Steven Spielberg costuma ser lembrado por imagens que já parecem existir independentemente dos filmes em que nasceram. A barbatana cortando a água antes do ataque em Tubarão, as luzes descendo sobre a Torre do Diabo em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, a bicicleta recortada contra a Lua em E.T. — O Extraterrestre, Indiana Jones correndo diante de uma pedra gigantesca, o copo d’água tremendo pouco antes da chegada do T. rex em Jurassic Park, os soldados desembarcando sob fogo inimigo em O Resgate do Soldado Ryan. Poucos cineastas produziram tantas imagens imediatamente reconhecíveis, e menos ainda conseguiram fazer isso atravessando gêneros, décadas e mudanças profundas na própria indústria. Spielberg se tornou sinônimo de entretenimento popular em grande escala, mas essa definição, embora verdadeira, é pequena demais. Sua trajetória também passa pela televisão, pela formação da Amblin, pela criação da DreamWorks, por dramas históricos, pela produção de filmes de outros diretores, pela descoberta e proteção de novos talentos e por uma rede de amizades que o colocou no centro de uma geração que mudou Hollywood.
Antes de Hollywood
Steven Allan Spielberg nasceu em 18 de dezembro de 1946, em Cincinnati, Ohio, filho de Leah Adler e Arnold Spielberg. O pai era engenheiro elétrico e trabalhou em áreas ligadas à computação, enquanto a mãe, pianista, manteve uma relação muito mais espontânea com a arte e a vida doméstica. A família mudou diversas vezes durante sua infância, passando por lugares como Nova Jersey, Arizona e Califórnia. Essa experiência de deslocamento aparece de muitas formas em seus filmes: casas que parecem provisórias, crianças tentando compreender adultos, famílias desestruturadas, personagens que observam o mundo de fora e procuram algum tipo de pertencimento. Spielberg cresceu também como um garoto judeu em ambientes nos quais frequentemente se sentia diferente, algo que ele relataria mais tarde ao falar do antissemitismo que sofreu na juventude e da tentativa, durante certo período, de diminuir ou esconder partes da própria identidade.
O cinema surgiu muito cedo como uma maneira de organizar esse mundo. Spielberg começou a realizar pequenos filmes ainda adolescente, utilizando a câmera de 8 mm da família e recrutando parentes e amigos como atores. Produzia histórias de guerra, aventuras e pequenos espetáculos domésticos, cobrando inclusive entrada de vizinhos para algumas exibições. A experiência familiar ligada à Segunda Guerra Mundial, especialmente através do pai, ajudava a alimentar seu fascínio por aviões, batalhas e heroísmo, enquanto a ficção científica, os seriados de aventura e os filmes clássicos ofereciam um repertório visual que ele absorvia com voracidade. Antes de qualquer formação acadêmica consistente, Spielberg já aprendia fazendo: montava, experimentava movimentos de câmera, criava efeitos rudimentares e descobria que podia conduzir a atenção de uma plateia.
Essa formação também aconteceu como espectador. Spielberg cresceu sob a influência de diretores de gerações anteriores e nunca escondeu a reverência que tinha pelo cinema clássico. John Ford tornou-se uma referência fundamental pela maneira de usar paisagem, composição e personagens; David Lean mostrou como grandes espaços podiam carregar intimidade e emoção; Alfred Hitchcock demonstrou o poder de esconder informação e controlar a expectativa do público; Akira Kurosawa, Howard Hawks, Frank Capra e outros diretores ajudaram a formar seu entendimento de narrativa visual. Lawrence da Arábia, de David Lean, teve impacto particularmente profundo sobre ele, a ponto de Spielberg contar que saiu da primeira sessão intimidado pela possibilidade de nunca conseguir realizar algo daquela dimensão. Em vez de afastá-lo do cinema, esse sentimento acabou ampliando sua ambição.
