Conan, o Bárbaro, ocupa uma posição singular na história da fantasia. Criado pelo escritor norte-americano Robert E. Howard, o personagem surgiu nas revistas pulp da década de 1930, antes de a publicação de O Senhor dos Anéis transformar a percepção popular do gênero. Suas histórias não apresentam uma longa jornada para salvar o mundo nem organizam seus conflitos em torno de uma disputa absoluta entre o bem e o mal. Conan atravessa reinos decadentes, cidades corruptas, ruínas assombradas e territórios selvagens movido por necessidades imediatas: sobreviver, enriquecer, escapar de uma prisão, comandar um exército ou conquistar um trono.
Essa escala mais pessoal, combinada à ação violenta, aos ambientes exóticos e à presença de forças sobrenaturais ameaçadoras, tornou Conan a principal referência daquilo que posteriormente seria chamado de espada e feitiçaria. A imagem pela qual o personagem se tornou conhecido, entretanto, não corresponde inteiramente à criação de Howard. O bárbaro de cabelos longos, músculos descomunais e poucas palavras preserva apenas uma parte do cimério literário, cuja trajetória envolve inteligência, capacidade de adaptação, experiência militar e uma visão crítica das civilizações que encontra.
A criação de Conan na Weird Tales
Robert E. Howard escreveu para diferentes mercados das revistas pulp, publicações baratas que reuniam histórias de aventura, terror, crime, faroeste e fantasia. Entre elas estava a Weird Tales, fundada em 1923 e especializada em ficção fantástica e sobrenatural. A revista também publicou autores como H. P. Lovecraft, Clark Ashton Smith e C. L. Moore, formando um espaço importante para o desenvolvimento da fantasia norte-americana anterior à consolidação editorial do gênero em livros.
Conan apareceu pela primeira vez em “A Fênix na Espada”, publicado em dezembro de 1932. O conto nasceu da reformulação de uma história rejeitada protagonizada por Kull, outro personagem de Howard. O autor aproveitou o conflito central — um rei bárbaro ameaçado por conspiradores —, modificou o protagonista e acrescentou novos elementos sobrenaturais. Curiosamente, os leitores conheceram Conan quando ele já era rei da Aquilônia, no fim de uma trajetória que outros contos mostrariam apenas de maneira fragmentada.
Howard não escreveu as aventuras em ordem cronológica nem construiu uma série contínua no sentido moderno. Cada narrativa apresenta Conan em uma fase diferente da vida: ladrão, mercenário, pirata, saqueador, comandante militar, explorador ou soberano. O resultado se aproxima de uma coleção de episódios preservados sobre uma figura lendária. A passagem do tempo é percebida pelas mudanças de ocupação, pelos lugares visitados e pela experiência acumulada, sem que exista uma cronologia rígida explicada dentro das histórias.
Entre 1932 e 1936, Howard concluiu 21 narrativas protagonizadas por Conan, das quais 17 foram publicadas na Weird Tales durante sua vida. Há contos curtos, novelas e um romance, A Hora do Dragão, inicialmente publicado em capítulos entre dezembro de 1935 e abril de 1936. A produção original ainda inclui textos incompletos, sinopses, mapas, poemas e o ensaio “A Era Hiboriana”, no qual o escritor descreveu a formação histórica do mundo do personagem.
A Era Hiboriana
As aventuras de Conan ocorrem na Era Hiboriana, um período fictício situado depois da destruição da Atlântida e antes do surgimento das civilizações históricas conhecidas. Howard imaginou um passado perdido no qual reinos e povos lembram culturas reais sem corresponder diretamente a elas. Aquilônia possui traços da Europa medieval; Estígia remete ao Egito antigo; Nordheim reúne elementos escandinavos; Khitai funciona como uma versão fantástica da China; e a Ciméria apresenta associações com povos célticos.
Essa organização permitia que Howard utilizasse seu interesse por história sem ficar limitado pela precisão documental. O escritor podia combinar pirataria, cidades orientais, conflitos de fronteira, cultos antigos, guerras medievais e ruínas de civilizações desaparecidas dentro de um mesmo mundo. Em vez de apresentar a Era Hiboriana por meio de extensas explicações, ele revelava suas regiões durante o movimento das aventuras. O cenário surge em tavernas, campos de batalha, palácios, desertos e mares percorridos pelo protagonista.
