Durante muito tempo, boa parte do imaginário popular da ficção científica tratou o futuro como se ele tivesse uma aparência relativamente previsível. Arranha-céus cresceriam até esconder o céu, grandes empresas teriam mais poder do que governos, corpos receberiam implantes, inteligências artificiais ocupariam espaços antes reservados aos humanos e cidades iluminadas por néon transformariam desigualdade social em paisagem. O cyberpunk tornou algumas dessas imagens particularmente reconhecíveis, primeiro na literatura anglófona e depois através de quadrinhos, cinema, anime, games e diferentes tradições nacionais. Sua influência foi tão grande que determinados códigos visuais passaram a funcionar quase como uma abreviação para dizer ao público que uma história acontece no futuro.
O problema começa quando essa linguagem deixa de ser percebida como uma tradição específica e passa a parecer o futuro em si. Toda especulação nasce de algum lugar, carrega preocupações históricas e imagina mudanças a partir das experiências de quem a produz. Se o amanhã é construído repetidamente com os mesmos referenciais culturais, sociais e tecnológicos, populações inteiras podem até aparecer dentro dele, mas continuam ocupando um futuro concebido por outras perspectivas. O afrofuturismo altera essa posição porque não se limita a incluir personagens negros em cenários previamente estabelecidos. Ele pergunta o que acontece quando pessoas negras também participam da definição do que tecnologia, memória, progresso, corpo, espiritualidade e futuro podem significar.
No Brasil, essa pergunta adquire características próprias. A experiência negra brasileira foi construída pela diáspora, pela escravidão, pelo apagamento de histórias e saberes, pela persistência das religiões de matriz africana, pela formação de periferias e por formas muito particulares de racismo e resistência. Quando escritores como Ale Santos, Fábio Kabral, Lu Ain-Zaila e Sandra Menezes projetam personagens negros para outros tempos e outros mundos, não estão simplesmente aplicando uma camada brasileira a um gênero estrangeiro. Estão utilizando a ficção especulativa para reorganizar a relação entre passado, presente e futuro, fazendo daquilo que frequentemente foi tratado como atraso, superstição ou memória marginalizada uma das matérias-primas para imaginar o que ainda não existe. Pesquisas recentes sobre a literatura afrofuturista brasileira têm destacado justamente essa articulação entre ancestralidade, tecnologia e resistência como uma de suas características mais produtivas.
Um futuro tecnológico que ainda conhece seus ancestrais
O Último Ancestral, publicado por Ale Santos em 2021, oferece um bom ponto de partida porque reconhecemos imediatamente vários elementos de uma distopia tecnológica. O romance se passa no Distrito de Nagast, onde os Cygens, híbridos de humanos e máquinas, estabeleceram uma estrutura profundamente segregada. Na periferia encontra-se Obambo, comunidade para a qual grande parte da população negra foi empurrada e onde vive Eliah, um jovem envolvido com roubo de carros que descobre carregar consigo o espírito do Último Ancestral. A sociedade futurista criada por Santos possui tecnologia avançada, sistemas de vigilância, desigualdade urbana e corpos transformados, mas a disputa central também envolve a proibição da fé, da magia e do culto aos deuses.
A proximidade superficial com o cyberpunk é evidente, e seria desnecessário negá-la. Há uma metrópole hierarquizada, grupos que vivem nas margens, tecnologia utilizada como instrumento de controle e uma ordem social que transforma determinados corpos em objetos de administração. O deslocamento acontece quando perguntamos quais experiências estruturam esse mundo. Obambo não é apenas a zona pobre de uma cidade futurista; sua segregação dialoga com uma história racial reconhecível para o leitor brasileiro. A perseguição à espiritualidade também não aparece como detalhe exótico inserido entre computadores e máquinas, porque a tentativa de controlar práticas religiosas e referências culturais pertence à própria história das populações negras no país.
Essa diferença fica particularmente clara na chamada Inteligência Artificial Mandinga. No romance, tecnologia e espiritualidade não precisam ocupar campos opostos. A Mandinga incorpora uma entidade espiritual através de uma estrutura tecnológica e utiliza uma forma de programação ligada a códigos divinos, produzindo uma fusão que pesquisas acadêmicas sobre o livro têm interpretado como uma contestação à ideia de que ciência moderna e conhecimento ancestral são necessariamente incompatíveis. A própria inteligência artificial pode operar nas redes e, ao mesmo tempo, estabelecer relação com memórias e dimensões espirituais.
