com o reino nunca é apenas a de um estrangeiro que deseja fazer parte dele; passa por confronto, serviço, convivência, crítica e conquista.
Depois de Venarium, as tradições relacionadas à juventude levam Conan para o norte, onde entra em contato com Aesires, Vanires e Hiperbóreos. “The Frost-Giant’s Daughter” é normalmente colocada entre as aventuras mais antigas porque mostra um Conan ainda integrado ao mundo guerreiro de Nordheim, sobrevivendo a uma batalha entre Aesires e Vanires antes de viver um encontro sobrenatural no gelo. A posição exata do conto em relação a outras aventuras iniciais foi discutida por diferentes cronologias, mas o sentido geral é consistente: antes de se tornar ladrão nas grandes cidades do sul, Conan já havia experimentado guerra tribal e deslocamento por regiões muito diferentes da Ciméria.
A passagem para Zamora marca uma mudança muito maior. Em “The Tower of the Elephant”, encontramos um Conan jovem, recém-chegado ao tipo de cidade que para ele ainda possui algo de incompreensível. Ele sabe lutar e sobreviver, mas não domina completamente os códigos sociais, as crenças ou a arquitetura da civilização urbana. Atua como ladrão porque esse é um dos caminhos disponíveis para um estrangeiro armado sem posição social, e a história começa a partir de algo relativamente simples: ouvir falar de uma joia fabulosa guardada numa torre e decidir roubá-la.
O conto é essencial para entender Conan justamente porque destrói rapidamente a imagem de um protagonista definido apenas pela força. Ele consegue escalar a torre, enfrentar perigos e avançar por um espaço que outros ladrões temem, mas o núcleo da história surge quando encontra Yag-kosha. Conan não compreende plenamente a natureza daquele ser, sua origem ou o alcance de sua história, mas percebe sua condição de vítima e responde a ela com uma compaixão que não depende de familiaridade cultural ou aparência humana. A experiência demonstra muito cedo uma qualidade que continuará aparecendo em diferentes momentos: Conan pode ser brutal, mas não é indiferente à escravidão, à traição ou à crueldade praticada por alguém que acredita estar protegido pelo próprio poder.
Outras histórias iniciais ampliam sua experiência urbana. “The God in the Bowl” coloca-o novamente em contato com autoridades, suspeitas e um crime cuja explicação acaba levando ao sobrenatural. “Rogues in the House” envolve a disputa entre Murilo e o sacerdote Nabonidus e coloca Conan no meio de uma conspiração política que, inicialmente, não lhe pertence. Nessas aventuras, a cidade deixa de ser apenas um lugar cheio de riquezas e começa a revelar outra característica que marcará a visão howardiana de civilização: atrás de instituições, títulos e sacerdócios existem disputas por poder tão violentas quanto aquelas encontradas entre povos chamados bárbaros.
Conan aprende depressa porque precisa aprender. Ao contrário de muitos heróis de fantasia que carregam desde o início uma missão ou um destino particular, ele passa grande parte da juventude procurando simplesmente uma próxima oportunidade. Rouba quando vive entre ladrões, vende a espada quando encontra exércitos, entra em navios quando o mar oferece saída e aceita trabalhos em regiões que mal conhece. Essa flexibilidade explica como alguém vindo de uma sociedade sem grandes centros urbanos consegue atravessar uma parte enorme da Era Hiboriana sem permanecer eternamente deslocado.
O aprendizado também aparece nas línguas e nos costumes. Ao longo dos contos, Conan conversa com pessoas de regiões muito diferentes, reconhece povos por roupas e sotaques, conhece rotas, compreende tradições religiosas e aprende a navegar em sociedades que inicialmente lhe eram estranhas. Howard não interrompe as histórias para registrar cada etapa dessa formação, mas o contraste entre o jovem de Zamora e o comandante ou rei de períodos posteriores deixa evidente quanto conhecimento foi acumulado.
Ainda assim, Conan nunca passa a considerar que aprender uma cultura significa aceitar seus valores. Ele pode conhecer perfeitamente uma corte e continuar desprezando seus nobres; entender leis sem atribuir a elas autoridade moral automática; entrar em templos sem adotar suas crenças. A experiência amplia suas ferramentas, mas preserva uma independência que será fundamental quando ele começar a liderar outros.
