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ARQUIVO DO FANTÁSTICO

Nárnia

Nárnia nasceu de uma imagem simples: um fauno caminhando por uma floresta coberta de neve, carregando um guarda-chuva e alguns pacotes. C. S. Lewis guardou essa cena na imaginação desde a adolescência e, décadas mais tarde, encontrou nela o começo de um dos universos mais conhecidos da fantasia. O que surgiu depois não foi um mundo construído segundo um único sistema mitológico, mas uma mistura deliberada de animais falantes, faunos, centauros, gigantes, bruxas, cavaleiros, mitologia clássica, contos de fadas e ideias cristãs. Essa aparente desordem se tornou justamente uma das características de Nárnia.

As Crônicas de Nárnia, publicadas entre 1950 e 1956, acompanham praticamente toda a existência desse mundo, de sua criação em O Sobrinho do Mago até seu fim em A Última Batalha. No intervalo, séculos de história narniana passam diante de crianças que chegam da Inglaterra por guarda-roupas, anéis mágicos, pinturas e outras passagens entre mundos. O tempo não corre da mesma maneira nos dois lugares: alguém pode passar anos em Nárnia e retornar à Terra no mesmo instante em que saiu, enquanto poucos meses ou anos ingleses podem corresponder a séculos narnianos.

É uma construção bastante diferente daquela que J. R. R. Tolkien realizava na Terra-média. Lewis não começou com uma geografia minuciosamente planejada, uma história linguística ou uma cronologia completa. Ele próprio reconheceu posteriormente que, ao escrever O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, sequer sabia que haveria outros livros. Nárnia foi se ampliando conforme novas histórias exigiam novas regiões, períodos e personagens, até que os sete volumes acabaram formando uma história que inclui criação, queda, guerras, eras de ouro, decadência e apocalipse.

O autor

Clive Staples Lewis nasceu em Belfast, na Irlanda, em 29 de novembro de 1898. Desde criança demonstrava enorme interesse por histórias fantásticas. Com o irmão Warren, inventava mundos, criava mapas e produzia narrativas sobre animais antropomórficos; um desses universos infantis acabaria conhecido como Boxen. Lewis também cresceu fascinado por mitologia nórdica, lendas, contos de fadas e pela sensação de desejo por algo distante e inalcançável que posteriormente se tornaria central em sua maneira de compreender tanto literatura quanto religião.

Sua carreira adulta, porém, foi principalmente acadêmica. Depois de servir na Primeira Guerra Mundial, estudou em Oxford e se tornou professor de literatura inglesa no Magdalen College, onde permaneceu durante décadas antes de assumir a cátedra de Literatura Medieval e Renascentista em Cambridge. Esse conhecimento profissional do mundo medieval foi importante não apenas para sua crítica literária, mas para a maneira como utilizava mitologia, cosmologia antiga, cavalaria e tradições cristãs dentro da ficção. Foi também em Oxford que desenvolveu sua amizade com J. R. R. Tolkien e participou dos Inklings, grupo no qual escritores e acadêmicos liam e discutiam seus trabalhos ainda em desenvolvimento.

Lewis e Tolkien compartilhavam o amor pelas mitologias do norte da Europa e por autores como George MacDonald e William Morris, mas tinham concepções bastante diferentes sobre como um mundo fantástico deveria funcionar. Tolkien buscava forte coerência interna e não gostava da maneira como Lewis colocava lado a lado figuras provenientes de tradições distintas. Em Nárnia, Papai Noel pode existir no mesmo universo em que aparecem faunos greco-romanos, anões germânicos, gigantes, centauros, ninfas, bruxas e animais falantes. Tolkien considerava essa mistura excessiva; Lewis, por outro lado, parecia muito menos preocupado em ocultar as fontes do que em reunir aquilo que considerava imaginativamente poderoso.

O conceito de Nárnia

Nárnia pertence à tradição que hoje costuma ser chamada de fantasia de portal: personagens do nosso mundo atravessam uma fronteira e entram numa realidade fantástica independente. Um estudo brasileiro sobre a formação da fantasia moderna situa as Crônicas justamente nessa aproximação entre o maravilhoso tradicional e a fantasia que se consolidaria como gênero durante o século XX. Lewis, contudo, não utiliza um único portal fixo. O guarda-roupa de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa é apenas o mais famoso de diversos caminhos entre mundos.