O mundo de Conan é marcado por ciclos de ascensão e queda. Reinos poderosos escondem estruturas frágeis, civilizações antigas sobrevivem como ruínas e governantes aparentemente sofisticados recorrem à tortura, à escravidão e ao assassinato. A barbárie, portanto, não se limita aos povos considerados primitivos. Howard frequentemente contrapõe a violência direta de Conan à crueldade institucional das sociedades civilizadas, embora essa oposição nem sempre seja simples ou consistente.
A Era Hiboriana também carrega limitações próprias do período em que foi concebida. Algumas culturas são construídas a partir de estereótipos raciais e coloniais presentes na literatura pulp norte-americana do início do século XX. Reconhecer a importância de Howard para a fantasia não exige ignorar esses aspectos. Eles fazem parte da história do personagem e ajudam a compreender tanto a força quanto as contradições de uma obra produzida dentro de um mercado baseado em aventuras rápidas, exotismo e imagens culturais simplificadas.
Quem é o Conan de Robert E. Howard?
Conan nasceu na Ciméria, uma região montanhosa, fria e sombria. Howard o descreve como um homem de grande força física, cabelos negros e olhos azuis, capaz de reagir com velocidade incomum. Sua origem bárbara lhe proporciona resistência, sentidos aguçados e habilidades de sobrevivência, mas não determina toda a sua personalidade. Ao deixar sua terra, Conan aprende idiomas, costumes, técnicas militares e formas de organização política. Ele observa as sociedades estrangeiras e adapta seu comportamento sempre que necessário.
O cimério começa algumas histórias como ladrão e saqueador, mas também atua como marinheiro, chefe de piratas, mercenário e comandante de exércitos. Em “A Torre do Elefante”, ainda jovem, invade uma fortaleza atraído pela promessa de uma joia, mas o roubo conduz a um encontro trágico com uma criatura aprisionada. Em “A Rainha da Costa Negra”, torna-se companheiro da pirata Bêlit e participa de uma das narrativas mais conhecidas de sua juventude. Em “Além do Rio Negro”, aparece como guerreiro experiente em uma fronteira ameaçada. Em A Hora do Dragão, já governa a Aquilônia e precisa recuperar o reino tomado por uma conspiração associada a um feiticeiro ressuscitado.
Essas mudanças mostram que Conan não permanece preso a uma única função narrativa. Ele pode resolver conflitos pela força, mas também identifica traições, avalia riscos e compreende rapidamente disputas políticas. Quando se torna rei, não ocupa o trono por herança: conquista a coroa depois de uma longa carreira militar. Sua liderança resulta da experiência acumulada entre diferentes povos, e não apenas de sua capacidade de vencer combates.
Conan também possui um código moral próprio, ainda que não seja um herói virtuoso segundo padrões tradicionais. Ele rouba, mata e participa de guerras por dinheiro, mas pode demonstrar lealdade, gratidão e repulsa diante de determinadas formas de crueldade. Howard frequentemente coloca o personagem ao lado de nobres, sacerdotes e autoridades que se consideram civilizados, mas agem de maneira mais traiçoeira do que o bárbaro. A diferença essencial não está na ausência de violência, e sim na forma como ela é assumida ou escondida.
Conan e o nascimento da espada e feitiçaria
A expressão “espada e feitiçaria” não existia quando Howard escreveu as histórias de Conan. O termo foi proposto pelo escritor Fritz Leiber em 1961, durante uma discussão sobre como nomear o tipo de fantasia associado a Howard. Ainda assim, Conan se tornou o principal modelo do subgênero, que costuma combinar aventuras de escala pessoal, protagonistas fisicamente ativos, mundos inspirados em períodos antigos e forças sobrenaturais perigosas.
Nas narrativas de Howard, a magia raramente é uma ferramenta cotidiana ou um sistema organizado de conhecimento. Ela surge associada a cultos proibidos, feiticeiros, criaturas anteriores à humanidade e civilizações desaparecidas. Conan pode enfrentar o sobrenatural, mas não o domina completamente. Mesmo quando vence, a magia preserva uma dimensão inquietante e incompreensível, aproximando parte das histórias da ficção de horror publicada pela própria Weird Tales.
