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Cinema & TV

Infância, imaginação e descoberta no cinema de Steven Spielberg

A infância aparece tantas vezes no cinema de Steven Spielberg que se tornou uma das imagens mais reconhecíveis de sua obra. Crianças em bicicletas, quartos cheios de objetos, casas suburbanas, pequenos grupos de amigos, pais que nem sempre conseguem estar presentes e alguma coisa extraordinária surgindo no horizonte formaram um repertório que atravessou décadas e acabou sendo imitado por inúmeros filmes, séries e jogos. Essa recorrência, porém, costuma ser simplificada quando a infância em Spielberg é tratada apenas como lugar de inocência, nostalgia ou maravilhamento. Seus personagens jovens raramente vivem protegidos da realidade; com frequência, são justamente aqueles que percebem primeiro que o mundo dos adultos é instável, incompleto ou incapaz de oferecer as respostas que prometia. O extraordinário entra nessas histórias quando alguma certeza já começou a se romper, transformando a imaginação numa forma de lidar com aquilo que ainda não pode ser plenamente compreendido. A infância interessa a Spielberg menos porque seria um período puro da vida do que porque representa um momento em que a percepção permanece aberta o suficiente para que o impossível ainda possa modificar profundamente a maneira como o mundo é entendido.

Esse aspecto ajuda a explicar por que tantas crianças de seus filmes não são apenas testemunhas do fantástico, mas mediadoras entre aquilo que conhecemos e aquilo que ainda não sabemos nomear. Elliott encontra E.T. e estabelece uma relação com a criatura antes que qualquer instituição consiga classificá-la; Tim e Lex entram em Jurassic Park acreditando que os adultos construíram um parque seguro e descobrem rapidamente que a promessa de controle era ilusória; David, em A.I. — Inteligência Artificial, transforma um conto de fadas em explicação possível para uma experiência de abandono que sua própria existência artificial não lhe permite processar de outra maneira; Sammy Fabelman utiliza uma câmera para reorganizar acontecimentos, primeiro como brincadeira e depois como instrumento de descoberta. Em todos esses casos, imaginação e conhecimento não aparecem como forças opostas. A imaginação funciona justamente porque o conhecimento ainda é insuficiente, fragmentário ou doloroso demais para ser assimilado diretamente. A criança cria relações, histórias, imagens e interpretações enquanto tenta encontrar alguma coerência em experiências que os adultos também não conseguem controlar.

Essa lógica distingue Spielberg de uma tradição que apresenta a infância simplesmente como refúgio anterior às responsabilidades da vida adulta. Seus filmes reconhecem a intensidade da curiosidade infantil, mas não escondem o medo, a perda e a vulnerabilidade que acompanham essa abertura. Elliott precisa aceitar uma despedida; as crianças de Jurassic Park enfrentam consequências de decisões tomadas por adultos; David permanece preso a um amor que não consegue superar; Jim, em Império do Sol, atravessa uma guerra que destrói quase todas as referências de sua vida anterior; Sammy descobre que o cinema pode mostrar verdades que ele preferiria não ter encontrado. A descoberta, portanto, costuma produzir uma ruptura. Ver alguma coisa pela primeira vez significa também perder a possibilidade de voltar a enxergar o mundo como antes.

A infância como uma maneira de perceber

Spielberg frequentemente coloca crianças em posição de perceber algo antes dos adultos, mas isso não significa que elas compreendam melhor aquilo que veem. A diferença está na disposição para aceitar que uma experiência possa existir antes de receber uma explicação definitiva. Adultos possuem categorias mais estáveis para organizar o mundo e, por isso, costumam reagir ao inesperado tentando enquadrá-lo rapidamente dentro de sistemas conhecidos. Crianças, por ainda estarem formando essas categorias, podem conviver por mais tempo com a incerteza. Essa condição aparece de maneira particularmente clara em E.T. — O Extraterrestre, no qual Elliott encontra uma criatura que, para qualquer autoridade adulta, representaria imediatamente uma questão científica, militar ou institucional. O garoto sente medo, mas também curiosidade, e essa combinação permite que a relação se desenvolva antes que a criatura seja reduzida a objeto de investigação.