A separação entre Terra e Nárnia permite a Lewis colocar crianças comuns diante de uma realidade em que aquilo que no nosso mundo pertence à mitologia ou aos contos de fadas é simplesmente parte da natureza. Um castor pode conversar, uma árvore pode possuir consciência, um centauro pode estudar as estrelas e um rato pode carregar uma espada. O efeito vem menos de explicar como essas coisas são possíveis do que de fazer os personagens aceitarem progressivamente que chegaram a um lugar no qual as regras são outras.

Essa estrutura também impede que Nárnia funcione como um simples refúgio infantil. As crianças levam consigo ciúme, medo, egoísmo, coragem, lealdade e as dificuldades que já possuíam na Inglaterra. Edmundo não se transforma num traidor porque entra num mundo mágico; a Feiticeira consegue manipulá-lo porque encontra nele ressentimentos que já existiam. Eustáquio não começa A Viagem do Peregrino da Alvorada como alguém heroico, e sua transformação em dragão torna física uma deformação de caráter que a história já vinha apresentando. A fantasia de Lewis costuma tornar visíveis dilemas que, fora de Nárnia, seriam interiores.

Como Lewis concebeu Nárnia

O relato mais conhecido de Lewis sobre a origem das Crônicas começa muito antes de sua publicação. Aos dezesseis anos, ele imaginou a figura de um fauno numa floresta nevada carregando um guarda-chuva e pacotes. A imagem permaneceu com ele por décadas. Já perto dos quarenta anos, decidiu descobrir que história poderia existir ao redor daquele personagem, e o fauno acabaria transformado em Sr. Tumnus.

A Segunda Guerra Mundial forneceu outro elemento importante. Em 1939, crianças evacuadas das cidades britânicas passaram a morar em The Kilns, a casa de Lewis nos arredores de Oxford. O próprio começo de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa parte de uma situação semelhante: Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia deixam Londres por causa dos ataques aéreos e são enviados para a enorme casa de um professor no interior. Lewis chegou a iniciar uma história infantil naquele período, embora o livro que conhecemos tenha sido desenvolvido e concluído apenas no final da década de 1940.

O curioso é que Nárnia não nasceu inicialmente como uma tentativa consciente de escrever uma fantasia cristã. Lewis explicou posteriormente que primeiro vieram as imagens: o fauno, uma rainha num trenó e um grande leão. O conteúdo cristão surgiu enquanto essas figuras começaram a se organizar numa história. Essa sequência é importante porque ajuda a entender por que os livros possuem uma liberdade imaginativa que seria difícil se cada personagem tivesse sido criado apenas para representar uma ideia religiosa previamente definida.

A própria série cresceu dessa maneira. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa foi publicado em 1950, seguido por Príncipe Caspian, A Viagem do Peregrino da Alvorada, A Cadeira de Prata, O Cavalo e seu Menino, O Sobrinho do Mago e A Última Batalha. Lewis não planejou os sete volumes desde o início; ao terminar alguns dos primeiros, chegou a acreditar que não escreveria outros. O resultado é um universo que dá a impressão de ter sido descoberto por seu autor ao mesmo tempo que pelos leitores.

De onde veio o nome Nárnia?

O nome não foi inventado inteiramente por Lewis. Narnia era o nome latino da atual cidade italiana de Narni, na Úmbria. Lewis encontrou a antiga Narnia durante suas leituras de história romana e possuía um atlas no qual o nome aparecia destacado. Não há indicação de que tenha visitado a cidade antes de utilizá-la na ficção; o som da palavra parece simplesmente ter permanecido em sua memória até encontrar um lugar adequado para ela.

Há uma pequena ironia nisso. Um dos nomes mais imediatamente associados à fantasia moderna veio de uma cidade real cuja história remonta à Antiguidade. É um processo bastante adequado a Lewis, cuja imaginação trabalhava constantemente dessa maneira: elementos históricos, mitológicos, literários e religiosos eram retirados de seus contextos originais e reorganizados dentro de novas histórias.

As referências que formaram Nárnia

Uma das influências literárias mais importantes foi George MacDonald, especialmente obras como Phantastes. Lewis reconheceu MacDonald repetidamente como decisivo em sua formação imaginativa e espiritual. A ideia de um mundo feérico que pode ser simultaneamente belo, estranho, perigoso e carregado de significado religioso já estava presente nesse tipo de literatura muito antes das Crônicas.