Sua relação com a universidade foi menos convencional do que a trajetória de muitos cineastas de sua geração. Spielberg estudou na California State College, Long Beach, mas abandonou o curso quando surgiu a oportunidade profissional que procurava havia anos. A história de suas primeiras incursões pelos estúdios de Hollywood adquiriu contornos quase lendários, alimentados pelo próprio diretor: ainda muito jovem, frequentava os terrenos da Universal, observava produções e tentava compreender o funcionamento daquele mundo por dentro. O passo decisivo veio com Amblin’, curta-metragem de 1968 realizado em 35 mm. O filme chamou a atenção de Sidney Sheinberg, executivo da Universal, que lhe ofereceu um contrato para dirigir televisão. Spielberg deixou a faculdade e entrou profissionalmente na indústria. Décadas depois, já mundialmente conhecido e vencedor do Oscar, retornaria aos estudos e concluiria o bacharelado na California State University, Long Beach, em 2002.
A televisão como escola
A televisão foi sua verdadeira escola profissional. Entre o fim dos anos 1960 e o início da década seguinte, Spielberg dirigiu episódios de séries como Night Gallery, Marcus Welby, M.D., The Psychiatrist, Owen Marshall, Counselor at Law e Columbo. Em Murder by the Book, episódio de Columbo exibido em 1971, já era possível perceber sua atenção ao movimento, aos objetos dentro do quadro e à criação de tensão através da encenação. Trabalhar em televisão significava aprender a resolver problemas rapidamente, obedecer a cronogramas apertados e contar uma história com os recursos disponíveis. Para um diretor que mais tarde seria associado a produções gigantescas, essa disciplina inicial foi decisiva.
Foi também na televisão que surgiu o primeiro trabalho capaz de anunciar o que Spielberg se tornaria. Encurralado, ou Duel, realizado em 1971 para a TV norte-americana, acompanha um motorista comum perseguido por um caminhão cujo condutor quase nunca é mostrado. A simplicidade da premissa esconde uma extraordinária demonstração de domínio do suspense. O caminhão ganha comportamento de criatura, a estrada se transforma num território hostil e a falta de explicação torna a ameaça ainda maior. O telefilme teve versões lançadas nos cinemas de outros países e ajudou Spielberg a atravessar definitivamente a fronteira entre televisão e longa-metragem.
A Louca Escapada, de 1974, foi seu primeiro longa produzido especificamente para os cinemas. O filme já mostrava seu talento para cenas de movimento, multidões e personagens emocionalmente contraditórios, mas foi o trabalho seguinte que alterou para sempre sua carreira.
Tubarão e o nascimento de um fenômeno
Spielberg tinha menos de trinta anos quando aceitou dirigir Tubarão, adaptação do romance de Peter Benchley. A produção realizada no mar tornou-se notória pelos atrasos, pelo orçamento crescente e sobretudo pelos problemas do tubarão mecânico, que frequentemente não funcionava. Aquilo que poderia ter destruído o filme acabou obrigando Spielberg a encontrar uma solução estética muito mais eficiente: mostrar menos a criatura e construir sua presença através do ponto de vista, da música, da montagem, da água e da reação dos personagens.
Lançado em 1975, Tubarão tornou-se um fenômeno cultural e comercial. O filme ultrapassou a marca de cem milhões de dólares nas bilheterias norte-americanas e ajudou a redefinir a ideia do grande lançamento de verão. A transformação do blockbuster não pode ser atribuída a uma única obra, mas Tubarão ocupa posição central nesse processo. Spielberg aprendeu ali algo que permaneceria essencial em sua carreira: espetáculo e personagem não precisavam ser forças opostas. O público podia experimentar medo, aventura e entretenimento de grande escala ao mesmo tempo em que se envolvia profundamente com figuras comuns, como Martin Brody, um chefe de polícia que teme a água e precisa enfrentar algo que ultrapassa sua capacidade de controle.
Dois anos depois, Contatos Imediatos do Terceiro Grau revelou outro lado do mesmo cineasta. Se Tubarão transformava o desconhecido em ameaça, o filme de 1977 tratava a presença extraterrestre como obsessão, mistério e possibilidade de comunicação. Spielberg participou diretamente da concepção e do roteiro, tornando o longa uma das obras mais pessoais de sua primeira fase. Ali se consolidaram elementos que voltariam inúmeras vezes: pessoas comuns diante de acontecimentos impossíveis, luzes como linguagem do maravilhoso, famílias abaladas por forças que não conseguem compreender e personagens olhando para o céu como se esperassem que alguma coisa respondesse.