Seria possível conservar os mesmos carros, implantes, sistemas eletrônicos e paisagens urbanas e ainda assim produzir outra concepção de futuro, porque a tecnologia nunca existe sozinha. Ela está sempre inserida numa visão sobre conhecimento, progresso e sociedade. O Último Ancestral torna esse ponto particularmente visível quando permite que programação, ancestralidade e fé participem do mesmo sistema imaginativo sem exigir que uma delas seja revelada como superstição diante da outra. É nesse encontro que o romance começa a se afastar da ideia de um cyberpunk simplesmente nacionalizado.
O futuro nunca foi um território neutro
A pergunta sugerida pelo afrofuturismo antecede qualquer discussão sobre estética: quem costuma ter permissão para aparecer no futuro como sujeito? A ficção científica passou décadas imaginando viagens espaciais, sociedades pós-humanas e tecnologias capazes de transformar radicalmente a vida enquanto reproduzia, com frequência, uma distribuição bastante limitada de quem poderia ser cientista, explorador, governante ou protagonista dessas transformações. A ausência não precisava ser absoluta para produzir um efeito. Personagens negros podiam existir e ainda assim permanecer periféricos num imaginário cuja concepção de civilização futura continuava baseada em referências predominantemente brancas e ocidentais.
É por isso que definir o afrofuturismo apenas por seus elementos tecnológicos produz uma compreensão incompleta do movimento. Estudos brasileiros o descrevem como um campo estético e político no qual ficção especulativa, cultura africana e experiências da diáspora permitem reconsiderar simultaneamente passado e futuro. A ancestralidade ocupa uma posição especialmente importante porque imaginar um amanhã negro não significa cortar os vínculos com aquilo que veio antes. Pelo contrário, recuperar conhecimentos, histórias e formas de significar o mundo que sofreram processos de apagamento pode ser uma condição para construir outras possibilidades de futuro.
Esse movimento temporal distingue muitas obras afrofuturistas das concepções lineares de progresso que marcaram parte importante da ficção científica moderna. Numa visão estritamente progressista, avançar costuma significar deixar para trás práticas consideradas antigas, substituir tradições por sistemas mais eficientes e aproximar-se gradualmente de uma civilização tecnologicamente superior. Quando o passado de um povo foi deliberadamente destruído, desvalorizado ou narrado por quem o dominou, porém, a relação com a memória assume outro sentido. Recuperar o passado pode ser uma forma de produzir futuro, não de recusar sua chegada.
A própria palavra ancestralidade corre o risco de perder força quando utilizada como simples marcador estético. Ela não significa apenas colocar símbolos africanos numa nave espacial ou combinar roupas tradicionais com dispositivos eletrônicos. Em muitas dessas narrativas, o passado fornece modelos de conhecimento, vínculos comunitários, cosmologias e maneiras de compreender o indivíduo que interferem na própria construção do mundo especulativo. O futuro deixa de ser uma estrada que exige o abandono do que veio antes e passa a ser concebido como um espaço em que diferentes temporalidades podem coexistir.

Capa de O Último Ancestral
Ketu 3 e uma tecnologia que não precisa expulsar os espíritos
Fábio Kabral levou essa integração a uma direção particularmente explícita em O Caçador Cibernético da Rua 13, publicado em 2017. O romance acompanha João Arolê em Ketu 3, uma metrópole futurista marcada por tecnologia avançada e construída em diálogo com referências iorubás. Arolê é um caçador de espíritos malignos, e o universo reúne elementos que uma classificação convencional poderia separar entre ficção científica, fantasia e religião. Estudos sobre a obra destacam justamente a maneira como Kabral relaciona herança cultural africana, identidade afro-brasileira e imaginação tecnológica dentro do mesmo espaço narrativo.
Kabral utilizou também o termo MacumbaPunk para pensar uma ficção que se apropria da energia de gêneros tecnológicos sem aceitar que seus pressupostos culturais precisem permanecer intactos. A provocação contida no nome é importante. Se o cyberpunk tradicional tornou plausível imaginar interfaces neurais, megacorporações e cidades transformadas por redes digitais, por que uma ficção brasileira precisaria considerar menos plausível a presença estrutural de cosmologias e espiritualidades de matriz africana? A pergunta evidencia que aquilo que costuma ser chamado de realista dentro da ficção científica também depende de convenções culturais.