A mitologia nórdica forneceu outra camada. Lewis tinha fascínio antigo pelas sagas escandinavas e compartilhou esse interesse com Tolkien. A visão de grandes batalhas, criaturas sobrenaturais e um mundo em que natureza e mito ainda não estão completamente separados aparece constantemente em sua formação. Ao mesmo tempo, seu conhecimento profissional da literatura medieval permitiu que Nárnia incorporasse castelos, torneios, cavalaria, profecias e uma concepção de monarquia que pertence muito mais ao romance medieval do que à política moderna.

A mitologia clássica é ainda mais visível. Faunos e sátiros vêm da tradição greco-romana; centauros convivem com ninfas e divindades fluviais; Baco chega a aparecer diretamente em Príncipe Caspian. Lewis não demonstra preocupação em explicar como seres provenientes de tradições diferentes acabaram no mesmo lugar. Em Nárnia, eles pertencem naturalmente ao mesmo repertório do maravilhoso. É justamente essa mistura que Tolkien criticava, mas também é uma das razões pelas quais o mundo possui uma sensação tão próxima dos contos de fadas.

Também existe uma influência importante da tradição inglesa de histórias infantis, particularmente de autores que já utilizavam crianças comuns encontrando mundos extraordinários. O contraste entre uma Inglaterra cotidiana e uma realidade fantástica é anterior a Lewis e aparece em escritores como E. Nesbit, enquanto a presença de animais com personalidade humana pertence a uma longa tradição de literatura infantil britânica. Lewis reuniu essas formas com as mitologias que havia estudado durante toda a vida.

E há, evidentemente, o cristianismo. Lewis havia retornado à fé cristã em 1931, depois de um processo intelectual no qual a amizade com Tolkien teve importância considerável. Quando começou a escrever Nárnia, já era conhecido também como autor de obras de apologética cristã, e sua visão religiosa passou a integrar profundamente a história de Aslan, a criação do mundo, a queda, o sacrifício, a ressurreição e o destino final de Nárnia.

Nárnia é uma alegoria cristã?

É comum dizer que Aslan “representa Jesus” e que as Crônicas são uma alegoria cristã. A aproximação é compreensível, mas Lewis fazia uma distinção importante. Em correspondência, preferia falar em uma suposição — supposal — e não em alegoria. A pergunta imaginativa seria algo semelhante a: se existisse um mundo como Nárnia e Cristo escolhesse manifestar-se naquele mundo, que forma assumiria sua presença? Aslan, portanto, não seria simplesmente uma figura inventada para substituir mecanicamente Jesus dentro de um código alegórico.

Essa diferença ajuda a entender a liberdade dos livros. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa possui um paralelo evidente com morte e ressurreição: Aslan oferece a própria vida no lugar de Edmundo, é morto sobre a Mesa de Pedra e retorna porque existe uma magia mais profunda que a Feiticeira desconhece. O Sobrinho do Mago trabalha criação, tentação e entrada do mal em um mundo recém-nascido, enquanto A Última Batalha possui uma estrutura escatológica, com a destruição da antiga Nárnia e a descoberta de uma realidade mais profunda além dela. Essas relações são intencionais, mas convivem com elementos de mitologias que não possuem origem cristã.

É justamente essa convivência que torna Nárnia mais interessante do que uma tradução ilustrada de doutrinas religiosas. Um leitor pode reconhecer referências cristãs, mitologia grega, estruturas medievais e contos de fadas no mesmo capítulo. A religião fornece uma parte importante da estrutura moral e cosmológica, mas não esgota o universo.

Como é o mundo de Nárnia

Há uma confusão comum entre Nárnia, o país, e o mundo de Nárnia. O reino que leva o nome é apenas uma das regiões desse universo. Nárnia propriamente dita é uma terra de bosques, rios e montanhas, banhada a leste pelo Grande Oceano Oriental e habitada por animais falantes, anões e numerosas criaturas mitológicas. Ao sul fica a montanhosa Arquelândia e, além de um grande deserto, o vasto império da Calormânia. Ao norte ficam regiões habitadas por gigantes; abaixo da superfície existem o Reino Profundo e Bismo; e para o leste se estende um oceano cheio de ilhas que se tornam cada vez mais estranhas quanto mais perto se chega do limite do mundo.

