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5 ficções científicas em que a ecologia muda tudo

Durante muito tempo, a ficção científica imaginou o futuro olhando para máquinas, cidades, viagens espaciais e novas formas de organização social. A natureza, quando aparecia, muitas vezes ocupava uma posição aparentemente secundária: era o planeta a ser colonizado, o deserto a atravessar, a floresta que precisava ser vencida ou o mundo devastado depois de alguma catástrofe. Algumas das obras mais interessantes do gênero, porém, inverteram essa relação. Nelas, compreender o ambiente é tão importante quanto compreender a tecnologia ou a política, porque aquilo que vive, cresce, se extingue ou se transforma ao redor dos personagens determina o que uma sociedade pode se tornar.

O tema ganhou um novo ponto de referência em agosto de 2026. Em 12 de agosto, E. J. Swift venceu o Arthur C. Clarke Award com When There Are Wolves Again, romance especulativo que acompanha décadas de transformação ambiental na Grã-Bretanha e coloca reflorestamento, reintrodução de espécies e ativismo ecológico no centro de seu futuro possível. O prêmio, concedido anualmente ao melhor romance de ficção científica publicado no Reino Unido no ano anterior, chegou à sua quadragésima edição escolhendo justamente uma obra de ecoficção.

A escolha também ajuda a lembrar que ficção ecológica não significa necessariamente narrar o fim do mundo. O ambiente pode ser ameaça, possibilidade, organismo incompreensível ou sistema do qual dependem impérios inteiros. A literatura brasileira tem exemplos importantes dessa aproximação, de Ignácio de Loyola Brandão, em Não Verás País Nenhum, a Natalia Borges Polesso, em A Extinção das Abelhas, e Joca Reiners Terron, em A Morte e o Meteoro. Em todos esses casos, imaginar outra relação entre seres humanos e o espaço que ocupam modifica a própria maneira de pensar o futuro.

Estas cinco obras mostram caminhos bastante diferentes para fazer isso.

1. Duna, de Frank Herbert — quando compreender o planeta significa compreender o poder

É fácil lembrar de Duna por Paul Atreides, pelas Bene Gesserit, pelas Grandes Casas ou pelos conflitos em torno da especiaria. Mas boa parte daquilo que torna o romance de Frank Herbert, publicado originalmente em 1965, tão duradouro está em outro elemento: Arrakis funciona como um sistema ecológico antes de funcionar como um simples cenário.

A escassez absoluta de água determina a cultura fremen, seus costumes, sua tecnologia e até sua relação com os mortos. Os gigantescos vermes da areia não são apenas criaturas destinadas a produzir cenas espetaculares; eles pertencem a um ciclo ecológico ligado à própria existência da especiaria, o recurso que sustenta a economia e as viagens interestelares daquele universo. Alterar Arrakis significa, portanto, interferir simultaneamente em sua fauna, no modo de vida de seus habitantes e nas estruturas econômicas do Império.

Herbert também introduz uma tensão que acompanharia toda a série: transformar um ambiente para torná-lo mais confortável para os seres humanos pode destruir exatamente aquilo que o torna único. Os fremen sonham com uma Arrakis mais verde, mas o projeto de modificação do planeta envolve consequências que ultrapassam a simples ideia de “fazer chover no deserto”. Ecologia, religião, colonialismo e política tornam-se partes do mesmo problema.

A própria edição brasileira da Aleph apresenta Duna como uma combinação de aventura, misticismo, ecologia e política, uma associação que resume bem por que o romance continua sendo um dos exemplos fundamentais de ficção científica ecológica.

Duna, de Frank Herbert

2. Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão — o Brasil depois da destruição ambiental

Publicado em 1981, Não Verás País Nenhum merece ocupar um lugar de destaque quando se fala em ficção especulativa ecológica produzida no Brasil. Ignácio de Loyola Brandão imagina uma São Paulo sufocada pelo calor, pela poluição, pela superpopulação e pela escassez, inserida em um país no qual a degradação ambiental não pode ser separada do autoritarismo e da desigualdade.

O protagonista Souza atravessa um espaço urbano no qual elementos antes considerados banais tornaram-se preciosos ou desapareceram. Água, alimentos, árvores, sombra e liberdade de circulação passam a ser questões políticas. A paisagem degradada não serve apenas para mostrar que alguma catástrofe aconteceu antes do começo do livro: ela organiza a sociedade que surgiu depois dela.

