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Cinema & TV

O desconhecido tem duas faces: de E.T. a Guerra dos Mundos

Poucos diretores voltaram tantas vezes ao encontro com vida extraterrestre quanto Steven Spielberg sem transformar essa recorrência numa repetição da mesma história. Em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, lançado em 1977, aquilo que vem do céu desperta curiosidade, obsessão e a possibilidade de uma comunicação entre espécies. Cinco anos depois, E.T. — O Extraterrestre reduz a escala do contato e coloca uma única criatura perdida dentro de uma casa suburbana, permitindo que a relação com o desconhecido seja construída através de convivência e amizade. Em Guerra dos Mundos, de 2005, a situação é invertida: não existe diálogo possível, não há interesse em conhecer a humanidade e a superioridade tecnológica dos invasores torna cidades, exércitos e instituições quase irrelevantes. Os três filmes pertencem à ficção científica e utilizam a presença extraterrestre como elemento central, mas representam posições muito diferentes diante da mesma pergunta. O desconhecido pode ser aquilo que ainda não aprendemos a compreender, mas também pode ser uma força com a qual não existe qualquer possibilidade de entendimento.

A transformação é mais interessante quando evitamos tratá-la apenas como uma passagem do Spielberg otimista para um Spielberg pessimista. Contatos Imediatos não é tão reconfortante quanto sua sequência final pode sugerir, E.T. não elimina o medo de uma criatura completamente estranha e Guerra dos Mundos não abandona inteiramente a preocupação do diretor com vínculos humanos em meio ao impossível. Em todos eles, a presença extraterrestre desmonta alguma segurança anterior e obriga personagens comuns a reconhecer os limites de sua posição no mundo. O que muda é a possibilidade de reciprocidade. Quando o outro aceita responder, Spielberg imagina comunicação, aprendizado e até afeto; quando essa possibilidade desaparece, restam fuga, vulnerabilidade e sobrevivência. A ficção científica do diretor não oferece uma teoria única sobre vida extraterrestre, mas utiliza formas muito diferentes de contato para examinar como reagimos quando deixamos de ocupar o centro de nossa própria realidade.

OS fimes já saíram tem muitos anos, mas mesmo assim fica o aviso. Este texto contém spoilers de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, E.T. — O Extraterrestre e Guerra dos Mundos.

Antes de conhecer o outro, é preciso admitir que ele existe

Contatos Imediatos do Terceiro Grau começa menos interessado em explicar extraterrestres do que em mostrar o efeito produzido pela possibilidade de sua existência. Roy Neary não recebe uma mensagem perfeitamente organizada nem participa de uma missão científica preparada para lidar com o primeiro contato. Ele está trabalhando quando encontra luzes e objetos que não consegue identificar, e a experiência rompe imediatamente a continuidade de sua vida cotidiana. A partir daquele momento, saber que viu alguma coisa sem conseguir definir o que viu se torna mais importante do que quase tudo ao redor. Spielberg constrói a primeira metade do filme dentro dessa incerteza, acompanhando personagens que possuem evidências suficientes para saber que algo aconteceu, mas não conhecimento suficiente para organizá-lo. O desconhecido começa, portanto, como problema de percepção antes de se tornar problema de comunicação.

Essa escolha se relaciona diretamente ao interesse que Spielberg demonstrava por relatos de objetos voadores não identificados enquanto desenvolvia o filme. Em entrevista realizada durante a produção, o diretor explicava que se interessava tanto pelo que poderia existir no céu quanto pelas razões que levavam pessoas a olhar para ele esperando encontrar algo extraordinário. Essa curiosidade aparece em Roy de forma quase destrutiva, porque a descoberta não pode ser incorporada facilmente à rotina que existia antes dela. O personagem reproduz repetidamente uma forma que não consegue nomear, altera seu comportamento e chega a um ponto em que a própria família deixa de reconhecer naquele homem a pessoa com quem convivia. A revelação posterior de que sua obsessão correspondia à Torre do Diabo confirma que Roy não estava imaginando tudo, mas o filme não transforma essa confirmação numa absolvição simples de suas escolhas.