Uma pesquisa da Universidade de Brasília sobre o romance observa que sua construção desafia separações rígidas entre ciência e espiritualidade, material e imaterial, seres humanos e dimensões sobrenaturais. Essa integração interfere diretamente na organização do universo de Ketu 3 e não pode ser reduzida a uma decoração africana colocada sobre uma cidade cyberpunk. Trata-se de outra maneira de imaginar quais conhecimentos podem coexistir num mundo tecnologicamente avançado.
Essa diferença também ajuda a evitar uma oposição simplista em que cyberpunk seria estrangeiro e afrofuturismo seria brasileiro. O afrofuturismo pode absorver o cyberpunk, transformá-lo e até reivindicar suas ferramentas estéticas. Lu Ain-Zaila trabalha conscientemente com linguagens próximas do cyberpunk e do chamado cyberfunk, enquanto Kabral dialoga diretamente com imaginários tecnológicos que qualquer leitor do gênero reconheceria. O elemento decisivo não está em rejeitar influências estrangeiras, mas em não aceitar que elas determinem previamente quais corpos, memórias e concepções de mundo podem participar do futuro.
Lu Ain-Zaila e um futuro que precisa lembrar
A obra de Lu Ain-Zaila torna a relação entre temporalidade e ancestralidade ainda mais evidente. Pesquisadores têm apontado a autora, ao lado de Fábio Kabral, como uma das figuras precursoras da literatura afrofuturista contemporânea no Brasil. Em livros como Sankofia: breves histórias afrofuturistas, publicado em 2018, passado e futuro não aparecem como espaços isolados, e a recuperação de memórias negras participa diretamente da possibilidade de construir outras realidades.
Esse procedimento importa porque o apagamento histórico não desaparece automaticamente quando uma narrativa avança centenas de anos. Uma ficção pode colocar personagens negros no século XXV e ainda manter intactos os sistemas culturais que os transformaram em figuras periféricas no presente. O afrofuturismo de Lu Ain-Zaila trabalha contra essa possibilidade ao tratar memória e ancestralidade como formas de conhecimento capazes de atravessar o tempo. A especulação não serve apenas para perguntar quais máquinas existirão, mas para pensar o que sobreviverá, o que precisará ser recuperado e quais histórias continuarão disputando significado no futuro.
A autora também trabalha com problemas reconhecíveis da ficção científica, como degradação ambiental, desigualdade, tecnologia e violência urbana. Em Ìségún, por exemplo, a devastação dos mares participa de um cenário especulativo em que investigação, memória e ancestralidade continuam conectadas. A presença desses elementos mostra novamente como as fronteiras entre subgêneros podem ser menos importantes do que a perspectiva que reorganiza seus componentes. Um futuro ambientalmente degradado não precisa reproduzir exatamente o imaginário das grandes distopias climáticas anglófonas; pode ser atravessado por outras experiências históricas e outros modos de compreender a relação entre indivíduo, comunidade e mundo.

A escritura Lu Ain-Zaila. Foto: Reprodução/Paulo Santos
Chegar ao espaço também é uma disputa de imaginação
Sandra Menezes produz outro deslocamento em O céu entre mundos, publicado em 2021. O romance se passa no ano de 2773 e começa no exoplaneta Wangari, acompanhando Karima numa narrativa em que deslocamentos entre mundos convivem com questões de identidade e ancestralidade. Um estudo publicado pela Revista de Letras da Universidade Federal do Ceará destaca justamente a presença de afrocentricidade e ancestralidade na construção de uma narrativa que coloca uma protagonista negra dentro de um futuro espacial distante.
Pode parecer pouco revolucionário afirmar que pessoas negras estarão presentes no século XXVIII ou em outros planetas, mas essa aparente normalidade é precisamente parte da disputa. A ficção científica sempre participou da construção de expectativas culturais sobre quem representa a humanidade quando ela deixa a Terra, sobre quais sociedades sobrevivem ao futuro e sobre quais experiências continuam relevantes depois de transformações tecnológicas radicais. Colocar personagens negros no espaço não resolve por si só a questão da representação, mas permite que o próprio futuro deixe de ser imaginado como uma extensão automática das mesmas centralidades históricas.