O comportamento de Elliott é importante porque ele não começa tentando descobrir de onde E.T. veio, quais são suas capacidades biológicas ou o que sua existência significa para a humanidade. Sua primeira preocupação é compreender como se aproximar sem assustá-lo. Comida, brinquedos, objetos domésticos e palavras básicas se tornam instrumentos de uma relação construída dentro do espaço privado da casa, longe das estruturas que posteriormente tentarão controlar a situação. O quarto de uma criança funciona como primeiro lugar de contato entre espécies porque é um ambiente no qual o extraordinário ainda pode ser recebido sem precisar justificar imediatamente sua utilidade ou ameaça. Spielberg transforma uma situação de enorme importância científica em uma experiência profundamente íntima, deslocando a pergunta de “o que é essa criatura?” para “o que ela precisa?”. A infância aparece, assim, como forma de conhecimento baseada primeiro em convivência e reconhecimento.

A condição emocional de Elliott torna esse processo ainda mais significativo. O pai deixou a família, a mãe tenta manter uma rotina entre trabalho e filhos e a casa já carrega uma ausência antes que o extraterrestre apareça. Spielberg não transforma E.T. em substituto paterno, nem reduz a criatura a uma metáfora direta para o divórcio, mas aproxima duas experiências de separação que permitem ao garoto reconhecer uma necessidade semelhante à sua. E.T. também está longe de casa. Ele não deseja conquistar o mundo, ensinar tecnologia ou transformar Elliott num escolhido especial; quer voltar para o lugar a que pertence. O entendimento surge antes da explicação racional porque o garoto conhece, ainda que de outra forma, a sensação de perceber que alguém importante não está mais onde deveria estar.

Quando os adultos entram de forma mais decisiva na história, o filme modifica completamente a maneira de olhar para a criatura. Equipamentos, roupas de proteção e procedimentos substituem a intimidade doméstica, e E.T. passa a ser observado como organismo antes de ser reconhecido como indivíduo. Spielberg não transforma os cientistas em figuras simplesmente cruéis, pois eles tentam preservar a vida da criatura e alguns demonstram interesse genuíno, mas existe uma diferença fundamental entre examinar aquilo que E.T. é e conhecer quem ele se tornou para Elliott. A infância, nesse caso, não é superior à ciência; ela apenas estabelece outra ordem de prioridades. Elliott reconhece uma pessoa antes que os adultos reconheçam um fenômeno.

A própria despedida aprofunda essa ideia porque mostra que a imaginação não funciona como mecanismo para preservar eternamente aquilo que a criança deseja. Elliott encontra algo extraordinário, estabelece uma ligação íntima e precisa aceitar que esse encontro terá um fim. Spielberg poderia encerrar a história recompensando o garoto com a permanência de E.T., mas isso transformaria a amizade em forma de posse. O extraterrestre precisa retornar para casa, e Elliott precisa aprender que uma relação pode continuar importante mesmo depois da separação. A infância não é preservada evitando a perda; é modificada pela capacidade de atravessá-la.

Essa mesma abertura ao extraordinário aparece em Jurassic Park, mas sob uma condição diferente. Tim e Lex entram no parque acreditando numa promessa criada por adultos: a de que ciência, tecnologia e investimento financeiro conseguiram transformar animais extintos em atrações completamente controláveis. A própria existência dos dinossauros já representa uma ruptura entre o que deveria pertencer ao passado e aquilo que pode estar novamente diante deles, mas a primeira reação é de encantamento. Spielberg constrói a descoberta como espetáculo, permitindo que o espanto dos personagens organize o olhar do público antes que qualquer problema se torne dominante. A maravilha existe porque aquilo que parecia impossível se tornou concreto.

O filme não demora, porém, a revelar o outro lado da descoberta. O parque foi construído por adultos convencidos de que conseguem controlar organismos que conhecem apenas parcialmente, e as crianças acabam diretamente expostas às consequências dessa confiança. Quando o T. rex atravessa a cerca, Tim e Lex passam de visitantes fascinados a pessoas tentando sobreviver dentro de um sistema cuja segurança se revelou ilusória. A infância funciona novamente como posição de vulnerabilidade diante de decisões tomadas por outros. Eles não participaram das escolhas científicas, econômicas ou administrativas que criaram o parque, mas precisam enfrentar os resultados quando tudo dá errado.

