Há uma imagem que parece surgir quase automaticamente quando alguém fala em fantasia. Um castelo de pedra ocupa o horizonte, uma floresta se estende além das muralhas, cavaleiros atravessam estradas de terra e, em algum lugar do mapa, reis disputam territórios enquanto espadas, linhagens antigas e criaturas mágicas determinam o destino do mundo. Nada disso pertence obrigatoriamente ao gênero, mas séculos de tradição literária e algumas obras particularmente influentes tornaram esse conjunto de imagens tão familiar que ele passou a funcionar quase como uma linguagem pronta.
Para escritores brasileiros, existe uma estranheza adicional nessa herança. Nossa história não teve castelos feudais, nobres distribuindo feudos, guerras entre senhores medievais ou cavalaria nos moldes europeus que alimentaram boa parte da fantasia moderna. Ainda assim, quando criamos um mundo imaginário, muitas vezes é justamente esse passado — que nunca foi nosso — que aparece primeiro.
Isso não significa que autores brasileiros devam abandonar castelos, espadas ou reinos. A questão mais interessante é outra: por que uma versão bastante específica da história europeia passou a ser percebida como o cenário neutro da fantasia, enquanto qualquer outra escolha precisa justificar sua presença?
Quando a influência se transforma em padrão
É difícil discutir esse problema sem passar por J. R. R. Tolkien, embora responsabilizá-lo pela quantidade de imitações que surgiram depois dele seria pouco justo. A Terra-média não nasceu de um pacote genérico chamado “fantasia medieval”. Tolkien era filólogo, conhecia profundamente línguas e literaturas germânicas, anglo-saxãs e nórdicas e transformou esse repertório em algo próprio. A geografia, os idiomas, os poemas, as genealogias e as estruturas políticas de seu mundo fazem parte do mesmo projeto imaginativo.
O sucesso posterior de O Senhor dos Anéis, porém, ajudou a cristalizar parte dessa superfície. Elfos, anões, reis, espadas, tavernas, florestas antigas e sociedades vagamente feudais tornaram-se elementos recorrentes a ponto de poderem ser utilizados sem explicação. Ursula K. Le Guin já criticava, nos anos 1970, a ideia de que bastaria acumular o equipamento externo da fantasia — heróis, magos, arcaísmos e cenários pseudo-históricos — para produzir a sensação de um mundo verdadeiramente fantástico. O problema nunca esteve no castelo. Está no castelo que existe simplesmente porque fantasias têm castelos.
No Brasil, essa repetição ganha outra camada porque importamos não apenas uma tradição narrativa, mas também a paisagem histórica associada a ela. Isso pode produzir mundos perfeitamente bons, desde que seja uma escolha consciente. O empobrecimento começa quando um autor brasileiro imagina que, para escrever fantasia épica, precisa primeiro inventar uma Europa.
E talvez seja justamente aí que parte da fantasia brasileira contemporânea esteja ficando mais interessante.
Um império que poderia ter sido daqui
Coração de Cristal Partido, de Ariani Castelo, oferece um exemplo recente porque não tenta substituir um reino medieval europeu por uma coleção óbvia de símbolos nacionais. O Império de Diamantíria continua sendo um mundo secundário, com sua própria religião, estrutura social e sistema mágico baseado em cristais. Existe uma corte, existe um imperador e existem disputas por poder. O deslocamento acontece na matéria histórica utilizada para imaginar essas instituições.
A atmosfera do livro foi construída a partir do Brasil Imperial. Em entrevista ao Diário do Nordeste, Ariani contou que pesquisou documentos históricos e leu sobre Dom Pedro para pensar a figura do imperador e as expectativas colocadas sobre seus descendentes. A história brasileira não aparece como decoração acrescentada depois que o mundo fantástico estava pronto; ela participa da concepção da estrutura de poder que sustenta Diamantíria.
Essa diferença é pequena apenas na aparência. Um império inspirado pelo Brasil oitocentista traz possibilidades distintas de um reino construído sobre uma Idade Média europeia genérica. Relações entre corte e população, formas de distinção social, organização política e símbolos de autoridade passam a nascer de outro repertório. A magia pode continuar inventada, os países podem não existir e os acontecimentos não precisam reproduzir episódios da história nacional. O passado funciona como matéria-prima, não como roteiro.