Essa combinação distingue a espada e feitiçaria de boa parte da fantasia épica posterior. Os conflitos não dependem necessariamente do destino de um mundo inteiro, e seus protagonistas podem agir por vingança, sobrevivência, ambição ou desejo de liberdade. A vitória costuma ser provisória: uma cidade é abandonada, uma fortuna é perdida e uma posição de poder pode desaparecer antes da aventura seguinte. Conan avança não porque exista uma missão previamente traçada para ele, mas porque se recusa a permanecer submetido às circunstâncias.
Os principais contos de Conan
“A Fênix na Espada” introduz Conan como rei da Aquilônia e reúne conspiração política, assassinato e feitiçaria. Embora seja a primeira narrativa publicada, apresenta uma versão madura do personagem e funciona como demonstração do tipo de mundo que Howard estava construindo.
“A Torre do Elefante” acompanha um Conan jovem durante a invasão de uma torre protegida por magia. A história começa como uma aventura de roubo, mas assume contornos de horror cósmico e tragédia. O encontro com Yag-kosha revela que o cimério pode demonstrar compaixão diante de uma criatura que inicialmente lhe parece monstruosa.
“A Rainha da Costa Negra” narra a relação entre Conan e Bêlit, comandante de um navio pirata. A história combina aventura marítima, romance, ruínas antigas e horror sobrenatural. Bêlit não funciona apenas como interesse amoroso: possui autoridade sobre sua tripulação e ocupa posição central na transformação de Conan em pirata.
“Vilões na Casa” coloca Conan no centro de uma disputa política envolvendo Murilo, Nabonidus e a criatura Thak. A narrativa explora traições e inversões de poder em um espaço fechado, utilizando a força do personagem sem reduzir o conflito a uma sequência de combates.
“Além do Rio Negro” apresenta uma narrativa de fronteira na qual colonos entram em conflito com os pictos. O conto revela o interesse de Howard pela história da ocupação territorial e formula de maneira direta a oposição entre civilização e barbárie, embora também exponha alguns dos problemas raciais e coloniais de sua obra.
“Pregos Vermelhos”, uma das últimas histórias publicadas durante a vida do autor, acompanha Conan e a guerreira Valéria em uma cidade isolada, consumida por uma guerra interna que se prolongou por gerações. O cenário funciona como representação de uma civilização incapaz de escapar de seu próprio ódio.
A Hora do Dragão é a única narrativa de Conan concebida por Howard como romance. A obra acompanha a queda e a tentativa de reconquista do trono da Aquilônia, articulando batalhas, viagens, intrigas políticas e magia necromântica. O livro apresenta uma das versões mais completas do Conan soberano.
Por que o “bárbaro musculoso” simplifica o personagem?
A imagem mais difundida de Conan foi construída por muitas camadas de adaptação. As capas pintadas por Frank Frazetta para as edições norte-americanas da década de 1960 reforçaram sua aparência monumental. Os quadrinhos da Marvel, publicados a partir de 1970, expandiram enormemente a trajetória do personagem. O filme Conan, o Bárbaro, lançado em 1982 e protagonizado por Arnold Schwarzenegger, fixou para o grande público a figura do guerreiro silencioso, de corpo excepcional e vocabulário limitado.
Essa representação é visualmente poderosa, mas reduz o personagem literário. O Conan de Howard fala diferentes idiomas, conhece diversas culturas, compreende estratégias militares e consegue governar um reino. Ele não despreza todo conhecimento intelectual, embora desconfie de filosofias que considera afastadas da experiência concreta. Sua inteligência é prática, formada por viagens, combates, observação e contato com povos muito diferentes.
A famosa aparência do bárbaro quase nu também não corresponde a todas as situações dos contos. Conan utiliza roupas, armaduras e equipamentos adequados ao ambiente e à função que desempenha. Como ladrão, procura mobilidade; como mercenário ou comandante, pode vestir cota de malha e elmo; como rei, apresenta-se de acordo com sua posição. A repetição de uma única imagem transformou diferentes fases de sua vida em um arquétipo visual estático.
O próprio título “Conan, o Bárbaro” favorece essa redução. Nas histórias, ele é frequentemente identificado como Conan, o Cimério, e sua condição de bárbaro representa sobretudo sua posição diante das civilizações hiborianas. Ela não significa ausência de raciocínio, linguagem ou capacidade política. Howard utiliza Conan para questionar uma ideia de civilização que se considera superior enquanto pratica formas sofisticadas de exploração e violência.
