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Por que Akira ainda parece uma ficção científica sobre o futuro?

Quando Akira chegou aos cinemas japoneses em 1988, o futuro imaginado por Katsuhiro Otomo ainda estava a mais de três décadas de distância. Neo-Tóquio, construída depois da destruição da antiga capital, era apresentada como uma metrópole de 2019: vertical, congestionada, iluminada por publicidade e atravessada por rodovias, manifestações políticas, violência urbana e grandes projetos de infraestrutura. O calendário alcançou e ultrapassou aquele futuro, mas a sensação produzida pelo filme permanece curiosamente intacta. Em agosto de 2026, quando Akira retornou aos cinemas brasileiros em versão remasterizada em 4K, 35 anos depois de sua primeira exibição comercial no país, Neo-Tóquio continuava parecendo menos uma previsão vencida do que uma cidade pertencente a algum amanhã que ainda estamos tentando compreender.

Isso acontece porque a força futurista de Akira nunca dependeu principalmente da capacidade de prever aparelhos. Há computadores, laboratórios, motocicletas avançadas, sistemas militares e experimentos capazes de modificar radicalmente o corpo humano, mas Otomo está mais interessado nas relações que se estabelecem entre tecnologia, poder político, transformação urbana e aqueles obrigados a viver dentro dessa modernização. Neo-Tóquio impressiona pela tecnologia e pela arquitetura, porém aquilo que realmente a define é uma contradição muito mais difícil de datar: trata-se de uma cidade extraordinariamente desenvolvida que não parece capaz de oferecer aos seus habitantes uma experiência igualmente convincente de futuro.

Kaneda, Tetsuo e os demais integrantes de sua gangue representam justamente aqueles que ficaram do lado de fora dessa promessa. Eles atravessam a cidade em motocicletas, faltam às aulas, brigam com gangues rivais e entram continuamente em conflito com instituições que parecem ter desistido deles antes que tivessem qualquer possibilidade de participar plenamente da sociedade. Enquanto isso, obras avançam, prédios crescem, autoridades planejam os Jogos Olímpicos e políticos discutem o futuro da metrópole. Existe progresso material por toda parte, mas o filme insiste em separar progresso material de progresso social.

Essa distinção é uma das razões pelas quais Akira envelheceu de maneira tão particular. Otomo não imagina o futuro como uma coleção de invenções que precisam acertar o que existirá em determinada data; ele toma conflitos de seu próprio presente e pergunta no que poderiam se transformar. É por isso que procurar quais “previsões” do filme se realizaram pode ser divertido, especialmente diante da extraordinária coincidência dos Jogos Olímpicos de Tóquio, mas é insuficiente para entender sua permanência. Akira continua futurista porque sua preocupação central não era adivinhar 2019, e sim compreender as forças que produzem o amanhã.

O futuro de Akira nunca esteve nos aparelhos

Existe uma forma relativamente simples de envelhecimento da ficção científica. Uma obra imagina o automóvel, o computador, o telefone ou a cidade de determinada década; o tempo chega; os objetos reais são diferentes daqueles imaginados; e aquilo que deveria parecer avançado começa a adquirir o encanto de um futuro antigo. Isso não transforma necessariamente a obra em algo pior, mas muda a maneira como nos relacionamos com sua especulação.

Akira evidentemente também possui tecnologias que denunciam seu nascimento nos anos 1980. Seus computadores, telas e interfaces não correspondem exatamente ao desenvolvimento digital ocorrido nas décadas seguintes, e a própria estética mecânica de suas motocicletas e máquinas pertence a uma tradição específica do cyberpunk. No entanto, reduzir a obra à capacidade de prever tecnologias significaria ignorar que grande parte daquilo que torna Neo-Tóquio futurista não está nos objetos, mas na escala em que esses objetos reorganizam a experiência urbana.

A cidade parece funcionar continuamente acima da capacidade humana de compreendê-la. Rodovias enormes carregam veículos em alta velocidade entre estruturas monumentais; prédios e luzes ocupam quase todo o horizonte; sistemas militares e científicos operam escondidos sob a rotina cotidiana; instituições tomam decisões capazes de afetar milhões de pessoas sem que a maior parte delas saiba exatamente o que está acontecendo. A tecnologia não aparece como instrumento neutro acrescentado à sociedade. Ela altera a proporção entre indivíduo e sistema.

