Quando a fantasia e a história de amor deixam de ser elementos separados e passam a depender uma da outra, surge a romantasia, um dos fenômenos mais visíveis da literatura fantástica contemporânea.
Dragões, fadas, guerras entre reinos, poderes sobrenaturais, profecias e criaturas mágicas fazem parte da literatura fantástica há muito tempo. Histórias de amor também. A romantasia surge justamente no encontro entre essas duas tradições, mas não se limita a colocar um casal dentro de um mundo fantástico: romance e fantasia precisam participar de maneira decisiva da construção da narrativa, influenciando os personagens, seus conflitos e o próprio desenvolvimento da história.
No Brasil, a palavra romantasia, adaptação do inglês romantasy, já está incorporada ao vocabulário do mercado editorial. Editoras como Rocco e Intrínseca utilizam o termo diretamente na apresentação de seus livros, enquanto a Bienal Internacional do Livro de São Paulo realizou, em 2024, uma mesa chamada “Romance + fantasia = Romantasia”. No ano seguinte, a Bienal do Livro Rio recebeu autores brasileiros em um encontro intitulado “Romantasia: Romances que desafiam mundos”, mostrando que o termo deixou de ser apenas uma expressão importada das redes sociais e passou a fazer parte da maneira como livros são publicados, divulgados e discutidos no país.
O que é romantasia?
A definição mais simples diz que romantasia é a combinação entre romance e fantasia, mas isso ainda não explica completamente o que caracteriza essas histórias. A diferença está na importância que cada elemento possui dentro da narrativa. A Penguin define o gênero como uma fusão na qual fantasia e romance são essenciais, de modo que a construção do mundo fantástico e o desenvolvimento da relação amorosa avançam paralelamente e interferem um no outro. O romance, portanto, não funciona apenas como uma trama secundária colocada entre batalhas ou aventuras: ele participa das decisões dos personagens e das consequências da história.
Isso significa que a presença de um relacionamento amoroso, por si só, não transforma uma obra de fantasia em romantasia. Uma fantasia épica pode acompanhar durante centenas de páginas o relacionamento de dois personagens sem que esse romance se torne a estrutura central da narrativa. Na romantasia, ao contrário, retirar a relação amorosa provocaria alterações profundas na história, assim como retirar a magia, as disputas entre reinos, as criaturas ou qualquer outro elemento fundamental do universo fantástico também faria o livro perder parte de sua identidade.
Romantasia e fantasia com romance não são a mesma coisa
Uma maneira bastante eficiente de perceber essa diferença é imaginar o que restaria da história caso o romance desaparecesse. Em artigo publicado no site da Science Fiction and Fantasy Writers Association (SFWA), Rosemary Jones utiliza O Senhor dos Anéis como exemplo: Aragorn e Arwen possuem uma relação amorosa importante para os personagens, mas a jornada de Frodo, a ameaça de Sauron e a tentativa de destruir o Um Anel continuariam existindo caso esse relacionamento fosse removido. Nesse sentido, a obra de J. R. R. Tolkien contém romance, mas sua estrutura narrativa não depende dele e, portanto, não se encaixa no conceito de romantasia.
Em uma romantasia, a situação tende a ser diferente. Uma princesa pode ser obrigada a se casar com o herdeiro de um reino inimigo para impedir uma guerra, descobrir que tudo o que aprendeu sobre aquele povo estava errado e, ao mesmo tempo, desenvolver sentimentos pelo homem que deveria considerar seu adversário. Nesse caso, guerra, política, alianças e romance não formam histórias independentes: as escolhas afetivas alteram o conflito político, enquanto o mundo fantástico determina as condições em que o relacionamento pode existir. É justamente essa interdependência que ajuda a diferenciar a romantasia de uma fantasia que simplesmente possui personagens apaixonados.
Também é importante reconhecer que essa fronteira nem sempre é objetiva. Há livros que se aproximam mais das estruturas tradicionais do romance, outros em que a fantasia ocupa espaço muito maior e uma vasta região intermediária na qual as duas coisas se misturam. Por isso, “romantasia” funciona tanto como classificação literária quanto como rótulo editorial, e nem sempre autores, leitores, editoras e livrarias concordam sobre quais obras realmente pertencem a essa categoria.
