⌕
Sua próxima leitura começa aqui — explore livros na Amazon. Publicidade com link de afiliado.
ARQUIVO DO FANTÁSTICO

The Witcher

Antes de se tornar uma franquia de videogames, televisão, quadrinhos e produtos derivados, The Witcher nasceu como literatura. O universo criado por Andrzej Sapkowski começou em 1986, quando o conto Wiedźmin foi publicado na revista polonesa Fantastyka após participar de um concurso literário. Nele surgia Geralt de Rívia, um caçador profissional de monstros treinado desde a infância para enfrentar criaturas que a maioria das pessoas seria incapaz de combater. O que poderia ter permanecido como uma história isolada cresceu primeiro por meio de outros contos e depois por uma sequência de romances que transformou as aventuras de Geralt em uma narrativa sobre guerra, preconceito, destino, poder e os vínculos construídos entre pessoas que dificilmente encontrariam lugar em qualquer outra família.

A série literária atualmente reúne os dois volumes de contos que introduzem o universo, cinco romances que compõem sua saga central e dois livros posteriores situados em outros momentos da trajetória de Geralt. No Brasil, a WMF Martins Fontes publica a obra como The Witcher — A Saga do Bruxo Geralt de Rívia. O lançamento de Encruzilhada dos Corvos em 2025 levou a coleção brasileira a nove livros, embora a cronologia interna não corresponda diretamente à ordem em que Sapkowski escreveu essas histórias.

De um conto sobre uma estrige a um universo inteiro

A primeira história de The Witcher já apresentava boa parte da lógica que acompanharia Sapkowski durante as décadas seguintes. Em O Bruxo, Geralt chega a uma região governada pelo rei Foltest e aceita enfrentar uma estrige, criatura monstruosa ligada a uma maldição que envolve a própria família real. A situação contém elementos facilmente reconhecíveis dos contos tradicionais europeus — uma princesa, uma maldição, um monstro e a possibilidade de quebrar o encantamento —, mas Sapkowski reorganiza essas peças de maneira muito menos confortável do que uma história moral convencional. Geralt não é um príncipe, não pretende se casar com ninguém e tampouco enfrenta a criatura em nome de alguma virtude abstrata; ele é um profissional contratado para resolver um problema extremamente perigoso.

O conto foi enviado a um concurso da revista Fantastyka e publicado em dezembro de 1986, depois de obter o terceiro lugar. Sapkowski continuou escrevendo histórias com Geralt, várias delas publicadas inicialmente na própria revista, até que o personagem passou a sustentar um universo narrativo cada vez maior. Uma primeira coletânea intitulada Wiedźmin apareceu na Polônia em 1990, mas a organização que se tornou referência para a série seria estabelecida principalmente com A Espada do Destino, publicada em 1992, e O Último Desejo, de 1993.

Essa origem ajuda a compreender por que os primeiros livros possuem uma estrutura diferente daquela encontrada posteriormente nos romances. O Último Desejo e A Espada do Destino são coletâneas de contos conectados por personagens, acontecimentos e relações que se desenvolvem progressivamente. Em vez de começar com uma longa explicação sobre reinos, povos, magia e história, Sapkowski apresenta seu mundo enquanto Geralt viaja, negocia contratos, encontra antigas relações e se envolve em situações que revelam pouco a pouco como aquela sociedade funciona.

O Último Desejo e A Espada do Destino

O Último Desejo funciona como a principal porta de entrada para a série, apesar de ter sido publicado originalmente depois de A Espada do Destino. O livro reorganiza alguns dos contos anteriores e utiliza uma narrativa de ligação em que Geralt se recupera no templo de Melitele enquanto diferentes lembranças conduzem às histórias. É nesse volume que aparecem episódios fundamentais como o confronto com a estrige, a história de Renfri em O Mal Menor, o encontro com Yennefer e situações que começam a estabelecer a relação complicada de Geralt com conceitos como neutralidade, destino e responsabilidade. A editora internacional da série atualmente apresenta O Último Desejo como o primeiro livro da ordem de leitura, seguido por A Espada do Destino.