Adaptações e transformação do personagem
Depois da morte de Robert E. Howard, em 1936, o material de Conan passou por diferentes processos editoriais. Histórias foram organizadas segundo cronologias elaboradas posteriormente, manuscritos receberam alterações e outros escritores produziram novas aventuras. Autores como L. Sprague de Camp e Lin Carter tiveram papel importante na popularização do personagem, mas também contribuíram para misturar os textos originais com continuações, revisões e adaptações.
As republicações da década de 1960, acompanhadas pelas capas de Frazetta, deram a Conan uma nova projeção. Poucos anos depois, o roteirista Roy Thomas e o desenhista Barry Windsor-Smith iniciaram a série Conan the Barbarian na Marvel. Artistas como John Buscema consolidaram a aparência do personagem nos quadrinhos, enquanto a revista The Savage Sword of Conan explorou histórias mais violentas em preto e branco. No Brasil, sua versão nacional, A Espada Selvagem de Conan, tornou-se uma das publicações mais duradouras e reconhecidas do personagem.
O cinema ampliou ainda mais essa popularidade. Conan, o Bárbaro, dirigido por John Milius em 1982, aproveitou nomes, lugares e ideias de Howard, mas construiu uma origem diferente e uma narrativa própria. Conan, o Destruidor, de 1984, adotou uma aventura mais leve, enquanto uma nova adaptação cinematográfica lançada em 2011, com Jason Momoa, não obteve a mesma repercussão. O personagem também apareceu em animações, séries televisivas, jogos de tabuleiro, RPGs e videogames.
Cada adaptação acrescentou elementos à imagem coletiva de Conan. Por isso, muitas características consideradas essenciais não foram criadas diretamente por Howard, mas surgiram da combinação entre literatura, ilustrações, quadrinhos e cinema. Ler os contos originais permite encontrar um personagem mais móvel, contraditório e observador do que aquele preservado pela cultura popular.
Influência e legado
Conan ajudou a estabelecer uma tradição de fantasia diferente daquela que posteriormente seria associada à Terra-média. Sua influência pode ser percebida em personagens aventureiros, mundos violentos, protagonistas moralmente ambíguos e narrativas nas quais a magia permanece perigosa. A espada e feitiçaria desenvolvida a partir dessa tradição inclui nomes como Fritz Leiber, Michael Moorcock, C. L. Moore e muitos autores posteriores que imitaram, transformaram ou contestaram o modelo de Howard.
O personagem também atravessou gêneros e meios de comunicação com uma facilidade incomum. Elementos de Conan aparecem na fantasia sombria, nos jogos de interpretação, nos quadrinhos de aventura e em parte da estética do heavy metal. Mesmo obras que rejeitam o arquétipo do guerreiro bárbaro frequentemente dialogam com uma imagem que Conan ajudou a construir.
Sua importância histórica, contudo, não deve esconder as contradições dos textos. A Era Hiboriana contém representações de gênero, raça e cultura marcadas pela época e pelo mercado pulp. Ao mesmo tempo, o personagem é mais complexo do que sua caricatura posterior sugere. Conan não é apenas o homem mais forte em um mundo selvagem. É um estrangeiro que atravessa sociedades decadentes, aprende com elas, recusa sua submissão e, ao fim de uma longa trajetória, conquista um lugar entre os mesmos governantes que antes o chamavam de bárbaro.
Fontes consultadas:
- FINN, Mark. “Howard Biography”. Robert E. Howard Foundation. Biografia de Robert E. Howard, com informações sobre a criação de Conan, sua estreia na Weird Tales e o desenvolvimento da Era Hiboriana.
- HOWARD, Robert E. Conan, o Bárbaro. Coleção completa em três volumes. São Paulo: Pipoca & Nanquim, 2019–2020. Edição brasileira organizada segundo a ordem original de publicação das narrativas.
- PIPOCA & NANQUIM. “Robert E. Howard — Autores”. Perfil editorial do escritor e apresentação de sua importância para a espada e feitiçaria.
- CLUTE, John; GRANT, John; ASHLEY, Mike. “Sword and Sorcery”. The Encyclopedia of Science Fiction. Verbete sobre a definição e a história da espada e feitiçaria.
- HISTORICAL DICTIONARY OF SCIENCE FICTION. “Sword and Sorcery”. Histórico do uso da expressão e de sua associação a Fritz Leiber.
- PULPFEST. “Conan the Multimedia Barbarian”. Texto sobre a passagem de Conan das revistas pulp para os quadrinhos, o cinema e outras mídias.