É uma solução particularmente interessante porque mostra que construir uma fantasia brasileira não significa obrigatoriamente ambientá-la no Brasil real.
Ver essa foto no Instagram
A brasilidade não precisa vestir fantasia típica
Existe o risco de responder ao eurocentrismo com outra prisão criativa. Se toda fantasia brasileira precisasse ter saci, curupira, mata, cangaço, orixás ou alguma referência imediatamente reconhecível como nacional, apenas trocaríamos uma lista obrigatória por outra.
Felipe Castilho demonstra bem como essas possibilidades podem variar dentro da obra de um mesmo autor. Em O Legado Folclórico, criaturas e tradições brasileiras convivem com tecnologia, videogames e a cidade de São Paulo. Já Ordem Vermelha: Filhos da Degradação assume muito mais claramente elementos da tradição da alta fantasia: existe um mundo secundário, raças fantásticas, uma cidade cercada, estruturas hierárquicas e uma estética que conversa com o imaginário medieval. Mesmo assim, a organização política de Untherak, a opressão exercida pela deusa Una e o funcionamento daquela sociedade levam a narrativa para perto da distopia. O pesquisador Bruno Anselmi Matangrano identifica justamente essa mistura como uma das características que permitem à obra deslocar convenções da alta fantasia em vez de simplesmente reproduzi-las.
Isso talvez seja mais produtivo do que procurar uma definição rígida de “fantasia brasileira”. Uma obra pode ser brasileira porque utiliza nosso folclore, mas também porque sua forma de imaginar desigualdade, religião, cidade, violência, família ou autoridade nasce daqui. A identidade de uma literatura não está restrita aos objetos que aparecem em cena.
O mesmo vale para Porém Bruxa, de Carol Chiovatto. A estrutura da fantasia urbana é familiar: existe um mundo sobrenatural escondido dentro do cotidiano e uma protagonista encarregada de lidar com seus conflitos. A diferença decisiva é que esse cotidiano pertence a São Paulo. Ísis Rossetti atravessa uma metrópole reconhecível, e a magia precisa coexistir com a geografia, a violência, o trânsito, as instituições e as tensões religiosas da cidade. Em entrevista ao Centro de Estudios Brasileños da Universidade de Salamanca, Chiovatto explicou que uma das motivações para escrever o romance era justamente colocar São Paulo no mapa imaginário de alguém, da mesma maneira que tantos livros estrangeiros haviam feito com outras cidades.
O resultado não é uma fantasia urbana estrangeira com nomes de ruas brasileiros. São Paulo interfere na história.
Ver essa foto no Instagram
Há mundos épicos muito além da Europa
Talvez a melhor prova de que a fantasia épica não depende da Idade Média europeia esteja em obras que preservam a escala normalmente associada ao gênero — povos, deuses, guerras, reinos, poderes e jornadas — enquanto mudam completamente sua matriz cultural.
Em Sopro dos deuses: os ancestrais do amanhã, Fábio Kabral constrói uma fantasia centrada na mitologia afro-brasileira dos orixás. Kayin vive entre os odessi, descendentes de Oxóssi; Ainá pertence às feiticeiras de Ijexá, ligadas a Oxum; ebós, ancestralidade e axé participam da lógica daquele universo. Há hierarquias, conflitos familiares, tradições, poderes extraordinários e uma ameaça capaz de atingir o mundo inteiro. Nada disso exige que o cenário se transforme numa Inglaterra imaginária para ganhar dimensão épica.
Essa talvez seja uma das possibilidades mais importantes abertas pela produção fantástica brasileira contemporânea. Não precisamos diminuir a escala para nos afastar do modelo europeu. É possível criar mitologias inteiras partindo de outros sistemas simbólicos, outras relações com religião, outros espaços e outras memórias históricas.