Estudos sobre Akira têm justamente questionado uma leitura excessivamente simples do filme como catálogo de convenções cyberpunk. Um estudo dedicado à relação da obra com o futurismo observa como Otomo utiliza velocidade, corpos modificados, máquinas, juventude e arquitetura moderna não para celebrar uma modernidade tecnológica, mas para produzir uma crítica à ideia de que destruição, velocidade e progresso necessariamente conduzem a uma sociedade melhor. Outro trabalho sobre o mangá chega a discutir até que ponto a classificação cyberpunk consegue explicar completamente uma obra cujas preocupações extrapolam a relação convencional entre alta tecnologia e personagens marginalizados.

Por isso, Akira permanece relativamente protegido contra a obsolescência de suas invenções. Não precisamos possuir as mesmas motocicletas de Kaneda ou construir exatamente os arranha-céus de Neo-Tóquio para reconhecer o mundo apresentado pelo filme. Basta viver numa sociedade em que a capacidade técnica cresce mais rapidamente do que nossa certeza sobre quem controla essa capacidade, quem se beneficia dela e quais consequências serão produzidas quando alguma coisa sair do controle.

Neo-Tóquio foi reconstruída, mas a sociedade continua em ruínas

A primeira imagem fundamental para compreender o filme não é a motocicleta de Kaneda. É a destruição de Tóquio. Akira começa em 1988 com uma explosão colossal que elimina parte da cidade e desencadeia uma transformação histórica que posteriormente conhecemos como Terceira Guerra Mundial. Trinta e um anos depois, a metrópole voltou a existir em escala ainda maior, mas a reconstrução física não eliminou aquilo que a catástrofe deixou para trás.

Essa ideia coloca Neo-Tóquio numa posição ambígua. À primeira vista, a cidade é uma demonstração extraordinária de recuperação. Uma sociedade capaz de erguer uma metrópole daquela dimensão depois de uma destruição tão completa poderia ser apresentada como triunfo da capacidade humana de reconstrução. Otomo, entretanto, transforma a própria reconstrução em objeto de suspeita. A cidade retornou maior, mais tecnológica e aparentemente mais poderosa, mas permanece politicamente instável, socialmente fragmentada e literalmente construída ao redor de um trauma que suas instituições tentaram esconder.

A imagem possui uma relação inevitável com a história japonesa do pós-guerra. Susan J. Napier, num estudo clássico sobre as representações de desastre na cultura japonesa, colocou Akira dentro de uma linhagem marcada pela imaginação da destruição e reconstrução que atravessa obras como Godzilla. Thomas Lamarre foi ainda mais diretamente ao problema ao analisar Akira a partir da repetição do trauma da destruição atômica e das diferentes maneiras pelas quais destruição e reconstrução aparecem associadas ao desenvolvimento econômico e à identidade do Japão moderno.

Isso não significa que a explosão inicial possa simplesmente ser traduzida como Hiroshima ou Nagasaki, muito menos que cada elemento de Neo-Tóquio possua um equivalente histórico direto. O interesse está no mecanismo mais amplo. Akira pertence a uma sociedade que experimentou destruição de guerra, ocupação, reconstrução acelerada e uma transformação econômica extraordinária, e imagina uma cidade futura em que reconstruir novamente não significa necessariamente superar aquilo que levou à destruição anterior.

Neo-Tóquio cresce em torno de um vazio. A cidade possui infraestrutura, riqueza e capacidade tecnológica suficientes para transformar sua superfície, mas não consegue processar adequadamente aquilo que existe em suas fundações. A modernidade arquitetônica convive com laboratórios secretos, disputas políticas, repressão, cultos religiosos e jovens abandonados. Nesse sentido, o verdadeiro problema da cidade não é ser uma distopia em ruínas, mas ser uma distopia que funciona.

Kaneda e Tetsuo pertencem a uma geração que recebeu o futuro pronto

A gangue de Kaneda parece inicialmente pertencer a outra história. Antes que experiências psíquicas, conspirações militares e forças quase incompreensíveis dominem a narrativa, Akira acompanha jovens em motocicletas brigando nas ruas. Essa escolha poderia parecer apenas uma forma estilosa de apresentar o protagonista, mas é fundamental para a maneira como Otomo organiza seu futuro.

