Poucas histórias de fantasmas permaneceram tão dependentes da dúvida quanto A Volta do Parafuso. Publicada por Henry James em 1898, a novela apresenta todos os elementos necessários para uma narrativa sobrenatural tradicional: uma grande propriedade isolada, duas crianças cercadas por acontecimentos inexplicáveis, empregados mortos que parecem retornar e uma jovem governanta convencida de que precisa impedir que forças malignas tomem posse daqueles que estão sob seus cuidados. Ao mesmo tempo, quase tudo o que o leitor sabe sobre essas aparições chega através da própria governanta, e James constrói sua narrativa de maneira que as certezas dessa personagem nunca possam ser automaticamente transformadas em certezas do texto.
Essa característica permitiu que a obra atravessasse mais de um século sendo interpretada de maneiras incompatíveis sem que uma delas conseguisse eliminar definitivamente as demais. É possível ler Peter Quint e Miss Jessel como fantasmas reais que tentam alcançar Miles e Flora, mas também é possível considerar que as aparições existem somente na percepção de uma narradora emocionalmente pressionada, progressivamente obcecada por aquilo que acredita estar acontecendo em Bly. Entre essas posições existem ainda interpretações que deslocam o problema da existência dos fantasmas para questões de repressão, autoridade, sexualidade, classe social, infância e confiabilidade narrativa. A força da novela está justamente em tornar essas leituras possíveis sem fornecer ao leitor uma resposta externa capaz de decidir entre elas.
A publicação de A Volta do Parafuso
A Volta do Parafuso apareceu inicialmente em Collier’s Weekly, nos Estados Unidos, em doze partes publicadas entre 27 de janeiro e 16 de abril de 1898. Em outubro daquele mesmo ano, a narrativa foi reunida com “Covering End” no volume The Two Magics, publicado pela Macmillan em Nova York e pela Heinemann em Londres. Uma década depois, James ainda revisaria o texto para sua chamada New York Edition, realizando diversas alterações estilísticas sem modificar fundamentalmente a trama.
A obra surgiu no final de um século em que as histórias de fantasmas já possuíam uma longa tradição na literatura britânica e norte-americana. James utiliza vários elementos reconhecíveis desse repertório, incluindo a casa de campo isolada, os mortos que aparentemente retornam, segredos envolvendo antigos empregados e uma narrativa transmitida como testemunho de acontecimentos extraordinários. O tratamento desses elementos, entretanto, aproxima o sobrenatural da percepção individual, fazendo com que aquilo que ocorre externamente em Bly nunca possa ser completamente separado do estado psicológico da pessoa que relata os acontecimentos.
O próprio James tratou a novela posteriormente como uma experiência cuidadosamente construída para produzir terror e incerteza. Em seu prefácio para a edição de Nova York, ele ressaltou a importância de deixar parte da ameaça indefinida, permitindo que a imaginação do leitor completasse aquilo que não recebia uma explicação integral. Essa estratégia ajuda a compreender por que tentar transformar a história em um enigma cuja resposta estaria escondida em alguma passagem específica frequentemente diminui sua complexidade: James organizou a narrativa para que a dúvida fosse parte da experiência e não apenas um obstáculo temporário à revelação final.
Uma história dentro de outra história
Antes de a governanta assumir a narração, A Volta do Parafuso começa com um grupo reunido em uma casa durante o período natalino. As pessoas contam histórias assustadoras diante da lareira quando uma delas relata um episódio sobrenatural envolvendo uma criança. A situação leva Douglas, um dos presentes, a afirmar que conhece uma história ainda mais perturbadora, justamente porque envolve duas crianças em vez de uma.
Douglas possui um manuscrito escrito por uma mulher que conheceu muitos anos antes e que já havia morrido quando aquela reunião aconteceu. Depois de esperar que o documento lhe seja enviado, ele começa a lê-lo para os outros convidados. A partir desse momento, a voz da governanta ocupa quase toda a narrativa, e o enquadramento inicial não retorna para oferecer algum comentário posterior sobre aquilo que foi contado.
