A imagem de um veado branco com olhos em chamas tornou-se uma das representações mais conhecidas de Anhangá. Ela aparece em registros importantes da tradição brasileira e não deve ser descartada como invenção recente. O problema começa quando essa imagem é apresentada como se resumisse uma entidade única, perfeitamente definida e compartilhada de maneira idêntica por todos os povos indígenas do Brasil. As fontes históricas apontam para uma realidade muito mais complexa: o nome Anhangá atravessou línguas, povos, relatos coloniais, recolhas folclóricas e literatura, acumulando significados que nem sempre são compatíveis entre si.
Essa dificuldade aparece já nos primeiros documentos europeus. Cronistas e missionários dos séculos XVI e XVII encontraram entre povos de língua tupi referências a seres ou presenças que registraram com grafias como Ingange, Agnan, Aignan, Anhangá e outras variantes. Quase imediatamente, muitos desses autores traduziram aquilo que ouviam através da teologia cristã e passaram a utilizar palavras como “demônio”, “espírito maligno” ou “diabo”. Pesquisas posteriores mostram que entidades indígenas diferentes foram frequentemente agrupadas sob categorias europeias que não correspondiam às cosmologias que pretendiam descrever.
Ao longo dos séculos seguintes, outra imagem ganhou força: Anhangá como um espírito relacionado à caça, capaz de proteger animais e punir quem caça de maneira abusiva, sobretudo quando a presa está prenhe ou amamentando. É nesse conjunto de tradições que encontramos o famoso cervídeo de olhos de fogo, mas também aparições sob formas humanas, de tatu, de outros animais e de diferentes “visagens”. Luís da Câmara Cascudo reuniu várias dessas camadas e alertou para as confusões acumuladas em torno do nome, tornando inadequado tratá-lo simplesmente como “um monstro do folclore brasileiro”.
O que é Anhangá?
Uma definição cuidadosa precisa começar reconhecendo que Anhangá não possui uma única biografia mitológica. O termo aparece relacionado a espíritos, espectros, presenças sobrenaturais e seres capazes de assumir formas distintas, além de ganhar posteriormente uma função particularmente associada à proteção da caça. O Michaelis ainda preserva essa amplitude: registra Anhangá como espírito ou gênio protetor dos animais, capaz de tomar formas diversas para assustar caçadores e pescadores, mas também como fantasma, espectro ou visagem.
Essa multiplicidade é importante porque evita projetar sobre as cosmologias indígenas uma estrutura semelhante à dos bestiários modernos. Não existe necessariamente um “Anhangá oficial”, com aparência, poderes e regras fixas comparáveis às de um personagem pertencente a uma franquia. O que chegou até nós resulta de tradições distintas, registradas em períodos diferentes e muitas vezes por observadores externos que não compreendiam integralmente aquilo que estavam descrevendo.
O nome Anhangá
A palavra chegou ao português a partir de línguas indígenas e possui registros bastante antigos. O Michaelis aponta a origem no tupi añánga, enquanto documentos coloniais apresentam grafias variadas conforme europeus tentavam registrar foneticamente aquilo que ouviam. Hans Staden, no século XVI, escreveu uma forma próxima de Ingange, por exemplo.
As traduções do termo, porém, precisam ser tratadas com cautela. Dicionários antigos e modernos apresentam sentidos como espírito, espectro, fantasma e até “espírito do mal”, mas parte dessa última associação foi fortalecida pelo vocabulário missionário utilizado durante a colonização. Câmara Cascudo chamou atenção para a aproximação com conceitos relacionados à alma, aos mortos e às visagens, enquanto pesquisadores anteriores também tentaram estabelecer relações etimológicas entre anga e noções de alma ou espírito.
A dificuldade está justamente em imaginar que uma palavra usada durante séculos e entre grupos diferentes conservaria um único significado. É mais seguro compreender Anhangá como pertencente a um campo semântico ligado ao sobrenatural e ao espírito, cuja especialização como protetor da caça aparece com clareza em determinadas tradições documentadas posteriormente. Transformar sua etimologia simplesmente em “demônio” significa reproduzir uma interpretação colonial como se fosse tradução neutra.