Essa dinâmica é importante porque impede que o maravilhamento de Spielberg seja confundido com confiança irrestrita no progresso. A descoberta pode ampliar o mundo e, ao mesmo tempo, revelar riscos que não estavam completamente previstos. As crianças conseguem sentir entusiasmo e medo diante dos mesmos animais sem que isso produza contradição, porque uma experiência nova não precisa possuir significado único. O dinossauro pode ser maravilhoso e perigoso; a ciência pode produzir conhecimento extraordinário e consequências imprevisíveis. A infância permite que essas duas dimensões coexistam antes de serem simplificadas por uma conclusão definitiva.

Imaginação como ferramenta, abrigo e armadilha

A imaginação ocupa lugar central nesses filmes porque oferece aos personagens uma forma de organizar experiências que ainda não possuem explicação suficiente. Em Hook — A Volta do Capitão Gancho, Spielberg parte de uma inversão interessante: o personagem central já foi a própria imagem de uma infância que se recusava a terminar, mas cresceu e perdeu quase completamente o acesso àquilo que o definia. Peter Banning se tornou adulto, constituiu família e construiu uma carreira, mas sua relação com o trabalho transformou presença física em distância emocional. Ele está ao lado dos filhos e, ainda assim, frequentemente não percebe aquilo que importa para eles. O conflito não nasce porque Peter amadureceu, e sim porque passou a tratar imaginação, brincadeira e atenção como elementos incompatíveis com a vida adulta.

A Terra do Nunca funciona como espaço onde essa perda precisa ser confrontada de maneira concreta. Peter não consegue simplesmente afirmar que foi Peter Pan e recuperar imediatamente todas as capacidades esquecidas. Precisa reaprender a participar de um mundo cuja lógica depende de aceitar possibilidades que seu pensamento adulto rejeita. A cena do banquete imaginário resume esse processo com clareza: enquanto as Crianças Perdidas enxergam comida onde aparentemente não existe nada, Peter vê apenas pratos vazios porque sua percepção deixou de participar daquela convenção coletiva. A fantasia não aparece como prova de que crianças vivem numa realidade superior, mas como demonstração de que determinadas experiências exigem abertura para aquilo que não pode ser reduzido imediatamente à utilidade.

Essa recuperação possui sentido apenas porque Peter precisa retornar para casa. O filme não defende a ideia de que a solução para os problemas da vida adulta seja abandonar responsabilidades e voltar a viver como criança. A aventura funciona justamente porque permite que o personagem perceba o que perdeu enquanto crescia. Imaginar, brincar e prestar atenção não pertencem exclusivamente à infância, mas podem ser enfraquecidos quando a vida adulta se organiza apenas em torno de produtividade e obrigações. Peter não precisa voltar a ser criança; precisa integrar algo daquela antiga percepção à pessoa que se tornou.

A diferença entre Hook e A.I. — Inteligência Artificial revela como Spielberg também reconhece o perigo de uma imaginação incapaz de aceitar limites. David é criado com aparência infantil e programado para estabelecer uma relação amorosa absoluta com Monica, mas sua condição artificial impede que o vínculo amadureça da maneira como aconteceria com uma criança humana. Quando é abandonado, precisa encontrar uma explicação para aquilo que aconteceu e utiliza Pinóquio como modelo. Se um boneco conseguiu tornar-se menino de verdade, talvez David também possa ser transformado e, dessa forma, recuperar o amor da mãe.

A lógica é profundamente infantil porque transforma uma experiência emocional complexa numa tarefa com solução concreta. David não consegue aceitar que Monica possa tê-lo amado e, ainda assim, decidido abandoná-lo; portanto, conclui que existe algo errado com aquilo que ele é. Tornar-se humano passaria a corrigir esse defeito e restauraria o vínculo perdido. O conto de fadas oferece uma estrutura compreensível para uma situação que não possui resposta satisfatória. Spielberg utiliza a imaginação como abrigo diante da rejeição, mas deixa claro que esse abrigo pode se transformar em prisão quando o personagem não possui condições de ultrapassá-lo.