Essa estrutura cria uma distância importante entre os acontecimentos e o leitor. Não estamos observando Bly diretamente, mas lendo uma reprodução de um relato escrito algum tempo depois dos fatos, entregue a Douglas pela própria protagonista e posteriormente transmitido por ele a outro narrador. O manuscrito possui, portanto, autoridade suficiente para organizar toda a história e, simultaneamente, nenhuma garantia externa de que sua autora compreendeu corretamente aquilo que presenciou.
O desaparecimento da moldura narrativa depois que o manuscrito começa a ser lido torna essa situação ainda mais importante. Não existe uma última conversa entre Douglas e seus ouvintes capaz de confirmar a história, comentar a saúde mental da governanta ou oferecer provas independentes sobre as aparições. Estudos sobre a estrutura da novela têm justamente apontado que esse enquadramento participa da construção da ambiguidade ao aumentar a distância entre o acontecimento original e quem finalmente o recebe.
A governanta chega a Bly
A protagonista da história nunca recebe um nome. Ela é uma jovem filha de um clérigo que aceita seu primeiro emprego como governanta depois de encontrar em Londres o tio e responsável por duas crianças órfãs, Miles e Flora. O homem é descrito como atraente, rico e pouco interessado nas responsabilidades associadas aos sobrinhos, estabelecendo uma condição incomum para a contratação: a governanta deverá resolver todos os problemas por conta própria e nunca incomodá-lo com assuntos relacionados às crianças.
A jovem aceita a função e segue para Bly, a propriedade rural onde os irmãos vivem sob os cuidados dos empregados. A casa inicialmente não corresponde às expectativas de uma típica mansão aterrorizante. A governanta encontra um lugar que pode parecer belo e acolhedor, conhece Flora e rapidamente desenvolve por ela uma intensa admiração. A principal companhia adulta da protagonista é Mrs. Grose, a governanta doméstica da propriedade, que conhece a história da família e gradualmente fornece informações sobre os antigos funcionários.
O primeiro problema surge antes mesmo de Miles retornar para casa. Uma carta informa que o garoto foi expulso de sua escola, mas não explica claramente o motivo. A ausência dessa informação torna-se uma das primeiras lacunas significativas da narrativa, porque a governanta passa a interpretar o comportamento da criança enquanto tenta conciliar duas imagens aparentemente contraditórias: Miles parece extraordinariamente educado, inteligente e encantador, mas alguma coisa suficientemente grave aconteceu para que a escola se recusasse a aceitá-lo de volta.
A governanta não procura esclarecer imediatamente o episódio com a escola ou com o tio. Sua própria percepção das crianças passa a ocupar o espaço deixado pelas informações ausentes. Miles e Flora são descritos repetidamente em termos quase idealizados, e justamente por isso qualquer comportamento que pareça escapar dessa imagem ganha uma dimensão ameaçadora. A novela começa a construir seu horror através dessa diferença entre o que a narradora vê, aquilo que ela acredita compreender e o que permanece efetivamente demonstrável.
Peter Quint aparece na torre
As suspeitas sobrenaturais começam quando a governanta vê um homem desconhecido no alto de uma das torres de Bly. O encontro é perturbador não apenas porque ela não reconhece a figura, mas porque o homem parece observá-la silenciosamente e desaparece sem que nenhuma explicação seja encontrada para sua presença. Mais tarde, ela volta a vê-lo, dessa vez do lado de fora de uma janela, olhando para o interior da casa.
A governanta descreve o desconhecido a Mrs. Grose sem inicialmente saber quem ele é. A descrição leva a mulher a identificá-lo como Peter Quint, antigo empregado do tio das crianças. Quint havia trabalhado em Bly, possuíra considerável liberdade na ausência do patrão e mantivera proximidade especialmente preocupante com Miles. Há, porém, uma informação que transforma a identificação em evidência aparentemente sobrenatural: Peter Quint está morto.
Para uma leitura que aceita os fantasmas como reais, esse momento é um dos argumentos mais fortes oferecidos pelo texto. A governanta aparentemente descreve com precisão um homem que jamais conheceu, permitindo que Mrs. Grose reconheça uma pessoa morta antes que seu nome seja apresentado. Seria necessário explicar como a jovem poderia possuir aquelas informações caso Quint existisse apenas em sua imaginação.