Essa geografia é explorada particularmente bem em A Viagem do Peregrino da Alvorada. Caspian, Edmundo, Lúcia, Eustáquio e a tripulação navegam para o leste e descobrem ilhas governadas por regras próprias, passando por dragões, águas capazes de transformar objetos em ouro, sonhos que podem ganhar existência física e regiões onde as próprias leis comuns do espaço começam a parecer diferentes. Quanto mais avançam, menos a viagem se parece com exploração geográfica convencional e mais assume uma dimensão metafísica, até que Reepicheep segue sozinho na direção do País de Aslan.

Nárnia também possui uma história própria. Em O Sobrinho do Mago, Aslan cria o mundo através do canto. Estrelas aparecem, a paisagem toma forma, plantas crescem e animais emergem da terra; entre eles, alguns recebem a capacidade de falar. Digory, Polly, tio André, a feiticeira Jadis, o cocheiro Frank e seu cavalo estão presentes nesse momento, estabelecendo desde o nascimento do mundo uma ligação entre Nárnia e a Terra.

Essa ligação continua aparecendo ao longo da história. O poste de iluminação encontrado por Lúcia no primeiro livro não é simplesmente um objeto estranho plantado no meio de uma floresta: O Sobrinho do Mago posteriormente explica sua origem a partir de um objeto trazido de Londres durante a criação do mundo. Os telmarinos de Príncipe Caspian também possuem origem humana ligada à Terra. Lewis utiliza essas conexões retrospectivamente para transformar detalhes inicialmente misteriosos em partes de uma história mais ampla.

Um mundo em que o tempo funciona de outra maneira

Uma das características mais úteis de Nárnia é a independência entre seu tempo e o da Terra. Quando os Pevensie entram pelo guarda-roupa, passam anos em Nárnia, crescem, tornam-se reis e rainhas e governam durante um longo período. Ao atravessarem novamente o guarda-roupa, porém, retornam à Inglaterra como crianças no mesmo momento em que haviam saído. Mais tarde, ao voltarem para Nárnia após pouco tempo terrestre, descobrem que séculos se passaram ali.

Esse recurso permite que Lewis conte histórias separadas por enormes períodos históricos sem precisar substituir necessariamente todos os protagonistas humanos. Os mesmos personagens podem encontrar uma Nárnia completamente diferente a cada visita. Ruínas ocupam lugares onde havia castelos, povos antigos desapareceram e lendas sobre aventuras que o leitor acabou de acompanhar já possuem centenas de anos para os habitantes locais.

A experiência também muda a relação das crianças com Nárnia. Elas nunca sabem com certeza se poderão retornar. Aslan deixa claro em diferentes momentos que algumas delas já aprenderam naquele mundo aquilo que precisavam aprender e devem continuar vivendo na Terra. Nárnia, portanto, não funciona como um segundo lar que pode ser acessado à vontade; sua perda faz parte da experiência.

Os sete livros e duas maneiras de entrar na história

A ordem atualmente utilizada pela HarperCollins coloca O Sobrinho do Mago primeiro porque ele apresenta a criação de Nárnia, seguido por O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, O Cavalo e seu Menino, Príncipe Caspian, A Viagem do Peregrino da Alvorada, A Cadeira de Prata e A Última Batalha. Essa organização segue a cronologia interna do mundo e é também a ordem utilizada nas edições brasileiras contemporâneas.

A publicação original, entretanto, começou por O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, seguido por Príncipe Caspian, A Viagem do Peregrino da Alvorada, A Cadeira de Prata, O Cavalo e seu Menino, O Sobrinho do Mago e A Última Batalha. A diferença provoca uma discussão recorrente entre leitores. Começar pelo primeiro livro publicado significa descobrir Nárnia junto com Lúcia, sem saber de onde veio o poste ou quem exatamente é Aslan; começar por O Sobrinho do Mago oferece uma história cronologicamente organizada desde a criação. Lewis escreveu a um jovem leitor em 1957 dizendo que a ordem cronológica funcionava bem, mas também observou que nunca planejara a série de antemão e que a ordem talvez não fosse tão importante.

