⌕
Sua próxima leitura começa aqui — explore livros na Amazon. Publicidade com link de afiliado.
Ficção Científica

Infinitas Formas Indica: Contato (1997)

Em Contato, uma cientista encontra um possível sinal de inteligência extraterrestre e precisa lidar com tudo o que essa descoberta provoca. Revisitamos o clássico de Robert Zemeckis e explicamos por que ele ainda vale a pena.

Poucas ideias combinam tanto com a ficção científica quanto a possibilidade de não estarmos sozinhos no universo. É uma pergunta antiga, mas que muitas histórias transformam rapidamente em invasões, guerras, naves gigantescas ou criaturas que precisam ser enfrentadas. Contato, dirigido por Robert Zemeckis e lançado em 1997, segue por outro caminho. Aqui, o primeiro contato não começa com uma nave surgindo no céu, mas com um sinal captado por radiotelescópios e com uma cientista tentando provar que aquilo que ouviu não pode ser explicado por nenhuma fonte conhecida na Terra.

Essa cientista é Ellie Arroway, interpretada por Jodie Foster, uma pesquisadora dedicada à busca por inteligência extraterrestre. Desde criança, Ellie tenta alcançar aquilo que está longe demais, primeiro usando um rádio para procurar outras vozes e, mais tarde, fazendo da astronomia uma forma de ampliar essa mesma busca. Quando um sinal aparentemente artificial surge vindo do sistema de Vega, o que parecia uma investigação científica relativamente marginal passa a envolver governos, instituições religiosas, interesses políticos, imprensa e milhões de pessoas tentando dar algum sentido à possibilidade de que alguém realmente tenha respondido.

É uma premissa grande, mas o filme nunca perde completamente de vista a experiência individual de Ellie. Essa talvez seja uma das razões pelas quais Contato continua funcionando tão bem quase três décadas depois. O filme fala de extraterrestres, tecnologia e dimensões enormes do cosmos, mas constrói tudo a partir de uma personagem que precisa lidar constantemente com uma pergunta muito mais simples e difícil: como acreditar em algo que você ainda não consegue provar?

Por que vale a pena assistir?

Vale a pena assistir a Contato porque ele trata a curiosidade científica como parte central da aventura, e não como uma etapa burocrática antes de começar a ação. O filme consegue transformar sinais de rádio, sequências numéricas, observação astronômica e interpretação de dados em elementos capazes de sustentar tensão. O momento em que Ellie e sua equipe começam a compreender que o sinal recebido possui uma estrutura artificial é construído com uma empolgação que não depende de explosões ou perseguições. A descoberta em si já é suficiente para movimentar a história.

Isso acontece porque o filme entende muito bem o tamanho daquilo que está sendo encontrado. Confirmar a existência de outra inteligência no universo não seria apenas uma conquista científica. A descoberta teria consequências políticas, religiosas, culturais e até emocionais, porque mexeria diretamente com algumas das perguntas mais antigas feitas pela humanidade. Contato dedica bastante tempo a essas reações e mostra como diferentes grupos tentariam interpretar o mesmo acontecimento de maneiras completamente diferentes.

A relação entre ciência e fé é provavelmente a parte mais conhecida do filme, mas ela funciona melhor do que uma simples disputa entre quem acredita e quem exige provas. Ellie é uma cientista profundamente comprometida com evidências verificáveis, enquanto Palmer Joss, vivido por Matthew McConaughey, representa uma experiência espiritual que não pode ser submetida aos mesmos critérios. O interessante é que o filme não organiza os dois personagens como adversários absolutos. A conversa entre eles ganha importância porque ambos tentam compreender experiências humanas que nem sempre cabem dentro das mesmas ferramentas.

Essa discussão atravessa toda a história e se torna especialmente importante quando Ellie precisa lidar com situações em que sua própria experiência não pode ser demonstrada da maneira que gostaria. Contato nunca abandona o valor da ciência nem sugere que evidências sejam irrelevantes, mas reconhece que nossa relação com o mundo também passa por memória, confiança e percepção individual. Essa tensão poderia facilmente cair em uma conclusão simplista, mas Zemeckis e o roteiro preferem manter algum desconforto entre essas duas formas de compreender a realidade.