A experiência extraterrestre também se manifesta de forma diferente em Jillian Guiler, cuja busca pelo filho Barry introduz outro tipo de contato. Enquanto Roy é atraído pelo fenômeno, Jillian sofre uma perda provocada por ele e precisa encontrar aquilo que lhe foi retirado. Spielberg evita, dessa maneira, uma visão completamente uniforme dos visitantes mesmo antes de mostrar suas intenções com clareza. Para alguns personagens, eles representam fascínio; para outros, medo e ausência. O contato já possui consequências humanas antes que qualquer comunicação propriamente dita aconteça. Essa ambiguidade impede que o final seja entendido apenas como confirmação de que todos deveriam ter confiado desde o começo naquilo que estava no céu.

Quando o encontro finalmente ocorre, a linguagem escolhida é reveladora. Cientistas e visitantes não começam por palavras, fórmulas ou discursos, mas por sequências de notas musicais que permitem construir uma resposta compartilhada. A presença de Claude Lacombe, interpretado por François Truffaut, reforça a preocupação com comunicação, mas a cena não tenta convencer o espectador de que a humanidade compreendeu completamente aqueles seres. O importante é que existe uma resposta. Uma espécie envia um sinal, a outra reage e, durante alguns minutos, o desconhecido deixa de ser apenas objeto de observação para se transformar em participante de uma relação. Spielberg preserva a diferença entre os dois lados e evita explicar de onde os visitantes vieram, como funciona sua sociedade ou por que realizaram determinadas ações. A possibilidade de comunicação importa mais do que a quantidade de informações obtidas.

Essa disposição para aceitar que o outro permaneça parcialmente incompreensível talvez seja o aspecto mais importante de Contatos Imediatos. A humanidade não precisa reduzir os visitantes às próprias categorias para estabelecer algum tipo de vínculo. O filme não apresenta uma grande revelação segundo a qual extraterrestres seriam versões superiores dos seres humanos ou portadores de uma mensagem destinada a resolver nossos conflitos. Eles continuam estranhos, e a estranheza não impede que o encontro seja possível. Spielberg constrói uma ficção científica na qual conhecer não significa dominar, ideia que reapareceria de forma muito mais íntima em E.T.. A diferença é que, cinco anos depois, o diretor deixaria de colocar a humanidade diante de uma civilização desconhecida para colocar uma criança diante de um indivíduo.

E.T. e a transformação do estranho em alguém

O extraterrestre de E.T. poderia facilmente ter sido construído como criatura assustadora. Seu corpo não segue proporções humanas convencionais, seus movimentos inicialmente são difíceis de interpretar e a primeira aproximação com Elliott acontece através de ruídos, sombras e medo mútuo. Spielberg não elimina o estranhamento visual para tornar o personagem simpático; prefere modificar aquilo que essa aparência significa conforme a convivência avança. Elliott aprende a reconhecer emoções antes de compreender qualquer aspecto amplo da espécie à qual E.T. pertence, e o espectador acompanha o mesmo processo. A criatura continua sendo biologicamente desconhecida, mas deixa de ser narrativamente incompreensível porque demonstra medo, curiosidade, saudade e necessidade de voltar para casa. A ficção científica não resolve a diferença entre humano e extraterrestre, apenas demonstra que diferença não impede vínculo.

A escolha de colocar o contato nas mãos de uma criança é decisiva. Elliott não representa governo, ciência ou qualquer instituição capaz de reivindicar autoridade sobre aquilo que encontrou. Sua relação começa num nível muito mais elementar, envolvendo comida, objetos, palavras aprendidas aos poucos e tentativas de compreender gestos. O extraterrestre deixa de ser um problema sobre o qual alguém precisa produzir uma resposta para se tornar uma presença com a qual é necessário conviver. A mudança parece pequena, mas altera profundamente a posição moral da narrativa. Antes de perguntar o que E.T. pode oferecer à humanidade, Elliott precisa perguntar do que ele precisa.

