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ARQUIVO DO FANTÁSTICO

Romantasy

Dragões, reinos mágicos, fadas, guerras e profecias continuam presentes. A diferença é que, na romantasy, salvar o mundo pode ser tão importante quanto descobrir com quem a protagonista ficará.

Arte: Infinitas Formas / Romantasy / Capas: divulgação

Nas prateleiras das livrarias e, principalmente, nas recomendações do TikTok, um termo passou a aparecer com frequência crescente: romantasy. A palavra nasce da união de romance e fantasy e designa histórias em que esses dois elementos não apenas convivem, mas dividem o centro da narrativa.

Em fevereiro de 2026, o dicionário Merriam-Webster já registrava formalmente romantasy como um subgênero de ficção que incorpora elementos de romance e fantasia. A definição, porém, parece mais simples do que a discussão que se formou ao redor dela.

Afinal, romances amorosos existem na fantasia praticamente desde que a fantasia existe. Então o que diferencia uma romantasy de uma história fantástica na qual dois personagens simplesmente se apaixonam?

O que é romantasy?

De forma simples: o relacionamento tem mais importância e ocupa praticamente todo o centro da da história.

Mas isso seria fácil demais. Na verdade, a descrição deve ser mais abrangente.

Uma romantasy precisa de um universo fantástico: magia, criaturas sobrenaturais, reinos imaginários, mitologias, poderes, guerras ou outros elementos que afastem a narrativa do mundo cotidiano. Ao mesmo tempo, o relacionamento amoroso deve constituir uma das estruturas essenciais do enredo.

A Penguin define romantasy como um gênero que combina fantasia e romance, no qual um mundo fantástico convive com uma história de amor central que impulsiona a trama.

Existe ainda uma espécie de teste informal bastante eficiente: o que acontece se retirarmos o romance do livro?

Se praticamente toda a trama continuar funcionando, provavelmente estamos diante de uma fantasia que contém romance. Se decisões fundamentais dos personagens, conflitos e até a resolução da história deixarem de fazer sentido, a obra está muito mais próxima da romantasy.

A Science Fiction and Fantasy Writers Association (SFWA) utiliza justamente essa distinção. O Senhor dos Anéis, por exemplo, possui a relação entre Aragorn e Arwen, mas a jornada para destruir o Um Anel continuaria existindo sem ela. Portanto, não é romantasy.

Fantasia com romance não é necessariamente romantasy

Essa diferença tornou-se especialmente importante porque o sucesso comercial do termo fez com que obras bastante diferentes fossem agrupadas sob o mesmo rótulo.

Imagine duas histórias.

Na primeira, uma princesa precisa impedir uma guerra entre três reinos. Durante sua jornada, ela conhece alguém e se apaixona. O relacionamento aprofunda a personagem, mas a guerra, as alianças políticas e a resolução do conflito existiriam mesmo sem ele.

É uma fantasia com romance.

Na segunda, a princesa precisa se casar com o herdeiro de um reino inimigo para impedir a guerra. Ela começa odiando o futuro marido, descobre segredos sobre ele, passa a questionar sua própria família e suas escolhas amorosas modificam diretamente as alianças políticas.

Nesse caso, retirar o romance significa desmontar também a fantasia.

É aí que começa a romantasy.

Por isso, talvez seja mais correto imaginar esses livros em uma escala do que tentar estabelecer fronteiras rígidas. Em uma ponta estão romances ambientados em mundos fantásticos; na outra, fantasias complexas que possuem histórias de amor. A romantasy ocupa grande parte do território intermediário.

O gênero é novo?

O nome é relativamente recente. A ideia, definitivamente, não.

Histórias que combinam amor, aventura e elementos sobrenaturais são muito anteriores à literatura fantástica moderna. Mesmo quando restringimos a discussão aos romances contemporâneos de fantasia, encontramos antecessores décadas antes do atual fenômeno editorial.

A SFWA destaca, por exemplo, The Year of the Unicorn, de Andre Norton, publicado em 1965, Beauty, de Robin McKinley, de 1978, e War for the Oaks, de Emma Bull, lançado em 1987. Este último é frequentemente citado como um dos ancestrais mais reconhecíveis da romantasy contemporânea.

Durante décadas, histórias semelhantes circularam sob classificações como romantic fantasy, fantasy romance, paranormal romance e até urban fantasy.

O fenômeno recente, portanto, não foi a invenção da combinação, mas sua transformação em uma identidade editorial própria.

Sarah J. Maas, Rebecca Yarros e a explosão da romantasy

Poucas autoras estão tão associadas à consolidação contemporânea do gênero quanto Sarah J. Maas.

Livros de Sarah J. Maas, saga Trono de Vidro

Em Corte de Espinhos e Rosas (A Court of Thorns and Roses), publicado originalmente em 2015, Maas combinou reinos feéricos, magia, conflitos políticos e personagens poderosos com relacionamentos que se tornariam progressivamente mais importantes para a série.

Mais tarde, Rebecca Yarros levou dragões, uma academia militar e uma guerra para o mesmo território narrativo em Quarta Asa (Fourth Wing). O relacionamento entre Violet Sorrengail e Xaden Riorson não funciona como simples intervalo entre batalhas: interfere diretamente nas alianças, nos segredos e nos conflitos da história.

Os números ajudaram a transformar uma preferência de leitores em fenômeno editorial. Nos Estados Unidos, dados da Circana BookScan citados pela Publishers Weekly mostraram que as vendas de fantasia adulta cresceram 62% nos primeiros nove meses de 2024. Sete dos dez livros mais vendidos no período pertenciam ao romance ou à romantasy, e obras de Maas e Yarros ocupavam cinco posições entre os dez maiores sucessos gerais e adultos.