Os primeiros registros europeus
Anhangá aparece muito cedo nos textos produzidos sobre os povos encontrados pelos europeus no território que se tornaria o Brasil. Hans Staden, que conviveu com Tupinambá no século XVI, registrou uma entidade cujo nome transcreveu como Ingange. Missionários e viajantes como José de Anchieta, Manuel da Nóbrega, André Thevet, Jean de Léry e posteriormente Fernão Cardim também deixaram referências a seres sobrenaturais indígenas que foram aproximados do nome.
Esses documentos são valiosos porque demonstram a antiguidade da palavra, mas não podem ser lidos como transcrições transparentes da religiosidade indígena. Thevet, por exemplo, escreve dentro de uma concepção cristã segundo a qual povos que não conheciam sua religião estariam sujeitos à ação de espíritos malignos. A edição histórica preservada pelo Senado mostra como Agnan é apresentado nesse enquadramento ao mesmo tempo em que as notas críticas posteriores apontam para interpretações muito mais variadas do termo.
Um estudo sobre as cartas de Anchieta também ressalta que os missionários reuniram sob o conceito cristão de demônio diferentes seres do universo indígena, entre eles Anhangá, Jurupari, Boitatá e outros, apesar de possuírem atributos distintos. Essa operação fazia sentido para o projeto catequético, mas dificultou enormemente a compreensão posterior das cosmologias encontradas durante o contato.
Por isso, quando um documento quinhentista afirma que determinado povo “temia o diabo que chamava Anhangá”, é necessário separar duas informações. O registro do nome e do temor associado a uma presença sobrenatural pode ser relevante; identificá-la diretamente com Satanás pertence à interpretação cristã do cronista.
Por que os missionários transformaram Anhangá em ‘demônio’?
A ideia de que Anhangá seria simplesmente uma versão indígena do Diabo tornou-se uma das distorções mais persistentes sobre a entidade. Ela nasceu em boa medida da necessidade dos missionários de encontrar palavras locais para explicar categorias cristãs. Se o objetivo era ensinar sobre Deus, anjos, pecado e demônios, entidades já temidas pelos habitantes locais forneciam equivalentes aparentemente convenientes.
O problema é que a equivalência alterava o sentido das próprias entidades. Uma pesquisa da Universidade de Brasília sobre a representação literária das cosmologias indígenas observa que autores posteriores continuaram reproduzindo esse paradigma, encaixando Anhangá numa narrativa cristã de queda e oposição a Deus que não encontra correspondente direto nas crenças tupis examinadas pelos pesquisadores.
Esse processo é um exemplo de demonização colonial no sentido mais literal: uma presença pertencente a outra maneira de compreender o sobrenatural é reinterpretada através da demonologia cristã. Estudos sobre missões jesuíticas em contextos amazônicos mostram que essa prática não era apenas insulto ou rejeição; o demônio também funcionava como uma categoria através da qual missionários tentavam tornar inteligíveis sistemas religiosos que não conheciam. Isso não torna a tradução correta, mas ajuda a entender por que foi realizada e por que passou a aparecer repetidamente nos documentos.
O veado branco de olhos de fogo
A representação mais famosa de Anhangá possui fundamento em registros históricos e folclóricos. José Vieira Couto de Magalhães, em O Selvagem, associou Anhangá à proteção da caça do campo e descreveu sua representação como um veado branco com olhos de fogo. Um estudo publicado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi recupera justamente essa classificação: Anhangá aparece ligado à caça do campo, enquanto Caapora estaria relacionada à caça do mato e Uauyará aos peixes.
Essa imagem foi posteriormente incorporada por folcloristas e se tornou dominante em livros, ilustrações e materiais escolares. A Fundação Joaquim Nabuco também registra a tradição do gênio protetor dos animais que se apresenta como um veado branco de olhos flamejantes diante do caçador que ameaça um animal em período de amamentação.
A documentação, entretanto, não permite transformar o cervídeo branco numa anatomia oficial. Outros registros mencionam veado avermelhado, chifres cobertos de pelo, uma marca ou cruz na testa e numerosas formas animais. A própria edição crítica das obras de André Thevet reúne referências posteriores segundo as quais Anhangá podia aparecer como veado e receber características diferentes dependendo da fonte.
O veado branco deve, portanto, ser apresentado como uma das formas mais importantes e historicamente documentadas de Anhangá, e provavelmente a mais difundida na tradição folclórica brasileira, mas não como sua única aparência.