Essa diferença fica particularmente clara quando os adultos finalmente entram na história de maneira mais direta. As equipes que chegam para examinar E.T. não são apresentadas como uma organização simplesmente maligna, e Spielberg concede ao personagem conhecido como Keys uma curiosidade genuína em relação à criatura. Ainda assim, a casa é rapidamente transformada em ambiente controlado, coberto por plástico, aparelhos e roupas de proteção. Aquilo que Elliott reconhecia como indivíduo passa a ser tratado institucionalmente como fenômeno. A ciência não é apresentada como inimiga, mas existe uma distância evidente entre conhecer alguém através da convivência e estudar aquilo que seu corpo pode revelar. A narrativa preserva essa tensão sem precisar transformar todos os adultos em caricaturas de autoridade.

A ligação entre Elliott e E.T. acrescenta outra camada porque torna a empatia quase literal. O garoto sente parte daquilo que acontece com a criatura, e estados físicos ou emocionais atravessam a distância entre os dois. Spielberg poderia utilizar esse recurso apenas para criar situações de humor ou suspense, mas ele reforça uma ideia que já estava presente na relação: conhecer o outro exige aceitar que aquilo que acontece com ele pode nos afetar. A alteridade não desaparece. E.T. não precisa tornar-se humano para ser digno de cuidado, assim como Elliott não precisa compreender sua origem para reconhecer sua vulnerabilidade. Essa escolha evita uma solução frequente em histórias sobre diferença, nas quais a aceitação depende de descobrir que o outro, no fundo, é praticamente igual a nós.

A frase relacionada ao desejo de voltar para casa se torna tão importante porque oferece a Elliott uma necessidade que ele consegue compreender sem conhecer o planeta de origem de E.T. Toda a escala cósmica do encontro é reduzida a algo familiar. O visitante não deseja dominar a Terra, transmitir conhecimento avançado ou converter Elliott num representante da humanidade; quer reencontrar os seus. O primeiro contato se transforma assim numa situação em que a maior descoberta não está em saber que existe vida fora do planeta, mas em perceber que essa vida também pode ter vínculos, medo e pertencimento. A humanidade não recebe uma lição de uma espécie superior. Uma criança apenas aprende a cuidar de alguém que deseja ir embora.

Essa dimensão torna a despedida necessária para o próprio argumento do filme. Se E.T. permanecesse na Terra, a relação poderia terminar como fantasia de posse, na qual Elliott seria recompensado por sua bondade com a permanência da criatura. Spielberg faz o contrário. Ajudar E.T. significa criar condições para que ele saia, mesmo que isso produza perda. A amizade não elimina a diferença entre os dois mundos nem exige que um deles abandone definitivamente o lugar ao qual pertence. A experiência modifica Elliott, mas não precisa transformar o extraterrestre em parte permanente da sociedade humana.

Há, portanto, uma diferença importante entre tolerar o estranho e reconhecer sua autonomia. E.T. não afirma apenas que devemos ser gentis com aquilo que parece diferente. O filme constrói uma relação na qual o outro continua possuindo necessidades que não existem em função do protagonista humano. Elliott importa para E.T., mas não é o centro de sua existência. Essa descentralização pode parecer simples dentro de uma aventura familiar, porém representa uma das visões mais generosas de alteridade presentes na ficção científica popular de Spielberg. O desconhecido pode permanecer desconhecido em muitos aspectos e ainda assim ser reconhecido como alguém.

Quando não existe possibilidade de conversa

Mais de duas décadas depois, Guerra dos Mundos destrói quase todas as condições que permitiam essa relação. A adaptação do romance de H. G. Wells chega aos cinemas em 2005 e acompanha uma invasão a partir da perspectiva de Ray Ferrier, trabalhador divorciado cuja relação com os filhos é marcada por distância e dificuldades. Spielberg e o roteirista David Koepp evitam organizar a narrativa através de presidentes, cientistas ou comandantes militares porque a experiência deveria permanecer limitada àquilo que uma família comum consegue observar durante a tentativa de sobreviver. O diretor explicaria posteriormente que queria contar a invasão através de um pai inadequado que precisa se tornar, em poucos dias, aquilo que os filhos necessitam para continuar vivos. Essa escolha modifica completamente a relação entre humanidade e extraterrestre: em vez de participantes de um primeiro contato, os personagens são vítimas tentando escapar de uma força que não demonstra qualquer interesse em conhecê-los.