Há bons argumentos para as duas experiências. Para um verbete sobre o universo, contudo, a existência das duas ordens é especialmente reveladora: Nárnia foi concebida primeiro como mistério e só depois recebeu uma origem. Ler cronologicamente e ler por publicação são, de certa forma, maneiras diferentes de conhecer o mesmo mundo.

Personagens relevantes

Aslan ocupa o centro espiritual de Nárnia. É um enorme leão, filho do Imperador de Além-Mar, responsável pela criação do mundo e capaz de atravessar suas diferentes eras sem pertencer inteiramente a nenhuma delas. Sua presença varia bastante entre os livros: às vezes aparece diretamente e conduz os acontecimentos; em outros momentos, permanece distante e obriga os personagens a agir sem compreender completamente suas intenções. A pesquisa brasileira sobre sua construção observa justamente a importância das associações religiosas, simbólicas e linguísticas que Lewis concentra no personagem.

Os irmãos Pevensie — Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia — são os primeiros grandes protagonistas humanos. Lúcia estabelece o primeiro contato com Nárnia através do guarda-roupa e permanece particularmente próxima de Aslan. Edmundo oferece um dos arcos mais importantes do primeiro volume ao passar de ressentimento e traição para arrependimento e amadurecimento. Pedro assume progressivamente funções de liderança, enquanto Susana é apresentada como mais prudente e racional, embora seu destino posterior tenha se tornado um dos pontos mais discutidos da série.

Digory Kirke e Polly Plummer presenciam o nascimento de Nárnia em O Sobrinho do Mago. Digory possui ainda outra função importante: quando envelhece, torna-se o Professor Kirke que recebe os Pevensie em sua casa durante a guerra. Essa ligação une a origem cronológica do mundo ao primeiro livro publicado e exemplifica a forma como Lewis posteriormente conectou elementos que não haviam sido planejados desde o começo.

Eustáquio Mísero começa como uma caricatura de criança irritante e autocentrada em A Viagem do Peregrino da Alvorada, mas se torna um dos personagens mais desenvolvidos da série. Sua transformação em dragão e o processo pelo qual recupera a forma humana marcam uma mudança que continua em A Cadeira de Prata, quando retorna a Nárnia com Jill Pole para procurar o príncipe Rilian.

Entre os personagens narnianos, Caspian X representa a recuperação da antiga Nárnia depois da dominação telmarina. Reepicheep, o pequeno rato guerreiro, combina coragem quase absurda com uma busca espiritual que culmina em sua viagem ao País de Aslan. Brejeiro, o pessimista paulama de A Cadeira de Prata, tornou-se memorável justamente porque seu pessimismo não impede sua lealdade quando a situação exige coragem.

Do lado dos antagonistas, Jadis, a Feiticeira Branca, é a figura mais conhecida. O Sobrinho do Mago mostra que ela não é originalmente narniana: vem do mundo morto de Charn e presencia a criação de Nárnia antes de se tornar sua grande inimiga. A Feiticeira Verde de A Cadeira de Prata pertence a outra fase e utiliza encantamento e manipulação para controlar o príncipe Rilian, enquanto Tash, divindade da Calormânia, introduz em A Última Batalha uma presença muito mais sombria e difícil de encaixar no repertório fantástico dos primeiros livros.

Calormânia, Susana e as discussões em torno de Nárnia

A permanência de Nárnia durante mais de sete décadas também fez com que aspectos antes recebidos com menos atenção passassem por novas leituras. A representação da Calormânia é provavelmente o caso mais evidente. Lewis construiu o império ao sul de Nárnia utilizando um conjunto de imagens associadas no imaginário britânico a culturas árabes, persas e sul-asiáticas: turbantes, cimitarras, palácios, pele mais escura, um governante chamado Tisroc e uma estrutura social despótica. Pesquisadores discutem há anos até que ponto essa construção reproduz convenções orientalistas e estereótipos raciais do período.

O quadro não é inteiramente simples. Aravis, uma jovem calormana, é uma das protagonistas de O Cavalo e seu Menino, e Emeth, em A Última Batalha, recebe um dos tratamentos moralmente mais interessantes de toda a série: sua origem e religião não determinam automaticamente seu valor diante de Aslan. Mesmo assim, a oposição visual e cultural entre a Nárnia idealizada e uma Calormânia frequentemente apresentada como autoritária e ameaçadora permanece desconfortável para muitos leitores contemporâneos. Reconhecer essas nuances não elimina a crítica; ajuda a compreender por que o assunto continua debatido.