As chamadas bōsōzoku, gangues japonesas associadas principalmente a jovens motociclistas e à condução agressiva em grupo, já constituíam um fenômeno conhecido no Japão quando Otomo desenvolvia Akira. Estudos realizados ainda no início dos anos 1980 registravam uma história dessas subculturas juvenis que remontava às décadas anteriores e observavam sua crescente visibilidade social. Ao projetar gangues de motociclistas para 2019, Otomo não estava inventando simplesmente uma moda futurista; estava carregando para o futuro uma forma contemporânea de rebeldia juvenil.

O significado dessa escolha se torna mais interessante quando observamos o contraste entre os jovens e a cidade. Kaneda e seus amigos circulam por uma infraestrutura que não construíram e sobre cuja finalidade pouco podem decidir. Frequentam uma escola em que a relação com a autoridade parece baseada principalmente em disciplina e punição, encontram policiais como força repressiva e participam de uma sociedade cujo grande projeto de futuro está sendo organizado por políticos, militares, cientistas e empresários muito distantes deles.

Tetsuo sente essa impotência de maneira ainda mais profunda. Sua relação com Kaneda é atravessada pelo ressentimento de alguém que passou muito tempo sendo protegido, conduzido e, em sua própria percepção, diminuído. Quando seus poderes aparecem, eles oferecem algo que sua posição social jamais havia oferecido: a capacidade de fazer com que outras pessoas finalmente precisem reagir a ele.

Por isso, a transformação de Tetsuo não pode ser compreendida apenas como corrupção causada por poder excessivo. O poder encontra uma identidade já marcada por insegurança, humilhação e desejo de autonomia. Ele não cria todas essas coisas, mas oferece uma maneira explosiva de expressá-las. O jovem que parecia ocupar uma posição subordinada dentro de uma gangue subitamente descobre que pode superar policiais, cientistas, militares e até aquele amigo cuja força sempre o colocou em segundo plano.

Existe aí uma das observações mais duradouras de Akira: uma sociedade pode construir tecnologias cada vez mais avançadas e ainda produzir jovens que não conseguem imaginar qual espaço lhes pertence dentro do futuro criado pelos adultos. Quando isso acontece, a crise não está apenas nos indivíduos considerados problemáticos. Também está no projeto social que consegue erguer uma cidade inteira sem convencer parte de sua próxima geração de que aquela cidade foi construída para ela.

Tetsu. Imagem: reprodução

Tetsuo transforma o futuro numa questão corporal

Se Neo-Tóquio representa o futuro em escala urbana, Tetsuo representa aquilo que acontece quando esse futuro invade o corpo. A princípio, seus poderes parecem uma libertação. Ele deixa de depender fisicamente de Kaneda, enfrenta adversários que anteriormente seriam inalcançáveis e passa a ocupar uma posição de poder diante das instituições que o aprisionaram. O problema é que essa emancipação nunca vem acompanhada da capacidade de compreender ou controlar completamente aquilo que está acontecendo.

O corpo de Tetsuo torna-se progressivamente instável. Medicamentos, experiências, poderes psíquicos e a própria tentativa de exercer controle sobre forças que excedem sua compreensão desfazem a fronteira entre fortalecimento e destruição. Uma das sequências mais famosas do filme leva isso ao extremo quando sua transformação deixa de produzir um corpo superior e cria uma massa orgânica descontrolada, incapaz de preservar forma, proporção ou autonomia.

Essa transformação é frequentemente discutida a partir do body horror e do pós-humanismo porque literalmente materializa o medo de que a superação das limitações humanas não produza um humano aperfeiçoado, mas algo cuja identidade já não possamos reconhecer. Um estudo sobre Tetsuo e a figura de Prometeu interpreta sua trajetória como incorporação do potencial destrutivo escondido dentro da civilização tecnológica; outro trabalho dedicado ao cinema cyberpunk japonês observa como filmes do período utilizam transformação corporal para expressar simultaneamente fascínio e ansiedade diante da tecnologia.

O detalhe mais importante é que a tecnologia, em Akira, não permanece exterior ao personagem. O problema não é simplesmente que alguém inventou uma máquina perigosa e Tetsuo precisa desligá-la. Ciência, poder e corpo tornam-se inseparáveis. Quando seu braço é destruído, ele constrói outra estrutura a partir de materiais ao redor; quando perde o controle, matéria orgânica e componentes mecânicos começam a participar da mesma transformação. A distinção confortável entre pessoa e tecnologia deixa de funcionar.

