Durante muito tempo, falar de literatura de terror brasileira significava voltar aos precursores, recuperar contos fantásticos espalhados pela obra de autores canônicos ou lembrar escritores que assumiram o gênero quando ele ainda ocupava uma posição periférica no mercado nacional. Essa história continua importante, mas já não é suficiente para explicar o que está acontecendo nas estantes brasileiras.
Nas últimas temporadas, o horror produzido no país ganhou novas editoras, autores, clubes de leitura, antologias e leitores interessados em histórias que não precisam importar seus medos de outros lugares. O movimento é suficientemente amplo para que, em outubro de 2026, a Gutenberg publique Eles estão aqui — 13 contos contemporâneos do horror brasileiro, organizada por Cristhiano Aguiar. A antologia reunirá escritores de diferentes regiões e narrativas que passam por horror psicológico, distopia, gótico, folk horror e fantasia sombria. A própria proposta editorial deixa claro que não pretende estabelecer um cânone da geração, mas mostrar a diversidade estética que existe atualmente no gênero.
É justamente essa diversidade que orienta esta seleção. Em vez de procurar cinco livros parecidos, reunimos obras em que o medo nasce do sertão, da família, do corpo, do trabalho, da noite e das transformações mais estranhas do cotidiano. Há autores ligados a diferentes regiões do país e livros publicados entre 2022 e 2025 — ou que ganharam novas edições nesse período —, todos ainda encontrados no mercado brasileiro.
1. Gótico nordestino, de Cristhiano Aguiar — porque o gótico não precisa de castelos europeus
O título de Gótico nordestino já contém uma provocação. O gótico foi historicamente associado a castelos, ruínas, florestas europeias, mansões decadentes e outras imagens que parecem geograficamente muito distantes do Nordeste brasileiro. Cristhiano Aguiar, nascido em Campina Grande, na Paraíba, parte justamente dessa tradição para perguntar o que acontece quando seus mecanismos são deslocados para outros espaços, memórias e conflitos.
Publicado pela Alfaguara em 2022, o livro reúne nove contos que atravessam diferentes períodos. Há histórias relacionadas ao cangaço, à ditadura militar e a futuros próximos, enquanto elementos folclóricos e sobrenaturais convivem com referências que vêm do cinema, das histórias em quadrinhos e da cultura pop. O conto de abertura, “Anda-luz”, acompanha um menino obrigado a atravessar um descampado durante a madrugada para entregar uma carta a um cangaceiro; a tensão nasce tanto daquilo que pode existir no escuro quanto da ameaça muito concreta dos homens que ocupam aquele território.
Esse deslocamento é uma das coisas mais interessantes do livro. Aguiar não tenta encontrar equivalentes brasileiros para cada peça de um gótico estrangeiro, como se bastasse substituir um castelo por uma casa abandonada. O Nordeste aparece com sua própria história, religiosidade, oralidade, violência e paisagem, permitindo que o insólito surja de relações familiares, memórias políticas, lendas e medos locais.
Por isso, Gótico nordestino funciona muito bem como primeira entrada desta lista. Ele mostra que a renovação do horror brasileiro não depende apenas de inventar novas criaturas. Também passa por perguntar onde nossas histórias de medo acontecem e que passado continua assombrando esses lugares.
A edição permanece em circulação pela Companhia das Letras, inclusive em formatos físico, digital e audiobook.