Spielberg, Lucas e a geração que mudou Hollywood
Na mesma época, Spielberg se aproximava de outros jovens cineastas que também estavam reconstruindo Hollywood. George Lucas, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Brian De Palma e outros diretores formavam uma geração que havia crescido assistindo a filmes, estudando cinema e discutindo obsessivamente a linguagem de seus antecessores. Spielberg conheceu Lucas ainda no final dos anos 1960, depois de assistir ao curta estudantil Electronic Labyrinth: THX 1138 4EB. Coppola teve participação nesse encontro, e a amizade entre Spielberg e Lucas se aprofundou nos anos seguintes. Eles assistiam aos trabalhos uns dos outros, trocavam ideias e acompanhavam de perto o sucesso e os fracassos daquele grupo.
A relação com Lucas se tornaria uma das parcerias mais importantes da cultura popular. Depois do fenômeno de Star Wars, Lucas contou a Spielberg sobre uma ideia inspirada nos antigos seriados cinematográficos de aventura. Spielberg, que tinha interesse em dirigir um filme de James Bond, ouviu do amigo que ele possuía algo ainda melhor. Dessa conversa nasceu a parceria que conduziu a Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, lançado em 1981, com história concebida por Lucas, roteiro de Lawrence Kasdan, Harrison Ford no papel principal e Spielberg na direção.
Indiana Jones tornou-se rapidamente um dos personagens mais reconhecíveis do cinema. Spielberg dirigiria ainda Indiana Jones e o Templo da Perdição, Indiana Jones e a Última Cruzada e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. A colaboração com Lucas reunia dois cineastas apaixonados por formas antigas de entretenimento popular, mas que possuíam recursos técnicos e industriais capazes de reinventá-las para uma nova geração. O primeiro Indiana Jones reverencia seriados de aventura, filmes de guerra, arqueologia fantástica e histórias de exploração sem jamais parecer uma simples reprodução nostálgica. O resultado passou a ser imitado pelo próprio cinema que veio depois.
Foi durante esse período que outro acontecimento curioso mostrou como Spielberg já possuía influência muito além de seus próprios filmes. Indiana Jones e o Templo da Perdição e Gremlins, produzido pela Amblin, provocaram debates sobre obras que pareciam intensas demais para crianças, embora não se encaixassem adequadamente numa classificação destinada apenas a adultos. Spielberg sugeriu à entidade responsável pelas classificações cinematográficas norte-americanas a criação de uma categoria intermediária. Pouco depois surgiria a classificação PG-13, que se tornaria fundamental para o cinema comercial norte-americano.
E.T., Amblin e a transformação de Spielberg em produtor
Entre os dois primeiros filmes de Indiana Jones, Spielberg realizou E.T. — O Extraterrestre, lançado em 1982. Talvez nenhum outro longa sintetize tão claramente a combinação de infância, solidão, família e maravilhamento que atravessa sua obra. Elliott encontra uma criatura abandonada e reconhece nela uma solidão que também existe dentro de sua própria casa. O extraterrestre não chega como invasor, mas como alguém que também quer voltar para casa. A perspectiva infantil transforma a ficção científica em uma experiência íntima, e a imagem da bicicleta atravessando a Lua acabaria se tornando não apenas uma das imagens mais famosas de Spielberg, mas também o símbolo da própria Amblin Entertainment.
A Amblin, fundada no início dos anos 1980 e batizada em referência ao curta que havia aberto as portas da Universal para Spielberg, ampliou radicalmente sua influência. A partir dali, seu nome começou a aparecer não apenas como diretor, mas como produtor, produtor executivo, criador ou desenvolvedor de projetos. Essa distinção é importante porque a cultura popular dos anos 1980 muitas vezes associa automaticamente a Spielberg filmes que ele não dirigiu. Sua presença, porém, podia ser decisiva mesmo atrás de outro cineasta. Gremlins, dirigido por Joe Dante, teve Spielberg como produtor executivo. De Volta para o Futuro, de Robert Zemeckis, também carregava sua participação como produtor executivo. Os Goonies nasceu de uma história concebida por Spielberg, posteriormente roteirizada por Chris Columbus e dirigida por Richard Donner. Em outros casos, sua influência aparecia na proteção dada aos realizadores, no desenvolvimento de projetos ou na capacidade de convencer os estúdios a apostar em ideias pouco convencionais.