Essa ideia envelheceu melhor do que qualquer previsão específica porque nossas próprias discussões sobre tecnologia caminharam progressivamente em direção ao corpo e à identidade. Próteses avançadas, interfaces neurais, engenharia genética, inteligência artificial aplicada à medicina e diferentes formas de modificação biológica não reproduzem o mundo de Akira, mas tornam cada vez mais concreta a pergunta que o filme radicaliza: quando adquirimos capacidade técnica para alterar as condições materiais da existência humana, quem decide quais transformações são desejáveis e como controlamos aquilo que ainda não compreendemos completamente?

Tetsuo não é uma previsão dessas tecnologias. Seria um erro transformar a personagem numa profecia sobre algum desenvolvimento específico. Ele continua atual porque representa um problema anterior a todas elas: nossa capacidade de produzir poder frequentemente cresce antes de nossa capacidade de administrar as consequências desse poder.

O Estado de Akira sabe produzir poder melhor do que sabe controlá-lo

A ciência em Akira não acontece num espaço isolado da política. Os experimentos que envolvem Akira, Tetsuo e as crianças psíquicas pertencem a uma estrutura estatal e militar que procura compreender, reproduzir e controlar capacidades extraordinárias. Aquilo que poderia ser conhecimento transforma-se inevitavelmente em questão estratégica porque uma força capaz de destruir cidades não permanece por muito tempo apenas como objeto científico.

O coronel é uma figura especialmente interessante por não se encaixar completamente na imagem de um militar interessado apenas em adquirir uma arma mais poderosa. Ele compreende melhor do que boa parte dos políticos a dimensão do perigo e demonstra preocupação genuína com aquilo que está acontecendo. Ainda assim, opera dentro de uma instituição que manteve experimentos secretos, tratou crianças como objetos de pesquisa e acreditou ser possível administrar forças que já haviam provocado uma catástrofe.

A questão, portanto, não é que o Estado seja simplesmente incompetente. Ele é capaz de fazer coisas extraordinárias. Reconstruiu uma cidade, financiou projetos científicos de escala gigantesca, desenvolveu sistemas de controle e mantém estruturas militares capazes de intervir rapidamente. O problema está justamente nessa competência técnica coexistindo com uma incapacidade política e ética para definir limites.

Um estudo publicado em 2026 sobre a crítica tecnológica de Akira destaca esse aspecto ao analisar elementos como a explosão inicial, o corpo preservado de Akira, a transformação de Tetsuo e os diálogos científicos como parte de uma crítica ao avanço tecnológico sem controle correspondente. A questão não está na rejeição simples da ciência, mas na diferença entre possuir capacidade de produzir determinado resultado e possuir instituições capazes de lidar responsavelmente com ele.

Essa distinção continua particularmente contemporânea porque grande parte dos debates tecnológicos atuais possui a mesma estrutura. Perguntamos repetidamente não apenas se alguma coisa pode ser criada, mas quem deverá estabelecer seus limites, quais interesses econômicos e políticos conduzem seu desenvolvimento e o que acontecerá se a tecnologia avançar mais rapidamente do que a regulamentação ou a compreensão pública. Akira transforma essa ansiedade em catástrofe física, mas o problema institucional permanece reconhecível sem necessidade de qualquer poder paranormal.

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Os Jogos Olímpicos transformaram uma metáfora em coincidência histórica

Nenhum aspecto da relação entre Akira e nosso presente recebeu tanta atenção quanto os Jogos Olímpicos. No filme e no mangá, Neo-Tóquio prepara-se para sediar os Jogos de 2020. Quando Tóquio foi realmente escolhida em 2013 para receber os Jogos exatamente naquele ano, uma decisão ficcional tomada décadas antes adquiriu aparência quase profética.

A coincidência se tornou ainda mais estranha em 2020. A pandemia de Covid-19 levou ao adiamento dos Jogos para 2021, embora o nome oficial “Tokyo 2020” tenha sido preservado. O próprio Comitê Olímpico Internacional registra que a competição originalmente marcada para julho e agosto de 2020 foi adiada em março daquele ano e posteriormente realizada entre 23 de julho e 8 de agosto de 2021.