Mesmo esse indício, entretanto, não encerra o problema. Toda a conversa continua sendo transmitida através do manuscrito da própria governanta, e o leitor não possui acesso independente às palavras de Mrs. Grose. A estrutura narrativa significa que até as evidências utilizadas para confirmar a percepção da narradora chegam ao leitor filtradas pela mesma pessoa cuja percepção está sendo colocada em dúvida.
Miss Jessel junto ao lago
A segunda figura associada às aparições é Miss Jessel, a governanta que ocupava o cargo antes da protagonista. A jovem a vê inicialmente nas proximidades do lago enquanto está acompanhada de Flora. Pela descrição fornecida posteriormente, Mrs. Grose identifica a figura como a antiga governanta, que também havia morrido antes da chegada da narradora a Bly.
A história de Miss Jessel está ligada à de Peter Quint. Os dois teriam mantido uma relação considerada inadequada pelas convenções sociais daquele ambiente, marcada também pela diferença de posição entre uma governanta e um empregado. James evita explicar detalhadamente o que ocorreu entre eles, assim como evita esclarecer exatamente aquilo que Quint teria feito em sua proximidade com Miles. A história dos mortos chega através de insinuações, frases incompletas e reações de Mrs. Grose, obrigando a governanta e o leitor a preencher diversas lacunas.
A partir dessas informações, a protagonista constrói uma interpretação cada vez mais abrangente. Quint e Miss Jessel não estariam simplesmente aparecendo na propriedade; eles desejariam alcançar novamente Miles e Flora. Mais perturbador ainda, a governanta passa a acreditar que as crianças conseguem ver os mortos e deliberadamente fingem que nada está acontecendo.
Essa conclusão modifica completamente sua relação com os irmãos. O silêncio das crianças deixa de ser evidência de que talvez não exista nada para ver e passa a servir como prova de que elas escondem alguma coisa. A partir desse ponto, praticamente qualquer comportamento pode ser incorporado ao sistema interpretativo da narradora, porque inocência aparente e corrupção secreta passam a coexistir em sua visão dos acontecimentos.
Miles e Flora
Miles e Flora estão no centro da novela, mas Henry James raramente permite acesso direto àquilo que pensam. Quase tudo o que sabemos sobre eles é observado pela governanta, interpretado por Mrs. Grose ou inferido a partir de conversas cujo significado permanece aberto. As crianças podem parecer inocentes, assustadas, manipuladoras ou já comprometidas com alguma coisa que os adultos não compreendem, dependendo da leitura adotada.
Flora é inicialmente tratada pela governanta como uma criança quase perfeita. A relação começa a se deteriorar à medida que a protagonista se convence de que a menina está secretamente em contato com Miss Jessel. O conflito atinge seu ponto mais grave quando a governanta leva Mrs. Grose até o lago e afirma que a aparição está presente. Mrs. Grose não consegue enxergá-la, enquanto Flora reage com intensa rejeição à acusação e passa a demonstrar repulsa pela própria governanta.
A cena pode sustentar interpretações opostas. Caso Miss Jessel esteja realmente ali, Flora pode estar negando deliberadamente a presença da morta e demonstrando até que ponto sua relação com ela se tornou profunda. Caso não exista fantasma algum, o episódio mostra uma criança aterrorizada porque a mulher responsável por seus cuidados está apontando para um espaço vazio e insistindo que existe alguém naquele lugar.
Miles permanece igualmente difícil de interpretar. Sua expulsão da escola nunca recebe uma explicação suficiente, e algumas de suas conversas com a governanta revelam uma criança muito consciente da maneira como é percebida pelos adultos. Ele pode estar tentando recuperar liberdade diante de uma mulher cada vez mais controladora, escondendo experiências relacionadas a Quint ou manipulando deliberadamente as inseguranças da governanta. James nunca oferece um ponto de vista independente capaz de decidir definitivamente entre essas possibilidades.