Outro debate envolve Susana Pevensie. Em A Última Batalha, ela não está entre os personagens que retornam à verdadeira Nárnia porque passou a tratar suas experiências anteriores como brincadeiras de infância. A referência de outros personagens ao seu interesse por “nylons, batom e convites” gerou interpretações segundo as quais Lewis estaria punindo uma mulher por amadurecer ou desenvolver interesse pela sexualidade adulta. Philip Pullman foi um dos críticos que popularizaram essa leitura. Outros estudiosos e defensores de Lewis argumentam que o problema de Susana não seria sua feminilidade ou idade, mas sua rejeição deliberada daquilo que viveu, e observam que Lewis nunca afirma que sua história esteja definitivamente encerrada.

Essas discussões não precisam ser tratadas como uma tentativa de decidir se Nárnia deve ou não continuar sendo lida. Elas mostram algo mais útil para o Arquivo: obras que permanecem relevantes por muitas décadas inevitavelmente entram em contato com leitores de contextos que seus autores não poderiam prever. Parte da história cultural de Nárnia está justamente na maneira como diferentes gerações revisitam aquilo que Lewis escreveu.

Um possível segredo por trás dos sete livros

Uma das interpretações acadêmicas mais interessantes apareceu em Planet Narnia, publicado por Michael Ward pela Oxford University Press em 2008. Ward argumenta que cada uma das sete crônicas teria sido construída com a atmosfera e o simbolismo de um dos sete corpos celestes da cosmologia medieval: Júpiter, Marte, Sol, Lua, Mercúrio, Vênus e Saturno. Lewis era especialista em literatura medieval e conhecia profundamente esse sistema simbólico, utilizando-o explicitamente em outras obras.

A hipótese não é consenso. Outros estudiosos de Lewis apontam que imagens associadas aos planetas aparecem em vários livros e questionam se existiu realmente um projeto secreto consciente desde o início, sobretudo porque o próprio autor afirmou que não planejou toda a série antecipadamente. A discussão, entretanto, tornou-se importante dentro dos estudos sobre Nárnia e demonstra a quantidade de estruturas literárias que continuam sendo encontradas sob a aparência simples de histórias infantis.

Pauline Baynes e o rosto original de Nárnia

O aspecto visual de Nárnia não pertence apenas a Lewis. Pauline Baynes foi a ilustradora original dos sete livros e criou centenas de desenhos que acompanharam as primeiras edições e continuam presentes em publicações modernas. Suas imagens ajudaram a estabelecer a aparência de personagens e criaturas décadas antes de qualquer grande adaptação cinematográfica. A própria HarperCollins ainda utiliza seu trabalho nas edições atuais, inclusive nas versões de luxo brasileiras.

Lewis conheceu o trabalho de Baynes por intermédio de Tolkien, para quem ela havia ilustrado Mestre Gil de Ham. Embora os dois não tenham desenvolvido uma amizade comparável à relação de Lewis com os Inklings, ele continuou solicitando que ela ilustrasse os volumes seguintes. Quando A Última Batalha recebeu a Medalha Carnegie, Lewis chegou a reconhecer que as ilustrações faziam parte do sucesso do livro.

Isso faz de Baynes algo próximo de uma segunda arquiteta visual do universo. Muito do que leitores imaginavam antes do cinema — castelos, roupas, criaturas e o próprio Aslan — passou primeiro pelos desenhos dela.

Nárnia em outras mídias

As adaptações começaram muito antes dos grandes filmes do século XXI. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa recebeu uma versão animada para televisão em 1979, dirigida por Bill Melendez. Entre 1988 e 1990, a BBC produziu uma adaptação televisiva bastante conhecida no Reino Unido, abrangendo O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, Príncipe Caspian, A Viagem do Peregrino da Alvorada e A Cadeira de Prata. Apesar dos efeitos visuais hoje bastante datados, essa versão permaneceu importante para uma geração de leitores e voltou a receber atenção com restaurações recentes.