Gótico nordestino, de Cristhiano Aguiar
2. Como nascem os fantasmas, de Verena Cavalcante — quando uma família fabrica suas próprias assombrações
Se em Gótico nordestino o horror se espalha por diferentes tempos e paisagens, Como nascem os fantasmas reduz o espaço e aproxima o medo da família. Publicado pela Suma em junho de 2025, o primeiro romance de Verena Cavalcante acompanha Beatriz, uma menina criada pela avó Dona Divina no interior de São Paulo durante os anos 1990.
Dona Divina é uma importante líder religiosa local e nunca superou a morte de Ângela, sua filha, ocorrida durante o parto de Beatriz. A menina cresce, portanto, cercada não apenas pela ausência da mãe, mas por uma imagem idealizada dela. Durante a infância, tenta imitar seus gostos e comportamentos na esperança de receber da avó uma aprovação que parece permanentemente condicionada àquela comparação.
É nesse ambiente que Beatriz encontra um fantasma: uma criança que lhe revela um crime. O sobrenatural abre uma porta para segredos que já existiam antes de qualquer aparição e transforma a história em algo mais desconfortável do que uma narrativa tradicional de assombração. Família, religião, expectativas sobre as mulheres e ecos da ditadura militar brasileira começam a se misturar aos mortos que Beatriz aprende a enxergar.
A pergunta sugerida pelo título se torna importante exatamente por isso. Fantasmas podem surgir porque alguém morreu, mas também porque determinadas histórias foram escondidas, porque uma família se recusou a falar sobre seu passado ou porque uma sociedade encontrou maneiras convenientes de não olhar para aquilo que fez.
Verena já havia explorado infância, violência e horror em livros de contos como Inventário de predadores domésticos. Aqui, porém, essas obsessões ganham o espaço maior de um romance e uma protagonista cujo processo de amadurecimento está diretamente ligado à descoberta de que adultos, mortos e vivos podem ser igualmente perigosos.
Como nascem os fantasmas também é uma das obras mais recentes desta seleção e continua disponível em edição física, e-book e audiobook.

Como nascem os fantasmas, de Verena Cavalcante
3. Júpiter Marte Saturno, de Irka Barrios — o horror começa quando alguma coisa está ligeiramente fora do lugar
Nem todo terror precisa anunciar imediatamente que entrou em cena. Nos contos de Irka Barrios, muitas vezes basta um pequeno desvio no cotidiano: uma ferida que passa a exigir atenção demais, moscas que deixam de se comportar como deveriam ou uma sensação de que a realidade sofreu uma alteração quase imperceptível.
Júpiter Marte Saturno foi publicado originalmente em 2022 e ganhou uma nova edição pela Zouk em 2025, ampliada com duas histórias. A coletânea recebeu o Prêmio AGES nas categorias Narrativa Curta e Livro do Ano, enquanto “Parte de dentro” conquistou o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica. Irka também integra a cena literária gaúcha e o coletivo Mulherio das Letras RS.
“Parte de dentro” é um ótimo exemplo do tipo de horror cultivado pela autora. Uma mulher mantém durante anos uma relação cada vez mais perturbadora com uma ferida na perna. Em “Drosophila”, uma infestação de moscas gigantes invade a rotina de profissionais da saúde. Outras histórias permitem que acontecimentos insólitos, transformações físicas e pequenas rupturas da realidade cresçam dentro de vidas aparentemente banais.
É nesse ponto que o horror corporal aparece de maneira especialmente eficiente. O corpo não é usado apenas como lugar de mutilação ou violência gráfica, mas como algo cuja familiaridade pode repentinamente desaparecer. Uma ferida, um organismo, uma mudança ou uma sensação física são suficientes para colocar em dúvida aquilo que uma personagem acreditava saber sobre si mesma.
Irka aproxima o fantástico, o estranho, o surreal e o horror sem a necessidade de separar rigidamente esses territórios. Essa indefinição torna Júpiter Marte Saturno uma boa representação de uma vertente do terror brasileiro contemporâneo que se interessa menos pela criatura revelada no fim do corredor e mais pelo instante em que a realidade começa a parecer errada.
A edição de 2025 permanece disponível em livrarias brasileiras.

Júpiter Marte Saturno, de Irka Barrios
4. Onde pastam os minotauros, de Joca Reiners Terron — quando o horror social entra no matadouro
Onde pastam os minotauros talvez seja o livro desta lista que mais testa as fronteiras do gênero. A Todavia o apresenta como um romance entre thriller e alegoria, mas sua combinação de violência, espectros, mitologia e pesadelo permite lê-lo também ao lado do horror brasileiro contemporâneo. Não por acaso, estudos recentes sobre o gótico no Brasil têm aproximado a obra de Joca Reiners Terron desse território.
Terron nasceu em Cuiabá, e o romance, publicado em 2023, retorna a um Mato Grosso simultaneamente reconhecível e deformado pela ficção. No centro da trama estão trabalhadores ligados a um matadouro, dentro de uma comunidade marcada por exploração econômica, precariedade e violência. Minotauros e outras figuras fantásticas aparecem em meio a uma realidade que já seria suficientemente brutal sem nenhuma criatura sobrenatural.
É aí que o horror social ganha força. O matadouro não existe apenas para fornecer imagens de sangue ou choque; ele organiza as relações entre animais, trabalhadores e capital. Um estudo publicado pela revista Terceira Margem, da UFRJ, destaca justamente como o romance aproxima homens e animais submetidos a processos de exploração, transformando o espaço de trabalho em representação de um mundo social que também funciona como matadouro.
A presença dos minotauros desloca ainda mais essa realidade. A mitologia deixa de pertencer a um passado distante e passa a ocupar um cenário atravessado por problemas brasileiros contemporâneos. O fantástico não oferece uma fuga da realidade: ele permite deformá-la o suficiente para que determinadas estruturas apareçam com maior clareza.
Para quem associa terror exclusivamente a fantasmas, assassinos ou criaturas escondidas, Onde pastam os minotauros mostra outra possibilidade. Um romance pode produzir horror ao transformar trabalho, desigualdade, violência e exploração em componentes de uma realidade cuja lógica parece absurda justamente porque continua sendo reconhecível.
O livro segue disponível em edição física, digital e audiobook.