Um espírito capaz de assumir diferentes formas
Os registros reunidos por folcloristas mostram uma diversidade muito maior do que a imagem moderna costuma sugerir. Câmara Cascudo e autores que ele consultou mencionam designações formadas a partir de diferentes aparições, enquanto Stradelli registrou formas como mira-anhangá, tatu-anhangá, suaçu-anhangá e tapiira-anhangá, relacionadas respectivamente a visagens humanas ou de diferentes animais.
Essa maneira de nomear ajuda a compreender Anhangá menos como uma espécie zoológica fantástica e mais como uma presença capaz de manifestar-se através de formas variadas. O cervo é particularmente importante nas histórias ligadas à caça, mas não esgota o repertório. Pássaros, tatus, animais aquáticos e figuras humanas aparecem em diferentes compilações.
A variedade também sugere uma dificuldade metodológica. Fontes produzidas em épocas diferentes podem utilizar a mesma palavra para fenômenos sobrenaturais não exatamente idênticos. Em vez de tentar harmonizar tudo numa criatura única e perfeitamente coerente, é mais fiel preservar essas diferenças e indicar de onde cada característica veio.
Anhangá e a caça
A função de proteger animais contra a caça excessiva ou indevida é uma das características mais consistentes das versões folclóricas posteriores. A punição aparece especialmente ligada a caçadores que perseguem fêmeas prenhes, animais que amamentam ou que matam além daquilo que seria necessário.
Câmara Cascudo sintetizou essa tradição apresentando Anhangá como protetor da caça e castigador do caçador impiedoso. A ideia também aparece em pesquisas antropológicas sobre crenças amazônicas relacionadas à caça e à pesca, nas quais forças sobrenaturais regulam o sucesso do caçador e podem provocar doença, azar ou incapacidade de encontrar animais quando determinadas regras são violadas. Um estudo preservado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro associa essas crenças a sistemas indígenas mais amplos de relação com a floresta e observa que portugueses e africanos também passaram a incorporá-las à medida que aprenderam práticas locais de caça e pesca.
A leitura contemporânea costuma transformar Anhangá em um “protetor ambiental”, e existe uma afinidade evidente entre essas histórias e ideias de preservação. Ainda assim, é melhor evitar projetar automaticamente uma categoria ecológica moderna sobre narrativas antigas. O núcleo das fontes está na regulação da relação entre caçador e caça, especialmente na condenação do desperdício, da crueldade e da destruição de animais em situações consideradas inadequadas.
A história da veada e do caçador
Uma das narrativas mais conhecidas registradas por Couto de Magalhães situa-se nas proximidades de Santarém. Um caçador persegue uma veada acompanhada por seu filhote. Para atrair a mãe, captura a cria e faz com que ela grite, utilizando o vínculo entre os dois animais como armadilha. Quando a veada se aproxima, ele dispara.
O castigo de Anhangá ocorre através da ilusão. Ao aproximar-se da presa abatida, o caçador percebe que não matou a veada, mas a própria mãe, atingida por sua flecha. A história aparece em diferentes compilações posteriores e se tornou exemplar da função atribuída a Anhangá: a punição não decorre simplesmente de ter caçado, mas da crueldade empregada contra uma fêmea e seu filhote.
O episódio também demonstra que Anhangá não precisa atacar fisicamente o infrator. Engano, medo, doença e alteração da percepção são formas recorrentes de punição. A entidade pode fazer o caçador experimentar as consequências de sua própria violência sem funcionar como um predador que simplesmente o devora.
Febre, loucura e assombração
Outra tradição atribui ao encontro com Anhangá consequências como febre, perturbação e loucura. Câmara Cascudo recolheu versões nas quais perseguir um animal que amamenta coloca o caçador sob o risco de ser atingido por esses males, e a Fundação Joaquim Nabuco conserva essa associação entre a entidade e a proteção dos animais da mata.
Essas consequências aproximam Anhangá de outras concepções amazônicas nas quais a relação indevida com animais ou seres da floresta pode afetar não apenas o sucesso da caça, mas o corpo e a mente do caçador. O estudo sobre comunidades amazônicas digitalizado pela UFRJ compara esse tipo de punição a crenças entre os Tenetehara e às ideias de panema, condição associada a má sorte ou incapacidade para caçar e pescar.