A BBC também dramatizou as sete histórias para rádio com elencos completos, mostrando como Nárnia funciona particularmente bem num formato que depende da narração, da voz e da imaginação do ouvinte em vez de tentar concretizar visualmente cada criatura. Essas produções continuam disponíveis comercialmente em coleções dedicadas às dramatizações da BBC Radio 4.

A versão mais conhecida internacionalmente começou em 2005, quando a Walden Media levou O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa ao cinema, com Andrew Adamson na direção. O sucesso levou a Príncipe Caspian, em 2008, e A Viagem do Peregrino da Alvorada, em 2010. Disney distribuiu os dois primeiros filmes, enquanto a Fox assumiu o terceiro. Georgie Henley, Skandar Keynes, William Moseley e Anna Popplewell interpretaram os Pevensie, e Liam Neeson emprestou a voz a Aslan.

A franquia passou posteriormente para a Netflix, que adquiriu os direitos para desenvolver novas adaptações dos livros. O primeiro grande projeto é Nárnia: O Sobrinho do Mago, escrito e dirigido por Greta Gerwig. Segundo a própria Netflix, o filme será lançado mundialmente nos cinemas em 12 de fevereiro de 2027, depois de pré-estreias em IMAX, e chegará à plataforma em 2 de abril de 2027. A escolha de começar pela criação de Nárnia indica que essa nova versão seguirá uma entrada bastante diferente daquela escolhida pelos filmes de 2005.

As Crônicas também chegaram ao teatro, a audiolivros, dramatizações, videogames associados às adaptações cinematográficas e inúmeros produtos derivados. Mesmo assim, os livros continuam ocupando uma posição particular porque várias das características mais estranhas do universo — principalmente a relação entre Nárnia, tempo, mito e transcendência — são difíceis de reduzir ao espetáculo visual.

O legado de Nárnia

Nárnia ajudou a consolidar a fantasia moderna para crianças num momento em que o gênero ainda adquiria a forma que hoje reconhecemos. Um estudo brasileiro sobre fantasia coloca as Crônicas justamente na zona de encontro entre o maravilhoso tradicional, a narrativa de portal e a formação da fantasia contemporânea. Lewis demonstrou que um mundo secundário podia ser suficientemente complexo para possuir história e cosmologia próprias sem perder a simplicidade narrativa necessária para que uma criança entrasse nele através de uma porta de guarda-roupa.

Sua influência também aparece através da oposição. Autores posteriores dialogaram com Nárnia justamente para contestar determinadas escolhas de Lewis. Philip Pullman, por exemplo, tornou-se um de seus críticos mais conhecidos e construiu Fronteiras do Universo a partir de uma visão religiosa e filosófica radicalmente diferente. O fato de uma série provocar tanto imitação quanto rejeição é um sinal de quanto ela passou a fazer parte do repertório da fantasia moderna.

Mas o elemento mais duradouro talvez continue sendo o mais simples. Lewis imaginou um universo cuja entrada não fica numa montanha distante ou numa nave, mas dentro de uma casa comum. O guarda-roupa transforma o cotidiano em fronteira: o objeto pode continuar sendo apenas um móvel durante anos e, numa determinada tarde, possuir uma floresta atrás dos casacos.

Essa ideia resume muito do que Nárnia oferece. O fantástico não precisa existir numa realidade completamente separada da nossa. Pode estar muito próximo, oculto por uma superfície banal, enquanto esperamos a ocasião em que uma porta finalmente abra.