Pirata, mercenário e chefe entre homens que não eram os seus
O período de aventuras que sucede essa juventude é o mais difícil de reduzir a uma única sequência porque Conan muda repetidamente de ocupação. A imagem do bárbaro errante nasce justamente daí. Ele serve em diferentes exércitos, envolve-se em bandos de fora da lei, atravessa desertos, navega, torna-se pirata, entra em guerras estrangeiras e assume lideranças que podem desaparecer tão rapidamente quanto surgiram. Howard utiliza essas mudanças para manter o personagem em movimento e levar cada história a uma região diferente da Era Hiboriana.
Entre todas essas fases, a relação com Bêlit ocupa um lugar especial. Em “Queen of the Black Coast”, Conan entra em contato com a rainha dos corsários negros e abandona a vida anterior para navegar ao lado dela. A relação entre os dois não funciona apenas como romance episódico. Bêlit é apresentada como liderança própria, tem seu navio, sua tripulação e sua reputação, e Conan entra num mundo que já existia antes dele. Ao longo desse período passa a ser conhecido também como Amra, o Leão, e participa de ataques e aventuras pelas costas meridionais.
A experiência marítima amplia ainda mais o horizonte do personagem. Conan deixa de circular apenas por estradas, cidades e campos de batalha e entra num sistema de portos, navios e costas que conecta regiões bastante distantes. Também vive uma relação na qual não ocupa automaticamente a posição de comandante. Durante grande parte de “Queen of the Black Coast”, Bêlit é a rainha daquela comunidade e Conan é seu companheiro, não o homem que tomou sua liderança.
A morte de Bêlit encerra uma das poucas relações que Howard apresenta como transformadoras para Conan. O personagem continuará tendo encontros amorosos e alianças com diversas mulheres, mas Bêlit permanece diferente pela duração da vida compartilhada e pelo peso que sua perda recebe. Howard não converte essa tragédia numa aposentadoria do mar ou numa promessa sentimental permanente; Conan continua vivendo porque sua própria natureza é incompatível com ficar paralisado por aquilo que perdeu.
Outras aventuras marítimas mostram-no assumindo posições diferentes. Em “The Pool of the Black One”, por exemplo, ele entra numa tripulação estrangeira e novamente utiliza oportunidade, força e inteligência para mudar sua posição. A pirataria de Conan nunca forma uma carreira perfeitamente contínua. Dependendo da reconstrução cronológica, períodos no mar alternam-se com mercenarismo e outras atividades, o que combina melhor com o modo como Howard escrevia do que imaginar uma progressão profissional cuidadosamente planejada.
O mercenário também aparece em diferentes escalas. Às vezes Conan é apenas mais um guerreiro contratado; em outras, já conquistou reputação suficiente para receber responsabilidade sobre homens. “Black Colossus” marca um salto especialmente importante. Quando o reino de Khoraja enfrenta a ameaça de Natohk, o Velado — na verdade ligado a uma figura muito mais antiga e sobrenatural — Conan passa de capitão mercenário a comandante do exército por decisão da princesa Yasmela. A escolha parece improvável dentro da hierarquia local, mas Howard utiliza justamente essa ruptura para mostrar que experiência de guerra pode valer mais que nascimento aristocrático.
Conan assume o comando e vence não apenas por lutar melhor que seus soldados, mas porque compreende terreno, moral e movimento de tropas. O bárbaro que em Zamora mal conhecia os códigos de uma cidade agora consegue conduzir um exército de um reino estrangeiro. A transformação não exige que ele passe a amar disciplina burocrática ou etiqueta militar. O que aprendeu foi a diferença entre sobreviver sozinho e fazer centenas de homens sobreviverem juntos.
“The People of the Black Circle” desenvolve outra forma de liderança. Conan aparece como chefe dos Afghulis, homens das montanhas de uma região distante da Ciméria, e sua relação com a Devi Yasmina começa dentro de um conflito que envolve prisioneiros, política e os feiticeiros do Círculo Negro. O mais importante para sua trajetória é que Conan já consegue ser reconhecido como líder por pessoas que não compartilham seu povo de origem. A autoridade não vem de título herdado; vem da reputação construída ao longo de experiências anteriores.
O mesmo acontece em “A Witch Shall Be Born”, uma história particularmente importante para entender a resistência física de Conan e sua relação com liderança. Servindo em Khauran, ele acaba capturado depois da tomada do poder pela falsa rainha Salomé e pelo mercenário Constantius. Conan é crucificado e abandonado para morrer, numa das imagens mais violentas de toda a série. Sobrevive, retorna à ação e passa a comandar homens do deserto contra aqueles que tomaram a cidade.