Um nome recente para uma combinação muito mais antiga
A enorme visibilidade conquistada pela romantasia nas últimas décadas pode dar a impressão de que se trata de uma invenção recente, mas histórias que unem amor e elementos fantásticos existem muito antes do atual fenômeno editorial. Até mesmo a palavra inglesa romantasy possui uma história maior do que sua popularização nas redes sociais: o dicionário Merriam-Webster registra 1998 como o primeiro uso conhecido do termo, embora sua transformação em uma categoria reconhecível para grande parte do público tenha acontecido muito mais tarde.
O artigo publicado pela SFWA recua ainda mais ao procurar ancestrais literários do gênero. Entre os exemplos aparecem The Year of the Unicorn, de Andre Norton, publicado em 1965; Beauty, de Robin McKinley, de 1978; e War for the Oaks, de Emma Bull, lançado em 1987. Os livros foram publicados muito antes da atual explosão da romantasia, mas já apresentavam diferentes formas de integrar histórias amorosas a mundos fantásticos. O próprio texto da SFWA argumenta que a mistura pode ser encontrada ainda mais cedo, em aventuras fantásticas do começo do século XX, mostrando que a novidade está menos na combinação entre amor e fantasia do que na criação de um nome capaz de reunir, identificar e comercializar essas histórias.
De Sarah J. Maas ao BookTok
Se a mistura não é nova, sua escala contemporânea certamente é. Sarah J. Maas se tornou um dos principais nomes associados ao crescimento da romantasia com a série Corte de Espinhos e Rosas, iniciada em 2015, enquanto Rebecca Yarros alcançou enorme projeção com Quarta Asa, cuja história combina uma academia militar, cavaleiros de dragões, guerra e uma relação amorosa que ocupa posição importante na trajetória de Violet Sorrengail. A própria Penguin utiliza as duas séries como alguns dos exemplos mais conhecidos do gênero e relaciona sua popularização recente à circulação de recomendações em comunidades digitais como o BookTok.
O fenômeno também é facilmente percebido no Brasil. A Editora Record informa que os livros da série Corte de Espinhos e Rosas já ultrapassaram um milhão de exemplares vendidos no país, enquanto editoras brasileiras passaram a utilizar “romantasia” regularmente na divulgação de lançamentos. O PublishNews também registrou a presença do gênero entre os destaques de vendas e entre as principais apostas editoriais de grandes eventos literários, indicando que sua presença no mercado brasileiro já vai muito além de um nicho formado apenas por leitores de fantasia.
A romantasia brasileira
A consolidação do gênero no país não acontece apenas pela tradução dos sucessos internacionais. Autores brasileiros também passaram a ocupar esse espaço, e a programação da Bienal do Livro Rio de 2025 reuniu Giu Domingues, Ariani Castelo, Fernanda Castro e Bianca Jung em uma mesa especificamente dedicada à romantasia. A presença dessas autoras ajuda a mostrar que a produção nacional vem construindo seus próprios universos e abordagens, em vez de simplesmente reproduzir as fórmulas popularizadas pelo mercado estrangeiro.
Um exemplo recente é Coração de cristal partido, de Ariani Castelo, publicado pela Rocco em 2026. A autora construiu um universo de fantasia inspirado também por elementos do Brasil Império, com uma sociedade marcada por hierarquias, poderes associados a cristais, disputas políticas e dois protagonistas moralmente ambíguos que iniciam uma aliança por interesse. A atração entre Rayka e Luka cresce no mesmo espaço em que se desenvolvem seus planos de vingança e ambição, fazendo com que o relacionamento não seja um intervalo romântico dentro da aventura, mas parte do próprio conflito. O livro é apresentado pela autora e pela divulgação editorial como romantasia, mostrando como o gênero também pode incorporar referências históricas e culturais mais próximas do leitor brasileiro.
Inimigos que se apaixonam, amores proibidos e outros tropos
A romantasia contemporânea também desenvolveu uma linguagem própria entre leitores, especialmente nas redes sociais. Em vez de recomendar um livro apenas pelo universo ou pela premissa, é comum descrevê-lo por meio dos chamados tropos, estruturas narrativas e dinâmicas recorrentes que antecipam parte da experiência oferecida pela história. Entre os mais associados ao gênero estão os inimigos que se apaixonam (enemies to lovers), o romance de desenvolvimento lento (slow burn), o amor proibido, os parceiros predestinados (fated mates), a proximidade forçada, os casamentos políticos, os protagonistas moralmente ambíguos e relações que começam com rivalidade ou desconfiança. A Penguin utiliza vários desses elementos para organizar suas próprias recomendações de romantasia, o que mostra como os tropos passaram a funcionar também como uma forma de classificação para o público.