Fontes consultadas

  • HarperCollins Brasil — As Crônicas de Nárnia. Referência brasileira para as edições atuais da série, seus sete volumes e o trabalho de Pauline Baynes, ilustradora histórica das crônicas. HarperCollins Brasil — As Crônicas de Nárnia
  • SERPA, Talita; ROCHA, Celso Fernando; SOARES, Vanessa Prestes — “A construção da personagem Aslan e suas relações com o universo cristão em língua inglesa e em língua portuguesa: um estudo baseado no corpus da obra de C. S. Lewis”. Estudo brasileiro utilizado para a construção de Aslan e suas relações intertextuais com a tradição cristã. SciELO — A construção da personagem Aslan
  • MATANGRANO, Bruno Anselmi — “Ordem vermelha: filhos da degradação, entre a alta fantasia e a distopia”. Artigo utilizado para situar Nárnia na formação histórica da fantasia moderna, sua relação com o maravilhoso, a fantasia de portal e a articulação entre mundo primário e mundo secundário. SciELO — Ordem vermelha: filhos da degradação, entre a alta fantasia e a distopia
  • C.S. Lewis Official Website — “C. S. Lewis and his Mice”. Fonte para a origem imaginativa de Nárnia na imagem de um fauno carregando guarda-chuva e pacotes em uma floresta nevada, concebida por Lewis muitos anos antes da escrita das crônicas. C.S. Lewis — C. S. Lewis and his Mice
  • C.S. Lewis Official Website — “With their Christianity Latent: C. S. Lewis on the Arts”. Utilizado para compreender a relação entre cristianismo e processo criativo em Nárnia, especialmente a afirmação de que Lewis não partiu de um programa alegórico previamente definido, mas permitiu que elementos de sua fé surgissem organicamente nas histórias. C.S. Lewis — With their Christianity Latent
  • C.S. Lewis Official Website — “Tolkien vs. Lewis on Faith and Fantasy”. Referência complementar para a amizade intelectual entre Lewis e J. R. R. Tolkien, suas diferentes maneiras de incorporar religião à fantasia e o contexto dos Inklings. C.S. Lewis — Tolkien vs. Lewis on Faith and Fantasy
  • Magdalen College, University of Oxford — “C.S. Lewis: Words & Worlds”. Referência para a carreira de Lewis em Oxford, sua atuação como professor e estudioso de literatura medieval e renascentista, sua participação nos Inklings e o período em que escreveu as histórias de Nárnia. Magdalen College — C.S. Lewis: Words & Worlds
  • The Horn Book — “A Letter from C. S. Lewis”. Correspondência em que Lewis distingue explicitamente Nárnia de uma alegoria tradicional e descreve sua abordagem como uma “supposal”, ou suposição: imaginar como Cristo poderia se manifestar em um mundo como Nárnia. The Horn Book — A Letter from C. S. Lewis
  • Smithsonian Magazine — “How World War II Influenced ‘The Chronicles of Narnia,’ C.S. Lewis’ Beloved Fantasy Novels”. Fonte para o contexto das evacuações infantis durante a Segunda Guerra Mundial, a hospedagem de crianças em The Kilns e sua relação com o ponto de partida de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Smithsonian Magazine — How World War II Influenced The Chronicles of Narnia
  • WARD, Michael — Planet Narnia: The Seven Heavens in the Imagination of C. S. Lewis. Oxford University Press. Estudo que propõe os sete planetas da cosmologia medieval como estrutura simbólica subjacente às sete Crônicas de Nárnia. Oxford University Press — Planet Narnia
  • BFI Screenonline — “Children’s Fantasy and SF”. Referência para a história da fantasia infantil na televisão britânica e para a adaptação de The Chronicles of Narnia produzida pela BBC entre 1988 e 1990. BFI Screenonline — Children’s Fantasy and SF
  • Penguin / BBC — The BBC Radio 4 Chronicles of Narnia Dramatisations. Fonte para as dramatizações radiofônicas das sete crônicas, com elenco completo e adaptações de Brian Sibley para a BBC Radio 4. Penguin — The BBC Radio 4 Chronicles of Narnia Dramatisations
  • Netflix Tudum — “Narnia: The Magician’s Nephew”. Fonte oficial para a adaptação escrita e dirigida por Greta Gerwig e para o calendário anunciado: lançamento mundial nos cinemas em 12 de fevereiro de 2027 e estreia na Netflix em 2 de abril de 2027. Netflix Tudum — Narnia: The Magician’s Nephew
  • Netflix Media Center — Narnia: The Magician’s Nephew. Registro institucional da produção, apresentada como uma adaptação sobre a criação de Nárnia dirigida por Greta Gerwig. Netflix Media Center — Narnia: The Magician’s Nephew
  • HOWE, Andrew — “The Latest Battle: Depictions of the Calormen in The Chronicles of Narnia”. American, British and Canadian Studies, v. 29, 2017. Estudo utilizado para a discussão crítica da Calormânia, suas associações orientalistas e a representação cultural de povos identificados com o Oriente Médio nas crônicas. DOAJ — The Latest Battle: Depictions of the Calormen in The Chronicles of Narnia

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