Isso produziu inevitáveis comparações com imagens de Akira relacionadas à oposição aos Jogos, mas tratar Otomo simplesmente como alguém que “previu as Olimpíadas” perde justamente o aspecto historicamente mais interessante. Pesquisas dedicadas especificamente à presença olímpica na obra demonstram que os Jogos de Neo-Tóquio dialogam com os Jogos de Tóquio de 1964, evento fortemente associado à reconstrução e à reapresentação internacional do Japão do pós-guerra. O futuro de 2020 imaginado por Otomo também funciona, portanto, como uma reflexão sobre uma experiência histórica que já havia acontecido.

O próprio Otomo, em comentário recuperado numa discussão japonesa sobre essa coincidência, descreveu o universo de Akira como ligado à sua memória do período Shōwa: guerra, derrota, movimentos políticos, Olimpíadas e Expo apareciam como partes importantes de sua imagem de Tóquio. Isso muda completamente o significado da suposta profecia. O autor não precisou enxergar quarenta anos no futuro; precisou olhar para trás e perceber como sociedades reutilizam símbolos de reconstrução e modernização.

Dentro de Akira, os Jogos funcionam justamente dessa maneira. Enquanto a cidade enfrenta protestos, conflito político, marginalização e projetos militares secretos, a infraestrutura olímpica projeta uma imagem de estabilidade e futuro. Neo-Tóquio está sendo preparada para mostrar ao mundo aquilo que conseguiu reconstruir, mesmo que suas próprias contradições indiquem que a reconstrução ainda está incompleta.

A coincidência entre ficção e realidade é fascinante, mas a análise fica mais rica quando deixamos de chamá-la de previsão. Otomo percebeu que grandes eventos podem funcionar como instrumentos de representação nacional e urbana, capazes de apresentar uma cidade como símbolo de renovação. O fato de Tóquio ter voltado aos Jogos em 2020 tornou visível um ciclo histórico que Akira já utilizava como matéria de ficção.

Uma cidade pode parecer avançada e ainda assim não saber para onde está indo

Há um motivo para Neo-Tóquio ser tão importante quanto qualquer personagem. O filme dedica enorme quantidade de trabalho visual à escala da cidade, ao tráfego, às luzes, às fachadas, aos túneis e aos espaços subterrâneos. Mesmo quando nenhuma informação narrativa é comunicada diretamente, a arquitetura lembra continuamente ao espectador que os indivíduos ocupam apenas pequenas parcelas de um sistema muito maior.

A remasterização em 4K atualmente em exibição no Brasil reforça justamente esse aspecto. Akira foi produzido com uma ambição visual excepcional para a animação de sua época, e o retorno aos cinemas evidencia novamente a quantidade de informação depositada nos espaços urbanos e na movimentação da cidade. A Folha destacou, por ocasião do relançamento, o trabalho técnico do longa, produzido com mais de 160 mil quadros pintados à mão e um processo de pré-sonorização que permitiu sincronização labial incomum para a animação japonesa do período.

Mas toda essa elaboração seria apenas espetáculo se Neo-Tóquio fosse apresentada como uma cidade perfeitamente funcional. Sua verdadeira força nasce do contraste. Quanto mais impressionante a metrópole parece, mais evidente se torna que capacidade de construir não é sinônimo de capacidade de governar.

Essa distinção aproxima Akira de um problema recorrente das cidades contemporâneas. Infraestrutura, conectividade e desenvolvimento tecnológico são frequentemente utilizados como indicadores de modernização, mas nenhum deles responde automaticamente a questões relacionadas a desigualdade, pertencimento, confiança institucional ou qualidade das relações políticas. Uma cidade pode possuir sistemas extremamente avançados e continuar incapaz de oferecer segurança, participação ou perspectiva de futuro para parte de seus habitantes.

O filme não poderia prever quais tecnologias urbanas existiriam em 2026, mas compreendeu uma contradição que continuamos enfrentando: modernização material e modernização social não caminham necessariamente na mesma velocidade. Neo-Tóquio parece futurista justamente porque já possui o futuro tecnológico que esperávamos e continua sofrendo com problemas que esse futuro deveria, teoricamente, ter ajudado a resolver.

Akira não prevê o presente; ele mostra como o passado constrói futuros

Talvez o aspecto mais interessante da obra seja sua relação com o tempo. Akira olha para 2019 a partir de 1988, mas leva consigo décadas anteriores da história japonesa. A destruição da guerra, a reconstrução, os Jogos de 1964, os movimentos políticos, a modernização urbana e as ansiedades tecnológicas dos anos 1980 permanecem presentes na cidade imaginada para o futuro.