Jodie Foster é fundamental para que essa abordagem funcione. Ellie poderia ter sido tratada apenas como a cientista brilhante que precisa convencer pessoas menos preparadas, mas a personagem é muito mais contraditória do que isso. Existe convicção em sua defesa da pesquisa, mas também solidão, frustração e uma relação profundamente pessoal com aquilo que procura no céu. A busca por inteligência extraterrestre não é apenas seu trabalho; ela se conecta à maneira como Ellie tenta lidar com perda, ausência e com a ideia de que alguém pode estar ouvindo do outro lado.

Essa dimensão emocional ajuda a impedir que o filme se transforme em uma sequência de debates abstratos. Mesmo quando fala sobre o tamanho do universo, sobre a possibilidade de outras civilizações ou sobre o lugar da humanidade dentro do cosmos, Contato mantém quase tudo ligado à trajetória da protagonista. O espectador acompanha uma descoberta enorme por meio de alguém que passou a vida inteira tentando encontrar alguma coisa além dos limites de sua própria experiência.

Ficção científica feita de expectativa

Robert Zemeckis vinha de filmes muito diferentes quando assumiu Contato, incluindo De Volta para o Futuro, Uma Cilada para Roger Rabbit e Forrest Gump. Aqui, ele utiliza boa parte de seu domínio técnico de maneira relativamente discreta. Há efeitos visuais importantes e algumas sequências bastante ambiciosas, mas o filme não parece interessado em transformar cada avanço tecnológico em uma demonstração de espetáculo.

A construção do primeiro sinal é um bom exemplo disso. Antes de qualquer imagem grandiosa, existe um ruído. Depois surgem padrões, números e uma sucessão de descobertas que transformam gradualmente algo aparentemente incompreensível em uma mensagem. Esse processo dá ao filme uma sensação de descoberta que poucas produções de grande orçamento preservam por tanto tempo, porque o público aprende junto com os personagens em vez de apenas receber respostas prontas.

Há também uma escolha muito boa em mostrar como uma descoberta científica deixa de pertencer exclusivamente aos cientistas assim que ganha importância suficiente. Governos começam a controlar informações, grupos religiosos reivindicam interpretações, oportunistas aparecem, decisões passam a depender de interesses que vão muito além da pesquisa original. Ellie não precisa apenas compreender o sinal; precisa continuar defendendo seu lugar dentro de um processo que rapidamente passa a ser dominado por pessoas com muito mais poder político do que ela.

O filme possui aproximadamente duas horas e meia e não é particularmente apressado. Isso pode afastar quem espera uma aventura espacial tradicional, mas é justamente esse tempo que permite que a descoberta tenha peso. Quando algo finalmente acontece, já passamos tempo suficiente observando cientistas, políticos e pessoas comuns tentando entender o que pode estar vindo, e a expectativa se torna parte fundamental da experiência.

De Carl Sagan para o cinema

Contato nasceu de uma ideia desenvolvida por Carl Sagan e Ann Druyan antes mesmo de se transformar em romance. O projeto começou a ser trabalhado ainda no fim dos anos 1970 como uma história pensada para o cinema, mas o longo processo de desenvolvimento acabou levando Sagan a publicar Contact como romance em 1985. O livro se tornou um grande sucesso e o projeto cinematográfico continuou circulando por Hollywood até finalmente chegar às mãos de Robert Zemeckis.

Sagan participou diretamente da produção como consultor e coprodutor ao lado de Druyan, embora tenha morrido em dezembro de 1996, quando o filme ainda estava sendo concluído. A versão lançada no ano seguinte traz uma dedicatória simples a ele nos créditos. Esse envolvimento ajuda a explicar por que o filme preserva uma característica tão presente em sua obra de divulgação científica: a ideia de que compreender o universo não diminui seu mistério, mas frequentemente o torna ainda maior.