O contexto posterior aos ataques de 11 de setembro de 2001 também influencia a atmosfera do filme. A própria apresentação oficial da Amblin relaciona Guerra dos Mundos ao mundo pós-11 de setembro, e Spielberg constrói a invasão através de imagens associadas a choque, fuga, desinformação e destruição repentina da normalidade. Ray vê pessoas desaparecerem diante dele, volta para casa coberto por resíduos e tenta explicar aos filhos algo que ainda não consegue compreender. A guerra não chega como confronto entre duas forças claramente organizadas, mas como interrupção brutal de uma manhã comum. Essa experiência diferencia o filme de histórias de invasão que concedem ao espectador uma visão ampla do conflito e permitem acompanhar estratégias militares ou políticas. Spielberg insiste em permanecer junto de quem não sabe o que está acontecendo.

A recusa de comunicação é central para produzir esse medo. Os invasores não apresentam exigências, não enviam mensagens e não demonstram curiosidade por qualquer cultura humana. Não existe equivalente às notas musicais de Contatos Imediatos nem à aprendizagem de palavras de E.T.. A humanidade não consegue descobrir uma linguagem porque o outro lado não oferece qualquer indicação de que esteja interessado numa relação. O problema deixa de ser nossa capacidade de superar medo ou preconceito para reconhecer o diferente. Há situações nas quais compreender melhor não produziria reconciliação porque a ameaça não depende de mal-entendido.

Essa diferença impede uma leitura ingênua segundo a qual toda alteridade seria potencialmente amigável se os seres humanos fossem suficientemente abertos. Spielberg já havia mostrado em seus filmes anteriores que o desconhecido não precisava ser inimigo, mas Guerra dos Mundos reconhece que ele também não possui obrigação de ser aliado. Os invasores ocupam uma posição de superioridade tecnológica tão grande que os seres humanos deixam de ser interlocutores e se aproximam da condição de recurso ou obstáculo. A inversão é especialmente desconfortável porque retira da humanidade o privilégio de decidir como o encontro será conduzido. Não somos exploradores diante de uma espécie menos preparada nem cientistas examinando uma criatura capturada; somos aqueles que correm enquanto outro poder define o que será feito conosco.

Essa posição dialoga com algo que já existia no romance de Wells, escrito no final do século XIX dentro de um contexto profundamente marcado pelo imperialismo britânico. A invasão marciana invertia a experiência colonial ao colocar a Inglaterra diante de uma força superior capaz de tratá-la com a mesma indiferença reservada por potências imperiais a povos submetidos por sua expansão. Spielberg atualiza a experiência sem precisar transformar o filme numa adaptação historicamente literal. Seus personagens vivem num país acostumado a uma enorme capacidade militar e tecnológica, mas descobrem que essa superioridade perde sentido diante de algo muito mais poderoso. A ameaça extraterrestre oferece uma experiência radical de descentralização: a humanidade deixa de ser sujeito da história e passa a ser objeto da ação de outro.

A forma como Spielberg filma as multidões reforça essa ideia. Pessoas comuns tentam obter informação, disputam veículos, seguem rumores e formam movimentos coletivos sem saber se qualquer direção realmente oferece segurança. Uma das cenas mais tensas não envolve diretamente uma máquina alienígena, mas a disputa pelo carro de Ray, quando o medo transforma outras pessoas igualmente vulneráveis numa ameaça imediata. A invasão rompe não apenas infraestrutura e instituições, mas a confiança mínima necessária para que desconhecidos consigam permanecer juntos em situação de crise. O extraterrestre quase não precisa estar presente para continuar produzindo efeitos sobre o comportamento humano.

