Uma enorme árvore dourada domina o horizonte enquanto reinos arruinados, fortalezas abandonadas, pântanos contaminados, cidades subterrâneas e campos devastados se espalham pelas Terras Intermédias. É um mundo que conserva sinais de uma antiga grandeza, embora quase tudo que o jogador encontre revele que essa ordem já se desfez. Reis perderam seus domínios, semideuses foram deformados pelo poder, instituições religiosas ocultam contradições e até a morte deixou de funcionar como deveria.
Lançado em 25 de fevereiro de 2022, Elden Ring é um RPG de ação desenvolvido pela FromSoftware e dirigido por Hidetaka Miyazaki, com uma mitologia de base criada a partir da colaboração com George R. R. Martin, autor de As Crônicas de Gelo e Fogo. O jogo levou várias características desenvolvidas pelo estúdio desde Demon’s Souls e Dark Souls para uma estrutura de mundo aberto, permitindo que o jogador percorresse grandes regiões com liberdade incomum dentro da fórmula pela qual a FromSoftware havia se tornado conhecida.
O resultado foi uma das obras de fantasia mais influentes dos videogames recentes. Elden Ring combina exploração, combate exigente e construção indireta de narrativa com um universo em que a Fantasia Sombria aparece não apenas na presença de monstros ou ruínas, mas na própria estrutura do mundo: a beleza das Terras Intermédias quase sempre convive com decadência, corrupção, transformação e perda.
O que é Elden Ring?
Elden Ring é um RPG de ação em terceira pessoa e mundo aberto no qual o jogador assume o papel de um Maculado, personagem criado e personalizado pelo próprio jogador. Depois de ter sido afastado das Terras Intermédias, esse grupo volta a ser conduzido pela Graça após a destruição do Anel Prístino e a guerra que se seguiu entre os descendentes da Rainha Marika.
A premissa inicial é relativamente simples. O Anel Prístino, força ligada à ordem das Terras Intermédias, foi despedaçado. Seus fragmentos, as Grandes Runas, ficaram nas mãos de diferentes semideuses, e a disputa pelo poder provocou um conflito chamado Ruptura. Nenhum dos combatentes conseguiu estabelecer uma nova ordem definitiva, deixando o mundo preso em uma longa deterioração. O Maculado deve atravessar esse território, enfrentar seus governantes e aproximar-se novamente do Anel Prístino.
O objetivo declarado de tornar-se Lorde Prístino fornece uma direção para a aventura, mas não explica inteiramente o que está acontecendo. Como é habitual nos jogos de Miyazaki, boa parte da história permanece distribuída entre diálogos, descrições de objetos, arquitetura, inimigos, monumentos, ruínas e acontecimentos que o jogador precisa relacionar.
Essa forma de narrativa faz com que duas experiências coexistam. É perfeitamente possível atravessar Elden Ring compreendendo apenas o conflito principal e seguindo os caminhos indicados pela Graça; quem decide investigar o mundo, entretanto, encontra disputas religiosas, linhagens familiares, guerras antigas, deuses exteriores, experimentos, heresias e interpretações conflitantes sobre a própria ordem que deveria estar tentando restaurar.
As Terras Intermédias depois da Ruptura
O cenário de Elden Ring recebe o nome de Terras Intermédias, um conjunto de regiões que estiveram sob a influência da Rainha Marika e da chamada Ordem Áurea. A Térvore domina visualmente boa parte dessa paisagem e funciona como uma das imagens centrais do jogo: uma estrutura monumental e luminosa que sugere estabilidade, divindade e prosperidade ao mesmo tempo em que se ergue sobre um território profundamente deteriorado.
Essa contradição é essencial para compreender a atmosfera da obra. As Terras Intermédias não são simplesmente um mundo destruído. Ainda existem castelos, estradas, templos, academias, fortalezas, bibliotecas e cidades inteiras, mas muitos desses espaços sobreviveram apenas como fragmentos das sociedades que os construíram. Explorar significa constantemente encontrar vestígios de algo que existiu antes da chegada do jogador.