Os contos também mostram uma das estratégias literárias mais características de Sapkowski: utilizar histórias conhecidas para desmontar as expectativas associadas a elas. Elementos de A Bela e a Fera, Branca de Neve, contos envolvendo gênios e diferentes tradições folclóricas reaparecem transformados por interesses econômicos, violência, sexualidade, preconceito e conflitos políticos. O autor não simplesmente transporta essas histórias para um cenário mais sombrio; ele pergunta o que aconteceria se os personagens envolvidos nelas fossem pessoas contraditórias, com interesses próprios, capazes de manipular os papéis de vítima e agressor.

A Espada do Destino amplia significativamente o horizonte da série. Yennefer assume uma presença cada vez mais importante, enquanto Ciri entra definitivamente na história e modifica aquilo que parecia ser apenas a trajetória errante de um caçador de monstros. O livro funciona como ponte entre a estrutura episódica das primeiras aventuras e a grande narrativa que começará em O Sangue dos Elfos. Quando os romances se iniciam, diversas relações essenciais já foram construídas, especialmente aquela que liga Geralt a Ciri por circunstâncias que envolvem a chamada Lei da Surpresa e a ideia de destino.

O que é um bruxo em The Witcher

Os bruxos ocupam uma posição contraditória no mundo criado por Sapkowski. Eles são humanos submetidos ainda jovens a treinamento extremamente rigoroso, preparação alquímica e mutações capazes de alterar suas capacidades físicas. Essas transformações aumentam seus reflexos, resistência e percepção, permitindo que enfrentem criaturas sobrenaturais em condições que seriam fatais para uma pessoa comum. Além das espadas, utilizam poções preparadas especificamente para seus organismos modificados, conhecimentos sobre monstros e formas relativamente simples de magia chamadas de Sinais.

Esse treinamento, porém, não lhes oferece prestígio social equivalente à utilidade de seu trabalho. Bruxos são frequentemente vistos com desconfiança, hostilidade ou desprezo pelas mesmas populações que recorrem a eles quando uma criatura se torna perigosa demais. Geralt precisa negociar pagamentos, verificar relatos contraditórios e descobrir se realmente existe um monstro antes de decidir como agir. A atividade que parece inicialmente uma versão fantástica da caça profissional rapidamente se transforma em um meio de explorar os limites entre aquilo que uma sociedade classifica como humano e aquilo que decide chamar de monstruoso.

Essa diferença se torna fundamental porque muitas criaturas encontradas por Geralt possuem inteligência, motivações e capacidade de comunicação. Algumas podem representar perigo, enquanto outras são perseguidas simplesmente porque não pertencem à espécie dominante ou porque ocupam territórios desejados pelos humanos. Ao mesmo tempo, pessoas comuns, governantes e grupos organizados podem praticar violências muito maiores do que diversas criaturas incluídas nos bestiários dos bruxos. Sapkowski utiliza essa contradição repetidamente sem transformar todos os monstros em vítimas ou todos os seres humanos em vilões, preservando a incerteza moral que caracteriza grande parte da série.

Geralt, Yennefer e Ciri

Geralt de Rívia permanece como a figura mais reconhecível de The Witcher, mas a saga literária deixa progressivamente de ser apenas sua história. Seu comportamento combina cinismo, experiência e uma insistência quase sempre frustrada em permanecer afastado de disputas maiores. Geralt frequentemente declara princípios que sugerem neutralidade, mas sua própria incapacidade de ignorar determinadas injustiças demonstra que essa posição raramente consegue sobreviver ao contato com situações concretas. A fama do personagem como alguém frio e desinteressado contrasta, nos livros, com a quantidade de decisões que toma justamente porque se importa com pessoas que preferiria acreditar não serem responsabilidade sua.

Yennefer de Vengerberg ocupa posição igualmente importante nessa estrutura. Feiticeira poderosa, politicamente experiente e frequentemente tão obstinada quanto Geralt, ela mantém com o bruxo uma relação marcada por atração, afastamentos, conflitos e reencontros. A personagem não existe apenas como interesse amoroso do protagonista; suas ambições, vínculos com outras feiticeiras e relação com Ciri fazem com que ela tenha objetivos próprios dentro dos conflitos maiores da saga. Sapkowski constrói a relação entre Geralt e Yennefer sem transformá-la em um caminho linear para a estabilidade, preservando as incompatibilidades e decisões que tornam os dois personagens difíceis de separar e igualmente difíceis de manter juntos.