Essa atuação ajudou a criar aquilo que posteriormente seria reconhecido como uma espécie de identidade Amblin. Crianças e adolescentes no centro da narrativa, subúrbios aparentemente banais invadidos pelo extraordinário, famílias imperfeitas, humor, medo e aventura convivendo sem fronteiras rígidas, e uma sensação constante de que o fantástico poderia surgir logo depois da esquina. Spielberg não inventou sozinho esse repertório, mas sua produtora tornou-se uma das principais responsáveis por consolidá-lo. Décadas depois, filmes, séries e games continuariam retomando essa linguagem, muitas vezes de maneira tão explícita que “Amblin” passou a funcionar quase como descrição de uma atmosfera.
Quando o espetáculo encontrou outros caminhos
Ao mesmo tempo em que ajudava a consolidar essa imagem de grande contador de histórias populares, Spielberg começou a buscar trabalhos que demonstrassem uma amplitude maior. A Cor Púrpura, lançado em 1985 e adaptado do romance de Alice Walker, representou uma mudança importante. O projeto envolveu figuras como Quincy Jones, Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey e obrigou Spielberg a trabalhar fora da zona em que havia construído sua fama. O filme recebeu numerosas indicações ao Oscar e mostrou que seu interesse por famílias, violência, memória e sobrevivência podia existir sem extraterrestres, monstros ou relíquias sobrenaturais.
Império do Sol, de 1987, aprofundou essa transformação. A história de um garoto britânico separado da família durante a ocupação japonesa de Xangai permitia que Spielberg continuasse observando o mundo através da infância, mas agora dentro de uma experiência histórica brutal. O filme revelou ao grande público um jovem Christian Bale e antecipou a aproximação cada vez maior do diretor com a guerra, a memória histórica e o trauma. Em Além da Eternidade, de 1989, ele voltaria ao fantástico por um caminho mais romântico e melancólico; em Hook — A Volta do Capitão Gancho, de 1991, recuperaria Peter Pan para discutir o adulto que esqueceu a criança que foi.
1993: Jurassic Park e A Lista de Schindler
O início dos anos 1990 representaria talvez o período mais extraordinário de sua carreira. Em 1993, Spielberg lançou dois filmes radicalmente diferentes entre si: Jurassic Park e A Lista de Schindler. O primeiro transformou os dinossauros em uma das experiências cinematográficas mais convincentes já realizadas até então. A combinação de animatrônicos produzidos pela equipe de Stan Winston com efeitos digitais da Industrial Light & Magic ajudou a acelerar uma mudança que transformaria toda a indústria. Spielberg não utilizou a tecnologia apenas para exibir criaturas; organizou a revelação dos animais através da reação humana, do som, do movimento e da escala. O primeiro braquiossauro, o T. rex escapando sob a chuva e os velociraptores caçando dentro do centro de visitantes tornaram-se referências instantâneas.
No mesmo ano, A Lista de Schindler levou Spielberg para um lugar completamente diferente. Filmado majoritariamente em preto e branco, o drama sobre Oskar Schindler e o Holocausto possui uma relação direta com a identidade judaica do diretor, que por muito tempo havia tratado de maneira mais indireta. O filme venceu o Oscar de Melhor Filme e finalmente deu a Spielberg seu primeiro Oscar de Melhor Direção. Mais importante para sua trajetória pessoal, a experiência de realizar o longa e de encontrar sobreviventes do Holocausto esteve ligada à criação da Shoah Foundation, dedicada a registrar e preservar testemunhos de sobreviventes e vítimas de perseguições e genocídios.
A conquista do Oscar por A Lista de Schindler também alterou uma percepção que acompanhara Spielberg durante anos. Seu enorme sucesso comercial frequentemente fazia com que parte da crítica o tratasse como um grande técnico ou entertainer, mas não necessariamente como um cineasta de “seriedade” equivalente à de alguns colegas. Essa separação sempre foi artificial, porque filmes como Tubarão, Contatos Imediatos, E.T. e Império do Sol já demonstravam domínio formal e temas profundamente pessoais. Ainda assim, A Lista de Schindler tornou impossível ignorar a extensão de suas capacidades.