Limgrave apresenta campos relativamente abertos, ruínas e fortalezas que oferecem uma primeira visão da dimensão do mundo. Liurnia transforma a paisagem em uma região alagada dominada pela presença da Academia de Raya Lucaria, enquanto Caelid mostra um território devastado pela Podridão Escarlate. Outras áreas alteram novamente arquitetura, fauna, vegetação e atmosfera, impedindo que as Terras Intermédias pareçam apenas uma enorme extensão do mesmo reino medieval.
A variedade não serve somente à estética. Cada região comunica alguma coisa sobre os grupos e personagens que viveram ali, e os espaços frequentemente contam histórias antes de qualquer diálogo. Um campo de batalha revela antigas alianças; uma estrada interrompida indica como determinada cidade deixou de se relacionar com o restante do território; uma igreja abandonada pode fornecer pistas sobre crenças anteriores à religião dominante.
Essa construção ambiental transforma exploração em uma das principais ferramentas narrativas de Elden Ring. O jogador não recebe apenas um mapa contendo objetivos. Ele encontra um mundo cujas formas físicas carregam consequências da própria história.
Hidetaka Miyazaki e George R. R. Martin
A participação de George R. R. Martin foi uma das características que mais despertaram curiosidade desde o anúncio de Elden Ring, mas sua função no projeto costuma ser descrita de maneira imprecisa. Martin não escreveu todos os diálogos nem desenvolveu sozinho a história que o jogador acompanha durante a campanha.
Hidetaka Miyazaki explicou que a colaboração começou a partir de conversas sobre temas, ideias e características gerais daquele universo. A partir delas, Martin desenvolveu uma mitologia de fundo, com personagens, relações e acontecimentos que serviram de base para a FromSoftware construir as Terras Intermédias e sua situação posterior. Miyazaki definiu esse material como um estímulo fundamental para o desenvolvimento do mundo.
Essa divisão ajuda a compreender por que o jogo possui ao mesmo tempo características reconhecíveis das duas tradições criativas. Famílias poderosas, sucessões problemáticas, alianças, traições, linhagens e conflitos entre figuras quase míticas lembram interesses recorrentes na obra de Martin. A maneira como essas informações são fragmentadas e apresentadas ao jogador, entretanto, pertence claramente ao método narrativo desenvolvido pela FromSoftware.
Há também uma decisão importante na escolha de criar uma propriedade nova em vez de continuar diretamente Dark Souls. Miyazaki afirmou ainda durante o anúncio que o projeto pretendia desenvolver uma nova Fantasia Sombria e explorar ideias que não haviam sido possíveis dentro daquela série. A colaboração com Martin participou dessa liberdade ao fornecer uma mitologia que não precisava obedecer às regras estabelecidas nos jogos anteriores.
Uma Fantasia Sombria construída sobre uma Era Dourada
A FromSoftware descreve oficialmente Elden Ring como um RPG ambientado em um mundo de Fantasia Sombria, classificação particularmente adequada à maneira como a obra constrói suas paisagens e seus conflitos. Há magia, dragões, cavaleiros, gigantes, feiticeiros, deuses, cidades impossíveis e grandes linhagens reais, mas o maravilhoso raramente aparece separado de alguma forma de ameaça ou deterioração.
Isso não significa que o jogo seja visualmente escuro o tempo inteiro. Miyazaki explicou que a equipe deliberadamente utilizou cores mais vivas porque queria representar os vestígios de uma antiga Era Dourada. As áreas abertas precisavam mostrar que aquele mundo possuíra beleza e grandeza, deixando regiões mais sombrias e opressivas para momentos específicos da jornada.
Essa escolha produz algumas das imagens mais características da obra. Uma planície pode parecer tranquila até que uma criatura gigantesca atravesse o caminho; uma cidade monumental pode permanecer visualmente deslumbrante mesmo quando seus habitantes desapareceram ou perderam a sanidade. O jogo não substitui beleza por horror, mas permite que ambos ocupem o mesmo espaço.
Nesse sentido, Elden Ring representa muito bem aquilo que define a Fantasia Sombria: o fantástico continua capaz de produzir maravilhamento, porém suas manifestações estão constantemente associadas a consequências inquietantes. A magia pode deformar corpos, a imortalidade pode se transformar em condenação e forças apresentadas como divinas nem sempre oferecem respostas confortáveis sobre aquilo que exigem de seus seguidores.