O episódio resume boa parte da lógica de Howard em torno do personagem. Conan pode perder posição, armas, aliados e liberdade em poucas páginas, mas raramente perde capacidade de reconstruir-se. Sua identidade não depende de possuir um posto. Um rei pode deixá-lo nu e acorrentado e ele continua sendo Conan; da mesma forma, quando mais tarde o próprio Conan for deposto de Aquilônia, retornará a estratégias de sobrevivência adquiridas muito antes da coroa.
As histórias também deixam claro que ele não é um herói moralmente limpo segundo padrões modernos. Conan participa de pirataria, rouba, trabalha como mercenário, mata por razões que nem sempre são nobres e pode integrar grupos responsáveis por violência contra comunidades que não fizeram nada pessoalmente contra ele. Howard não tenta transformá-lo retroativamente num paladino. O que geralmente distingue Conan dos adversários mais desprezíveis não é pureza, mas um código pessoal baseado em lealdade, coragem, reciprocidade e desprezo pela crueldade praticada a partir de uma posição protegida.
Essa ética pode conviver com comportamentos que permanecem brutais. Conan respeita uma promessa em certas situações e abandona convenções em outras; pode colocar-se em risco por alguém de quem gosta e também escolher saquear quando a oportunidade surge. Sua moralidade é construída menos por instituições que por relações pessoais. Por isso ele tende a confiar mais em companheiros que provaram valor durante uma crise do que em sacerdotes, aristocratas ou funcionários que reivindicam autoridade apenas pelo cargo.
Howard trabalha repetidamente esse contraste em cidades antigas e sociedades decadentes. “Red Nails”, uma das últimas histórias de Conan escritas pelo autor, coloca Conan e Valeria dentro de Xuchotl, cidade isolada cujos habitantes se destruíram numa guerra interna prolongada. Conan e Valeria são estrangeiros considerados bárbaros por aquela civilização, mas a violência obsessiva encontrada dentro de seus muros torna cada vez mais difícil sustentar qualquer ideia simples de superioridade civilizada.
A experiência acumulada nessas histórias prepara Conan para posições maiores sem transformar sua vida numa carreira ascendente contínua. Ele pode comandar centenas de homens numa aventura e aparecer novamente vivendo como foragido ou caçador de tesouros em outra. O mundo de Howard não concede estabilidade porque alguém “subiu de nível”. Reputação pode abrir portas, mas uma derrota, traição ou mudança política pode destruí-la imediatamente.
É justamente essa instabilidade que torna sua futura ascensão ao trono menos absurda do que pareceria se Conan tivesse permanecido apenas um aventureiro solitário. Muito antes de Aquilônia, ele já comandou soldados, negociou com governantes, conheceu guerras dinásticas e viu por dentro aquilo que transforma reinos em estruturas frágeis. Quando finalmente desafia um rei, não é mais o jovem que chegou a Zamora procurando algo para roubar.
Aquilônia antes da coroa
A ligação de Conan com Aquilônia é construída em diferentes momentos e não apenas no instante em que decide conquistar o reino. Depois de ter conhecido inúmeros territórios, ele serve também na fronteira ocidental aquiloniana, região que Howard desenvolve com enorme força em “Beyond the Black River”. Ali, colonos e soldados avançam sobre territórios pictos enquanto fortes tentam sustentar uma linha constantemente ameaçada. Conan atua como batedor e homem da floresta, função que se adapta melhor às suas capacidades do que a vida dentro de uma cadeia militar convencional.
A narrativa é importante para sua futura relação com Aquilônia porque Conan não aparece apenas como mercenário estrangeiro contratado por um rei distante. Convive com homens da fronteira, conhece os riscos reais daquele avanço e estabelece uma reputação entre pessoas que mais tarde lembrarão dele quando o reino entrar em guerra civil. O Conan de “Beyond the Black River” já possui experiência suficiente para perceber o quanto comandantes e políticas elaboradas longe da fronteira podem falhar quando encontram as condições do terreno.
O conto também aprofunda a relação entre civilização e barbarismo sem oferecer uma resposta simples. Aquilônia expande suas fronteiras construindo fortes e assentamentos; os Pictos resistem e atacam; Conan ocupa uma posição ambígua, porque trabalha ao lado dos aquilonianos sem compartilhar completamente a visão de que a expansão civilizada representa um destino naturalmente superior. Ele conhece melhor que muitos soldados aquilo que povos de fronteira são capazes de fazer quando subestimados.