DreamWorks e uma posição cada vez maior na indústria
Em 1994, Spielberg deu outro passo que ultrapassava a função de diretor. Ao lado de Jeffrey Katzenberg e David Geffen, fundou a DreamWorks SKG. A criação de um novo grande estúdio por três figuras de enorme poder foi um acontecimento incomum em Hollywood. A DreamWorks atuaria em cinema, televisão e animação, tornando-se responsável ou coparticipante de produções como Beleza Americana, Gladiador e Uma Mente Brilhante, vencedoras consecutivas do Oscar de Melhor Filme entre o fim dos anos 1990 e o início dos 2000. Spielberg havia começado como um jovem tentando encontrar uma maneira de entrar nos estúdios; algumas décadas depois, participava da criação de um.
Mesmo com essa dimensão empresarial crescente, nunca deixou de dirigir regularmente. Na segunda metade dos anos 1990 vieram O Mundo Perdido: Jurassic Park, Amistad e O Resgate do Soldado Ryan. Este último, lançado em 1998, novamente transformou a maneira como Hollywood representava um gênero inteiro. A sequência do desembarque na Normandia, com câmera instável, som agressivo e violência sem qualquer distância confortável, influenciou profundamente o cinema de guerra e também a televisão e os videogames. Spielberg conquistou seu segundo Oscar de Melhor Direção pelo filme.
Sua relação com a Segunda Guerra Mundial continuaria se estendendo para além do cinema. Com Tom Hanks, que se tornaria um de seus colaboradores e amigos mais importantes, Spielberg participou da produção de Band of Brothers, minissérie de 2001 baseada nas experiências de soldados norte-americanos na Europa. A parceria seguiria posteriormente em outras produções televisivas relacionadas à guerra. Como diretor, Spielberg trabalhou repetidas vezes com Hanks em filmes como O Resgate do Soldado Ryan, Prenda-me Se For Capaz, O Terminal, Ponte dos Espiões e The Post: A Guerra Secreta, criando uma das colaborações ator-diretor mais consistentes de sua fase madura.
Stanley Kubrick e a entrada no século XXI
Outra amizade decisiva foi a construída com Stanley Kubrick. À primeira vista, os dois poderiam parecer cineastas de temperamentos opostos: Spielberg associado à emoção aberta e Kubrick à precisão distante. A realidade era mais complexa. Kubrick passou anos desenvolvendo um projeto sobre um menino artificial, mas acreditava que Spielberg talvez fosse mais adequado para realizá-lo. Depois da morte de Kubrick em 1999, Spielberg assumiu o projeto e escreveu o roteiro de A.I. — Inteligência Artificial, lançado em 2001. O filme se tornou uma obra estranha e profundamente melancólica, na qual a busca de David por amor atravessa séculos. Muitas interpretações tentaram separar o que seria “Kubrick” do que seria “Spielberg”, mas o resultado é justamente interessante porque as sensibilidades dos dois parecem se misturar de maneira impossível de dividir com precisão.
Os primeiros anos do século XXI mostraram um Spielberg particularmente produtivo. Minority Report, de 2002, adaptou Philip K. Dick e utilizou ficção científica para discutir vigilância, previsão e livre-arbítrio. No mesmo ano, Prenda-me Se For Capaz retornou a um registro aparentemente mais leve, embora sua história de falsificação e perseguição esconda outra narrativa spielberguiana sobre uma família desfeita. O Terminal explorou burocracia, deslocamento e pertencimento. Guerra dos Mundos, de 2005, transformou novamente o extraterrestre em ameaça absoluta e filtrou uma invasão global através da experiência limitada de um pai tentando proteger os filhos.
Munique, também de 2005, mostrou seu interesse crescente por conflitos políticos e consequências morais. A partir dali, a carreira madura de Spielberg se tornou particularmente difícil de resumir por gênero. Ele podia passar de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal para As Aventuras de Tintim, de Cavalo de Guerra para Lincoln, de Ponte dos Espiões para O Bom Gigante Amigo, de The Post para Jogador Nº 1. Em vez de abandonar o cinema popular em favor do drama histórico, Spielberg manteve as duas coisas convivendo.