A diferença para Elliott é profunda. Elliott também perde alguém importante, mas aprende que despedida e rejeição não são necessariamente a mesma coisa. E.T. parte porque precisa voltar para casa, e o garoto gradualmente consegue aceitar essa necessidade. David, por outro lado, permanece preso à ideia de que o amor só será restaurado quando conseguir alterar a si mesmo. Um personagem atravessa a perda e continua; o outro transforma a própria existência numa longa tentativa de desfazer aquilo que aconteceu.

Spielberg complica ainda mais essa questão ao fazer de David uma máquina construída por adultos para experimentar sentimentos que eles próprios não assumem completamente como responsabilidade. A imaginação do personagem não nasce apenas da infância que ele imita, mas de uma programação incapaz de superar o vínculo para o qual foi criado. Uma criança humana poderia crescer, reinterpretar a própria experiência, construir novas relações e modificar gradualmente a maneira como entende o abandono. David atravessa um tempo incomensurável sem conseguir abandonar o desejo inicial. A imaginação que parecia oferecer esperança se torna uma estrutura incapaz de aceitar realidade diferente daquela prometida pelo conto.

Essa ambivalência impede que a obra de Spielberg apresente imaginação como virtude automática. Ela pode facilitar empatia, criar possibilidades e permitir que alguém enxergue além das categorias existentes, mas também pode sustentar ilusões quando se recusa a reconhecer aquilo que não pode ser modificado. O valor da imaginação depende da relação que estabelece com a realidade. Peter precisa recuperá-la para viver melhor no mundo que já possui; David a utiliza para tentar tornar possível um mundo que não pode existir da forma que deseja.

Descobrir significa perder alguma certeza

Muitos dos momentos mais fortes do cinema de Spielberg acontecem quando uma descoberta altera permanentemente a relação do personagem com aquilo que conhecia. O primeiro encontro com o impossível costuma produzir maravilhamento, mas raramente permanece apenas nesse registro. Descobrir vida extraterrestre significa perceber que a humanidade não está sozinha. Ver um dinossauro vivo significa reconhecer que fronteiras consideradas absolutas podem ser atravessadas. Entender que uma pessoa amada irá embora significa aceitar que sentimentos não garantem permanência. A descoberta amplia o mundo e, simultaneamente, destrói alguma certeza que existia antes.

Essa estrutura também aparece fora do fantástico. Império do Sol, de 1987, acompanha Jim Graham, um garoto britânico vivendo em Xangai durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, cuja experiência da infância é completamente desmontada pela guerra. Separado dos pais e lançado num ambiente em que antigas hierarquias perderam sentido, Jim precisa aprender rapidamente a reconhecer perigos, adaptar-se e negociar sua sobrevivência. Spielberg evita transformar essa experiência numa aventura juvenil confortável. A capacidade de adaptação do garoto é impressionante, mas cada nova habilidade revela também quanto da vida anterior precisou ser abandonado.

O fascínio de Jim por aviões militares torna esse conflito ainda mais complexo. Ele consegue admirar máquinas associadas diretamente à violência que reorganizou sua vida, demonstrando como uma criança pode encontrar beleza e descoberta mesmo dentro de uma realidade terrível. Spielberg não apresenta essa contradição como ingenuidade simples. O olhar infantil ainda consegue se encantar com aquilo que o contexto adulto já identificaria apenas como instrumento de guerra. Essa capacidade não torna Jim protegido; pelo contrário, mostra como imaginação e sobrevivência podem permanecer misturadas em circunstâncias extremas.