Isso não significa que uma romantasia precise utilizar essas fórmulas. O gênero pode acompanhar uma guerra épica, uma investigação, uma academia de magia, um conflito entre deuses, uma aventura sobrenatural ou até uma narrativa mais aconchegante e intimista. O elemento realmente necessário continua sendo a relação estrutural entre o fantástico e o amoroso: os tropos ajudam leitores a encontrar determinadas experiências, mas não constituem uma lista de regras que todo livro precisa obedecer.
Romantasia precisa ter sexo?
A associação entre romantasia e cenas eróticas tornou-se forte o suficiente para que leitores utilizem frequentemente expressões como “spice” para indicar quanto conteúdo sexual determinado livro possui. Ainda assim, cenas explícitas não são uma condição para a existência do gênero. Há romantasias voltadas ao público jovem, histórias em que o relacionamento permanece pouco sexualizado e livros adultos nos quais erotismo e desejo possuem grande importância; o que determina a classificação continua sendo o papel central da relação amorosa dentro de uma narrativa fantástica, e não o grau de explicitude sexual. A própria Penguin observa que o romance de uma romantasia pode se tornar mais “picante”, mas não apresenta isso como requisito do gênero.
O erotismo presente em parte dessas obras já começou, inclusive, a despertar interesse acadêmico. Em artigo publicado em junho de 2026 no periódico Sex Education, a pesquisadora Toni Ingram analisou três séries populares de romantasia para investigar como as representações de desejo, estimulação clitoriana, resposta sexual e orgasmo feminino podem funcionar como uma forma de aprendizagem cultural sobre o corpo e o prazer. O estudo não pretende definir toda a romantasia a partir da sexualidade, mas demonstra como um aspecto particularmente visível de parte do gênero pode ser analisado também como fenômeno cultural, para além de sua função de entretenimento.
Cinco livros para entender a romantasia
Corte de Espinhos e Rosas, de Sarah J. Maas
Publicado no Brasil pela Galera Record, Corte de Espinhos e Rosas acompanha Feyre Archeron depois que a jovem é levada para o mundo das fadas como consequência da morte de um lobo. A história começa com referências reconhecíveis a A Bela e a Fera, mas progressivamente amplia seu universo para incluir diferentes cortes feéricas, conflitos políticos, guerras, poderes e relações cada vez mais complexas. A série tornou-se uma das principais portas de entrada para a romantasia contemporânea e um exemplo especialmente claro de como os relacionamentos podem crescer em importância ao mesmo tempo em que o universo fantástico se expande.
Quarta Asa, de Rebecca Yarros
Em Quarta Asa, publicado no Brasil pela Planeta Minotauro, Violet Sorrengail é obrigada a abandonar a vida que imaginava entre livros e estudos para ingressar em uma violenta academia destinada à formação de cavaleiros de dragões. A sobrevivência depende de treinamento, alianças e da capacidade de estabelecer uma ligação com essas criaturas, enquanto uma relação marcada inicialmente por rivalidade e desconfiança se torna cada vez mais importante. A combinação entre dragões, academia militar, guerra e tensão amorosa transformou a série O Empyriano em outro dos principais símbolos da popularização recente da romantasia.
De Sangue e Cinzas, de Jennifer L. Armentrout
Publicado no Brasil pela Galera Record, De Sangue e Cinzas apresenta Poppy, jovem destinada a uma cerimônia religiosa que determina praticamente todos os aspectos de sua existência. A chegada de Hawke modifica não apenas sua relação com desejo e liberdade, mas também aquilo que ela acredita saber sobre o próprio mundo. A série combina poderes, criaturas sobrenaturais, conflitos políticos e uma relação amorosa construída sobre atração, segredos e desconfiança, tornando-se um exemplo de romantasia em que a descoberta do outro acompanha a descoberta de verdades maiores sobre a realidade da protagonista.
Divinos Rivais, de Rebecca Ross
Divinos Rivais, publicado no Brasil pela Alt, mostra como a romantasia não precisa depender de dragões, fadas ou reinos medievais. Iris Winnow e Roman Kitt são jovens jornalistas e rivais profissionais enquanto uma guerra entre divindades ameaça o mundo ao redor deles. Uma correspondência inicialmente anônima cria uma conexão entre os dois e conduz o romance para dentro do próprio conflito, fazendo da comunicação, da guerra e dos sentimentos partes inseparáveis da narrativa. A editora brasileira apresenta a duologia formada por Divinos Rivais e Promessas Cruéis diretamente como romantasia.