Ciri, por sua vez, modifica a natureza da série. Princesa de Cintra e portadora de uma linhagem excepcional conhecida como Sangue Antigo, ela se torna alvo de forças políticas, mágicas e dinásticas que enxergam sua existência como instrumento para diferentes projetos. Ao mesmo tempo, a relação construída com Geralt e Yennefer cria uma família que não depende de parentesco biológico tradicional. Conforme os livros avançam, Ciri deixa de ser apenas alguém que precisa ser protegida e assume uma trajetória própria, marcada por sobrevivência, violência, aprendizado e pela tentativa de preservar alguma autonomia diante de pessoas que desejam decidir seu futuro.

Do conto à saga dos cinco romances

A partir de O Sangue dos Elfos, publicado originalmente em 1994, a série adota uma estrutura romanesca contínua. A história prossegue em Tempo do Desprezo (1995), Batismo de Fogo (1996), A Torre da Andorinha (1997) e A Senhora do Lago (1999). Esses cinco livros formam aquilo que a editora internacional apresenta especificamente como a saga principal de The Witcher, precedida pelas duas coletâneas de contos.

A mudança de formato acompanha uma mudança de escala. Contratos para matar monstros continuam existindo, mas deixam de constituir o principal motor da narrativa. O conflito entre os Reinos do Norte e o Império de Nilfgaard cresce, alianças políticas são reorganizadas, feiticeiros entram diretamente nas disputas pelo poder e a guerra afeta personagens que não possuem qualquer controle sobre seus motivos ou resultados. Ciri passa a ocupar o centro de diferentes projetos políticos, enquanto Geralt descobre que encontrar uma pessoa pode ser muito mais difícil do que enfrentar uma criatura cujo comportamento ele aprendeu a estudar.

A saga também amplia sua perspectiva. Sapkowski acompanha soldados, governantes, espiões, feiticeiros, camponeses, mercenários e pessoas deslocadas pela guerra, fazendo com que acontecimentos importantes raramente sejam observados apenas do ponto de vista dos protagonistas. Há momentos em que grandes eventos chegam ao leitor por relatos incompletos, documentos, memórias ou interpretações posteriores. Essa escolha torna o mundo de The Witcher menos semelhante a uma narrativa heroica organizada em torno de um único personagem e mais próximo de uma história na qual cada participante possui apenas uma parte do que realmente aconteceu.

Um mundo sem divisão confortável entre bem e mal

A expressão “mal menor” tornou-se uma das ideias mais associadas a Geralt porque sintetiza um problema recorrente na série. Em determinadas situações, todas as opções disponíveis produzem algum tipo de violência ou injustiça, enquanto recusar a escolha não elimina suas consequências. Sapkowski utiliza essas circunstâncias para questionar a fantasia tradicional baseada em conflitos nos quais o leitor pode reconhecer rapidamente quem deve ser derrotado para que a ordem seja restaurada.

Isso não significa que The Witcher trate toda ação como moralmente equivalente. Há crueldade, perseguição e escolhas claramente condenáveis dentro da narrativa. A diferença está na recusa em organizar povos inteiros segundo categorias estáveis de bondade ou maldade. Nilfgaard pode agir como potência imperial e provocar destruição em larga escala sem que todos os habitantes do império sejam reduzidos a vilões; os Reinos do Norte podem resistir à invasão ao mesmo tempo que reproduzem perseguições e massacres contra populações não humanas. A complexidade política surge precisamente porque defender uma causa em determinado conflito não transforma automaticamente todos os participantes daquele lado em personagens moralmente corretos.

A própria profissão de Geralt coloca essa ambiguidade diante do leitor de forma concreta. Um bruxo é pago para matar monstros, mas precisa decidir continuamente o que merece ser morto. Quando essa classificação deixa de depender apenas da espécie e passa a envolver intenção, comportamento e circunstância, o bestiário deixa de funcionar como catálogo confiável de inimigos.

Elfos, anões e a violência entre povos

O Continente é habitado por diferentes povos cujas relações foram marcadas por migrações, conquistas territoriais e disputas anteriores aos acontecimentos narrados na saga. Elfos, anões e outras populações chamadas genericamente de não humanas convivem com sociedades dominadas por humanos, muitas vezes sob condições de discriminação e hostilidade. A ascensão dos Scoia’tael, grupos guerrilheiros formados principalmente por não humanos, nasce dentro desse ambiente e acrescenta outra camada às guerras que atravessam os romances.