O problema das aparições
Há uma diferença decisiva entre afirmar que a governanta vê fantasmas e afirmar que os fantasmas existem. A primeira coisa é indiscutível dentro da narrativa: ela relata repetidamente encontros com Quint e Miss Jessel e reage a eles como experiências absolutamente reais. O segundo ponto permanece aberto porque nenhum personagem cuja percepção possamos verificar independentemente confirma de maneira inequívoca a presença dessas figuras.
Mrs. Grose acredita em grande parte na governanta, mas não vê os mortos quando está ao lado dela. Miles e Flora são interpretados como capazes de enxergá-los, porém nunca oferecem uma confirmação clara que resolva o problema. Quando seus comportamentos parecem indicar algum conhecimento especial, ainda resta decidir se esse conhecimento está relacionado aos fantasmas, aos acontecimentos anteriores em Bly ou simplesmente às expectativas que a narradora passou a projetar sobre eles.
Essa construção diferencia A Volta do Parafuso de uma história em que o sobrenatural é mantido em segredo apenas até uma revelação final. James não apresenta, nas últimas páginas, um novo narrador afirmando que os fantasmas eram reais, nem encontra documentos que expliquem tudo, nem expõe uma fraude. A ausência de uma verificação independente permanece até o fim, o que permitiu que a oposição entre interpretações “aparicionistas” e “não aparicionistas” se tornasse uma das discussões críticas mais duradouras sobre a obra.
Podemos confiar na governanta?
Questionar a governanta não significa simplesmente classificá-la como mentirosa. Ela não demonstra estar tentando enganar deliberadamente quem lerá seu relato. O problema é mais complexo porque uma narradora pode descrever sinceramente aquilo que acredita ter acontecido e ainda assim interpretar de maneira equivocada as experiências que viveu.
Desde o início, a protagonista encontra-se em uma posição emocionalmente delicada. É jovem, inexperiente e assume sozinha a responsabilidade por duas crianças em uma propriedade afastada, enquanto o homem que a contratou determinou que não fosse procurado. O texto também sugere que ela ficou impressionada com esse empregador, acrescentando às responsabilidades profissionais uma dimensão emocional que alguns críticos utilizaram posteriormente para interpretar seu comportamento.
Depois das primeiras aparições, a governanta desenvolve uma convicção extraordinariamente forte de que apenas ela compreende o verdadeiro perigo existente em Bly. Essa certeza também lhe concede um papel específico: ela passa a enxergar-se como a única pessoa capaz de salvar Miles e Flora. Cada nova dúvida pode, portanto, ser incorporada a uma missão na qual sua própria importância aumenta progressivamente.
A narração em primeira pessoa coloca o leitor dentro dessa lógica. Quando a governanta sente medo, o leitor experimenta Bly através do medo dela; quando interpreta uma expressão infantil como sinal de cumplicidade, não existe outra consciência disponível para corrigi-la. Estudos narratológicos sobre a novela continuam destacando justamente essa tensão entre a autoridade proporcionada pela primeira pessoa e as limitações que tornam essa mesma autoridade instável.
A leitura sobrenatural
Aceitar Quint e Miss Jessel como aparições verdadeiras produz uma história coerente. A governanta descreve Quint antes que Mrs. Grose lhe revele sua identidade, os antigos empregados possuíam relações importantes com as crianças e acontecimentos posteriores parecem sugerir que Miles e Flora sabem mais sobre os mortos do que admitem. Nessa interpretação, a protagonista percebe um perigo que os outros personagens não conseguem enfrentar diretamente e tenta proteger duas crianças submetidas a uma influência sobrenatural.
Há também uma longa tradição da história de fantasmas por trás da novela, e James escreveu a obra conscientemente dentro desse repertório. A presença de mortos retornando a uma grande residência, os encontros silenciosos em janelas, corredores, torres e margens de um lago e a progressiva invasão de espaços inicialmente seguros funcionam independentemente de qualquer interpretação psicológica posterior.
A possibilidade sobrenatural não desaparece quando reconhecemos as limitações da narradora. Uma pessoa pode ser ansiosa, obsessiva ou emocionalmente instável e ainda assim encontrar um fantasma. A grande eficiência da construção de James está justamente em impedir que fragilidade psicológica funcione automaticamente como prova de que aquilo que a personagem vê não existe.