Em O céu entre mundos, ancestralidade e futuro espacial não se anulam. Esse encontro ajuda a desmontar outra associação persistente: a ideia de que culturas ligadas à tradição pertencem ao passado, enquanto tecnologia e exploração espacial representam o futuro. A oposição parece natural apenas porque determinadas narrativas de modernização ensinaram a tratá-la dessa maneira. O afrofuturismo permite imaginar sociedades tecnologicamente avançadas sem exigir que elas se tornem culturalmente indistintas.
O Brasil não precisa imaginar o mesmo futuro dos Estados Unidos
Ale Santos já chamou atenção para uma diferença importante entre as tradições estadunidense e brasileira. Em entrevista de 2022, observou que o afrofuturismo norte-americano foi profundamente influenciado por questões como a corrida espacial e determinadas disputas geopolíticas, enquanto a produção brasileira pode encontrar suas próprias preocupações na experiência das periferias, nos biomas do país, na educação e em conflitos sociais específicos daqui. A distinção não estabelece duas categorias fechadas, mas lembra que o afrofuturismo muda quando atravessa diferentes experiências da diáspora.
Essa particularidade impede que o afrofuturismo brasileiro seja tratado simplesmente como uma importação estética associada ao sucesso de Pantera Negra. A popularidade de Wakanda foi importantíssima para ampliar o contato do público com determinados elementos afrofuturistas, mas a literatura brasileira desenvolveu seus próprios caminhos. Estudos recentes identificam um conjunto de escritores que inclui Lu Ain-Zaila, Fábio Kabral, Ale Santos, Sandra Menezes, Aldri Anunciação e Julio Pecly, entre outros, mostrando que já existe um campo suficientemente diverso para que suas obras sejam discutidas em relação umas com as outras, e não apenas como variações brasileiras de uma referência norte-americana.
O Último Ancestral é particularmente útil para perceber essa mudança de perspectiva porque seu futuro permanece reconhecivelmente brasileiro mesmo sem reproduzir o país de maneira literal. Obambo dialoga com a experiência das periferias, a segregação racial possui vínculos evidentes com estruturas históricas brasileiras e elementos de fé, cultura e história africana no Brasil participam da lógica do mundo construído por Santos. O romance ganhou espaço significativo fora dos círculos especializados em ficção científica e foi finalista tanto do Prêmio Jabuti quanto do CCXP Awards em 2022, demonstrando também que esse tipo de produção passou a ocupar posições mais visíveis no mercado editorial nacional.
O reconhecimento importa, mas talvez seja ainda mais importante observar o que ele torna possível. Quanto mais autores brasileiros conseguem publicar futuros construídos a partir de diferentes experiências culturais, menos necessidade existe de tratar qualquer tradição como padrão universal da ficção científica. Cyberpunk, space opera, distopia, ficção climática e outras formas continuam disponíveis, mas podem ser desmontadas, misturadas e reconstruídas segundo problemas que surgem daqui.
Palestra de Alê Santos no TEDx SãoPaulo
Tecnologia também carrega uma visão de mundo
Um dos efeitos mais interessantes do afrofuturismo está em retirar a tecnologia da posição de elemento supostamente neutro. Computadores, inteligências artificiais, modificações corporais e viagens espaciais são frequentemente tratados como sinais objetivos de avanço, embora toda tecnologia seja criada dentro de sociedades que determinam quem terá acesso a ela, para que será usada e quais conhecimentos serão reconhecidos como legítimos. A ficção científica consegue explorar essas perguntas justamente porque não precisa se limitar ao funcionamento das máquinas; pode imaginar as estruturas culturais que surgem ao redor delas.
Em O Último Ancestral, os Cygens mostram uma tecnologia ligada ao controle, à segregação e à manutenção de uma determinada ordem social, enquanto a Inteligência Artificial Mandinga abre outra possibilidade de relação entre conhecimento tecnológico e memória ancestral. Essa oposição torna mais complexa qualquer leitura em que tecnologia represente simplesmente progresso ou ameaça. A questão passa a ser quem constrói o sistema, quais valores foram incorporados a ele e a serviço de quem ele opera. Estudos dedicados ao romance têm ressaltado como essa combinação de espiritualidade, tecnologia e justiça social funciona como instrumento de contestação de estruturas coloniais.