Essa passagem torna-se particularmente significativa quando observamos o fragmento “Wolves Beyond the Border”. Conan não aparece diretamente na história, mas sua presença política domina o pano de fundo. Aquilônia está dividida entre o rei Numedides — também grafado de outras maneiras nos manuscritos e edições — e a rebelião liderada por Conan. As províncias do oeste precisam escolher lados, e algumas delas declaram apoio ao cimério justamente porque se lembram de sua atuação anterior entre os homens da fronteira.
Howard nunca concluiu o fragmento e jamais escreveu uma narrativa completa da guerra civil. Isso é importante porque décadas de continuações preencheram posteriormente esse espaço com detalhes que se tornaram familiares a muitos leitores. No corpus original, sabemos que Conan se levanta contra Numedides, recebe apoio de setores da Aquilônia, vence a guerra e finalmente mata o rei, mas não acompanhamos cada campanha nem possuímos uma história howardiana completa explicando todas as etapas da tomada do poder.
Essa lacuna também evita transformar a coroação numa recompensa predestinada. Conan não descobre que possui sangue real escondido e nem cumpre uma profecia que lhe garante o trono. É um estrangeiro que reúne força política e militar suficiente para derrubar um governante. Sua legitimidade nasce da vitória e do apoio de pessoas que consideram Numedides tirânico, não de uma genealogia que o transforme retroativamente num aristocrata aquiloniano.
No começo de “The Phoenix on the Sword”, a situação política demonstra que conquistar a coroa foi mais simples do que estabilizá-la. Conan matou Numedides e foi recebido inicialmente como libertador, mas a memória do antigo rei começa rapidamente a ser reconstruída. Setores da aristocracia ressentem-se do estrangeiro, o poeta Rinaldo transforma o governante morto numa figura quase martirizada e conspiradores passam a imaginar que a Aquilônia seria melhor com alguém de sangue considerado legítimo.
Esse ponto é essencial para a imagem de Conan como rei. Ele não chega ao trono e imediatamente se torna amado por todos porque seria naturalmente justo. Precisa lidar com propaganda, nostalgia política e nobres que desprezam sua origem. Howard reconhece algo profundamente humano nessa mudança: pessoas que sofreram sob um governante podem, depois de sua morte, começar a lembrar apenas de uma imagem idealizada, especialmente quando a nova ordem contraria interesses poderosos.
Conan também descobre uma forma de dificuldade que nenhuma aventura anterior o havia preparado completamente para enfrentar. O rei precisa ler documentos, ouvir conselheiros, tomar decisões administrativas e governar pessoas que não podem simplesmente abandonar uma cidade quando os problemas aumentam. O personagem sente desconforto diante dessas responsabilidades, mas não as trata como irrelevantes. A história não sugere que ele possa governar Aquilônia apenas matando conspiradores.
A tentativa de assassinato que estrutura “The Phoenix on the Sword” traz Thoth-Amon para perto da trama, embora ele não funcione ali como o grande inimigo pessoal de Conan que continuações posteriores transformariam num antagonista recorrente. A conspiração nasce sobretudo da política interna aquiloniana e do desejo de devolver o poder a homens considerados mais apropriados pela aristocracia. O sobrenatural amplia a ameaça, mas não cria o ressentimento.
Conan sobrevive porque continua sendo o guerreiro excepcional que sempre foi, mas o episódio deixa claro que uma coroa produz inimigos que nenhuma habilidade individual pode eliminar permanentemente. Um ladrão pode escapar de uma cidade hostil. Um pirata pode abandonar um mar. Um mercenário pode trocar de empregador. O rei carrega o reino consigo.
O rei que continua sendo Conan
“The Scarlet Citadel” mostra Conan já mais estabelecido no trono e amplia o problema de governar para além das fronteiras internas. Ao atender ao pedido de auxílio de Amalrus de Ophir, ele conduz milhares de cavaleiros para uma campanha que se revela uma armadilha preparada em aliança com Strabonus de Koth e o feiticeiro Tsotha-lanti. O exército aquiloniano é destruído e Conan acaba capturado.
A situação reproduz em escala real aquilo que ele enfrentou inúmeras vezes como aventureiro. Perde exército, mobilidade e controle; inimigos tentam obrigá-lo a abrir mão do trono e substituí-lo por um governante mais conveniente. Conan se recusa, escapa das profundezas da cidadela com auxílio do feiticeiro Pelias e retorna para defender Aquilônia. A diferença é que agora uma fuga pessoal não basta. Se desaparecesse simplesmente e procurasse outra aventura, milhares de pessoas permaneceriam sob uma invasão provocada por seus inimigos.