Sapkowski não constrói essas relações como equivalências diretas com um único conflito histórico. Pogroms, segregação, nacionalismo, deslocamentos populacionais e discursos de superioridade tornam as situações reconhecíveis, mas diferentes referências históricas e sociais são combinadas dentro da ficção. Essa escolha permite que a série discuta mecanismos de exclusão sem exigir que elfos ou anões representem literalmente um povo específico do mundo real.

A violência também não permanece restrita a um único lado. Pessoas perseguidas podem responder à opressão com ações igualmente violentas, enquanto governos exploram ressentimentos e alianças conforme seus interesses estratégicos. O resultado é um mundo em que conflitos antigos continuam produzindo novos conflitos, criando condições nas quais a memória da violência pode servir tanto para compreender o presente quanto para justificar outra rodada de vingança.

Folclore, contos de fadas e mitologias

A identidade de The Witcher costuma ser associada à mitologia eslava, e essa influência realmente possui importância na série, especialmente na presença de determinadas criaturas e referências culturais. No entanto, reduzir o universo de Sapkowski a uma fantasia construída exclusivamente sobre folclore eslavo produz uma imagem incompleta. Os livros combinam tradições provenientes de diferentes regiões da Europa, referências clássicas, narrativas germânicas, contos populares e elementos diretamente relacionados ao ciclo arturiano.

Essa mistura é especialmente evidente nos primeiros contos. Sapkowski reutiliza estruturas narrativas que o leitor reconhece e altera elementos fundamentais delas, substituindo moralidade simplificada por conflitos em que a existência de uma maldição não explica necessariamente quem é responsável pelo sofrimento. O fantástico permanece presente, mas passa a dividir espaço com contratos, heranças, disputas territoriais, relações sexuais, alianças familiares e interesses econômicos.

As referências arturianas se tornam ainda mais importantes à medida que a saga se aproxima de A Senhora do Lago. O próprio título já estabelece uma relação com esse imaginário, mas Sapkowski não realiza uma simples adaptação das histórias de Arthur. Como acontece com os contos de fadas, ele incorpora tradições anteriores a uma estrutura própria, fazendo com que The Witcher se torne menos uma fantasia baseada em uma mitologia específica do que uma obra construída a partir do diálogo entre muitas tradições.

Magia, política e os feiticeiros

A magia em The Witcher está integrada às estruturas de poder. Feiticeiros e feiticeiras podem atuar como conselheiros de monarcas, participar de instituições próprias, interferir em conflitos internacionais e tentar influenciar acontecimentos muito além do domínio puramente sobrenatural. Seu conhecimento lhes concede poder, mas também os coloca dentro das mesmas disputas, alianças e rivalidades existentes entre governantes.

Personagens como Yennefer, Triss Merigold, Philippa Eilhart e Vilgefortz demonstram maneiras muito diferentes de relacionar magia e política. A existência de capacidades extraordinárias não apaga interesses individuais, ambições ou divergências ideológicas. Conforme a guerra se intensifica, instituições mágicas que pareciam relativamente estáveis também se fragmentam, revelando que o conhecimento sobrenatural não produz necessariamente uma visão comum sobre como o mundo deve ser governado.

Esse aspecto ajuda a afastar a série de sistemas de magia construídos principalmente para explicar mecanicamente cada possibilidade sobrenatural. Existem regras, treinamento e limites, mas Sapkowski está geralmente mais interessado nas consequências sociais de possuir poder do que em transformar magia em um conjunto completo de instruções para o leitor. A pergunta mais relevante costuma ser quem pode utilizar determinada capacidade, com qual finalidade e o que acontece quando esse poder interfere na vida de outras pessoas.

Destino, escolha e família

O destino aparece repetidamente desde os primeiros contos, especialmente por meio da Lei da Surpresa e da ligação entre Geralt e Ciri. Sapkowski, entretanto, não trata a predestinação como resposta suficiente para explicar a relação entre seus personagens. O fato de duas pessoas estarem ligadas pelo destino não significa que exista automaticamente afeto, responsabilidade ou família entre elas; esses vínculos precisam ser construídos por experiências e escolhas.