Algo semelhante acontece quando Fábio Kabral imagina uma metrópole futurista cuja organização cultural não exige o desaparecimento de referências africanas ou quando Lu Ain-Zaila coloca saberes ancestrais em contato com sistemas tecnológicos. Pesquisas sobre a literatura afrofuturista brasileira têm utilizado a ideia de tecnologias ancestrais justamente para compreender obras em que formas de conhecimento africanas e afrodiaspóricas não são tratadas como resíduos de um passado pré-científico. Elas participam ativamente da construção do futuro e questionam a associação automática entre tecnologia e uma única tradição epistemológica.
Esse talvez seja um dos pontos em que o afrofuturismo oferece sua contribuição mais interessante para a própria ficção científica. Um gênero dedicado a imaginar transformações radicais deveria ser capaz de especular também sobre aquilo que uma sociedade considera conhecimento. Se podemos imaginar computadores conscientes, civilizações interestelares e corpos inteiramente reconstruídos, não há motivo para que o conceito de futuro permaneça preso à ideia de que toda evolução cultural precisa caminhar na direção de um mesmo modelo de racionalidade.
Quem tem direito ao futuro?
A pergunta do título não possui uma resposta apenas literária. Ter direito ao futuro significa também possuir a possibilidade de imaginá-lo a partir da própria experiência, sem depender de uma autorização externa para existir nele. Durante séculos, populações negras tiveram suas histórias contadas por outros, seus conhecimentos desqualificados e sua presença cultural frequentemente limitada a determinados lugares do passado. Uma ficção que recupera essas experiências para projetá-las adiante realiza, portanto, um movimento que envolve representação, mas não termina nela.
É por isso que reduzir o afrofuturismo brasileiro a uma espécie de cyberpunk com elementos africanos perde justamente aquilo que suas obras têm de mais interessante. Os prédios podem continuar altos, os carros podem voar, os corpos podem ser modificados e as inteligências artificiais podem controlar cidades. O que muda é a rede de significados que organiza esses elementos. Ancestralidade, memória, racismo, território, religiosidade e diáspora deixam de ocupar as margens da especulação e passam a interferir no próprio modo como o futuro é construído.
Isso também explica por que o passado aparece com tanta frequência em histórias ostensivamente voltadas para o amanhã. Para quem teve parte da própria história apagada, avançar pode exigir recuperar aquilo que foi interrompido. O futuro não precisa ser entendido como um lugar que começa quando finalmente deixamos nossas origens para trás; pode ser o espaço em que conhecimentos, vínculos e memórias encontram novas maneiras de existir. O afrofuturismo brasileiro trabalha com essa possibilidade sem precisar abandonar computadores, naves, inteligências artificiais ou cidades tecnológicas.
A ficção científica sempre perguntou como viveremos amanhã, mas essa pergunta contém outra que nem sempre recebeu a mesma atenção: quem está incluído nesse “nós”? Obras como O Último Ancestral, O Caçador Cibernético da Rua 13, Sankofia e O céu entre mundos ampliam a resposta porque não se contentam em transportar personagens negros para um cenário futurista já pronto. Elas participam da construção de futuros em que outras histórias, outras cosmologias e outras formas de conhecimento também têm autoridade para decidir o que significa avançar.
Fontes consultadas
- SANTOS, Ale — O Último Ancestral. HarperCollins Brasil, 2021. Fonte primária e obra central da análise, utilizada para a construção de Obambo, a cidade de futurista, a articulação entre tecnologia e ancestralidade, as referências afro-brasileiras e a maneira como o romance imagina futuros negros a partir de experiências culturais específicas do Brasil. A editora mantém uma página própria da obra.
HarperCollins Brasil — O Último Ancestral - Câmara dos Deputados — “Escritor convidado: Ale Santos”. Apresentação institucional de Ale Santos e de O Último Ancestral, descrito como ficção científica afrofuturista que incorpora referências à fé, à cultura e à história africana no Brasil.