Coração de cristal partido, de Ariani Castelo
Entre os exemplos brasileiros, Coração de cristal partido permite observar como a romantasia pode dialogar com referências nacionais sem abandonar elementos reconhecíveis do gênero. Rayka deseja vingança, enquanto Luka enxerga nela uma oportunidade para alcançar seus próprios objetivos; a aliança entre os dois se desenvolve em meio a uma sociedade fantástica marcada por poderes, hierarquias e intrigas inspiradas também pelo Brasil Imperial. Ambos são personagens moralmente ambíguos, e a tensão entre atração, interesse e desconfiança torna o relacionamento parte do jogo político e da luta pela sobrevivência.
Afinal, quem decide o que é romantasia?
O crescimento do gênero também tornou suas fronteiras mais difíceis de definir. Quanto mais comercialmente atraente se tornou a palavra, maior passou a ser a quantidade de livros reunidos sob o mesmo rótulo, mesmo quando a proporção entre fantasia e romance varia radicalmente. Essa discussão ganhou um exemplo especialmente interessante em 2026, quando Danielle L. Jensen, autora da série publicada no Brasil como A Ponte Entre Reinos, falou à revista Town & Country sobre seu desconforto com a classificação de suas obras como romantasia. Para Jensen, existe uma diferença importante entre romances estruturados segundo as convenções do gênero romântico e fantasias que possuem histórias de amor relevantes, e colocar tudo sob a mesma denominação pode dificultar justamente aquilo que uma classificação deveria fazer: ajudar o leitor a entender que tipo de livro encontrará.
Jensen resumiu sua posição de maneira bastante direta: “I am a fantasy author that has romance. I am not a category romance author.” Em português: “Sou uma autora de fantasia que inclui romance. Não sou uma autora de romance de categoria.” A declaração é importante porque mostra que “romantasia” não constitui uma fronteira aceita de maneira uniforme nem mesmo entre escritores cujas obras são frequentemente associadas ao termo. Para Jensen, sua fantasia segue as estruturas narrativas da própria fantasia, mesmo quando os relacionamentos amorosos ocupam espaço considerável na história.
A autora também levantou uma crítica mais ampla ao afirmar que escritoras mulheres podem acabar sendo colocadas dentro da romantasia simplesmente porque suas fantasias possuem algum componente amoroso. Na avaliação de Jensen, isso corre o risco de recriar uma divisão em que determinadas obras continuam sendo tratadas como “fantasia de verdade”, enquanto livros escritos por mulheres são deslocados para uma categoria separada mesmo quando o romance não constitui sua estrutura principal. Trata-se de uma crítica relevante justamente porque demonstra como os gêneros literários não são definidos apenas pelas características do texto: mercado, divulgação, expectativas do público e até a identidade de quem escreve podem interferir na maneira como uma obra é classificada.
Um gênero, um rótulo ou os dois?
Talvez seja mais produtivo compreender a romantasia como um território literário do que como uma fronteira perfeitamente delimitada. Em uma extremidade podem existir romances cuja ambientação é fantástica; em outra, fantasias nas quais uma história amorosa importante acompanha uma trama muito maior. Entre esses dois pontos há inúmeras combinações possíveis, e é justamente nessa região que grande parte das obras atualmente chamadas de romantasia se encontra.
O termo possui, portanto, duas funções que nem sempre são fáceis de separar. Ele descreve uma forma de narrativa na qual fantasia e romance se desenvolvem de maneira interdependente, mas também funciona como ferramenta de mercado, permitindo que editoras, livrarias, influenciadores e leitores reconheçam rapidamente determinado tipo de experiência literária. A força comercial do nome pode produzir classificações excessivamente amplas, como demonstra a crítica de Danielle L. Jensen, mas sua popularidade também permitiu que leitores encontrassem com facilidade histórias que combinam dois interesses que durante muito tempo foram tratados em prateleiras distintas.
A romantasia não inventou personagens que se apaixonam diante de castelos, criaturas mágicas ou guerras entre reinos, assim como não inventou o romance dentro da fantasia. O que ela fez foi transformar uma combinação antiga em uma identidade contemporânea facilmente reconhecível. No Brasil, essa identidade já possui tradução própria, leitores, editoras, eventos e autores nacionais produzindo obras dentro dela. Se o nome continuará com a mesma força nas próximas décadas é impossível saber, mas as histórias que aproximam o extraordinário do amor certamente são muito mais antigas — e provavelmente muito mais duradouras — do que o rótulo usado atualmente para classificá-las.