Se os fantasmas são reais, a tragédia de Bly passa a envolver também a dificuldade de provar uma ameaça que não se apresenta igualmente para todos. A governanta pode estar correta sobre o perigo e, ainda assim, tornar a situação pior através de suas interpretações e métodos. Nesse caso, existência sobrenatural e erro humano não são hipóteses mutuamente excludentes.
A leitura psicológica
A interpretação psicológica ganhou enorme força no século XX, especialmente depois do ensaio “The Ambiguity of Henry James”, publicado por Edmund Wilson em 1934. Wilson argumentou que as aparições poderiam ser compreendidas como alucinações da governanta e relacionou seu comportamento a repressões e neuroses. Embora ele não tenha sido a primeira pessoa a propor uma leitura não sobrenatural, a influência do ensaio transformou profundamente a história crítica da obra.
Nessa leitura, Bly torna-se menos uma casa invadida pelos mortos do que um ambiente progressivamente reorganizado pela imaginação da narradora. A ausência do empregador, sua fascinação inicial por ele, a responsabilidade excessiva, a relação com as crianças e os relatos sobre Quint e Miss Jessel forneceriam elementos que sua mente reorganiza em uma narrativa de corrupção sobrenatural.
A própria forma como a governanta interpreta o silêncio passa a ser especialmente significativa. Se uma criança não admite ter visto o fantasma, isso é prova de que está escondendo a verdade; se demonstra carinho, pode estar tentando enganá-la; se pede liberdade, talvez esteja sob influência maligna. Um sistema interpretativo dessa natureza é difícil de contradizer porque qualquer evidência contrária pode ser transformada em confirmação.
Essa leitura também produz uma versão particularmente perturbadora do papel da governanta. Ela acredita estar protegendo as crianças, mas pode estar expondo-as a uma situação de crescente pressão e medo criada por suas próprias convicções. Flora acaba afastada de Bly depois de rejeitá-la violentamente, enquanto Miles permanece sozinho com a mulher que deseja fazê-lo admitir aquilo que ela acredita já saber.
Mais do que escolher entre fantasmas e alucinações
Reduzir A Volta do Parafuso a duas respostas possíveis — “os fantasmas existem” ou “a governanta enlouqueceu” — não contempla tudo o que a narrativa permite discutir. O texto também está interessado em como pessoas transformam observações incompletas em certeza, em como adultos interpretam crianças e em como relações de poder interferem naquilo que pode ou não ser dito.
A posição social da governanta é particularmente importante. Ela não pertence à família que emprega seus serviços, mas também não ocupa exatamente a mesma posição dos demais trabalhadores domésticos. É uma jovem educada colocada entre diferentes camadas sociais e encarregada de representar uma autoridade que não possui plenamente. O homem que efetivamente controla Bly permanece ausente por escolha própria, deixando que ela assuma uma responsabilidade sem oferecer estrutura para exercê-la.
Quint também desestabiliza essas hierarquias. Mrs. Grose recorda que o empregado possuía uma liberdade incomum durante a ausência do patrão e sugere comportamentos que ultrapassavam os limites considerados aceitáveis naquela casa. Miss Jessel, por outro lado, ocupava anteriormente a mesma função da protagonista e terminou ligada a Quint por uma relação que o texto mantém cercada de insinuações.
As ambiguidades sexuais que diversos críticos encontraram na obra surgem justamente desse método indireto. James raramente nomeia com precisão aquilo que aconteceu anteriormente em Bly ou aquilo que a governanta teme que aconteça com as crianças. Palavras como corrupção, influência e conhecimento assumem significados potencialmente morais, sexuais e sobrenaturais sem que o texto determine completamente qual deles deve prevalecer.
O que as crianças sabem?
Uma das questões mais inquietantes do livro não é simplesmente se Miles e Flora veem os fantasmas, mas o que eles sabem. A governanta está convencida de que existe uma comunicação secreta entre as crianças e os antigos empregados, mas nunca consegue obter uma confissão suficientemente clara para encerrar suas suspeitas. Quanto mais tenta interpretar os irmãos, mais difícil se torna distinguir comportamento infantil, conhecimento proibido e projeção adulta.