Essa mudança de responsabilidade mostra por que o rei não é apenas uma versão mais rica do aventureiro. Conan continua capaz de sobreviver como antes, mas precisa transformar sobrevivência em retorno. O reino tornou-se algo que ele escolheu possuir e, consequentemente, algo pelo qual precisa responder. Howard não o transforma num administrador idealizado, mas permite que a experiência acumulada em décadas de deslocamento encontre uma função política.
A maior exploração desse contraste aparece em The Hour of the Dragon, único romance completo de Conan escrito por Howard. A história começa com uma conspiração internacional em que adversários de Conan recuperam Xaltotun, feiticeiro da antiga Acheron, utilizando forças que pertencem a uma era anterior à própria ordem política hiboriana. O resultado é uma derrota que remove Conan do trono e coloca Aquilônia sob uma nova autoridade.
De repente, o rei volta a ser fugitivo.
A estrutura do romance funciona tão bem porque o personagem possui recursos que não dependem da coroa. Conan consegue sobreviver entre inimigos, viajar, procurar aliados e entrar novamente nos mundos de aventura que conheceu durante a juventude. Governantes que sempre viveram dentro de palácios provavelmente estariam destruídos ao perder guarda, título e recursos. Conan simplesmente retorna a uma condição que conheceu durante grande parte da vida.
Isso não significa que o reino seja descartável para ele. O objetivo de sua jornada é recuperá-lo, e a diferença entre essa perda e as antigas mudanças de ocupação está justamente na existência de uma responsabilidade mais profunda. Conan não quer apenas recuperar conforto pessoal. A usurpação coloca Aquilônia nas mãos de homens cuja manutenção no poder depende de violência, magia e apoio externo.
O romance também mostra quanto a identidade de Conan passou a unir experiências aparentemente incompatíveis. Ele é o guerreiro cimério capaz de sobreviver em ambientes hostis, mas conhece política suficiente para entender aquilo que seus inimigos planejam; possui força individual, mas sabe que guerras dependem de alianças; desconfia de magia, mas reconhece quando um problema não pode ser resolvido apenas com aço. A trajetória inteira do personagem converge nessa combinação.
Zenobia entra nesse período como outra figura importante. Ela ajuda Conan quando ele está vulnerável e participa diretamente de sua fuga, criando uma relação muito diferente daquela entre rei e admiradora distante. Ao final, depois da derrota dos conspiradores e da recuperação da coroa, Conan declara que ela será sua rainha. Howard encerra assim a última grande narrativa cronológica do personagem com o rei restaurado e uma possibilidade de continuidade dinástica, mas não escreve a vida posterior do casal.
Esse limite merece atenção porque boa parte da biografia popular de Conan continua para além dele. Autores posteriores imaginaram filhos, novas guerras, aventuras na velhice e até o abandono final do trono. Algumas dessas histórias tornaram-se importantes na tradição editorial da franquia e influenciaram quadrinhos, jogos e outras adaptações, mas não pertencem à trajetória efetivamente escrita por Howard. Para uma Lore centrada no criador original, o caminho seguro termina onde o material dele termina.
O Conan de Howard não recebe uma morte definitiva. Também não existe uma narrativa escrita pelo autor mostrando um velho rei refletindo sobre o fim da vida. A carreira conhecida permanece aberta depois de The Hour of the Dragon. Essa ausência combina curiosamente com a própria origem do personagem: ele entrou na literatura já sentado num trono, teve seu passado revelado de maneira fragmentada e saiu deixando ainda muito espaço depois de sua última aventura.
Um bárbaro que aprende a governar sem deixar de ser bárbaro
A ascensão de Conan costuma ser resumida como a história de um bárbaro que se torna rei, mas essa fórmula perde parte do que Howard constrói entre os dois pontos. Conan não conquista Aquilônia apesar de ter passado anos como ladrão, pirata e mercenário; conquista-a, em certa medida, porque essas experiências lhe ensinaram coisas que a aristocracia do reino não poderia oferecer. Ele conhece a insegurança das estradas, a brutalidade de exércitos, a fragilidade de alianças, a diferença entre autoridade real e título vazio e a facilidade com que grandes homens podem tornar-se prisioneiros.
Ao mesmo tempo, a experiência não o transforma num governante iluminado segundo critérios modernos. Conan continua sendo produto de um mundo profundamente violento. Resolve crises pela força quando considera necessário, participa de guerras de conquista ou saque em diferentes fases da vida e governa num sistema monárquico cuja legitimidade conquistou através da rebelião armada. O interesse de Howard está menos em provar que Conan seria moralmente perfeito e mais em contrapô-lo a governantes que confundem posição herdada com capacidade.