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A Ordem Áurea e um mundo que já não funciona
Grande parte do universo de Elden Ring é estruturada em torno da Ordem Áurea, mas o jogo não a apresenta simplesmente como uma religião claramente boa que foi destruída por forças malignas. Quanto mais o jogador conhece as Terras Intermédias, mais percebe que aquela ordem possuía exclusões, conflitos internos e formas próprias de violência.
Essa ambiguidade torna a situação do Maculado particularmente interessante. Restaurar alguma coisa não significa necessariamente compreender aquilo que está sendo restaurado, e seguir a Graça não garante que todas as instituições relacionadas a ela sejam confiáveis. O jogador encontra diferentes personagens que possuem respostas próprias para o colapso das Terras Intermédias.
Por isso, o conflito não se resume à busca por fragmentos de um artefato mágico. Gradualmente surge uma discussão sobre ordem, autoridade e legitimidade. Quem deve determinar as regras daquele mundo? É necessário reconstruir o sistema anterior, modificá-lo ou rejeitá-lo? Até que ponto uma ordem aparentemente natural é realmente natural quando depende de uma determinada força ou divindade?
Os diferentes caminhos narrativos exploram essas questões sem transformá-las em uma escolha simples entre bem e mal. Personagens que rejeitam a estrutura dominante podem possuir motivos convincentes e métodos terríveis, enquanto figuras associadas à tradição podem demonstrar tanto lealdade genuína quanto incapacidade de imaginar um mundo diferente.
Uma história encontrada em pedaços
A forma como Elden Ring conta sua história pode causar estranhamento em jogadores acostumados a RPGs estruturados em longas sequências cinematográficas e missões claramente explicadas. O jogo possui cenas narrativas, diálogos e personagens importantes, mas uma quantidade considerável de informação precisa ser reconstruída.
Descrições de armas, armaduras, feitiços, talismãs e outros objetos revelam acontecimentos que nunca aparecem diretamente diante do jogador. A localização de um cadáver pode explicar o destino de determinado personagem; um monumento registra uma batalha; dois equipamentos aparentemente comuns podem estabelecer uma conexão entre grupos que nunca se encontram durante a campanha.
A própria imprensa brasileira chamou atenção para essa característica desde o lançamento, descrevendo a narrativa como deliberadamente vaga e dependente da investigação do jogador. A localização em português brasileiro utiliza termos como Maculado, Terras Intermédias, Anel Prístino e Térvore, estabelecendo uma terminologia própria para esse universo.
Esse método também produz incerteza. Nem toda pergunta recebe uma resposta definitiva, e algumas informações permitem mais de uma interpretação. A comunidade formada ao redor do jogo passou a discutir genealogias, acontecimentos históricos e motivações de personagens justamente porque reconstruir o universo se tornou parte da experiência.
O mundo aberto e a liberdade de se perder
A mudança mais significativa de Elden Ring em relação a jogos anteriores da FromSoftware está em sua estrutura de mundo aberto. Miyazaki afirmou que essa escolha ampliou drasticamente a escala, a liberdade de exploração e as possibilidades narrativas, permitindo a criação de grandes campos ligados a castelos e masmorras construídos de maneira mais concentrada.
Essa liberdade não significa ausência de direção. Locais de Graça podem indicar caminhos importantes, algumas regiões possuem progressões naturais e determinados obstáculos exigem que o jogador alcance condições específicas. Ainda assim, existe uma margem considerável para abandonar o trajeto mais evidente e procurar outra coisa.
É possível encontrar cavernas, catacumbas, torres, fortalezas, acampamentos, ruínas, igrejas e personagens sem receber previamente uma missão indicando que esses lugares existem. O mapa fornece informações geográficas, mas raramente transforma exploração em uma sequência de símbolos que precisam ser eliminados de uma lista.
A montaria Torrent também muda a relação com o espaço. Além de acelerar deslocamentos, permite combate montado e possibilita atravessar determinadas regiões de maneiras que seriam inviáveis na estrutura mais estreita dos jogos anteriores.
O PlayStation Blog brasileiro destacou justamente essa transformação ao comparar Elden Ring aos títulos anteriores do estúdio: o mundo aberto introduziu liberdade de movimento, exploração opcional, mapa, combate montado, novos caminhos de fuga e diferentes maneiras de encontrar recursos sem abandonar os fundamentos da fórmula Souls.