Amigos, parceiros e uma carreira construída em colaboração
Sua amizade com outros grandes cineastas nunca desapareceu nesse processo. George Lucas continuou sendo uma presença fundamental, especialmente através de Indiana Jones. Francis Ford Coppola pertenceu ao círculo que ajudou a aproximar vários desses diretores no início de suas carreiras. Martin Scorsese manteve com Spielberg uma relação de amizade e admiração que atravessou décadas, apesar de seus filmes parecerem, à primeira vista, ocupar territórios muito diferentes. Scorsese chegou a dirigir um episódio de Amazing Stories, série antológica criada por Spielberg nos anos 1980. Spielberg também trabalhou ou manteve relações criativas próximas com nomes como Clint Eastwood, Robert Zemeckis, Joe Dante, Peter Jackson, George Miller e outros cineastas de diferentes gerações.
A relação com Peter Jackson permitiu finalmente realizar As Aventuras de Tintim, projeto pelo qual Spielberg se interessava desde os anos 1980. Utilizando captura de movimento e a experiência tecnológica da Weta Digital, Spielberg dirigiu seu primeiro longa totalmente animado, enquanto Jackson atuou como produtor. O projeto mostrava novamente uma característica recorrente de sua carreira: mesmo depois de décadas de experiência, Spielberg continuava disposto a aprender novas ferramentas quando elas ofereciam uma maneira diferente de contar uma história.
Outra parceria impossível de separar de sua obra é a mantida com John Williams. A colaboração entre diretor e compositor começou nos anos 1970 e resultou em algumas das músicas mais reconhecíveis da história do cinema. O tema ameaçador de Tubarão, as cinco notas utilizadas como comunicação em Contatos Imediatos, a aventura de Indiana Jones, o encantamento de E.T., a solenidade de Jurassic Park e a melancolia de A Lista de Schindler demonstram como imagem e música foram pensadas em diálogo durante décadas. Poucos pares diretor-compositor possuem associação tão imediata para o público.
Spielberg também construiu relações profissionais extremamente duradouras atrás das câmeras. O montador Michael Kahn tornou-se um de seus colaboradores mais constantes, participando da construção do ritmo de uma parcela enorme de sua filmografia. Kathleen Kennedy trabalhou durante décadas ao lado de Spielberg e Frank Marshall, participando da fundação e consolidação da Amblin antes de assumir posteriormente a presidência da Lucasfilm. O designer de produção Rick Carter, a produtora Kristie Macosko Krieger e o roteirista Tony Kushner também se tornariam colaboradores fundamentais de fases posteriores de sua carreira.
Kushner, em particular, ajudou Spielberg a aprofundar seu interesse por política, história e memória em trabalhos como Munique, Lincoln e Amor, Sublime Amor. A adaptação do musical realizada em 2021 foi um projeto que Spielberg desejava fazer havia décadas e representou sua estreia na direção de um musical de longa-metragem. Em vez de tratar a obra como simples homenagem ao filme de 1961, ele e Kushner reorganizaram personagens, contexto e espaço urbano, mantendo a música de Leonard Bernstein e as letras de Stephen Sondheim enquanto construíam uma nova interpretação cinematográfica.
Os Fabelmans e o retorno à própria história
Logo depois veio o filme mais diretamente autobiográfico de sua carreira. Os Fabelmans, de 2022, foi escrito por Spielberg e Tony Kushner e transformou memórias familiares em ficção. O jovem Sammy Fabelman descobre simultaneamente o poder do cinema e a capacidade perturbadora que uma câmera possui de revelar coisas que não estavam destinadas a ser vistas. A separação dos pais, durante muito tempo compreendida por Spielberg de maneira simplificada, é revisitada com a maturidade de alguém que posteriormente descobriu aspectos da história familiar que desconhecia quando criança. O filme não funciona como explicação definitiva para tudo que Spielberg realizou, mas ilumina temas que percorrem sua obra desde o início: ausência, família, imagem, controle, memória e a necessidade de transformar experiência em narrativa.
A própria vida de Spielberg passou por mudanças que dialogam com essas questões. Seu primeiro casamento, com a atriz Amy Irving, terminou em divórcio. Em 1991, ele se casou com Kate Capshaw, que havia conhecido durante a realização de Indiana Jones e o Templo da Perdição. Sua família numerosa e sua experiência como pai contribuíram para transformar seu olhar sobre temas que já estavam presentes desde os primeiros filmes. O pai ausente ou emocionalmente distante, uma das figuras mais recorrentes de sua fase inicial, ganhou novas formas ao longo do tempo, e sua reconciliação com os próprios pais alterou inclusive a maneira como Spielberg interpretava sua juventude.