A grande vantagem do cimério é não acreditar que um homem se torne superior apenas porque está sentado num trono. Ele esteve perto demais de reis, sacerdotes, capitães e feiticeiros para manter essa ilusão. Conheceu governantes corajosos e covardes, nobres dignos e corruptos, soldados leais e traidores. Quando recebe uma coroa, continua enxergando o objeto como aquilo que ele é: uma posição que só possui significado enquanto alguém consegue realmente sustentá-la.
Essa visão explica por que Howard faz Conan lembrar com frequência a própria origem. A Ciméria não funciona como um paraíso perdido para o qual ele deseja necessariamente retornar e viver para sempre. Também não é uma vergonha que precise superar. É o lugar que lhe deu os primeiros valores pelos quais continua julgando sociedades muito mais ricas. A distância entre uma aldeia ciméria e o trono de Aquilônia mede crescimento, mas não uma substituição completa de identidade.
A própria aparência estrangeira permanece politicamente importante. Em “The Phoenix on the Sword”, opositores podem utilizá-la contra ele porque Conan não pertence às grandes famílias aquilonianas. Seu reinado desafia a ideia de que governar é privilégio natural de determinadas linhagens. Isso não transforma Aquilônia numa sociedade igualitária, mas coloca um homem sem pedigree aristocrático no centro de seu maior poder.
Howard também evita fazer Conan subir sozinho. Em quase todas as fases importantes existem pessoas que o ajudam. Bêlit oferece um mundo inteiro no mar; Yasmela confia-lhe um exército; companheiros e soldados seguem suas ordens; homens da fronteira lembram de sua atuação; apoiadores dentro de Aquilônia escolhem sua rebelião; Zenobia arrisca-se por ele. A lenda do guerreiro solitário é apenas parte da história. Conan sobrevive sozinho muitas vezes, mas conquista poder porque consegue fazer outros acreditarem nele.
Sua inteligência aparece principalmente nessa capacidade de adaptação. Conan não é um intelectual semelhante aos grandes feiticeiros e estudiosos da Era Hiboriana, mas está muito longe do bruto incapaz de pensar que algumas versões populares sugeriram. Reconhece estratégias, aprende rapidamente, manipula expectativas, utiliza terreno, observa comportamento e sabe quando atacar ou recuar. Um personagem que atravessa tantas sociedades e chega ao trono sem qualquer educação aristocrática formal só poderia fazer isso se possuísse enorme capacidade de leitura do mundo ao redor.
Essa inteligência não elimina seus impulsos. Conan pode agir movido por raiva, desejo, orgulho ou curiosidade e frequentemente entra em situações que uma prudência absoluta evitaria. Howard preserva justamente essa tensão entre instinto e aprendizado. O homem mais velho possui muito mais experiência, mas ainda é capaz de agir com a rapidez de alguém que prefere decidir no momento a passar horas discutindo possibilidades.
A combinação torna-se fundamental para sua ideia de liderança. Conan não exige dos soldados algo que considera indigno de fazer pessoalmente. Em diferentes histórias coloca-se em perigo ao lado daqueles que comanda, característica que constrói lealdade de maneira muito diferente de reis que observam batalhas à distância. A mesma disposição, contudo, pode torná-lo vulnerável como chefe de Estado, porque o destino de um reino inteiro passa a depender de alguém acostumado a arriscar a própria vida.
Howard parece interessado exatamente nessa inadequação parcial. Conan é poderoso porque não foi produzido pelas instituições que governa, mas governá-las exige dele capacidades que sua vida anterior nunca tornou completamente naturais. O contraste evita que a coroação pareça ponto final de uma ascensão perfeita. Tornar-se rei apenas muda o tipo de perigo.
Também muda a escala da velha tensão entre barbarismo e civilização. Quando Conan era jovem, podia olhar para uma cidade corrupta e simplesmente sair dela. Como rei, ele próprio passa a representar uma civilização, com fronteiras, impostos, nobres e exércitos. Aquilo que criticava do lado de fora precisa agora ser enfrentado a partir de dentro.
Essa é talvez a parte mais interessante de sua chegada à Aquilônia. Conan não prova que barbarismo é superior à civilização ao destruir um reino e voltar para as montanhas. Assume a responsabilidade de governar e passa a testar se alguém formado fora daquele sistema consegue utilizar suas estruturas sem ser completamente absorvido por elas. Howard não teve tempo de acompanhar esse experimento até uma velhice do personagem, mas os contos de rei já mostram que não existe resposta simples.