A expulsão de Miles funciona como exemplo perfeito dessa estratégia. O leitor nunca recebe uma explicação completa sobre aquilo que ele fez na escola. Miles posteriormente oferece algumas informações, mas elas permanecem vagas o bastante para sustentar diferentes leituras. O espaço deixado pela ausência de detalhes é preenchido primeiro pela imaginação da governanta e depois pela do próprio leitor.
A relação entre infância e inocência torna-se, assim, instável. A narradora inicialmente considera os irmãos tão belos e agradáveis que quase não consegue imaginar qualquer culpa real neles. Depois passa a acreditar que justamente essa aparência inocente pode esconder uma corrupção muito mais profunda. As duas interpretações dependem de expectativas adultas sobre aquilo que uma criança deveria ser.
James não transforma Miles e Flora simplesmente em símbolos de pureza nem em crianças demoníacas. O comportamento deles permanece suficientemente humano para que possam ser assustados, inteligentes, manipuladores, afetivos e contraditórios. O horror aumenta porque o leitor nunca recebe acesso direto a uma consciência infantil capaz de explicar aquilo que os adultos estão observando.
O fim de Flora
A ruptura definitiva entre Flora e a governanta ocorre junto ao lago. Convencida de que Miss Jessel está presente, a narradora exige implicitamente que a menina reconheça aquilo que ela própria consegue ver. Mrs. Grose está ao lado das duas, mas não percebe aparição alguma, criando a situação mais próxima que o texto oferece de um teste externo para as visões.
Flora reage com horror e rejeição, pedindo para afastar-se da governanta. Posteriormente, Mrs. Grose relata que a menina utilizou uma linguagem surpreendentemente desagradável durante a noite, algo que a governanta interpreta como prova da corrupção que vinha tentando demonstrar. A mesma informação, entretanto, pode ser compreendida como reação de uma criança submetida a uma experiência assustadora e desejosa de escapar da pessoa que a provocou.
Mrs. Grose decide levar Flora embora de Bly. A saída da menina separa os dois irmãos e deixa a protagonista sozinha com Miles, preparando a última etapa da história. Se a governanta estava tentando proteger as crianças de duas presenças sobrenaturais, a estratégia produziu uma configuração perigosa: Flora foi afastada e Miles permanece submetido àquilo que ela considera a influência de Quint.
Se suas percepções estavam equivocadas, o resultado é igualmente perturbador por razões diferentes. A mulher que acredita possuir uma missão de salvamento eliminou os demais adultos do espaço imediato e conseguiu finalmente ficar a sós com a criança em torno da qual concentrou grande parte de suas suspeitas.
Miles e o final da novela
As últimas páginas aproximam a governanta e Miles em uma conversa que mistura afeto, interrogatório e confronto. Ela tenta finalmente obter respostas sobre a expulsão da escola e sobre aquilo que acredita existir entre o menino e Peter Quint. A aparição do antigo empregado surge novamente diante dela, enquanto Miles parece reagir ao nome de Quint em meio à crescente pressão exercida pela governanta.
O momento poderia funcionar como confirmação do sobrenatural, especialmente porque Miles pronuncia o nome de Peter Quint. Mesmo assim, a governanta já havia falado sobre ele, e a sequência permanece inteiramente narrada por ela. Aquilo que o garoto vê, entende ou acredita naquele instante nunca recebe uma descrição independente.
A cena termina com a morte de Miles nos braços da governanta. James não fornece uma explicação médica clara, nem introduz uma testemunha capaz de determinar exatamente aquilo que aconteceu. A narradora acredita ter enfrentado Quint e libertado o menino da presença do fantasma, mas percebe imediatamente que o coração da criança parou.
A ausência de uma conclusão exterior à governanta preserva a incerteza até a última linha. Se Quint existe, a morte de Miles pode ser consequência do confronto com a entidade e do rompimento de sua influência. Se o fantasma não existe, a criança morreu durante um interrogatório emocionalmente extremo conduzido por uma mulher convencida de que estava salvando sua vida. Em nenhuma das possibilidades o encerramento devolve ao leitor uma posição confortável.