Não se deve concluir que Anhangá e panema sejam a mesma coisa, nem que povos diferentes possuam uma cosmologia única. A comparação é útil porque mostra um contexto mais amplo no qual atividades de subsistência são reguladas por relações entre seres humanos, animais e forças que não se encaixam facilmente na separação ocidental entre “natural” e “sobrenatural”.
Anhangá, Caipora e Curupira não são simplesmente a mesma entidade
Uma das simplificações frequentes em sites contemporâneos consiste em tratar Anhangá, Curupira e Caipora como nomes diferentes para exatamente o mesmo personagem. Há sobreposições evidentes: todos podem aparecer ligados às matas, à caça e à punição de comportamentos considerados inadequados. Isso não significa, contudo, que sejam intercambiáveis.
Couto de Magalhães chegou a construir uma classificação na qual Anhangá protegia a caça do campo, enquanto Caapora estava relacionada à caça da mata. Essa divisão é registrada no estudo do Museu Paraense Emílio Goeldi sobre sua obra. O próprio fato de um pesquisador precisar distingui-los demonstra que circulavam tradições próximas, mas não necessariamente idênticas.
Câmara Cascudo foi particularmente atento às confusões produzidas por cronistas, missionários e folcloristas quando tentavam organizar entidades indígenas dentro de categorias fixas. O problema também aparece com Jurupari, nome aplicado em diferentes contextos a seres, ritos e categorias que acabaram amalgamados na literatura não indígena.
A melhor solução não é criar uma taxonomia rígida nova para corrigir a antiga. É indicar que Anhangá possui uma tradição própria, embora compartilhe funções e características com outros seres associados às florestas e à caça.
Uma tradição indígena não é “a mitologia indígena brasileira”
Outro cuidado importante é evitar expressões que sugerem uma religião indígena única. O Brasil abriga e abrigou centenas de povos, com línguas, histórias e cosmologias diferentes. Mesmo dentro de grandes famílias linguísticas como a tupi, as tradições não são automaticamente iguais.
Autores indígenas contemporâneos têm papel essencial para corrigir essa tendência. Yaguarê Yamã, escritor de origem Maraguá e Sateré-Mawé, registra e recria narrativas vinculadas a povos específicos em livros como Sehaypóri e Contos da Floresta. A Editora Peirópolis apresenta sua obra justamente como uma forma de preservar histórias e conhecimentos transmitidos entre gerações, sem dissolvê-los numa categoria genérica de “lendas indígenas”.
Em Mairiporãga — Mitos indígenas do Sudeste, Yaguarê Yamã e Ikanê Adean trabalham tradições da região e ressaltam que personagens, nomes e histórias podem mudar conforme o povo. O livro inclui também narrativas relacionadas à origem de topônimos como Anhangabaú, mostrando como palavras provenientes dessas tradições permanecem inscritas na própria geografia brasileira.
Essa perspectiva contemporânea é útil para ler Anhangá. Em vez de perguntar “qual é a versão correta da lenda?”, muitas vezes é mais produtivo perguntar quem contou determinada versão, em qual época e dentro de qual contexto cultural.
Da cosmologia à categoria “folclore”
Com o passar dos séculos, Anhangá deixou de circular apenas nos contextos indígenas em que o nome surgiu. Narrativas sobre caça, espíritos e assombrações foram incorporadas por populações caboclas, ribeirinhas, sertanejas e outras comunidades, adquirindo elementos novos durante esse processo.
A antropologia amazônica registra justamente a força dessa transmissão. À medida que colonizadores aprenderam técnicas indígenas para sobreviver, caçar e pescar no ambiente tropical, também incorporaram crenças relacionadas a essas atividades. O que posteriormente seria chamado de “folclore brasileiro” formou-se em grande medida através dessas circulações, misturas e transformações.
Por isso, algumas características hoje associadas a Anhangá podem pertencer a tradições indígenas antigas, outras a reelaborações ocorridas em comunidades não indígenas e outras ainda à literatura e ao ensino escolar. A distinção não diminui o valor cultural dessas versões; apenas impede que todas sejam retroativamente atribuídas aos povos originários como se existissem desde o período anterior à colonização.
Anhangá na literatura brasileira
A literatura do século XIX participou da transformação da entidade. Gonçalves Dias, uma das figuras centrais do Indianismo romântico, utiliza Anhangá em O Canto do Piaga, publicado em Primeiros Cantos em 1846. No poema, o nome aparece associado ao medo, aos maus presságios e à violência que se aproxima dos povos indígenas.