O trajeto também ajuda a explicar por que Conan se tornou tão duradouro. Sua vida permite histórias de fantasia em praticamente qualquer escala. O jovem ladrão pode entrar sozinho numa torre; o pirata pode navegar por mares desconhecidos; o mercenário pode participar de conflitos locais; o chefe tribal pode negociar com uma princesa; o comandante pode decidir uma batalha; o rei pode enfrentar conspirações capazes de reorganizar todo o continente. É o mesmo personagem, mas cada etapa permite que Howard explore uma parte diferente da Era Hiboriana.
A vida de Conan não possui a forma limpa de uma jornada do herói concebida retrospectivamente. Não há chamado inicial, mentor permanente e missão única que leve inevitavelmente ao trono. Há deslocamento, perda, acaso, ambição e capacidade de aproveitar oportunidades. Ele não sabe quando deixa a Ciméria que será rei da Aquilônia, e essa ausência de destino predeterminado é fundamental.
A coroa surge depois de anos em que Conan aprendeu que reinos também são coisas feitas por homens. Já viu reis derrubados, cidades destruídas e governantes transformados em fugitivos. Quando olha para Numedides, não enxerga uma instituição sagrada; vê um homem ocupando uma posição que pode ser tomada.
Depois de vencer, descobre o outro lado dessa verdade.
Se um trono pode ser conquistado, também pode ser perdido. “The Phoenix on the Sword”, “The Scarlet Citadel” e The Hour of the Dragon mostram repetidamente inimigos tentando fazer com Conan aquilo que ele fez com seu predecessor. A diferença entre usurpador e rei passa a depender não apenas de quem venceu uma batalha, mas da capacidade de conquistar lealdade suficiente para permanecer.
Nesse sentido, a trajetória da Ciméria à Aquilônia não termina quando Conan coloca a coroa sobre a cabeça. É apenas ali que todas as experiências anteriores passam a ser testadas simultaneamente. O ladrão precisa entender conspirações, o mercenário comandar exércitos, o pirata aceitar alianças, o homem da fronteira lembrar o que acontece quando decisões tomadas no centro ignoram quem vive nas margens.
O personagem que Howard criou continua sendo um bárbaro, mas “bárbaro” já não significa a mesma coisa depois de tudo que viveu. No começo, é uma classificação cultural feita por pessoas de cidades que ele mal compreende. No final, torna-se quase uma perspectiva: Conan permanece alguém capaz de olhar para as convenções da civilização sem confundi-las automaticamente com verdade, justiça ou permanência.
É por isso que seu trono não contradiz a Ciméria. Ele leva a Ciméria consigo para Aquilônia, não como projeto de transformar todo o reino em sua terra natal, mas como lembrança de que nenhuma instituição é eterna e nenhum título substitui aquilo que uma pessoa realmente faz quando precisa agir.
Howard começou Conan exatamente nesse ponto, sentado num trono que continuava parecendo desconfortável para ele, e depois passou anos mostrando ao leitor como aquele homem havia chegado ali. O percurso revela que a coroa nunca foi o destino natural de um escolhido. Foi a conquista improvável de alguém que passou a juventude sem pertencer a lugar algum e acabou governando o mais poderoso dos reinos hiborianos.