A guerra acelera aquilo que outros filmes de Spielberg tratam de forma mais gradual: a descoberta de que os adultos não possuem controle suficiente para garantir segurança. Essa percepção aparece também em Jurassic Park, E.T. e Guerra dos Mundos, ainda que em escalas muito diferentes. Crianças dependem de estruturas construídas por pessoas mais velhas e, em determinado momento, percebem que essas estruturas podem falhar. A ausência de um pai, o colapso de um parque ou a destruição de uma cidade não são experiências equivalentes, mas colocam personagens jovens diante da mesma constatação fundamental: aquilo que parecia sólido pode desaparecer.

É nesse ponto que a infância em Spielberg se distancia de uma nostalgia fácil. Nostalgia pressupõe frequentemente a reconstrução de um passado mais simples, organizado por objetos, músicas e imagens capazes de produzir conforto. Os filmes que contribuíram para criar esse imaginário não são necessariamente confortáveis. A casa de Elliott carrega uma separação familiar; Peter Banning percebe que se tornou distante dos filhos; David foi criado para amar e depois descartado; Jim precisa sobreviver a uma guerra; Sammy Fabelman utiliza uma câmera para descobrir que sua família não corresponde à imagem que possuía dela. Bicicletas, brinquedos, quartos e pequenas cidades existem, mas dividem espaço com a percepção de que crescer também significa descobrir falhas naquilo que parecia seguro.

A nostalgia posterior associada ao chamado “estilo Amblin” frequentemente selecionou os elementos mais agradáveis dessa linguagem e deixou de lado parte de suas inquietações. Muitas produções retomaram grupos de crianças, bicicletas, pequenas comunidades e ameaças extraordinárias porque esses elementos passaram a representar uma ideia compartilhada dos anos 1980. O que torna os filmes originais mais fortes, porém, é que a aventura raramente está separada de alguma instabilidade emocional ou familiar. O extraordinário não entra num mundo perfeitamente organizado; encontra personagens que já possuem razões para olhar além daquilo que conhecem.

Os Fabelmans e a formação do olhar

Os Fabelmans ocupa uma posição especial nessa discussão porque Spielberg finalmente coloca a própria descoberta das imagens no centro de uma narrativa inspirada em sua juventude. O filme não funciona como chave capaz de explicar automaticamente tudo o que veio antes, mas torna impossível ignorar a importância que infância, família e criação artística tiveram em sua formação. Sammy Fabelman não descobre apenas que gosta de cinema. Ele aprende gradualmente que imagens podem ajudá-lo a controlar uma experiência, reconstruir aquilo que aconteceu, revelar aspectos invisíveis no momento original e até modificar a maneira como outras pessoas percebem a realidade.

O primeiro contato do personagem com o cinema já estabelece essa relação entre medo, curiosidade e necessidade de controle. Depois de assistir à colisão de trens em O Maior Espetáculo da Terra, Sammy se sente profundamente impressionado pela cena e tenta reproduzi-la utilizando seus próprios brinquedos. A repetição não nasce apenas de desejo de imitação. Ele quer ver novamente aquilo que o perturbou, mas dessa vez dentro de uma situação em que pode determinar quando o acidente começa e termina. Quando a mãe sugere que registre o momento com uma câmera, a imagem se transforma numa forma de organizar uma experiência emocionalmente intensa.

Esse gesto contém em miniatura uma parte importante do cinema de Spielberg. Aquilo que assusta ou fascina pode ser reconstruído por meio de enquadramento, repetição e montagem. A criança não elimina a experiência original, mas cria uma distância suficiente para observá-la. Imaginação e técnica começam a se encontrar. O cinema deixa de ser apenas espetáculo recebido passivamente e se torna instrumento que Sammy pode manipular.

A relação se torna muito mais complexa quando a câmera passa a mostrar aquilo que ele não pretendia encontrar. Durante a montagem de imagens de uma viagem familiar, Sammy percebe a intimidade entre sua mãe e Bennie. Nenhum momento isolado precisava ser conclusivo, mas a seleção e a repetição revelam um padrão que a experiência imediata havia escondido. Spielberg transforma a montagem numa forma de conhecimento. O garoto que utilizava o cinema para controlar aquilo que via descobre que a mesma ferramenta pode retirar controle ao revelar uma verdade que não possui solução simples.