Isso significa que Neo-Tóquio nunca foi construída apenas com especulação. Ela foi construída com memória.

Thomas Lamarre chama atenção justamente para a maneira como a obra trabalha a repetição da destruição. A cidade é destruída e reconstruída, mas a reconstrução prepara condições para que novas formas de destruição apareçam. O passado não retorna porque ninguém conseguiu lembrar dele; retorna porque determinados mecanismos foram incorporados à maneira como o futuro foi construído.

É nesse ponto que Akira se distancia da ideia superficial de ficção científica como previsão. Otomo não precisava acertar o desenho de um celular de 2019. Seu futuro permaneceria reconhecível enquanto sociedades continuassem acreditando que crescimento técnico poderia resolver sozinho problemas políticos, enquanto instituições continuassem produzindo poderes que tinham dificuldade de controlar e enquanto reconstruções fossem capazes de renovar estruturas sem necessariamente enfrentar as condições que produziram crises anteriores.

Um artigo acadêmico sobre Neo-Tóquio publicado em 2023 interpreta a cidade justamente a partir do colapso da utopia moderna, observando Akira não apenas como obra cyberpunk e pós-humana, mas como representação de uma sociedade em que a promessa de desenvolvimento já não consegue produzir uma visão convincente de futuro. Essa interpretação ajuda a entender por que a cidade continua parecendo contemporânea mesmo depois da data em que deveria existir: Neo-Tóquio não é simplesmente uma cidade avançada, mas uma cidade que possui desenvolvimento sem uma utopia capaz de justificá-lo.

Essa sensação tornou-se talvez ainda mais familiar nas últimas décadas. Podemos imaginar tecnologias novas com enorme facilidade, mas frequentemente temos dificuldade maior para imaginar instituições políticas, estruturas econômicas e relações sociais radicalmente diferentes daquelas que já possuímos. Em Akira, as máquinas mudaram; as relações de poder continuam reconhecíveis.

O futuro não melhora automaticamente quem recebe mais poder

A trajetória de Tetsuo permite levar esse argumento do espaço urbano para o indivíduo. Ele recebe algo que, em outra tradição da ficção científica ou dos super-heróis, poderia funcionar como realização definitiva de uma fantasia de poder. Sua capacidade cresce até tornar estruturas militares incapazes de contê-lo, mas isso não resolve nenhuma das fragilidades que existiam antes da transformação.

Pelo contrário, o poder amplia aquilo que já estava presente. O ressentimento em relação a Kaneda não desaparece quando Tetsuo se torna mais forte; encontra meios muito mais violentos de se manifestar. Sua insegurança não é substituída por equilíbrio; passa a conviver com capacidades cuja dimensão ele próprio mal compreende. A transformação física não cria automaticamente maturidade psicológica.

É uma crítica particularmente eficiente à associação entre avanço e melhoria. O mesmo erro que Neo-Tóquio comete coletivamente aparece em Tetsuo individualmente: possuir mais capacidade é confundido com tornar-se melhor. Uma sociedade mais poderosa tecnologicamente não é necessariamente mais justa, assim como um corpo mais poderoso não produz necessariamente alguém mais preparado para exercer esse poder.

A monstruosa transformação final do personagem leva essa contradição ao limite. O aumento deixa de ser aperfeiçoamento e torna-se incapacidade de preservar uma forma estável. Seu corpo cresce porque já não consegue controlar aquilo que possui. A imagem continua sendo uma das mais perturbadoras do filme justamente porque transforma a fantasia do poder ilimitado em uma experiência de absoluta impotência.

É também por isso que Akira continua pertencendo ao futuro mesmo depois que algumas de suas tecnologias passaram a parecer antigas. A pergunta fundamental de Tetsuo permanece aberta: o que acontece quando a capacidade de fazer alguma coisa cresce mais rapidamente do que nossa capacidade de compreender o que estamos fazendo?

Kaneda. Imagem: reprodução

A ausência de respostas mantém Akira vivo

O longa-metragem também preservou sua estranheza porque nunca tenta explicar completamente seu próprio universo. Isso é parcialmente consequência da relação complicada entre filme e mangá. A publicação de Akira começou em 1982 e ainda não estava concluída quando Otomo dirigiu a adaptação cinematográfica de 1988; o filme condensa e reorganiza uma narrativa muito mais extensa, que posteriormente ultrapassaria duas mil páginas. O resultado cinematográfico possui lacunas e ambiguidades que fazem parte tanto de sua força quanto das críticas dirigidas à adaptação.