Fontes consultadas
Robert E. Howard — The Coming of Conan the Cimmerian. Editado por Patrice Louinet. Esta edição da Del Rey/Wandering Star é uma das principais bases textuais para a fase inicial e intermediária de Conan porque procura recuperar os contos a partir dos datiloscritos de Howard ou das primeiras publicações quando os originais não sobreviveram. Foram utilizados especialmente “The Phoenix on the Sword”, “The Frost-Giant’s Daughter”, “The God in the Bowl”, “The Tower of the Elephant”, “The Scarlet Citadel”, “Queen of the Black Coast”, “Black Colossus”, “Iron Shadows in the Moon”, “The Pool of the Black One”, “Rogues in the House” e “The Devil in Iron”, além das notas editoriais de Patrice Louinet sobre os manuscritos e a cronologia. A coleção também preserva mapas, sinopses e materiais de Howard que ajudam a distinguir os textos originais das revisões posteriores. Howard Works
Robert E. Howard — The Bloody Crown of Conan. Editado por Patrice Louinet. Fonte central para a fase em que Conan já atua como líder de homens e para o período de seu reinado. O volume reúne “The People of the Black Circle”, The Hour of the Dragon e “A Witch Shall Be Born”, acompanhados por sinopses, notas de composição e pela segunda parte de “Hyborian Genesis”. The Hour of the Dragon é especialmente importante por ser o único romance completo de Conan escrito por Howard e por mostrar o rei deposto, obrigado a utilizar novamente habilidades desenvolvidas ao longo da vida de aventureiro para recuperar Aquilônia. Howard Works
Robert E. Howard — The Conquering Sword of Conan. Editado por Patrice Louinet. Utilizado principalmente para “Beyond the Black River”, “The Black Stranger”, “The Servants of Bit-Yakin”, “The Man-Eaters of Zamboula” e “Red Nails”. O volume inclui também as duas versões do fragmento “Wolves Beyond the Border”, a carta de Howard a P. Schuyler Miller datada de 10 de março de 1936 e a terceira parte de “Hyborian Genesis”. Esses materiais são fundamentais para compreender a experiência de Conan na fronteira aquiloniana e o pano de fundo da rebelião contra Numedides sem depender das continuações escritas posteriormente por outros autores. Howard Works
Robert E. Howard — “Wolves Beyond the Border”, rascunhos originais. Embora Conan não apareça diretamente, o fragmento ocorre durante a guerra civil aquiloniana e menciona províncias que declaram apoio ao cimério contra Numedides. É uma das fontes mais importantes para a tomada do trono porque confirma que o conflito envolveu uma rebelião mais ampla e que homens da fronteira apoiavam Conan em parte por lembrarem sua atuação anterior naquela região. A continuação realizada posteriormente por L. Sprague de Camp não foi utilizada como fonte para preencher aquilo que Howard deixou inacabado. THE CONAN CHRONOLOGY
P. Schuyler Miller e John D. Clark — “A Probable Outline of Conan’s Career”. Primeira grande tentativa de organizar cronologicamente a vida do personagem, preparada em 1936, ainda durante a vida de Howard. Os autores utilizaram os contos publicados e informações enviadas pelo próprio escritor; Howard revisou o trabalho e indicou correções, considerando que o esquema seguia sua concepção de maneira bastante próxima. O texto é particularmente útil para os primeiros anos de Conan, incluindo Venarium e a passagem entre Ciméria, Nordheim e Zamora. Deve, contudo, ser tratado como uma reconstrução de Miller e Clark auxiliada por Howard, e não como um conto ou biografia diretamente escrita por ele. Scribd
Robert E. Howard — carta a P. Schuyler Miller, 10 de março de 1936. Preservada em edições modernas do material de Conan, a correspondência fornece contexto para a tentativa de organizar a carreira do personagem e para a relação de Howard com a cronologia proposta por Miller e Clark. Sua presença nas edições restauradas é particularmente valiosa porque permite separar aquilo que Howard efetivamente confirmou das ampliações feitas após sua morte. Howard Works
Patrice Louinet — “Hyborian Genesis: Notes on the Creation of the Conan Stories”, Partes I–III. Os ensaios publicados nas edições restauradas acompanham a ordem de composição dos contos, os manuscritos, as reescritas e a maneira pouco linear pela qual Howard construiu Conan. São essenciais para entender por que uma cronologia interna do personagem não deve ser confundida com a ordem em que as histórias foram escritas ou publicadas.
Patrice Louinet — “Notes on the Conan Typescripts and the Chronology”. Estudo editorial incluído nos volumes restaurados e particularmente importante para avaliar as divergências entre diferentes tentativas de ordenar a carreira de Conan. A análise reforça a necessidade de distinguir evidências existentes nos próprios textos, informações fornecidas por Howard e arranjos posteriores criados para transformar episódios independentes numa saga perfeitamente contínua.
Robert E. Howard — “The Hyborian Age”. Embora não seja uma biografia de Conan, o ensaio fornece a estrutura histórica necessária para compreender os povos, reinos e conflitos atravessados pelo personagem. A trajetória do cimério ganha sentido apenas dentro desse mundo de migrações, potências em ascensão e civilizações sujeitas a mudanças constantes.
Mark Finn — Blood & Thunder: The Life & Art of Robert E. Howard. Consultado como apoio biográfico e crítico para situar a criação de Conan dentro da carreira de Howard e do ambiente das revistas pulp. O estudo ajuda a compreender o interesse recorrente do autor por fronteiras, guerra, mobilidade social e pelo contraste entre indivíduos formados fora das grandes instituições e sociedades que acreditam estar protegidas pela própria civilização.
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