Essa passagem é fundamental porque amplia a relação entre infância e descoberta para além do fantástico. Sammy não encontra uma nave, criatura ou mundo imaginário; encontra uma informação sobre as pessoas mais próximas de sua vida. Ainda assim, a estrutura emocional se aproxima de outras obras do diretor. Uma percepção nova altera definitivamente a maneira como o personagem entende aquilo que já conhecia. A família continua sendo a mesma, mas não pode mais ser vista da mesma maneira.

O filme também mostra que possuir a câmera significa exercer poder sobre a imagem dos outros. Quando Sammy monta o registro de um dia na praia e transforma um colega que o perseguia numa figura quase heroica, demonstra que cinema não é apenas descoberta de uma verdade escondida. É também construção. O rapaz fica desconcertado ao se ver representado de forma mais grandiosa do que corresponde à própria percepção, e a conversa entre os dois revela uma das questões mais importantes da obra: imagens podem criar versões das pessoas que ganham força independentemente daquilo que aconteceu.

Essa compreensão impede que Os Fabelmans se transforme numa celebração ingênua do nascimento de um artista. Spielberg reconhece a beleza da descoberta do cinema, mas também mostra suas implicações. Filmar significa escolher o que mostrar, decidir como mostrar e, em alguma medida, controlar a memória daqueles que aparecerão na imagem. Sammy aprende que o cinema pode consolar, revelar, manipular e ferir. A imaginação ganha responsabilidade.

O aspecto autobiográfico torna tudo mais significativo sem precisar reduzir o restante da filmografia a confissão. Spielberg levou décadas para transformar elementos tão próximos de sua própria família numa obra direta, mas muitas das preocupações apresentadas em Os Fabelmans já haviam aparecido de outras maneiras. Crianças observando adultos que não conseguem manter o mundo organizado, personagens utilizando o fantástico para lidar com ausências, descobertas que alteram relações familiares e imagens que reorganizam a experiência são temas presentes muito antes de Sammy aparecer na tela. O filme não revela uma explicação secreta; oferece um novo ponto de observação.

A partir dele, fica mais fácil compreender por que Spielberg volta tantas vezes à reação de quem vê antes de mostrar aquilo que está sendo visto. A descoberta não reside apenas no objeto extraordinário. Ela acontece no encontro entre esse objeto e alguém cuja percepção será modificada. O rosto de Alan Grant diante do primeiro dinossauro, a surpresa de Elliott ao compreender E.T., a obsessão de Roy Neary diante de algo que não consegue nomear e a expressão de Sammy diante das imagens que montou pertencem a registros diferentes, mas compartilham a mesma preocupação com o instante em que olhar deixa de ser uma atividade passiva.

Crescer sem deixar de perceber

A infância em Spielberg importa porque concentra uma forma de percepção ainda sujeita a mudanças profundas. Crianças não possuem respostas melhores apenas por serem crianças, mas cada descoberta pode reorganizar de maneira muito mais radical aquilo que entendem sobre família, realidade e possibilidade. Elas ainda não transformaram o mundo em rotina completa. Algo extraordinário pode entrar por uma porta, surgir numa tela, atravessar uma cerca ou aparecer numa imagem doméstica e exigir imediatamente uma nova maneira de pensar.

Essa abertura não deve ser confundida com ingenuidade. Elliott sente medo de E.T. antes de confiar nele; Tim e Lex descobrem que maravilhamento não elimina perigo; David utiliza a imaginação de maneira tão absoluta que ela se torna prisão; Sammy aprende que uma câmera pode revelar algo que ele não queria saber. Spielberg reconhece que imaginar e descobrir podem causar dor porque conhecer alguma coisa nova significa perder uma versão anterior do mundo. A infância não é valiosa por desconhecer a realidade, mas por estar constantemente sendo transformada por ela.

Seus adultos mais interessantes muitas vezes precisam reaprender parte dessa disponibilidade. Peter Banning precisa recuperar capacidade de brincar para reconhecer novamente os filhos; Alan Grant descobre uma relação com crianças que não cabia na identidade exclusivamente profissional que havia construído; Roy Neary abandona categorias conhecidas diante de algo que não consegue explicar, embora sua resposta também produza consequências familiares dolorosas. Esses personagens não precisam voltar a pensar como crianças. Precisam reconhecer que maturidade não deveria significar completa incapacidade de rever aquilo que acreditavam saber.