No Reino Unido, o valor das vendas de ficção científica e fantasia cresceu 41,3% entre 2023 e 2024, movimento associado também ao crescimento da romantasy e à influência do BookTok.

BookTok, “tropes” e histórias feitas para conversar

Parte do sucesso da romantasy está relacionada à maneira como esses livros circulam nas redes sociais.

Em comunidades como o BookTok e o Bookstagram, recomendações muitas vezes não são organizadas somente pelo gênero, mas também pelos chamados tropes: estruturas e relações recorrentes que permitem ao leitor saber rapidamente que tipo de experiência encontrará.

Entre os mais populares estão:

  • enemies to lovers — inimigos que acabam se apaixonando;
  • slow burn — relacionamento desenvolvido lentamente;
  • forbidden love — amor proibido;
  • fated mates — parceiros destinados um ao outro;
  • triângulos amorosos;
  • casamentos políticos ou arranjados;
  • protagonistas moralmente ambíguos;
  • rivalidades que escondem atração.

Esses elementos não foram inventados pela romantasy. O que mudou foi a maneira como passaram a funcionar também como linguagem entre leitores e ferramenta de descoberta de novos livros.

Romantasy precisa ter sexo?

É comum ver cenas eróticas. Elas são, muito às vezes se tornado muito associadas ao gênero — e leitores utilizem frequentemente termos como “spice” para indicar o grau de conteúdo sexual de uma obra — sexo explícito não é requisito para que um livro seja romantasy.

Existem livros com romances centrais praticamente sem conteúdo sexual e outros em que erotismo ocupa uma parcela significativa da narrativa.

A relação entre romantasy, desejo e sexualidade tornou-se inclusive objeto de pesquisa acadêmica. Em artigo publicado em 2026 no periódico Sex Education, Toni Ingram analisou três séries populares do gênero para discutir como essas narrativas representam desejo e prazer feminino.

O artigo pode ser encontrado no Tuwhera Opes Access

Ou seja: o erotismo é uma característica importante de determinada parcela da romantasy contemporânea, mas não sua definição.

Livros para entender a romantasy

Algumas obras ajudam a visualizar tanto as origens quanto as diferentes formas assumidas pelo gênero.

Beauty — Robin McKinley (1978)

Releitura de A Bela e a Fera, é um exemplo de como fantasia e uma história amorosa indispensável já apareciam combinadas décadas antes do surgimento da palavra romantasy.

War for the Oaks — Emma Bull (1987)

Uma musicista humana acaba envolvida em um conflito entre seres feéricos. É frequentemente lembrado entre os grandes antecedentes da romantasy e também da fantasia urbana contemporânea.

Corte de Espinhos e Rosas — Sarah J. Maas (2015)

Possivelmente a série mais associada à popularização moderna da romantasy. Fadas, reinos, maldições, guerras e relações amorosas tornam-se progressivamente inseparáveis.

De Sangue e Cinzas — Jennifer L. Armentrout (2020)

Capa de De Sangue e Cinzas, de Jennifer L. Armentrout

De sangue e cinzas

Mistura profecias, poderes sobrenaturais, intrigas políticas e uma relação amorosa construída sobre segredos e identidades ocultas. Tornou-se outro título frequentemente associado à expansão comercial do gênero.

The Serpent and the Wings of Night — Carissa Broadbent (2022)

Vampiros, uma competição mortal e uma aliança perigosa aproximam fantasia sombria e romance, mostrando como a romantasy pode incorporar elementos normalmente associados ao terror e à fantasia dark.

Quarta Asa — Rebecca Yarros (2023)

Dragões, treinamento militar e disputas políticas convivem com uma relação construída a partir da rivalidade e da desconfiança. É um dos maiores símbolos da explosão recente do gênero.

Divine Rivals — Rebecca Ross (2023)

Mostra outra possibilidade para a romantasy: menos dependente de criaturas fantásticas exuberantes e mais concentrada na combinação entre guerra, divindades, correspondência e desenvolvimento emocional dos protagonistas.

Mas existe uma controvérsia: quem decide o que é romantasy?

O crescimento do termo também produziu resistência.

Em entrevista à Town & Country em 2026, Danielle L. Jensen, autora de The Bridge Kingdom, criticou o uso do rótulo romantasy para sua obra e afirmou se considerar uma autora de fantasia que inclui bastante romance em suas histórias.

“Considero a categoria ‘romantasy’ pouco útil e não a utilizo em nenhuma parte da minha divulgação; sou uma autora de fantasia.”

e completou

“Sou uma autora de fantasia que inclui romance. Não sou uma autora de romance de categoria.”

A entrevista completa pode ser lida no site da revista Town & Country

A discussão revela um problema maior: gêneros não são apenas definições literárias. São também ferramentas utilizadas por editoras, livrarias, algoritmos, influenciadores e leitores.

Com o sucesso da romantasy, o rótulo tornou-se comercialmente poderoso. Isso significa que livros escritos antes da popularização do termo podem ser relançados como romantasy, enquanto outras obras podem receber a classificação mesmo quando seus autores não concordam com ela.

Romantasy é gênero ou moda?

A combinação entre amor e fantasia é antiga demais para ser considerada uma invenção do “BookTok“. O que pertence ao nosso tempo é o nome, a comunidade formada ao redor dele e a enorme máquina editorial que aprendeu a identificar — e vender — essa experiência específica de leitura.

O sucesso atual pode diminuir. O termo pode mudar. Novas classificações certamente aparecerão. Mas romances, monstros, magia e pessoas se apaixonando enquanto o mundo ameaça acabar existem há muito mais tempo. A romantasy apenas deu um nome extremamente eficiente para essa mistura.

Para completar, o canal Kabook TV, no YouTube, apresenta um excelente guia sobre romantasy.