Prêmios, reconhecimento e uma carreira difícil de medir
Seus prêmios acompanham essa transformação de jovem prodígio em uma das figuras mais respeitadas da indústria. A Academia lhe concedeu Oscars de Melhor Direção por A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan, além do Oscar de Melhor Filme como produtor de A Lista de Schindler. Antes disso, em 1986, recebeu o Irving G. Thalberg Memorial Award, concedido a produtores por uma carreira marcada por produções de alta qualidade. Ao longo das décadas, acumulou indicações ao Oscar por direção de obras como Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, E.T., Munique, Lincoln, Amor, Sublime Amor e Os Fabelmans. Em 1995, tornou-se o então mais jovem homenageado com o AFI Life Achievement Award. Também recebeu incontáveis reconhecimentos de associações de diretores, festivais, instituições culturais e governos.
Os números ajudam a dimensionar a carreira, mas explicam pouco sobre sua permanência. Spielberg conseguiu algo particularmente raro: mudar junto com Hollywood sem perder completamente a ligação com o tipo de cinema que o fez querer trabalhar ali. Ele viveu a transição dos grandes estúdios para a chamada Nova Hollywood, participou da ascensão do blockbuster, atravessou a transformação dos efeitos práticos em imagens digitais, trabalhou com captura de movimento, viu a televisão se aproximar do prestígio cinematográfico e acompanhou o surgimento do streaming. Em todas essas mudanças, continuou voltando a perguntas surpreendentemente simples. Como uma criança percebe algo que os adultos não conseguem ver? O que acontece quando o extraordinário invade uma casa comum? Quanto controle realmente temos sobre aquilo que criamos? O desconhecido deve ser temido ou compreendido? O que uma família perde quando deixa de se comunicar?
Seu nome também aparece em uma quantidade de projetos muito maior do que sua filmografia como diretor. Isso às vezes cria confusão, porque produções associadas à Amblin ou produzidas por Spielberg acabam sendo tratadas como se fossem filmes dirigidos por ele. Mas essa presença paralela é justamente parte de sua importância. Spielberg ajudou a produzir Gremlins, De Volta para o Futuro, Os Goonies, Uma Cilada para Roger Rabbit, séries como Band of Brothers e inúmeros outros projetos. Em alguns casos funcionou como produtor executivo; em outros participou do desenvolvimento inicial, ajudou a viabilizar o financiamento ou ofereceu proteção criativa aos diretores. Seu impacto na cultura pop não pode ser medido apenas pelo que ele próprio colocou atrás da câmera.
O que faz um filme de Spielberg parecer um filme de Spielberg
Também é impossível separar esse impacto da capacidade de trabalhar com pessoas. Spielberg construiu uma carreira baseada em colaborações que duram décadas, algo incomum numa indústria conhecida por relações transitórias. John Williams, Michael Kahn, Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Janusz Kaminski, Rick Carter, Tony Kushner e Kristie Macosko Krieger representam diferentes momentos dessa continuidade. Com atores, também desenvolveu relações recorrentes com Tom Hanks, Harrison Ford, Richard Dreyfuss, Mark Rylance e outros intérpretes. Essa rede talvez seja uma das razões pelas quais filmes tão grandes conseguem preservar um sentimento de autoria: a escala industrial é sustentada por grupos criativos que aprenderam a trabalhar juntos ao longo do tempo.
Há ainda um paradoxo interessante em sua posição na história do cinema. Spielberg ajudou a estabelecer o modelo de blockbuster que posteriormente seria acusado de diminuir o espaço para filmes médios e dramas adultos, mas ele próprio continuou dirigindo justamente esses dramas. Participou da consolidação de franquias, mas passou décadas realizando filmes sem intenção de gerar continuações. Tornou os efeitos digitais centrais em Jurassic Park, mas continuou valorizando cenários, efeitos físicos e encenação tradicional. Tornou-se um dos homens mais poderosos de Hollywood, mas seus filmes frequentemente demonstram desconfiança em relação a instituições que acreditam possuir controle total sobre pessoas, natureza ou tecnologia.