Essa diferença se torna central na relação entre Geralt, Yennefer e Ciri. Os três não correspondem a uma família tradicional e passam longos períodos separados, mas formam gradualmente um vínculo em que proteção, aprendizado e afeto importam mais do que a ausência de parentesco convencional. A saga utiliza profecias e linhagens extraordinárias ao mesmo tempo que insiste na importância das relações desenvolvidas por decisões pessoais.

Ciri é particularmente importante para esse contraste porque inúmeras pessoas tentam definir seu futuro com base em origem, sangue e profecias. Quanto maior sua importância para projetos políticos e mágicos, mais difícil se torna sua tentativa de existir como indivíduo. A tensão entre aquilo que outras pessoas acreditam que Ciri deve representar e aquilo que ela deseja fazer com a própria vida sustenta uma parte significativa dos romances.

Depois de A Senhora do Lago

A Senhora do Lago, publicada em 1999, encerrou a sequência de cinco romances que forma o núcleo da saga, mas Sapkowski voltou posteriormente ao universo. Em 2013 lançou Tempo de Tempestade, romance autônomo situado em um período anterior aos principais acontecimentos da série. O livro recupera um Geralt ainda envolvido com contratos e problemas relativamente independentes da guerra que dominaria os volumes posteriores, funcionando como uma expansão da fase apresentada pelos primeiros contos. A WMF Martins Fontes comercializa o título no Brasil como um prelúdio da saga.

Mais de uma década depois, Sapkowski retornou novamente ao personagem com Rozdroże kruków, publicado na Polônia em 2024. A edição brasileira, Encruzilhada dos Corvos, chegou pela WMF Martins Fontes em 2025 e apresenta um Geralt muito mais jovem, ainda nos primeiros passos de sua atuação profissional como bruxo. A editora brasileira identifica o romance como o nono livro de The Witcher, enquanto sua posição cronológica o coloca antes das histórias tradicionalmente usadas para apresentar o personagem.

Esses livros posteriores não alteram o fato de que a saga de Geralt e Ciri possui um arco central concluído. Eles funcionam como expansões de períodos que a narrativa original havia deixado parcialmente abertos, permitindo que Sapkowski retorne ao universo sem simplesmente continuar os acontecimentos após o encerramento de A Senhora do Lago.

A ordem dos livros de The Witcher

Para uma primeira leitura, a ordem editorial permanece a maneira mais simples de acompanhar o desenvolvimento das relações e informações da série. Ela começa por O Último Desejo e A Espada do Destino, continua pela saga formada por O Sangue dos Elfos, Tempo do Desprezo, Batismo de Fogo, A Torre da Andorinha e A Senhora do Lago, e então chega aos romances complementares Tempo de Tempestade e Encruzilhada dos Corvos. Embora os dois últimos estejam posicionados anteriormente em diferentes pontos da cronologia interna, lê-los depois dos volumes originais evita reorganizar artificialmente revelações e referências concebidas por Sapkowski para leitores que já conhecem o universo. A coleção brasileira anterior a Encruzilhada dos Corvos era comercializada em um box com os sete volumes principais e Tempo de Tempestade, enquanto o novo romance passou a ser tratado pela editora como o nono livro.

Existe, portanto, diferença entre ordem de publicação e cronologia dos acontecimentos. Encruzilhada dos Corvos acompanha o início da carreira de Geralt, enquanto Tempo de Tempestade ocorre durante uma fase anterior ao desenvolvimento da saga dos romances. Essa possibilidade de reorganização pode interessar a leitores que já conhecem os livros, mas a estrutura editorial preserva melhor a maneira como o universo foi sendo apresentado e ampliado ao longo do tempo.

Os livros, os jogos e as séries não são a mesma história

A popularidade internacional de The Witcher cresceu enormemente com as adaptações, sobretudo a série de videogames produzida pela CD Projekt Red e posteriormente as produções televisivas da Netflix. Isso fez com que muitos leitores conhecessem Geralt, Ciri e Yennefer primeiro por versões criadas fora dos livros. A origem dos personagens, entretanto, permanece na literatura de Sapkowski, e as diferentes mídias não devem ser tratadas como partes de uma única continuidade narrativa.