Combate, dificuldade e construção de personagem
A reputação de dificuldade associada à FromSoftware permanece presente em Elden Ring, mas o jogo oferece uma quantidade particularmente grande de ferramentas para enfrentar seus obstáculos. Espadas, lanças, machados, arcos, armas gigantescas, feitiçarias, encantamentos, habilidades especiais e invocações permitem construir personagens bastante diferentes entre si.
Essa variedade foi uma decisão deliberada. Antes do lançamento, Miyazaki afirmou que o maior peso dado aos elementos de RPG permitiria que jogadores escolhessem diferentes armas, magias e estratégias, ampliando as maneiras disponíveis para superar inimigos.
As Cinzas de Guerra modificam habilidades e propriedades de diversas armas, enquanto as invocações de espíritos oferecem auxílio em determinados confrontos. O jogador também pode recorrer ao modo cooperativo, explorar outras áreas para conseguir equipamentos ou simplesmente retornar depois de fortalecer o personagem.
O mundo aberto interfere diretamente na ideia de dificuldade. Em uma área linear, um chefe pode funcionar como uma barreira absoluta entre o jogador e todo o conteúdo seguinte. Em Elden Ring, muitos obstáculos podem ser contornados temporariamente, permitindo que outra região seja explorada antes de uma nova tentativa.
Isso não elimina a exigência do combate. Chefes continuam punindo erros, recursos precisam ser administrados e muitos inimigos exigem que o jogador compreenda ritmos, distâncias e padrões de ataque. A diferença é que a dificuldade passa a conviver com uma liberdade estratégica maior.
Os chefes e os semideuses
Chefes sempre tiveram papel importante nos jogos da FromSoftware, e Elden Ring transforma vários deles em pilares de sua própria mitologia. Godrick, Rennala, Radahn, Morgott, Rykard, Malenia e outras figuras não existem apenas como obstáculos mecânicos; suas histórias ajudam a explicar diferentes regiões e consequências da Ruptura.
Cada um deles representa uma relação particular com poder, linhagem, ambição ou deterioração. Alguns tentam preservar aquilo que restou de sua autoridade, enquanto outros se afastaram completamente da estrutura que deveria organizar as Terras Intermédias.
A direção artística utiliza essas figuras para reforçar a sensação de um mundo cuja ordem produziu formas cada vez mais extremas. Corpos são enxertados, consumidos, transformados ou contaminados. Poder raramente preserva alguém da decadência; frequentemente acelera esse processo.
Miyazaki havia antecipado ainda em 2019 que os combates contra chefes seriam um dos pontos altos da obra e que o jogo apresentaria figuras variadas e deliberadamente perturbadoras. Depois do lançamento, personagens como Malenia, Lâmina de Miquella se tornaram referências do próprio jogo e da reputação de dificuldade associada à FromSoftware.
O horror corporal de Elden Ring
Apesar de ser fundamentalmente uma obra de fantasia, Elden Ring utiliza o horror com frequência, sobretudo através da transformação do corpo. O enxerto de membros praticado por Godrick talvez seja o exemplo mais evidente no início da aventura, mas está longe de ser o único.
Doenças alteram organismos, criaturas fundem-se, corpos mortos continuam presentes de maneiras inesperadas e determinadas formas de poder modificam fisicamente quem entra em contato com elas. O corpo deixa de funcionar como fronteira segura da identidade e passa a registrar as forças que disputam aquele universo.
Caelid é uma das manifestações mais explícitas dessa ideia. A Podridão Escarlate contaminou paisagem, animais e habitantes, criando um ambiente no qual a própria geografia parece adoecer. Em outros locais, transformações possuem origem religiosa, mágica ou experimental.
O horror de Elden Ring também aparece em escalas diferentes. Algumas criaturas provocam repulsa imediatamente; outras parecem apenas estranhas até que o jogador descubra alguma informação sobre sua origem. Há situações em que compreender aquilo que se está observando torna a cena mais perturbadora do que sua aparência inicial.
Morte, imortalidade e estagnação
A morte possui posição incomum na mitologia de Elden Ring. Sem entrar em revelações importantes da campanha, é possível dizer que a própria organização da mortalidade foi alterada pela ordem estabelecida nas Terras Intermédias, e as consequências dessa intervenção podem ser encontradas por todo o mundo.