Câmara dos Deputados — Escritor convidado: Ale Santos - HarperCollins Brasil — perfil de Ale Santos. Referência para a trajetória do escritor e para sua articulação entre ficção científica, afrocentricidade, ancestralidade e cultura afro-brasileira. A editora registra também que O Último Ancestral foi finalista tanto do Prêmio Jabuti quanto do CCXP Awards em 2022.
HarperCollins Brasil — Ale Santos - LIMA, George — “Literatura de ficção afrofuturista no Brasil”. Terra Roxa e Outras Terras: Revista de Estudos Literários, v. 44, n. 2, 2024, p. 56–68. Estudo sobre a formação de uma ficção afrofuturista especificamente brasileira, abordando autores como Fábio Kabral, Lu Ain-Zaila, Sandra Menezes e o próprio Ale Santos e defendendo sua relação com a experiência contemporânea do sujeito negro brasileiro.
Terra Roxa e Outras Terras — Literatura de ficção afrofuturista no Brasil - TSZESNIOSKI, Roberta Reis Bahia; QUELUZ, Gilson Leandro — “Revisitando a nós mesmos: os caminhos da ancestralidade e temporalidade na construção de uma literatura afrofuturista”. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n. 70, 2023. Referência especialmente importante para diferenciar o afrofuturismo brasileiro de uma simples transposição estética do cyberpunk: o estudo destaca ancestralidade, temporalidade, tecnologia, resistência, identidade e o protagonismo negro como componentes articulados da literatura afrofuturista nacional.
SciELO — Revisitando a nós mesmos - OLIVEIRA, Carmen; LOPES, Letícia V. da Silva Cruz — “Ciência e tecnologia ancestral no afrofuturismo literário brasileiro: alguns casos”. Revista Ñanduty, v. 13, n. 21, 2025, p. 353–381. Estudo sobre a ancestralidade como elemento central do afrofuturismo brasileiro e sobre a articulação entre tecnologia, espiritualidade, saberes ancestrais e resistência cultural em obras como O Céu entre Mundos, Ancestral e a trilogia Ketu 3.
Revista Ñanduty — Ciência e tecnologia ancestral no afrofuturismo literário brasileiro - SILVA, Rhuan Felipe Scomação da — “O afrofuturismo no Brasil: uma leitura do romance O Caçador Cibernético da Rua 13 e sua relação com a construção de uma identidade afro-brasileira na ficção científica”. Linguagens — Revista de Letras, Artes e Comunicação, v. 16, n. 3, 2022, p. 76–89. Estudo utilizado para a relação entre afrofuturismo, herança africana, identidade afro-brasileira, ficção científica e a construção de imaginários que confrontam espaços culturais hegemonicamente ocidentalizados.
Linguagens — O afrofuturismo no Brasil - ARAÚJO, Joyce Viana de — Afrofuturismo: o retorno ancestral em O Caçador Cibernético da Rua Treze, de Fábio Kabral. Universidade de Brasília, 2020. Trabalho utilizado para a relação entre afrofuturismo, espiritualidades de matriz africana, ancestralidade e a integração entre ciência, natureza, materialidade e espiritualidade na construção de futuros afrocentrados.
Universidade de Brasília — Afrofuturismo: o retorno ancestral - PRADO, Janaina Claudino; PINHEIRO NETO, José Elias — “Afrofuturismo em O céu entre mundos (2021): uma jornada de empoderamento e imaginação”. Revista de Letras, Universidade Federal do Ceará, v. 1, n. 43, 2024. Estudo que relaciona afrofuturismo, ancestralidade, afrocentricidade, empoderamento e ressignificação das identidades negras por meio da ficção especulativa brasileira.
Revista de Letras — Afrofuturismo em O céu entre mundos - DENUBILA, Rodrigo Valverde — “Ficção científica afrofuturista: entre ancestralidade, marginalidade, ciência e pertencimento”. Itinerários — Revista de Literatura, n. 58, 2024, p. 223–240. Estudo de caráter mais amplo sobre afrofuturismo, ficção científica, diáspora, cultura africana, ciência, tecnologia, marginalização, identidade e pertencimento, utilizado para situar o afrofuturismo como uma forma de ampliar e reorientar os futuros tradicionalmente imaginados pela ficção científica.
Itinerários — Ficção científica afrofuturista