Os jogos utilizam os acontecimentos dos livros como passado e constroem uma continuação própria para Geralt. Eles aproveitam personagens, conflitos e consequências estabelecidos por Sapkowski, mas desenvolvem acontecimentos que não pertencem aos romances. A adaptação da Netflix, por sua vez, reconta materiais dos livros e realiza mudanças de estrutura, caracterização, cronologia e acontecimentos conforme sua própria interpretação.

Essa separação é particularmente importante quando se discute personagens ou acontecimentos específicos. O Geralt dos livros não possui exatamente a mesma trajetória do Geralt dos jogos ou da televisão, assim como determinadas relações e destinos podem variar significativamente entre versões. O fenômeno cultural The Witcher passou a ser maior do que qualquer uma dessas mídias isoladamente, mas a série literária continua sendo o ponto de origem a partir do qual todas as adaptações posteriores construíram suas próprias interpretações.

O lugar de The Witcher na fantasia contemporânea

A expansão de The Witcher ajudou a levar uma obra originalmente publicada em polonês a leitores de dezenas de países. A editora brasileira informa que a série já foi traduzida para mais de quarenta idiomas, enquanto a editora internacional apresenta os livros como uma das grandes séries contemporâneas de fantasia que deram origem tanto aos videogames quanto à adaptação televisiva.

Sua importância literária, porém, não depende apenas da dimensão adquirida pela franquia. Sapkowski construiu uma fantasia que utiliza monstros, profecias, feiticeiros e reinos sem permitir que esses elementos determinem uma divisão simples entre heróis e vilões. A série começa acompanhando um homem treinado para identificar criaturas perigosas e gradualmente coloca esse personagem em um mundo no qual definir aquilo que realmente constitui um monstro se torna cada vez mais difícil.

Ao longo dos contos e romances, The Witcher transforma essa incerteza em parte estrutural de sua narrativa. Geralt precisa decidir quando intervir, Ciri luta contra aqueles que pretendem transformar seu nascimento em destino político, Yennefer tenta conciliar vínculos pessoais com um mundo de poder e magia, e populações inteiras são arrastadas por guerras iniciadas por pessoas que dificilmente enfrentarão suas consequências diretamente. É essa combinação entre fantasia, conflito humano e recusa de respostas morais confortáveis que sustenta a série literária de Sapkowski muito além das criaturas que inicialmente deram trabalho ao seu bruxo.


Fontes consultadas

  • Hachette Book Group / Orbit — “The Witcher: Books in Order”. Referência editorial para a organização da série de Andrzej Sapkowski em inglês, distinguindo as coletâneas de contos, os romances da saga e obras posteriores, incluindo Crossroads of Ravens.
    Hachette Book Group — The Witcher: Books in Order
  • WMF Martins Fontes — The Witcher — Box Capa Game. Referência brasileira para os oito volumes publicados anteriormente pela editora, seus títulos em português e a organização editorial da série no Brasil. O box reúne O Último Desejo, A Espada do Destino, os cinco romances da saga e Tempo de Tempestade.
    WMF Martins Fontes — The Witcher: Box Capa Game
  • WMF Martins Fontes — O Último Desejo — The Witcher: A Saga do Bruxo Geralt de Rívia, vol. 1. Fonte para a edição brasileira da coletânea de contos que apresenta Geralt de Rívia e estabelece personagens, conflitos e elementos fundamentais do universo literário de The Witcher.
    WMF Martins Fontes — O Último Desejo
  • WMF Martins Fontes — Encruzilhada dos Corvos — The Witcher. Fonte para a edição brasileira do romance lançado no país em 2025, ambientado na juventude de Geralt e apresentado pela editora como o nono livro da série.
    WMF Martins Fontes — Encruzilhada dos Corvos
  • FANTASTYKA — nº 12/1986. Edição de dezembro de 1986 da revista polonesa em que foi publicado “Wiedźmin”, primeiro conto de Andrzej Sapkowski protagonizado por Geralt de Rívia. A edição digitalizada permite consultar diretamente a publicação original, com o conto iniciado na página 18.
    Internet Archive — Fantastyka 12/1986

Encontrou algum erro ou faltou alguma coisa? Pode nos avisar: contato@infinitasformas.com.br

Sua privacidade importa

Usamos cookies necessários para o funcionamento do site e, com sua autorização, cookies de análise e recursos externos para melhorar sua experiência.

Política de Cookies