Essa condição ajuda a explicar por que a decadência não leva simplesmente ao desaparecimento das pessoas e civilizações. Soldados continuam guardando ruínas, criaturas permanecem aprisionadas a funções antigas e personagens podem existir por períodos que ultrapassam aquilo que consideraríamos uma vida normal.
Surge então um tema recorrente nos jogos dirigidos por Miyazaki: a diferença entre sobrevivência e continuidade saudável. Manter alguma coisa indefinidamente não significa preservá-la em boas condições. Uma ordem incapaz de terminar também pode tornar-se uma forma de estagnação.
A mesma lógica aparece nos reinos, nas dinastias e nos próprios personagens. Muitos conflitos de Elden Ring são produzidos por forças que tentam conservar, substituir ou escapar de sistemas cuja capacidade de sustentar aquele mundo já está em dúvida.
Em junho de 2024, Shadow of the Erdtree ampliou Elden Ring com uma nova região chamada Terra das Sombras. A expansão acompanha os rastros de Miquella e desenvolve acontecimentos relacionados ao passado de Marika, à formação da ordem conhecida pelo jogador e a personagens que haviam permanecido cercados de mistério na campanha principal.
Em vez de funcionar simplesmente como um novo conjunto de inimigos e equipamentos, a expansão acrescenta uma camada importante à mitologia. A Terra das Sombras possui sua própria história de violência, exclusão e esquecimento, permitindo observar acontecimentos que a narrativa das Terras Intermédias havia deixado à margem.
A exploração mantém a combinação entre áreas abertas e masmorras elaboradas, além de acrescentar armas, magias, equipamentos e chefes. A FromSoftware descreveu Shadow of the Erdtree como sua maior expansão até aquele momento, mantendo a liberdade de abordagem como uma de suas características centrais.
A recepção comercial mostrou a dimensão que Elden Ring havia alcançado. A expansão ultrapassou 10 milhões de unidades distribuídas mundialmente até julho de 2025, enquanto o jogo principal já havia superado 30 milhões.
Elden Ring e a tradição dos Soulslike
O termo Soulslike passou a designar jogos influenciados pelas características estabelecidas principalmente por Demon’s Souls e pela série Dark Souls: combate baseado em leitura de movimentos, riscos associados à morte, inimigos capazes de punir descuidos, pontos específicos de descanso, exploração cautelosa e chefes de dificuldade elevada.
A própria imprensa especializada brasileira emprega o termo para localizar Elden Ring dentro dessa tradição. O jogo, entretanto, não simplesmente transfere Dark Souls para um mapa maior. Sua principal transformação está em permitir que a exploração aberta modifique a relação com desafios que anteriormente seriam enfrentados dentro de percursos muito mais controlados.
Algumas obras ajudam a perceber essa genealogia. Demon’s Souls estabeleceu várias das ideias fundamentais; Dark Souls expandiu o modelo e sua influência; Bloodborne aproximou a fórmula do horror gótico e cósmico; Sekiro: Shadows Die Twice reduziu a personalização de personagem para desenvolver um sistema de combate muito mais específico. Fora da FromSoftware, jogos como Nioh, Lies of P, Mortal Shell e Lords of the Fallen desenvolveram interpretações próprias do modelo.
O caso de Elden Ring é especialmente importante porque levou essa linguagem a um público consideravelmente maior sem abandonar características que antes eram consideradas pouco acessíveis comercialmente. O sucesso do jogo mostrou que exploração pouco guiada, narrativa fragmentada e dificuldade elevada poderiam coexistir com uma produção capaz de alcançar dezenas de milhões de jogadores.
Obras relacionadas a Elden Ring
Para quem pretende compreender o lugar ocupado por Elden Ring dentro dos RPGs de ação e da Fantasia Sombria nos videogames, algumas obras oferecem comparações particularmente úteis:
- Demon’s Souls — ponto inicial da fórmula que posteriormente seria associada aos Soulslike;
- Dark Souls — principal antecessor de Elden Ring em combate, estrutura narrativa e construção de mundo;
- Bloodborne — interpretação da fórmula voltada ao horror gótico e cósmico;
- Sekiro: Shadows Die Twice — outro caminho desenvolvido pela FromSoftware, com protagonista definido e combate mais concentrado;
- Lies of P — Soulslike que utiliza uma versão sombria da tradição de Pinóquio;
- Blasphemous — combinação de ação, religiosidade, grotesco e fantasia sombria, embora estruturada como um jogo bidimensional;
- Dragon’s Dogma — RPG de ação de fantasia que oferece outra abordagem para exploração, criaturas gigantes e combate em mundo aberto.