O que permanece quando o alienígena muda

Apesar da distância entre esses filmes, Spielberg continua interessado em personagens comuns cuja posição no mundo é reorganizada pelo contato com algo maior. Roy Neary não é cientista; Elliott é uma criança; Ray Ferrier é um trabalhador que mal consegue administrar a relação com os próprios filhos. Nenhum deles começa preparado para representar a humanidade diante de outra inteligência. Essa escolha impede que a ficção científica se transforme apenas em disputa de conceitos abstratos e mantém o encontro ligado às consequências concretas que produz em vidas individuais. A escala pode ser cósmica, mas a experiência continua sendo medida pelo que acontece com alguém que precisa voltar para casa, proteger uma criança ou descobrir por que não consegue esquecer aquilo que viu.

Também permanece uma desconfiança em relação à ideia de controle. Em Contatos Imediatos, instituições governamentais tentam administrar informações e organizar secretamente o encontro, mas o fenômeno ultrapassa aquilo que conseguem manter oculto. Em E.T., cientistas podem examinar a criatura sem possuir autoridade sobre o vínculo construído com Elliott. Em Guerra dos Mundos, qualquer ilusão de controle institucional desaparece quase imediatamente diante da escala da invasão. Os três filmes recusam a fantasia de que conhecimento humano ou poder político sejam suficientes para dominar aquilo que vem de fora. A diferença está em descobrir se essa incapacidade precisa terminar em medo.

Spielberg também preserva o mistério mesmo quando modifica radicalmente o tom. Sabemos relativamente pouco sobre os visitantes de Contatos Imediatos, quase nada sobre a sociedade de E.T. e muito pouco sobre a cultura ou organização dos invasores de Guerra dos Mundos. As narrativas oferecem apenas as informações necessárias para que os personagens reajam. Essa recusa em explicar completamente o outro impede que o extraterrestre se torne simples extensão das categorias humanas. O desconhecido continua possuindo uma parte que não pode ser apropriada pela história.

Essa característica ajuda a perceber que a mudança entre os filmes não está realmente na quantidade de informação fornecida. Guerra dos Mundos não é assustador porque sabemos menos sobre seus invasores do que sobre E.T.; também sabemos muito pouco sobre o pequeno extraterrestre de 1982. O que muda é aquilo que as criaturas fazem com a distância que existe entre elas e nós. E.T. permite aproximação. Os visitantes de Contatos Imediatos respondem. Os invasores de 2005 recusam qualquer reciprocidade. O conhecimento parcial pode produzir vínculo quando existe resposta, mas se torna impotência quando existe apenas violência.

Nesse ponto, a ficção científica de Spielberg apresenta uma visão mais complexa do desconhecido do que a oposição entre otimismo e pessimismo consegue explicar. O diretor não abandona uma crença juvenil em extraterrestres bondosos para depois concluir que o universo é hostil. Ele explora possibilidades diferentes e permite que cada uma revele algo sobre a posição humana. Se o outro deseja comunicar-se, precisamos aprender a escutar sem exigir que se torne igual a nós. Se o outro está vulnerável, precisamos reconhecê-lo como sujeito antes de transformá-lo em objeto. Se o outro deseja apenas destruir ou utilizar, nenhuma abertura emocional será suficiente para produzir convivência. A ética do encontro depende também daquilo que encontramos.

Essa constatação parece simples, mas impede que a obra de Spielberg seja reduzida a uma celebração automática da empatia. A empatia continua sendo fundamental em E.T. porque existe alguém capaz de recebê-la. Em Contatos Imediatos, a comunicação funciona porque dois lados respondem. Em Guerra dos Mundos, a sobrevivência se torna prioridade porque não há relação a construir. O problema não está em abandonar a tentativa de compreensão, mas em reconhecer que compreensão e confiança são coisas diferentes. Conhecer o outro não garante que ele deseje nosso bem, assim como não compreender completamente alguém não significa que devamos tratá-lo como inimigo.