Mesmo a ideia de um “estilo Spielberg” é mais difícil de definir do que parece. Há movimentos de câmera reconhecíveis, uma maneira particular de organizar olhares e revelações, personagens observando algo fora do quadro antes que o público veja aquilo que provocou a reação, luzes fortes atravessando espaços escuros, famílias como núcleo dramático e uma extraordinária confiança na narrativa visual. Mas Spielberg sempre resistiu à ideia de possuir uma assinatura tão imediatamente fechada quanto a de alguns colegas. Talvez justamente por isso tenha conseguido dirigir Tubarão, A Cor Púrpura, Jurassic Park, A Lista de Schindler, Minority Report, Lincoln e Amor, Sublime Amor sem que a variedade pareça simplesmente resultado de um diretor procurando provar versatilidade.
A diversidade não significa ausência de obsessões. Pelo contrário: quanto mais sua filmografia cresce, mais fácil se torna perceber que Spielberg passa décadas retornando às mesmas questões por caminhos diferentes. O desconhecido pode surgir como tubarão, alienígena, dinossauro, inteligência artificial ou fenômeno espiritual. A infância pode ser aventura em E.T., sobrevivência em Império do Sol, abandono em A.I. ou memória em Os Fabelmans. A família pode ser refúgio, ferida ou responsabilidade. A tecnologia pode produzir maravilhamento e, no instante seguinte, revelar a arrogância de quem acreditava dominá-la. A História pode aparecer como trauma individual dentro de acontecimentos gigantescos.
Um cineasta no centro de várias eras de Hollywood
Essa permanência ajuda a explicar por que Steven Spielberg ocupa uma posição tão singular. Ele não é apenas um diretor que realizou vários sucessos, nem apenas o cineasta associado ao nascimento do blockbuster moderno. É também um dos grandes mediadores entre o cinema clássico que admirava na juventude e a cultura audiovisual que surgiu depois dele. Aprendeu com Ford, Lean, Hitchcock e Kurosawa, tornou-se contemporâneo de Lucas, Coppola, Scorsese e De Palma, trabalhou ao lado de Kubrick, Eastwood e Jackson, ajudou a abrir caminho para Zemeckis, Dante e muitos outros, e continuou exercendo influência sobre cineastas que cresceram assistindo aos seus próprios filmes.
Ao longo de mais de meio século de trabalho profissional, Spielberg passou de jovem contratado da televisão a diretor de grandes sucessos, de diretor a produtor, de produtor a fundador de empresas e estúdios, de fenômeno comercial a cineasta consagrado pelas principais instituições de cinema. A trajetória poderia ter sido definida por qualquer uma dessas fases. O mais incomum é que nenhuma delas encerrou a anterior. Ele continuou dirigindo mesmo depois de se tornar produtor poderoso, continuou interessado em ficção científica depois de conquistar prestígio com dramas históricos e continuou procurando novas maneiras de filmar o espanto mesmo depois de suas imagens terem se tornado parte da memória coletiva.
Talvez seja por isso que sua carreira funcione tão bem como tema para um Especial. Steven Spielberg não representa apenas uma filmografia extensa. Acompanhá-lo significa atravessar também mudanças na televisão norte-americana, a Nova Hollywood, o nascimento do blockbuster contemporâneo, a transformação dos efeitos visuais, o crescimento do cinema de franquias, o fortalecimento da televisão como espaço de grandes produções e a passagem de uma geração de jovens cinéfilos para posições de enorme poder dentro da indústria. Poucas trajetórias permitem observar tantas transformações através de uma única pessoa.
E ainda assim, por trás de tudo isso, permanece algo muito próximo daquele garoto que filmava histórias com uma câmera doméstica. Spielberg nunca deixou de acreditar que o cinema começa quando alguém olha para alguma coisa. Às vezes é uma criança olhando para o céu. Às vezes é um homem observando um copo de água começar a tremer. Às vezes é uma multidão olhando para algo que ainda não conseguimos ver. O espetáculo pode ser gigantesco, mas quase sempre Spielberg procura primeiro o rosto de quem está diante dele. É nesse intervalo entre o olhar e a revelação que grande parte de seu cinema vive — e é também ali que uma das carreiras mais influentes da história de Hollywood encontrou sua forma.
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