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5 games brasileiros para conhecer — e os desenvolvedores por trás deles

A gamescom 2026 terminou em 30 de agosto com uma presença brasileira maior do que uma simples participação institucional. A delegação organizada pela Abragames, por meio do programa Brazil Games em parceria com a ApexBrasil, reuniu 78 estúdios e empresas, enquanto o primeiro Brazilian Indie Pavilion levou 35 jogos à área aberta ao público da feira em Colônia, na Alemanha. Pela primeira vez, a iniciativa brasileira que tradicionalmente ocupava o setor de negócios da gamescom ganhou também uma vitrine própria na área de entretenimento, permitindo que visitantes e imprensa internacional jogassem diretamente uma amostra da produção independente do país.

Trinta e cinco títulos permitem contar histórias muito diferentes sobre o desenvolvimento de games no Brasil. Havia jogos de ação, RPGs, terror, estratégia, aventuras narrativas, projetos inspirados em episódios históricos e mundos completamente originais. Para esta seleção do Infinitas Formas, procuramos cinco projetos particularmente próximos da fantasia, do terror e da ficção científica, mas também capazes de mostrar como desenvolvedores ligados ao Brasil estão encontrando identidades próprias dentro de gêneros já conhecidos. Todos estiveram entre os títulos destacados pelo Brazilian Indie Pavilion de 2026.

A seleção também tem outra particularidade: quase todos esses jogos ainda estão em desenvolvimento. Descobri-los agora significa acompanhar uma produção antes de ela chegar definitivamente às lojas, experimentar as demos já disponíveis e observar como pequenos e médios estúdios brasileiros tentam transformar projetos locais em jogos capazes de alcançar um público internacional.

1. ÁRIDA 2: Rise of the Brave — Aoca Game Lab

Quando videogames procuram um passado histórico para transformar em cenário, a escolha costuma recair sobre lugares já bastante familiares ao imaginário do entretenimento: Europa medieval, Japão feudal, guerras do século XX ou diferentes versões dos Estados Unidos. A série ÁRIDA segue por uma direção incomum ao colocar o sertão brasileiro do século XIX no centro de uma aventura de exploração e sobrevivência.

Desenvolvido pela Aoca Game Lab, de Salvador, ÁRIDA 2: Rise of the Brave continua a trajetória de Cícera e a coloca numa jornada pela Caatinga em direção a Canudos. O sertão não funciona apenas como pano de fundo visual. Seca, disponibilidade de recursos, deslocamento e contato com os habitantes da região participam dos próprios sistemas de sobrevivência, exploração e fabricação de ferramentas. Segundo o estúdio, o jogador deverá procurar recursos, realizar tarefas e atravessar um ambiente simultaneamente vivo, hostil e permeado por elementos místicos.

Essa relação entre mecânica e espaço é uma das razões pelas quais ÁRIDA chama atenção. Utilizar a Caatinga apenas como uma textura diferente sobre um jogo convencional produziria pouco mais do que exotismo visual. A proposta da Aoca é fazer com que as condições daquele lugar e daquele período interfiram na experiência de Cícera, permitindo que características históricas e culturais brasileiras participem da maneira como o jogador explora o mundo.

Há também uma dimensão fantástica nessa representação. A continuação descreve o sertão como um espaço em que realidade histórica, memória e elementos místicos convivem durante a viagem, sem transformar a região num equivalente brasileiro artificial das ambientações de fantasia europeias. É justamente a especificidade do sertão que fornece ao jogo sua identidade.

ÁRIDA 2: Rise of the Brave continua em desenvolvimento e ainda não possui data de lançamento definida. A Aoca prevê versões para PC, dispositivos móveis e consoles.

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2. Black Sailors: Bay of All Saints — Mandinga Games

Piratas aparecem nos videogames há décadas. Navegação, batalhas navais, caça a tesouros e tripulações de aventureiros produziram algumas das fantasias históricas mais recorrentes da mídia. Black Sailors: Bay of All Saints começa nesse território reconhecível para contar uma história que dificilmente ocuparia o centro de uma aventura pirata tradicional.

Desenvolvido pela Mandinga Games, o jogo se passa na Baía de Todos os Santos durante o Brasil colonial do século XVIII. Seus protagonistas são pessoas escravizadas que tomam um navio, conquistam sua liberdade e formam uma tripulação pirata para enfrentar as estruturas coloniais que as mantinham aprisionadas. A proposta combina estratégia naval e combates táticos por turnos com gerenciamento da tripulação, navegação e decisões relacionadas à rebelião.

O interesse está na maneira como Black Sailors utiliza um gênero estabelecido para modificar quem normalmente possui o direito de protagonizá-lo. O imaginário romântico da pirataria costuma ser construído ao redor de capitães europeus e disputas entre impérios coloniais; aqui, o mesmo espaço marítimo é observado a partir daqueles que estavam sujeitos à violência desse sistema. O jogador não recebe apenas outro navio e outro mapa, mas uma mudança de perspectiva sobre o próprio período histórico.