O desconhecido nunca teve uma única face

Os três filmes acabam formando uma trajetória particularmente rica porque Spielberg permite que o extraterrestre ocupe posições incompatíveis sem transformar nenhuma delas em resposta definitiva. O visitante pode ser aquilo que chama do céu e amplia nossa ideia de mundo, aquilo que precisa de ajuda e encontra amizade numa criança ou aquilo que reduz nossas cidades a espaços frágeis diante de uma força impossível de deter. Cada possibilidade produz uma reação humana diferente e revela limites que permaneceriam invisíveis em circunstâncias comuns. O primeiro contato, portanto, nunca é apenas sobre descobrir quem existe fora da Terra. Também é uma forma de descobrir quem somos quando alguma coisa finalmente responde — ou quando decide não responder.

Em Contatos Imediatos, a humanidade precisa aceitar que não está sozinha e encontrar uma linguagem capaz de atravessar uma distância incomensurável. Em E.T., Elliott precisa aprender que alguém não precisa se parecer conosco, pertencer ao nosso mundo ou permanecer ao nosso lado para ser reconhecido como indivíduo. Em Guerra dos Mundos, Ray precisa compreender que não existe grande resposta intelectual capaz de tornar aquela presença menos destrutiva; sua responsabilidade é proteger os filhos dentro de uma realidade que não pode controlar. Spielberg muda a escala, o tom e a natureza do extraterrestre, mas preserva uma mesma disposição para retirar os personagens de uma posição confortável.

Talvez seja essa a continuidade mais importante entre os três filmes. A presença extraterrestre não serve apenas para mostrar que o universo é maior do que imaginávamos, mas para retirar da humanidade a certeza de que tudo existe em função dela. Algumas inteligências podem querer falar conosco, outras podem precisar de nossa ajuda e outras podem nos considerar irrelevantes. Nenhuma dessas possibilidades depende daquilo que gostaríamos que o universo fosse. A ficção científica de Spielberg encontra força justamente ao permitir que esperança e medo coexistam sem que um deles precise eliminar o outro.

O desconhecido possui duas faces apenas enquanto insistimos em dividi-lo entre aquilo que desejamos encontrar e aquilo que tememos encontrar. Nos filmes de Spielberg, há mais possibilidades do que essa oposição consegue acomodar. O extraordinário pode exigir curiosidade, cuidado, prudência ou fuga, e reconhecer a diferença entre essas situações talvez seja mais importante do que procurar uma resposta única para aquilo que existe do outro lado. Ao longo de quase trinta anos, Spielberg voltou a apontar a câmera para o céu e encontrou respostas completamente diferentes. O que permaneceu foi a certeza de que, quando alguma coisa finalmente surgir diante de nós, a maneira como reagirmos dirá tanto sobre a humanidade quanto sobre aquilo que veio nos encontrar.

Fontes consultadas

AMBLIN. Steven Spielberg: A Life in Movies. Los Angeles: Amblin, s.d. Biografia e retrospectiva oficial da carreira de Steven Spielberg.

AMBLIN. Close Encounters of the Third Kind. Los Angeles: Amblin, s.d. Página oficial do filme, com informações de produção, equipe, prêmios e apresentação da trajetória de Roy Neary.

AMBLIN. E.T. The Extra-Terrestrial. Los Angeles: Amblin, s.d. Página oficial do filme, com informações de produção, equipe e contexto da relação entre Elliott e E.T.

AMBLIN. War of the Worlds. Los Angeles: Amblin, s.d. Página oficial do filme, com informações de produção e contextualização da obra em relação ao período posterior aos ataques de 11 de setembro de 2001.

COMBS, Richard. “A Close Encounter with Steven Spielberg”. Sight and Sound. Londres: British Film Institute, 1977. Republicado e atualizado pelo BFI em 2026. Entrevista com Spielberg durante a produção de Contatos Imediatos do Terceiro Grau.

DIRECTORS GUILD OF AMERICA. “Age & Innocence”. DGA Quarterly. Los Angeles: Directors Guild of America, inverno de 2006. Entrevista com Steven Spielberg sobre sua carreira e sobre a abordagem adotada em Guerra dos Mundos.

WELLS, H. G. A Guerra dos Mundos. Londres: William Heinemann, 1898. Romance que deu origem às diversas adaptações posteriores da história.

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