A história também carrega algo muito característico de Sagan na forma como trata o tamanho do cosmos. A humanidade não é apresentada como inevitavelmente importante para qualquer civilização que possa existir fora da Terra. Encontrar outra inteligência significa perceber que nossas certezas, conflitos e instituições ocupam uma parcela extremamente pequena de uma realidade muito maior. Ao mesmo tempo, o filme não usa essa escala para declarar que a vida humana é insignificante. Pelo contrário: justamente porque somos pequenos diante do universo, nossa capacidade de perguntar, procurar e tentar compreender ganha ainda mais valor.

Essa combinação entre humildade e curiosidade é provavelmente o elemento que mais aproxima Contato da visão de mundo associada a Sagan. Não existe necessidade de transformar cada desconhecido em ameaça, nem de imaginar que uma inteligência extraterrestre obrigatoriamente pensaria como nós. O universo pode ser assustador simplesmente por ser grande demais, mas também pode despertar uma sensação de pertencimento que não depende de sermos o centro dele.

Um filme que ainda funciona

Alguns elementos de Contato pertencem claramente aos anos 1990, principalmente na forma como televisão, política norte-americana e cobertura jornalística aparecem na narrativa. Curiosamente, isso não envelhece o filme tanto quanto poderia. A maneira como uma descoberta extraordinária é imediatamente disputada por governos, especialistas, grupos religiosos, celebridades e pessoas em busca de atenção talvez pareça até mais familiar hoje do que quando o filme foi lançado.

Visualmente, há efeitos que mostram sua idade, mas a maior parte do filme não depende deles para funcionar. Zemeckis reserva os momentos mais ambiciosos para pontos específicos e concentra grande parte da narrativa em observatórios, salas de reunião, entrevistas e conversas. Isso faz com que Contato dependa muito mais de atuação, atmosfera e construção de expectativa do que de tecnologia visual capaz de envelhecer rapidamente.

Também é difícil ignorar o quanto Jodie Foster sustenta o filme. Mesmo quando o roteiro precisa lidar com conceitos científicos, debates filosóficos e grandes decisões políticas, Ellie continua funcionando como uma pessoa concreta. Sua necessidade de respostas não vem apenas de curiosidade intelectual, e justamente por isso o filme consegue falar sobre o universo sem perder completamente a dimensão humana.

Para quem indicamos

Indicamos Contato para quem gosta de ficção científica interessada em descoberta, ciência e grandes perguntas, especialmente quando essas ideias são tratadas com tempo suficiente para que realmente tenham consequência. Quem procura algo próximo de 2001: Uma Odisseia no Espaço, A Chegada ou outras histórias em que o contato com o desconhecido altera nossa percepção sobre nós mesmos provavelmente encontrará bastante aqui, embora Contato tenha uma personalidade muito própria.

Também é uma excelente indicação para quem costuma associar ficção científica apenas a futuros distantes ou tecnologias impossíveis. Grande parte do filme acontece em um mundo muito semelhante ao nosso, utilizando radiotelescópios, astronomia e pesquisa científica como ponto de partida. O extraordinário entra justamente porque pessoas comuns encontram algo que não deveria estar ali.

Mas a principal razão para indicarmos Contato é que o filme consegue transformar uma pergunta gigantesca em algo pessoal sem diminuí-la. Ele não quer apenas saber se existem outras inteligências no universo. Quer saber o que uma descoberta dessas faria com nossas certezas, nossos conflitos, nossas crenças e até com aquilo que aceitamos como prova de que alguma coisa realmente aconteceu.

Ficha rápida

Acesse o perfil do filme na Curadoria para assistir 

Filme: Contato
Título original: Contact
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: James V. Hart e Michael Goldenberg
História: Carl Sagan e Ann Druyan
Baseado no romance de: Carl Sagan
Ano: 1997
Elenco principal: Jodie Foster, Matthew McConaughey, James Woods, Tom Skerritt, John Hurt e Angela Bassett
Duração: aproximadamente 2h30
País: Estados Unidos
Mídia: Filme
Pilar: Ficção Científica
Vertentes: primeiro contato, SETI, ciência e religião, vida extraterrestre

Sua privacidade importa

Usamos cookies necessários para o funcionamento do site e, com sua autorização, cookies de análise e recursos externos para melhorar sua experiência.

Política de Cookies