Talvez seja esse um dos motivos pelos quais o cinema de Spielberg continuou falando com públicos de idades tão diferentes. Crianças podem reconhecer a aventura e a descoberta; adultos conseguem perceber perdas, responsabilidades e ambiguidades que talvez passassem despercebidas em outro momento da vida. Um mesmo filme pode mudar conforme o espectador muda. E.T. pode começar como história sobre amizade com um extraterrestre e, anos depois, revelar-se também como história sobre separação e pertencimento. Hook pode parecer uma fantasia sobre Peter Pan na infância e ganhar outro peso quando trabalho e responsabilidades familiares se tornam experiências concretas. Os Fabelmans praticamente constrói sua narrativa em torno dessa diferença entre aquilo que uma criança vê e aquilo que um adulto consegue compreender mais tarde.

Spielberg nunca precisou escolher entre imaginação e realidade porque sua obra se interessa justamente pelo ponto em que uma interfere na outra. O fantástico oferece linguagem para experiências que ainda não conseguem ser expressas diretamente, enquanto a realidade impede que a fantasia se transforme em resposta fácil. Elliott precisa deixar E.T. partir. Peter precisa voltar para casa. David não consegue transformar desejo em verdade apenas porque acredita com intensidade suficiente. Sammy pode reconstruir imagens da família, mas não pode utilizar a montagem para impedir que ela mude.

A descoberta permanece porque altera quem observa. O dinossauro, a criatura, o filme, a nave ou a verdade familiar podem desaparecer do campo de visão, mas deixam uma diferença na pessoa que os encontrou. Spielberg transforma esse momento num dos fundamentos de seu cinema e encontra na infância o território ideal para explorá-lo porque poucas etapas da vida são tão marcadas por primeiras vezes e perdas de certezas. Crescer, em suas histórias, não significa simplesmente abandonar imaginação, nem preservar para sempre uma inocência impossível. Significa aprender a continuar olhando mesmo depois de descobrir que aquilo que vemos pode ser mais estranho, doloroso e complexo do que imaginávamos.

Fontes consultadas

AMBLIN. Steven Spielberg: A Life in Movies. Los Angeles: Amblin, s.d. Retrospectiva oficial da carreira de Steven Spielberg, com informações sobre sua formação e principais obras.

AMBLIN. E.T. The Extra-Terrestrial. Los Angeles: Amblin, s.d. Informações oficiais sobre o filme, personagens, produção e desenvolvimento da história.

AMBLIN. Jurassic Park. Los Angeles: Amblin, s.d. Material oficial sobre o filme, produção e desenvolvimento das criaturas e efeitos visuais.

AMBLIN. A.I. Artificial Intelligence. Los Angeles: Amblin, s.d. Histórico do projeto desenvolvido originalmente por Stanley Kubrick e posteriormente realizado por Steven Spielberg.

DIRECTORS GUILD OF AMERICA. “Director Steven Spielberg Discusses The Fabelmans”. Los Angeles: Directors Guild of America, 8 nov. 2022. Conversa entre Steven Spielberg e Paul Thomas Anderson sobre família, memória e realização de Os Fabelmans.

DIRECTORS GUILD OF AMERICA. “Meet the Nominees: Theatrical Feature Film”. Los Angeles: Directors Guild of America, 2023. Discussão sobre a construção autobiográfica de Os Fabelmans e a transformação de pessoas reais em personagens.

DIRECTORS GUILD OF AMERICA. “Age & Innocence: An Interview with Steven Spielberg”. DGA Quarterly. Los Angeles: Directors Guild of America, inverno de 2006. Entrevista sobre infância, família e temas recorrentes na carreira do cineasta.

BRITISH FILM INSTITUTE. Materiais críticos e retrospectivos sobre Steven Spielberg, sua representação da infância e a construção do maravilhamento em sua filmografia. Londres: BFI.

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