Essa utilização é literariamente importante, mas não pode ser confundida com registro etnográfico. O Indianismo construiu uma imagem nacional do indígena através de escritores inseridos numa sociedade pós-colonial que possuía seus próprios projetos políticos e estéticos. Termos indígenas foram utilizados dentro de estruturas narrativas cristãs, românticas e nacionalistas, o que muitas vezes reforçou sentidos já modificados pelos missionários.
Um estudo da Universidade de Brasília observa processo semelhante em obras anteriores, como Caramuru, nas quais Anhangá é reorganizado segundo uma cosmologia cristã e convertido em equivalente de forças demoníacas. Assim, a literatura ajudou simultaneamente a preservar o nome e a distanciá-lo de alguns de seus significados indígenas.
O veado branco e o Anhangá contemporâneo
Nas últimas décadas, a imagem do cervo branco de olhos flamejantes tornou-se dominante na representação visual da entidade. Ela funciona muito bem como símbolo: é imediatamente reconhecível, possui uma aparência fantástica forte e comunica a associação entre Anhangá e os animais perseguidos pelo caçador.
Essa representação pode ser utilizada sem problema, desde que sua historicidade seja preservada. Não se trata de uma invenção de redes sociais ou de ilustradores contemporâneos, pois aparece em fontes folclóricas importantes. Ao mesmo tempo, ela pertence a apenas uma parte de uma tradição muito maior, na qual Anhangá pode ser espírito sem forma definida, fantasma, visagem ou manifestação animal.
A leitura ambiental contemporânea também ganhou espaço. Anhangá aparece em projetos artísticos e educativos como guardião da fauna ou da floresta, função que dialoga diretamente com registros históricos de proteção da caça. A mudança está em ampliar uma regra relacionada ao comportamento do caçador para um discurso moderno sobre preservação de ecossistemas inteiros. Essa atualização é culturalmente compreensível, mas deve ser apresentada como evolução da figura, e não necessariamente como descrição literal de todas as tradições antigas.
Anhangá é bom ou mau?
A pergunta talvez parta de uma oposição inadequada. Em grande parte das versões relacionadas à caça, Anhangá pode ser profundamente ameaçador para um ser humano e, simultaneamente, exercer uma função que favorece os animais. Um caçador irresponsável pode considerá-lo terrível; a presa protegida por ele ocuparia posição muito diferente.
Essa ambiguidade ajuda a entender por que a tradução cristã para “demônio” é insuficiente. O Diabo da teologia cristã possui uma posição específica dentro de uma estrutura moral baseada na oposição entre bem e mal. Um espírito que pune determinada maneira de caçar, aparece como visagem, provoca febre ou protege animais pertence a outra lógica relacional.
Também não é necessário transformar Anhangá no extremo oposto e descrevê-lo como divindade benevolente da ecologia. A documentação preserva medo, ameaça e castigo junto à proteção. Sua complexidade está justamente nessa convivência, comum em muitas tradições nas quais forças associadas à floresta não existem prioritariamente para servir aos seres humanos.
Um cuidado especial com a figura do Anhangá
Anhangá oferece um exemplo particularmente claro de como uma figura indígena pode ser transformada ao atravessar quase cinco séculos de registros não indígenas. Cronistas ouviram um nome e o traduziram como demônio; missionários utilizaram categorias cristãs para explicar o sobrenatural; viajantes e etnógrafos registraram novas versões; folcloristas tentaram organizar tradições dispersas; escritores indianistas incorporaram a entidade à literatura nacional; e a cultura contemporânea consolidou a imagem visual do veado branco.
Nenhuma dessas etapas precisa ser descartada, porque todas fazem parte da história cultural de Anhangá. O cuidado consiste em não confundi-las. Um relato de Hans Staden do século XVI, uma narrativa registrada por Couto de Magalhães no século XIX, a sistematização de Câmara Cascudo no século XX e uma obra contemporânea de autoria indígena não são fontes equivalentes e não respondem às mesmas perguntas.
A imagem que emerge desse conjunto é mais interessante do que a fórmula comum de “monstro indígena protetor da floresta”. Anhangá pode ser espírito, visagem e agente de punição; pode assumir a forma de um cervídeo de olhos de fogo, mas também outras aparências; pode estar relacionado aos mortos em determinadas interpretações e à proteção da caça em outras; pode provocar medo sem representar o mal absoluto e preservar animais sem corresponder exatamente ao conceito moderno de conservação ambiental.