Por isso, é importante distinguir as duas obras. O mangá oferece desenvolvimento muito maior para personagens, grupos políticos, conflitos e para o próprio período posterior à destruição de Neo-Tóquio. O filme precisa trabalhar dentro de pouco mais de duas horas e transforma parte dessa complexidade numa experiência mais concentrada, visual e abrupta.

Nesta análise, é principalmente o filme que nos interessa. A sua Neo-Tóquio existe menos como um sistema que precisamos conhecer completamente e mais como uma cidade da qual recebemos fragmentos. Vemos protestos sem dominar toda a organização política por trás deles, encontramos grupos religiosos sem precisar de uma teologia completa, entramos em laboratórios sem compreender toda a ciência envolvida e acompanhamos decisões governamentais sem receber uma explicação detalhada de cada facção.

Essa incompletude aproxima nossa relação com Neo-Tóquio da própria experiência de viver numa cidade moderna. Nenhum indivíduo compreende completamente os sistemas econômicos, políticos, tecnológicos e logísticos que mantêm uma metrópole funcionando. Vivemos dentro deles e percebemos seus efeitos muito antes de conseguirmos explicar suas estruturas.

O futuro de Akira, assim, não é apresentado como uma enciclopédia. É apresentado como experiência.

Por que Akira ainda parece uma ficção científica sobre o futuro?

Em 2026, sabemos que 2019 não se tornou Neo-Tóquio. Não temos crianças psíquicas mantidas em instalações militares, não atravessamos a cidade nas mesmas motocicletas e nenhuma explosão paranormal destruiu a capital japonesa em 1988. Se a qualidade de uma ficção científica dependesse da quantidade de previsões realizadas, Akira já deveria ocupar o lugar de um futuro que não aconteceu.

No entanto, o filme nunca dependeu dessas previsões. Aquilo que Otomo projetou para 2019 foi uma sociedade na qual tecnologia avança mais rapidamente do que as instituições capazes de controlá-la; grandes projetos urbanos coexistem com insatisfação social; jovens herdam estruturas sobre as quais pouco puderam decidir; governos produzem poderes cujas consequências não dominam; e crescimento material não consegue responder sozinho à pergunta sobre que tipo de sociedade deveria surgir desse crescimento.

Até a coincidência mais famosa do filme confirma essa lógica. Os Jogos Olímpicos de 2020 parecem uma profecia apenas quando ignoramos que Otomo estava também olhando para 1964 e para a utilização dos Jogos como símbolo da reconstrução japonesa. O futuro foi imaginado a partir de padrões reconhecidos no passado. Quando a realidade repetiu parte deles, a ficção pareceu ter adivinhado o que aconteceria.

Essa talvez seja a principal diferença entre uma obra que prevê o futuro e uma obra que compreende como futuros são produzidos. A primeira tenta acertar aquilo que ainda não existe. A segunda identifica conflitos, desejos, estruturas e contradições capazes de continuar existindo enquanto o mundo ao redor muda.

O retorno de Akira aos cinemas brasileiros em 4K, desde 27 de agosto de 2026, permite observar essa diferença com uma ironia que Otomo dificilmente poderia ter planejado. Estamos assistindo em telas contemporâneas a uma obra de 1988 situada num futuro de 2019, num momento em que até os Jogos de 2020 imaginados por ela já pertencem ao passado real.

Ainda assim, Neo-Tóquio não parece arqueologia futurista. Seus detalhes tecnológicos pertencem ao passado, mas sua ansiedade permanece no presente porque a cidade foi construída sobre perguntas que ainda não resolvemos. Quem controla aquilo que somos capazes de criar? Quem participa do futuro prometido pelo desenvolvimento? O que acontece quando poder técnico e responsabilidade política crescem em velocidades diferentes? E quantas vezes uma sociedade consegue reconstruir aquilo que destruiu sem enfrentar as estruturas que continuam produzindo destruição?

Akira ainda parece uma ficção científica sobre o futuro porque Otomo entendeu que imaginar amanhã não significa desenhar corretamente as máquinas que existirão nele. Significa observar o presente com precisão suficiente para perceber quais de suas contradições continuarão viajando conosco. Neo-Tóquio pertence oficialmente a 2019, mas o mundo que a tornou possível nunca ficou inteiramente para trás.