Onde pastam os minotauros, de Joca Reiners Terron
5. Notívagas, de Juliana Cunha — a noite vista por mulheres que não estão seguras nela
Em Notívagas, a noite não é simplesmente o horário em que os monstros aparecem. Ela funciona como um território em que diferentes medos associados à experiência feminina podem adquirir formas sobrenaturais, corporais ou violentamente concretas.
Juliana Cunha, escritora natural do Rio de Janeiro, reuniu no livro histórias protagonizadas por mulheres enfrentando gravidez, religião, violência, relações afetivas, morte e aparições. A primeira edição saiu em 2022; depois do sucesso inicial, a obra ganhou uma segunda edição revisada e ampliada em 2024, agora com dezesseis contos. “A devoradora”, uma das histórias do volume, venceu o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica de 2023 na categoria Narrativa Curta de Horror.
Uma jovem virgem enfrenta uma gravidez impossível. Outra mulher atravessa sozinha uma noite de carnaval que assume contornos infernais. Ao longo dos contos, manifestações sobrenaturais convivem com corpos violados, relacionamentos destrutivos, religião e diferentes formas de medo que precedem qualquer fantasma.
O resultado aproxima horror psicológico, sobrenatural e corporal sem reduzir o livro a uma única tese sobre “o medo feminino”. As protagonistas vivem experiências diferentes, e o horror surge justamente da variedade dessas situações. Algumas histórias se aproximam mais do pesadelo; outras trabalham com violências que não precisam de nenhuma explicação fantástica para serem perturbadoras.
Essa combinação ajuda Notívagas a encerrar a lista. Depois do Nordeste reinventado pelo gótico de Cristhiano Aguiar, das assombrações familiares de Verena Cavalcante, dos corpos estranhos de Irka Barrios e do matadouro social de Joca Reiners Terron, Juliana Cunha mostra como o terror pode ocupar a intimidade e a noite sem abandonar o mundo que existe fora delas.
A segunda edição continua no catálogo da editora O Grifo.

Notívagas, de Juliana Cunha
Um terror brasileiro que já não cabe numa única definição
Os cinco livros desta seleção dificilmente seriam confundidos entre si. Gótico nordestino transforma paisagem, história e folclore em matéria gótica; Como nascem os fantasmas encontra assombrações dentro de uma estrutura familiar; Júpiter Marte Saturno permite que corpos e acontecimentos banais deslizem para o insólito; Onde pastam os minotauros aproxima monstruosidade e exploração social; Notívagas atravessa diferentes medos experimentados por mulheres.
Essa diferença é importante porque talvez seja justamente ela que melhor defina o momento atual. A expressão “terror brasileiro” já não descreve uma estética específica, da mesma maneira que não existe apenas uma forma brasileira de produzir fantasia ou ficção científica.
Ao lado desses autores existem Cesar Bravo, Irka Barrios em Vespeiro, Verena Cavalcante em seus livros anteriores, Oscar Nestarez, Paula Febbe, Bruno Ribeiro e uma quantidade crescente de escritores independentes, coletivos e pequenas editoras que ampliam esse mapa. A chegada de Eles estão aqui, reunindo treze autores contemporâneos em outubro de 2026, deve oferecer mais uma fotografia desse processo — sem a pretensão de encerrá-lo.
Para quem ainda pensa no horror nacional apenas a partir dos nomes históricos, estes cinco livros oferecem um caminho para começar pelo presente. O medo continua reconhecível, mas os lugares de onde ele vem mudaram bastante.