Essa talvez seja uma das diferenças mais importantes entre uma ficção simplesmente ambientada após um desastre e uma obra verdadeiramente interessada em ecologia. Em Não Verás País Nenhum, a crise ambiental altera relações econômicas, comportamentos, instituições e formas de controle da população. Estudos brasileiros dedicados ao romance destacam justamente essa associação entre distopia, degradação ambiental e organização social, além da maneira como Brandão articula ciência, literatura e consciência ecológica.

Lido mais de quatro décadas depois, o romance também mostra que a preocupação ecológica na ficção brasileira não nasceu com a popularização recente da expressão climate fiction. Antes de a crise climática se estabelecer como um dos grandes temas da ficção especulativa internacional, Brandão já imaginava um Brasil no qual a destruição do ambiente alterava o cotidiano até tornar irreconhecíveis coisas que pareciam permanentes.

Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão

3. A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler — clima, desigualdade e sobrevivência fazem parte do mesmo sistema

Quando Octavia E. Butler publicou A Parábola do Semeador, em 1993, escolheu um futuro suficientemente próximo para que seu mundo não parecesse completamente estranho. O romance começa em uma Califórnia atravessada por crise ambiental, econômica e social, na qual comunidades muradas tentam preservar alguma segurança enquanto tudo ao redor se torna progressivamente instável.

A mudança climática não funciona como um espetáculo apocalíptico independente do restante da sociedade. Seus efeitos aprofundam problemas que já existem. Água torna-se cara, incêndios são constantes, deslocamentos populacionais aumentam e estruturas políticas deixam parcelas cada vez maiores da população sem proteção. A deterioração ambiental funciona como um multiplicador de desigualdades.

É nesse mundo que Lauren Olamina precisa deixar a comunidade onde cresceu e viajar pelos Estados Unidos. Sua trajetória transforma o romance em uma história de sobrevivência, formação de comunidade, religião e adaptação. A crise ecológica estabelece as condições que tornam todas essas questões inseparáveis umas das outras.

A edição brasileira, publicada pela Morro Branco, resume esse ponto de partida pela combinação entre crise ambiental, crise econômica e caos social. Butler não precisa imaginar um único acontecimento responsável pela queda da civilização: seu futuro surge do acúmulo de processos que se reforçam mutuamente.

Essa abordagem ajuda a explicar por que A Parábola do Semeador continua tão atual. Sua principal inquietação não é perguntar o que aconteceria depois que o mundo acabasse, mas como pessoas e comunidades se comportariam enquanto percebem que o mundo conhecido está deixando de funcionar.

A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler

4. Aniquilação, de Jeff VanderMeer — e se o ecossistema não precisasse ser compreensível para nós?

Em Aniquilação, publicado em 2014 e primeiro volume da trilogia Comando Sul, Jeff VanderMeer leva a ficção ecológica para um território muito diferente. A misteriosa Área X foi isolada do restante do mundo depois de sofrer uma transformação cuja origem permanece obscura. Expedições entram na região tentando entendê-la, mas as categorias humanas utilizadas para classificar aquele ambiente parecem progressivamente insuficientes.

A narradora é uma bióloga, detalhe fundamental para a estrutura do romance. Ela observa organismos, habitats, relações entre espécies e alterações do ambiente ao mesmo tempo em que percebe que sua formação científica talvez não ofereça instrumentos suficientes para explicar o que está acontecendo. A própria edição brasileira descreve a Área X como uma região formada por diferentes ambientes de transição e por uma rede complexa de ecossistemas.

Aqui, natureza não significa equilíbrio ou pureza. Ela pode assimilar, reproduzir, alterar e reorganizar. A Área X não se comporta como um monstro tradicional que possa simplesmente ser derrotado, e VanderMeer gradualmente enfraquece a separação confortável entre organismo e ambiente, humano e não humano, natural e artificial.

Por isso, Aniquilação tornou-se uma das referências da vertente ecológica do new weird. Estudos brasileiros sobre a obra têm chamado atenção para a maneira como a Área X desafia uma visão antropocêntrica da natureza: os seres humanos deixam de ocupar automaticamente a posição de observadores capazes de compreender, classificar e controlar tudo o que encontram.