Fontes consultadas

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    JSTOR — Panic Sites: The Japanese Imagination of Disaster from Godzilla to Akira
  • LAMARRE, Thomas — “Born of Trauma: Akira and Capitalist Modes of Destruction”. positions: asia critique, v. 16, n. 1, 2008, p. 131–156. Análise das imagens de destruição atômica, repetição do trauma, reconstrução e capitalismo em Akira, examinando tanto o mangá quanto sua adaptação cinematográfica.
    Thomas Lamarre — Born of Trauma: Akira and Capitalist Modes of Destruction
  • GOTTESMAN, Zach — “Tetsuo and Marinetti: Akira as a cyberpunk critique of futurist modernity”. Journal of Japanese and Korean Cinema, v. 8, n. 2, 2016, p. 104–126. Estudo sobre Akira como crítica cyberpunk às ideias modernistas de velocidade, máquina, juventude, destruição, masculinidade e progresso tecnológico.
    Taylor & Francis — Tetsuo and Marinetti
  • TRIANTAFYLLOS, Sotirios — “The dying city and the sick messiah: apocalypse and utopia in Neo Tokyo”. European Journal of English Studies, v. 26, n. 3, p. 462–479. Análise de Neo-Tóquio como espaço de crise da utopia moderna, pós-humanismo e capitalismo tardio, além da transformação de Tetsuo em figura simultaneamente destruidora e messiânica. O artigo pertence ao volume de 2022, embora tenha sido publicado online em janeiro de 2023.
    Taylor & Francis — The dying city and the sick messiah
  • TAGSOLD, Christian — “Akira and the Tokyo Olympics in 1964 and 2020/21: Reading the games through manga and anime—reading manga and anime through the games”. Contemporary Japan, v. 35, n. 1, 2023, p. 117–135. Estudo sobre a maneira como Akira articula os Jogos Olímpicos fictícios de 2020 à memória de Tóquio 1964, à arquitetura urbana, à reconstrução da cidade e às disputas em torno dos megaeventos esportivos.
    Taylor & Francis — Akira and the Tokyo Olympics in 1964 and 2020/21
  • AHN, Soongbeum — “The Two Faces of Post-Prometheus in the Era of Transhumanism: A Study on Different Manifestations of Tetsuo from Akira and Kusanagi from Ghost in the Shell”. Global Cultural Contents, n. 29, 2017, p. 147–166. Estudo comparativo dedicado às transformações de Tetsuo e Kusanagi, utilizado para discutir corpo, tecnologia, transumanismo e as diferentes respostas dos personagens à superação dos limites humanos.
    Korea Citation Index — The Two Faces of Post-Prometheus in the Era of Transhumanism
  • HENRY, Sarah — New Flesh Cinema: Japanese Cyberpunk-Body Horror and Cinema as Catharsis in the Age of Technology. University of Arkansas, 2020. Dissertação utilizada para a relação entre cyberpunk japonês, body horror, transformação corporal e ansiedades provocadas pela tecnologia, incluindo o lugar de Akira nesse conjunto estético e temático.
    University of Arkansas — New Flesh Cinema
  • Instituto Moreira Salles — Akira. Fonte brasileira para a remasterização em 4K, a exibição contemporânea do filme e sua primeira chegada aos cinemas brasileiros em 1991. A página também identifica Katsuhiro Ōtomo como diretor e registra a versão exibida pela Sato Company.
    IMS — Akira
  • TOLEDO, Marina — “35 anos de ‘Akira’: anime retorna aos cinemas remasterizado em 4K”. CNN Brasil, 25 jun. 2026. Referência para o relançamento brasileiro da versão 4K em 27 de agosto de 2026 e para a trajetória comercial do filme no país desde sua estreia nos cinemas brasileiros em 1991.
    CNN Brasil — 35 anos de Akira
  • International Olympic Committee — documentação sobre os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Fonte oficial para o adiamento dos Jogos por um ano em razão da pandemia de Covid-19 e para sua realização em 2021, circunstância que criou uma coincidência histórica particularmente interessante com os Jogos de 2020 imaginados décadas antes em Akira.
    IOC — Tokyo 2020 e o adiamento dos Jogos

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