Também não há necessidade de transformar isso numa disputa sobre qual tradição seria mais legítima. Um autor brasileiro pode escrever amanhã uma excelente história sobre cavaleiros num reino coberto de neve. Outro pode criar uma epopeia inspirada pelo sertão, pelo Brasil Império, pela cosmologia iorubá ou pela experiência de morar em São Paulo. A liberdade está justamente em nenhuma dessas opções precisar ocupar o lugar de padrão obrigatório.
O Brasil já tinha fantástico antes de descobrirmos a fantasia
Há ainda um problema histórico por trás da ideia de que a literatura fantástica brasileira precisaria importar sua tradição inteira do exterior. Bruno Anselmi Matangrano e Enéias Tavares, em Fantástico Brasileiro: o insólito literário do romantismo ao fantasismo, percorrem quase dois séculos de produção nacional para mostrar a presença contínua de diferentes formas do insólito na nossa literatura. O fantástico brasileiro não começou quando editoras passaram a publicar romances com mapas na primeira página.
Nossa literatura já convivia com assombrações, acontecimentos inexplicáveis, imaginários religiosos, lendas, monstruosidades e distorções da realidade muito antes de “fantasia” se consolidar comercialmente como uma categoria reconhecível. O diálogo com tradições estrangeiras sempre existiu, como existe em qualquer literatura, mas ele nunca foi a única fonte possível.
Talvez uma parte do problema esteja justamente na separação que aprendemos a fazer. Quando pensamos em literatura brasileira, lembramos de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Clarice Lispector ou João Guimarães Rosa dentro de categorias escolares bastante definidas. Quando pensamos em fantasia, a memória corre para Tolkien, C. S. Lewis, George R. R. Martin ou autores contemporâneos do mercado anglófono. É como se as duas genealogias ocupassem estantes diferentes e somente uma delas pudesse ensinar como se constrói um mundo imaginário.
Não precisa ser assim.
A pergunta não é onde estão nossos castelos
A fantasia brasileira não precisa encontrar uma Idade Média equivalente à europeia, porque esse talvez seja o ponto errado de partida. Também não precisa provar sua brasilidade colocando elementos reconhecíveis do país em cada página.
O caminho mais fértil parece estar em perguntar que experiências, histórias e formas de imaginar o mundo ainda utilizamos pouco.
O Brasil Império pode gerar uma corte fantástica. São Paulo pode esconder uma sociedade de bruxas. O folclore pode sobreviver ao lado de computadores e videogames. Cosmologias afro-brasileiras podem sustentar uma narrativa épica inteira. Nossa história indígena, nossas cidades, o sertão, a Amazônia, as migrações, as religiões, as desigualdades, a colonização e as maneiras muito particulares pelas quais diferentes culturas se encontraram — frequentemente de maneira violenta — oferecem materiais que não precisam ser tratados como obrigação nacionalista para serem literariamente poderosos.
Castelos continuam disponíveis. Dragões também.
A diferença é perceber que eles são escolhas.
Fontes e leituras
- CASTELO, Ariani. Coração de Cristal Partido. Rio de Janeiro: Rocco, 2026.
- RABELO, Beatriz. “Ariani Castelo lança fantasia brasileira com romance, magia e disputas políticas”. Diário do Nordeste, 19 jun. 2026.
- CASTILHO, Felipe. Ordem Vermelha: Filhos da Degradação. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.
- MATANGRANO, Bruno Anselmi. “Ordem Vermelha: filhos da degradação, entre a alta fantasia e a distopia”. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n. 56, 2019.
- CHIOVATTO, Carol. Porém Bruxa. São Paulo: Suma, 2023. Edição original publicada pela AVEC em 2019.
- GAMBI, Esther. “BioBrasil: entrevista Carol Chiovatto”. Centro de Estudios Brasileños, Universidad de Salamanca, 2024.
- KABRAL, Fábio. Sopro dos deuses: os ancestrais do amanhã. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2024.
- MATANGRANO, Bruno Anselmi; TAVARES, Enéias. Fantástico Brasileiro: o insólito literário do romantismo ao fantasismo. Curitiba: Arte & Letra, 2018.
- LE GUIN, Ursula K. “From Elfland to Poughkeepsie”. In: The Language of the Night: Essays on Fantasy and Science Fiction. Nova York: G. P. Putnam’s Sons, 1979.