A estrutura de jogo também procura incorporar essa proposta. Tripulantes podem ser destinados a diferentes funções, alterando o comportamento do navio, enquanto os confrontos exigem posicionamento, planejamento e domínio das manobras marítimas. A página oficial do projeto na Steam apresenta liberdade, resistência e enfrentamento à opressão colonial como elementos centrais da narrativa, e não apenas como contexto para as batalhas.

Black Sailors: Bay of All Saints está previsto para 2027 e já pode ser adicionado à lista de desejos na Steam. O projeto também foi apresentado pela Xbox como parte da produção latino-americana destacada em 2026.

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3. Tupi: The Legend of Arariboia — Mito Games

A fantasia nos videogames se alimentou durante décadas de um repertório relativamente estável de cavaleiros, elfos, anões, dragões e criaturas provenientes de tradições europeias. Tupi: The Legend of Arariboia, desenvolvido pela capixaba Mito Games, procura outras referências ao combinar estruturas contemporâneas do RPG com personagens, criaturas e mitologias indígenas sul-americanas.

O protagonista é inspirado em Arariboia, figura histórica indígena do século XVI, mas o projeto não pretende funcionar como reconstrução histórica de sua vida. O jogo transforma esse ponto de partida em uma aventura fantástica na qual Arariboia precisa salvar seu povo, reconstruir sua aldeia e recrutar criaturas provenientes tanto da fauna quanto de tradições mitológicas. A própria Mito define o projeto como um RPG roguelite por turnos com elementos de monster taming.

Isso significa que encontrar uma criatura não implica necessariamente derrotá-la. O jogador pode recrutá-la para o grupo, combinar habilidades e posteriormente utilizar um sistema de fusão para gerar novos aliados que herdam características das criaturas anteriores. Os confrontos também usam posicionamento numa pequena grade, fazendo com que a localização dos membros da equipe determine quais habilidades podem ser utilizadas e quais inimigos podem ser atingidos. Exploração, ciclo de dia e noite e melhorias da aldeia completam uma estrutura que assume referências de RPGs japoneses como Shin Megami Tensei sem abandonar sua própria ambientação.

É essa combinação que torna Tupi mais interessante do que a simples inclusão de nomes indígenas num jogo de fantasia convencional. Criaturas, paisagens e referências culturais brasileiras participam do processo de criação do mundo ao mesmo tempo em que o projeto conversa abertamente com linguagens internacionais dos RPGs. A fantasia brasileira não precisa surgir do isolamento: pode dialogar com roguelites e monster tamers enquanto procura repertórios que raramente receberam o mesmo espaço dentro desses gêneros.

O jogo completo continua sem data definida, mas existe uma vantagem para quem quiser conhecê-lo agora: a demo de Tupi: The Legend of Arariboia está disponível gratuitamente na Steam. Ela permite explorar o primeiro reino e experimentar parte dos sistemas de criaturas e combate. O projeto também está anunciado para PlayStation 4 e PlayStation 5.

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4. GHOSTLESS — Coffeenauts

Em GHOSTLESS, a ameaça não é simplesmente uma inteligência artificial capaz de enviar exércitos de máquinas contra a humanidade. O problema mais difícil aparece quando já não é possível ter certeza de que a pessoa que acabou de entrar na base é realmente uma pessoa.

O novo projeto da Coffeenauts, estúdio de São Paulo responsável por Spacelines from the Far Out, mistura ação e aventura 2.5D, exploração, sobrevivência e gerenciamento de colônia. A história se passa numa versão alternativa do século XX, quinze anos depois de uma superinteligência criada durante a Guerra Fria voltar-se contra a humanidade. O jogador controla um Emissário enviado para investigar rumores sobre uma nova arma criada pela IA, mas acaba isolado em território hostil e precisa reunir sobreviventes para organizar uma resistência.

É a partir daí que GHOSTLESS encontra sua ideia mais interessante. Sobreviventes encontrados durante a exploração podem ser levados para a base, onde passam a trabalhar na produção de equipamentos, ferramentas e armas. Entre eles, porém, podem existir androides infiltrados que se fazem passar por humanos. O jogador precisa observar comportamentos, analisar pistas e interrogar recrutas antes que um impostor consiga sabotar a resistência por dentro. A Coffeenauts descreve essa dinâmica como uma espécie de “teste de Turing pela sobrevivência” e aponta O Exterminador do Futuro e O Enigma de Outro Mundo entre as referências que ajudam a explicar sua mistura de ficção científica e paranoia.

Essa mecânica permite que administração e terror trabalhem juntas. Recrutar mais pessoas aumenta a capacidade da colônia e melhora as chances de enfrentar as máquinas, mas cada novo sobrevivente também introduz uma possibilidade de infiltração. Crescer exige confiar, enquanto confiar aumenta o risco. A ficção científica deixa assim de existir apenas na explicação do apocalipse e passa a alterar diretamente as decisões tomadas pelo jogador.