A disputa crítica sobre os fantasmas
As primeiras décadas de recepção foram marcadas principalmente pela leitura da obra como uma extraordinária história de fantasmas, embora interpretações alternativas começassem a surgir ainda antes de Edmund Wilson. A publicação de seu ensaio em 1934, porém, transformou a questão psicológica em uma das linhas dominantes do debate crítico e abriu uma longa disputa entre aqueles que consideravam as aparições reais dentro da ficção e aqueles que entendiam a governanta como fonte das próprias assombrações.
A controvérsia produziu quantidade extraordinária de estudos. Pesquisadores examinaram as descrições de Quint, as reações de Mrs. Grose, a cronologia das aparições, as mudanças entre diferentes versões do texto, a linguagem utilizada pela governanta e até as circunstâncias nas quais o manuscrito chega ao narrador inicial. O fato de análises minuciosas conseguirem chegar a conclusões opostas demonstra até que ponto a obra foi construída sobre evidências que podem adquirir significados diferentes dependendo da estrutura interpretativa adotada.
Outras abordagens ampliaram a discussão para além dessa oposição. A novela foi examinada através da psicanálise, da narratologia, dos estudos de gênero, das relações de classe, da história da infância e de teorias sobre a literatura fantástica. Uma pesquisa dedicada à própria história da recepção demonstra como sucessivas escolas críticas encontraram novos problemas no mesmo conjunto de ambiguidades narrativas.
Essa trajetória explica por que uma resposta definitiva sobre os fantasmas seria pouco útil para um verbete sobre a obra. A história crítica de A Volta do Parafuso não representa um século de leitores fracassando em descobrir a solução correta. Ela demonstra como James construiu uma narrativa capaz de sustentar diferentes sistemas de interpretação sem se reduzir completamente a nenhum deles.
The Innocents e a versão cinematográfica mais influente
Entre as numerosas adaptações, The Innocents, dirigido por Jack Clayton e lançado em 1961, tornou-se provavelmente a versão cinematográfica mais celebrada da novela. Deborah Kerr interpreta a governanta, chamada no filme de Miss Giddens, em uma produção em preto e branco que utiliza composição visual, profundidade de campo, iluminação e som para preservar grande parte da incerteza do texto. O roteiro teve participação de William Archibald e Truman Capote.
O filme não tenta eliminar a possibilidade sobrenatural nem transforma diretamente a governanta em uma mulher delirante. Em vez disso, explora a sugestão visual e sonora, permitindo que diversas aparições possam ser entendidas tanto como ameaças objetivas quanto como elementos profundamente associados à experiência subjetiva da protagonista. O British Film Institute considera a produção uma das grandes adaptações de histórias de fantasmas e destaca justamente sua habilidade em trabalhar sugestão e ambiguidade.
Algumas escolhas naturalmente tornam explícitas coisas que James podia manter apenas na linguagem. O cinema precisa mostrar corpos, rostos, espaços e reações, e a imagem de Peter Quint sobre a torre ou de Miss Jessel junto ao lago transforma em experiência visual aquilo que no livro existe dentro de uma narração. Clayton contorna parte desse problema evitando que a presença da câmera funcione como confirmação absoluta de uma realidade independente da governanta.
O resultado é uma obra que preserva o problema central sem simplesmente reproduzir o romance cena por cena. The Innocents demonstra como uma adaptação pode tornar o fantástico visível e ainda assim manter a pergunta fundamental sobre aquilo que estamos realmente vendo.
Benjamin Britten e outras adaptações
A Volta do Parafuso também teve uma trajetória particularmente importante no teatro e na música. Em 1954, o compositor britânico Benjamin Britten estreou em Veneza uma ópera de câmara baseada na novela, com libreto de Myfanwy Piper. A obra organiza a história em um prólogo e dois atos e transforma a crescente tensão de Bly em uma estrutura musical rigorosa, preservando a governanta, Miles, Flora, Mrs. Grose, Quint e Miss Jessel como figuras centrais.
A novela recebeu ainda numerosas versões para cinema e televisão, além de peças teatrais, releituras literárias e obras inspiradas livremente por sua premissa. Essa capacidade de adaptação decorre em parte da estrutura relativamente simples de seus elementos externos: uma mansão, uma governanta, duas crianças e duas possíveis aparições oferecem material facilmente reconhecível para diferentes mídias.