Se Duna mostra personagens tentando compreender um ecossistema para sobreviver nele, Aniquilação sugere uma possibilidade mais desconfortável: talvez existam sistemas vivos diante dos quais nossa própria ideia de compreensão seja limitada.

Aniquilação, de Jeff VanderMeer

5. When There Are Wolves Again, de E. J. Swift — imaginar que a natureza também pode voltar

O vencedor do Arthur C. Clarke Award de 2026 fecha a seleção porque trabalha com uma possibilidade menos comum na ecoficção contemporânea: em vez de imaginar somente aquilo que podemos perder, E. J. Swift também imagina aquilo que pode ser recuperado.

When There Are Wolves Again acompanha Lucy e Hester ao longo de várias décadas. Lucy cresce ligada à observação da natureza e posteriormente participa de movimentos destinados à recuperação dos habitats britânicos. Hester, nascida no dia do acidente de Chernobyl, torna-se cineasta e visita a zona de exclusão para registrar seus cães ferais, aproximando-se posteriormente de um híbrido de lobo e cão chamado Lux. As duas trajetórias atravessam ativismo, preservação ambiental e tentativas de reconstruir relações entre seres humanos e outras espécies.

Um dos conceitos centrais é o rewilding, conjunto de estratégias de restauração ecológica que pode envolver recuperação de habitats, redução da intervenção humana e reintrodução de espécies desaparecidas de determinadas regiões. Nesse futuro próximo, o retorno dos lobos não funciona somente como símbolo. Ele exige que as pessoas decidam quanto espaço estão dispostas a devolver a outros animais e que tipo de natureza desejam reconstruir.

Essa escolha modifica o tipo de conflito possível dentro da história. Restaurar um ecossistema não significa retornar magicamente a um passado intocado, porque paisagens foram ocupadas, espécies desapareceram e populações humanas dependem da utilização daquele território. Swift trabalha justamente com as negociações, resistências e expectativas envolvidas nesse processo.

O resultado amplia o repertório da ficção científica ecológica. Depois de décadas em que imaginar o futuro ambiental frequentemente significou imaginar desertificação, extinção ou colapso, When There Are Wolves Again pergunta se a especulação também pode ser usada para construir futuros nos quais alguma coisa melhora. Não se trata de negar a crise ambiental, mas de considerar restauração e convivência como temas suficientemente complexos para pertencer à ficção científica.

When There Are Wolves Again, de E. J. Swift

Quando o ambiente deixa de ser cenário

Esses cinco romances partem de problemas muito diferentes. Arrakis é um planeta desértico cuja ecologia sustenta um império; Ignácio de Loyola Brandão transforma a degradação ambiental brasileira em estrutura de uma distopia política; Octavia Butler acompanha uma sociedade em que clima e desigualdade entram em colapso juntos; Jeff VanderMeer imagina uma natureza tão estranha que desafia a própria centralidade humana; E. J. Swift especula sobre o que seria necessário para recuperar ecossistemas perdidos.

O ponto em comum está na recusa de tratar o ambiente como decoração. Em todos eles, retirar a dimensão ecológica destruiria o mecanismo da história.

A ficção brasileira oferece outros caminhos para continuar essa leitura. Em A Extinção das Abelhas, Natalia Borges Polesso constrói uma narrativa em que o colapso pessoal da protagonista convive com um mundo atravessado por degradação social e ambiental; estudos sobre o romance já o aproximam diretamente da climate fiction. Em A Morte e o Meteoro, Joca Reiners Terron aproxima ficção científica, devastação amazônica, colonialismo e desaparecimento de um povo indígena, fazendo da destruição de um território também uma história sobre aquilo que se perde quando uma cultura e seu ambiente deixam de poder existir juntos.

Essa talvez seja uma das contribuições mais interessantes da ecoficção para o fantástico: lembrar que imaginar sociedades diferentes exige imaginar também os sistemas vivos dos quais essas sociedades dependem. O futuro não será formado apenas pelas tecnologias que inventarmos. Florestas, desertos, rios, animais, clima, alimentos e organismos que sequer conseguimos compreender também participarão dele.

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