Visualmente, o projeto também procura uma combinação particular: pixel art 2D acompanhada por iluminação e efeitos tridimensionais modernos, estética que a equipe chama de hi-fi pixel art. O resultado é um mundo retrofuturista que recupera parte do imaginário tecnológico do século XX sem simplesmente tentar reproduzir um jogo daquela época.

GHOSTLESS permanece em desenvolvimento, sem data de lançamento anunciada. O jogo está confirmado para PC e PlayStation 5, enquanto materiais de divulgação do projeto também o apresentam como destinado a consoles.

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5. Heart & Harmony — Fableware

Um cão vira-lata entra numa vila, descobre segredos de seus habitantes e transforma aquilo que aprende em música. É uma premissa suficientemente incomum para diferenciar Heart & Harmony dos outros quatro projetos desta lista antes mesmo de explicar como ele funciona.

Desenvolvido pela Fableware, estúdio com bases no Rio de Janeiro e em Vancouver, o projeto é descrito oficialmente como uma aventura narrativa musical ambientada num mundo habitado por animais antropomórficos. O jogador assume o papel de um bardo canino que investiga os moradores, conhece seus conflitos e utiliza canções para interferir no rumo das histórias. Mistério, música e escolhas narrativas formam, portanto, partes do mesmo sistema.

O protagonista, Caramel, também carrega essa identidade híbrida. A Fableware explicou que seu desenho mistura o vira-lata caramelo brasileiro com o Nova Scotia Duck Tolling Retriever canadense, refletindo a própria ligação do estúdio com os dois países. Como detetive e artista, ele recolhe fragmentos das experiências dos outros animais e os transforma em composições, fazendo da música não apenas trilha sonora, mas maneira de compreender personagens e alterar acontecimentos.

Essa abordagem oferece uma boa demonstração de como a fantasia independente pode existir longe da estrutura tradicional da aventura épica. Não é necessário construir um reino ameaçado por um exército maligno, entregar uma espada ao protagonista ou determinar que o destino do mundo dependa de sua missão. Uma vila, seus habitantes, rumores, afetos e músicas podem sustentar um universo fantástico quando os sistemas do jogo são organizados ao redor dessas relações.

A própria Fableware cita Spiritfarer, Stray Gods e Tavern Talk como algumas das referências do projeto. Heart & Harmony permanece em desenvolvimento e ainda não possui data de lançamento, mas uma versão jogável foi levada à gamescom 2026 dentro do Brazilian Indie Pavilion.

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Uma indústria que pode ser descoberta antes do lançamento

ÁRIDA 2, Black Sailors, Tupi, GHOSTLESS e Heart & Harmony não formam um retrato completo da indústria brasileira de games, e os 35 títulos do Brazilian Indie Pavilion também não fariam isso. O próprio valor dessa quantidade está em mostrar que já não faz muito sentido procurar “o jogo brasileiro” capaz de representar sozinho o país. Existem equipes trabalhando com RPGs, terror, estratégia, ficção científica, narrativas históricas, jogos de cartas, aventuras experimentais e experiências que dificilmente cabem em uma categoria única.

Também é significativo que três títulos desta seleção utilizem referências brasileiras de formas completamente distintas. Aoca transforma o sertão e a Caatinga em elementos estruturais de uma aventura de sobrevivência; Mandinga reorganiza a fantasia pirata a partir da experiência de pessoas escravizadas no Brasil colonial; Mito Games leva mitologias indígenas para dentro das estruturas de um RPG contemporâneo. Nenhum desses projetos precisa apresentar a identidade brasileira da mesma maneira para participar da mesma produção nacional.

GHOSTLESS aponta para outra possibilidade. Nada obriga um estúdio brasileiro de ficção científica a ambientar sua história no Brasil ou introduzir elementos reconhecidamente nacionais para que sua criação tenha valor dentro da produção brasileira. A Coffeenauts trabalha com Guerra Fria alternativa, inteligência artificial, androides e paranoia tecnológica, demonstrando que desenvolvedores daqui também podem disputar gêneros internacionais sem a obrigação de transformar nacionalidade em tema.

O caso de Heart & Harmony acrescenta ainda uma dimensão transnacional. A Fableware trabalha entre Rio de Janeiro e Vancouver e transforma a própria mistura cultural do estúdio em elementos de seus personagens e histórias. Num setor no qual equipes, financiamento, publicação e distribuição frequentemente atravessam fronteiras, a produção brasileira pode ser mais complexa do que simplesmente observar o endereço de uma empresa.

Para o jogador, existe ainda uma particularidade importante nessa lista: descobrir esses projetos agora significa encontrá-los enquanto muitos ainda estão sendo construídos. Acompanhar páginas oficiais, experimentar demos e adicionar jogos às listas de desejos são maneiras de observar uma parte da produção independente antes que ela precise disputar atenção nas lojas ao lado de milhares de novos lançamentos. A gamescom colocou 35 projetos brasileiros diante do público internacional por alguns dias; a etapa seguinte será descobrir quantos deles conseguirão transformar essa visibilidade em comunidades que continuem acompanhando os jogos quando as luzes da feira já tiverem se apagado.

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