O desafio está em preservar aquilo que torna esses elementos interessantes. Uma adaptação que confirme integralmente os fantasmas transforma a história em uma narrativa de assombração mais convencional; outra que declare explicitamente que tudo aconteceu na imaginação da governanta converte a obra em um estudo psicológico resolvido. As versões mais próximas do efeito de James costumam encontrar maneiras diferentes de permanecer entre essas possibilidades.
Essa permanência também explica por que nomes, imagens e situações da novela continuam reaparecendo em obras bastante afastadas do texto original. Bly, Miles, Flora, Quint e Miss Jessel tornaram-se componentes reconhecíveis do imaginário da casa assombrada, mas a relação entre eles continua suficientemente aberta para ser reorganizada por cada nova interpretação.
O horror de não poder confirmar aquilo que vemos
A Volta do Parafuso continua sendo uma história de fantasmas mesmo quando lida por alguém que não acredita que seus fantasmas existam. Isso acontece porque a experiência sobrenatural da governanta organiza todos os acontecimentos e porque a possibilidade de que ela esteja errada não torna a situação menos ameaçadora. Apenas muda a origem do perigo.
Se Quint e Miss Jessel realmente retornaram, a governanta encontra-se diante de forças que os demais adultos não conseguem perceber e que parecem possuir uma relação anterior com duas crianças. Se as aparições nascem de sua própria mente, Miles e Flora estão presos em Bly sob a autoridade de uma mulher cuja percepção da realidade está se deteriorando. Uma interpretação coloca o horror fora da personagem; a outra o coloca dentro dela.
A novela se torna ainda mais complexa porque não obriga o leitor a escolher apenas uma dessas estruturas. A governanta pode interpretar incorretamente acontecimentos reais, os fantasmas podem existir sem que todas as conclusões dela estejam corretas ou a própria divisão entre experiência sobrenatural e experiência psicológica pode ser insuficiente para explicar aquilo que James constrói.
Por isso, a pergunta mais produtiva deixada por A Volta do Parafuso não é simplesmente “os fantasmas existem?”. A questão passa a envolver aquilo que fazemos quando uma história depende integralmente de uma consciência que não podemos verificar de fora. James transforma o leitor em participante desse problema: recebemos as mesmas evidências incompletas, tentamos organizá-las e, assim como a governanta, corremos o risco de confundir nossa interpretação com aquilo que realmente aconteceu em Bly.
Fontes consultadas:
- Project Gutenberg — The Turn of the Screw, de Henry James. Texto integral da obra em domínio público. Project Gutenberg — The Turn of the Screw
- Wikisource — The Turn of the Screw. Página que reúne as diferentes versões da obra e registra sua publicação inicial em Collier’s Weekly, em 1898, além das primeiras edições em livro. Wikisource — The Turn of the Screw
- University of Texas Press — Thomas Mabry Cranfill e Robert Lanier Clark, An Anatomy of The Turn of the Screw. Estudo crítico dedicado à ambiguidade interpretativa da novela. University of Texas Press — An Anatomy of The Turn of the Screw
- Portland State University — Cecilia Rosenow, Insoluble Ambiguity: Criticism and the Structure of the Frame Narrative in The Turn of the Screw by Henry James. Dissertação de mestrado publicada em 1995. Portland State University — Insoluble Ambiguity
- SciELO / Alea — Guilherme Gutman, “The turn of the screw: sobre Henry James, William James, cérebros e fantasmas”. Artigo publicado em Alea: Estudos Neolatinos. SciELO — The turn of the screw: sobre Henry James, William James, cérebros e fantasmas
- British Film Institute — The Innocents (1961). Material do BFI sobre a adaptação cinematográfica dirigida por Jack Clayton. BFI — The Innocents (1961)
- Bibliothèque nationale de France — Benjamin Britten, The Turn of the Screw, op. 54. Registro da ópera de 1954, identificando a obra de Henry James como fonte e Myfanwy Piper como autora do libreto. BnF — The Turn of the Screw, op. 54
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