Essas comparações também mostram por que Elden Ring não deve ser reduzido apenas à dificuldade. Muitos jogos difíceis existiam antes de Demon’s Souls, assim como inúmeros RPGs possuem chefes, equipamentos e fantasia medieval. A identidade formada pela FromSoftware depende da combinação entre combate, exploração, risco, narrativa indireta e construção ambiental.
A importância de Elden Ring
O impacto de Elden Ring tornou-se evidente pouco depois do lançamento. No The Game Awards 2022, recebeu os prêmios de Jogo do Ano, Melhor Direção, Melhor Direção de Arte e Melhor RPG, consolidando uma recepção que já havia transformado o título no maior sucesso comercial da FromSoftware até então.
Em março de 2025, o jogo já havia ultrapassado 30 milhões de unidades distribuídas mundialmente, número que ampliou de maneira significativa a escala alcançada pela série de ideias iniciada com Demon’s Souls. A propriedade também se expandiu com Shadow of the Erdtree e, posteriormente, com o derivado independente Elden Ring Nightreign.
O sucesso, porém, não explica sozinho a permanência da obra. Elden Ring tornou exploração e descoberta partes inseparáveis da construção de seu universo. As Terras Intermédias não funcionam apenas como o cenário onde os combates acontecem; compreender sua geografia, observar suas ruínas e descobrir caminhos escondidos constituem parte importante daquilo que significa conhecer aquele mundo.
Também existe uma relação particularmente forte entre mecânica e tema. O Maculado atravessa um território formado pelos restos de sistemas anteriores, morre repetidamente, retorna, aprende, modifica sua estratégia e continua avançando. A própria experiência de jogar reproduz algo da insistência encontrada na narrativa: um mundo quebrado permanece em movimento porque personagens continuam tentando decidir o que fazer com aquilo que restou.
Entre castelos impossíveis, monstros deformados, divindades distantes e paisagens de enorme beleza, Elden Ring encontrou uma maneira de ampliar a fórmula desenvolvida pela FromSoftware sem retirar dela sua estranheza. O jogador recebe liberdade para atravessar as Terras Intermédias, mas raramente recebe respostas prontas sobre o significado daquilo que encontra. Explorar o mundo e interpretá-lo acabam sendo partes da mesma jornada.
Fontes consultadas:
- Bandai Namco Entertainment. “Elden Ring — Official Site”. Principal fonte oficial para a premissa, Marika, as Grandes Runas, a Ruptura, os Maculados e as Terras Intermédias.
- FromSoftware. “Elden Ring — Press Release”. 10 de junho de 2019. Fonte oficial para o anúncio do jogo e a colaboração entre Hidetaka Miyazaki e George R. R. Martin.
- PlayStation Blog Brasil. “Uma entrevista com Hidetaka Miyazaki da FromSoftware”. Tim Turi, 28 de janeiro de 2022. Utilizada para o desenvolvimento do mundo aberto, a liberdade de exploração, a narrativa fragmentada, a estética e a participação de Martin.
- PlayStation Blog Brasil. “As maiores mudanças que Elden Ring traz à fórmula de sucesso”. Tim Turi, 10 de novembro de 2021. Referência para mundo aberto, montaria, exploração vertical, mapa, combate e diferenças em relação aos títulos Souls anteriores.
- Bandai Namco Europe. “What Is Elden Ring About?”. 5 de junho de 2026. Síntese oficial da mitologia, da guerra entre os semideuses e da estrutura de exploração de Elden Ring.
- The Game Awards. “2022 Rewind”. Fonte para os prêmios de Jogo do Ano, Melhor Direção, Melhor Direção de Arte e Melhor RPG recebidos por Elden Ring em 2022.
- Bandai Namco Entertainment. “FromSoftware Inc.’s recent games based in the Elden Ring universe surpass 10M and 5M milestones”. 24 de julho de 2025. Utilizada para os números de vendas de Elden Ring e Shadow of the Erdtree.
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