Compreender Anhangá exige, portanto, aceitar aquilo que boa parte do folclore simplificado tenta eliminar: a existência de versões, contradições e transformações históricas. Nesse caso, não são falhas das fontes que precisam ser corrigidas até encontrarmos uma criatura definitiva. São parte da própria história da entidade.
Observação editorial: Anhangá aparece na categoria Criaturas apenas para fins de organização do Arquivo do Fantástico. A classificação não pretende definir a natureza da entidade nas diferentes tradições indígenas e folclóricas em que o nome aparece.
Fontes consultadas:
- CASCUDO, Luís da Câmara — Dicionário do Folclore Brasileiro. Referência para as diferentes tradições relacionadas a Anhangá, sua associação à caça, às visagens e às formas animais, além das distinções entre diferentes entidades do folclore brasileiro. Google Books — Dicionário do Folclore Brasileiro
- MAGALHÃES, José Vieira Couto de — O Selvagem. Fonte histórica para Anhangá como protetor da caça do campo, para suas representações e para narrativas registradas pelo autor no século XIX. A USP disponibiliza ficha bibliográfica e acesso digital à obra. USP/CEDOCH — O Selvagem
- RODRIGUES, João Barbosa — Poranduba Amazonense. Coletânea publicada em 1890 e referência para tradições, narrativas e vocabulário provenientes da Amazônia. Biblioteca Digital Curt Nimuendajú — Poranduba Amazonense
- THEVET, André — Singularidades da França Antártica, a que outros chamam de América. Registro colonial do século XVI utilizado para a discussão das primeiras descrições europeias de crenças e entidades indígenas. A edição digital de 2018 está disponível na Biblioteca Digital do Senado Federal. Biblioteca Digital do Senado Federal — Singularidades da França Antártica
- STADEN, Hans — Duas Viagens ao Brasil. Relato quinhentista importante para documentar registros europeus iniciais de termos e crenças indígenas, ainda que interpretados pelo autor por meio de categorias cristãs. Wikisource — Duas Viagens ao Brasil
- Fundação Joaquim Nabuco — “Lendas Indígenas”. Referência institucional que registra Anhangá como espírito protetor dos animais, sua manifestação como veado branco de olhos de fogo e sua relação com a proteção de animais em período de amamentação. Fundaj — Lendas Indígenas
- LIMA, Flavia Pedroza; FIGUEIRÔA, Silvia Fernanda de Mendonça — “Etnoastronomia no Brasil: a contribuição de Charles Frederick Hartt e José Vieira Couto de Magalhães”. Artigo do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, utilizado para contextualizar os registros e classificações realizados por Couto de Magalhães. SciELO — Etnoastronomia no Brasil
- YAMÃ, Yaguarê — Sehaypóri: O Livro Sagrado do Povo Sateré-Mawé. Obra de autoria indígena dedicada à preservação e transmissão das narrativas, memórias e conhecimentos do povo Sateré-Mawé, utilizada como referência para a necessidade de tratar cosmologias indígenas a partir de tradições específicas. Editora Peirópolis — Sehaypóri
- YAMÃ, Yaguarê — Contos da Floresta. Obra de autoria indígena Maraguá que reúne mitos e narrativas sobre animais fantásticos, seres protetores e acontecimentos ligados à floresta amazônica. Editora Peirópolis — Contos da Floresta
- YAMÃ, Yaguarê; ADEAN, Ikanê — Mairiporãga — Mitos indígenas do Sudeste. Ciranda Cultural, 2024. Referência indígena contemporânea para a diversidade das tradições dos povos do Sudeste e para narrativas relacionadas a lugares como o Vale do Anhangabaú. Ciranda Cultural — Mairiporãga
- Michaelis — “Anhangá”. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Referência lexical para a etimologia tupi e para os sentidos registrados de espírito protetor dos animais, fantasma, espectro ou visagem. Michaelis — Anhangá
- Academia Brasileira de Letras — Gonçalves Dias, “O Canto do Piaga”. Texto utilizado para documentar a presença de Anhangá na literatura indianista brasileira do século XIX. ABL — Gonçalves Dias: textos escolhidos
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