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Criaturas e horrores da Era Hiboriana

Os monstros da Era Hiboriana não pertencem a uma única origem e tampouco formam um bestiário organizado da maneira como jogos e adaptações posteriores costumam apresentar. Robert E. Howard mistura animais de proporções incomuns, sobreviventes de linhagens anteriores à humanidade, criaturas que parecem ocupar algum estágio entre homem e fera, entidades vindas de outros mundos e seres que desafiam qualquer tentativa de classificação. Alguns podem ser mortos com uma espada, ainda que isso exija força e sorte extraordinárias; outros parecem praticamente invulneráveis até que Conan descubra uma fraqueza específica ou encontre um objeto capaz de feri-los. Há também criaturas cuja natureza permanece obscura depois que a história termina, porque Howard está menos interessado em estabelecer uma zoologia fantástica do que em produzir a sensação de que o mundo humano ocupa apenas uma pequena parte de algo muito mais antigo. A Era Hiboriana possui reis, exércitos e cidades capazes de dominar vastos territórios, mas ruínas abandonadas, montanhas inacessíveis e ilhas fora das rotas conhecidas ainda escondem formas de vida que essas civilizações não compreendem.

A presença desses seres também aproxima Conan do Horror Cósmico sem transformar suas histórias em cópias da ficção de H. P. Lovecraft. Howard compartilhava com outros autores de Weird Tales o interesse por civilizações anteriores à humanidade, entidades vindas do espaço e conhecimentos capazes de reduzir a importância que os homens atribuem à própria espécie. A diferença está na reação do protagonista. Conan pode sentir medo, repulsa e até uma espécie de vertigem diante de certas descobertas, mas normalmente tenta compreender rápido o suficiente para sobreviver e encontrar algo que possa cortar, quebrar, enganar ou evitar. Quando a força física deixa de funcionar, ele não conclui que o sobrenatural é impossível; procura outra regra. Essa postura permite que Howard combine aventura e horror sem eliminar nenhum dos dois, porque o cimério continua vulnerável mesmo quando consegue derrotar aquilo que encontrou.

As criaturas desempenham ainda outra função importante dentro do cenário: lembram continuamente que a história humana não começou com os reinos hiborianos. Muitas aparecem em cidades abandonadas, tumbas antigas ou territórios isolados, como se fossem resíduos de épocas que desapareceram antes de Aquilônia, Nemédia ou Estígia assumirem as formas conhecidas por Conan. Outras vieram de lugares que sequer pertencem à Terra. O resultado é um mundo no qual o monstruoso raramente surge do nada. Mesmo quando sua origem permanece desconhecida, costuma existir a sensação de que aquela criatura possui uma história anterior ao encontro com o protagonista e continuará existindo independentemente de qualquer explicação humana.

Entre o animal, o homem e aquilo que veio antes

Um dos exemplos mais perturbadores aparece em Thak, de Patifes na Casa. Nabonidus mantém a criatura como servo e guarda-costas depois de capturá-la ainda jovem nas montanhas orientais próximas de Zamora. Ele a descreve como pertencente a um povo que não seria exatamente formado por macacos nem por homens, mas por seres que, segundo sua interpretação, ocupariam uma etapa intermediária entre ambos. Thak aprendeu tarefas, desenvolveu ressentimento, compreendeu relações de poder e conseguiu planejar uma revolta contra o próprio senhor, comportamento muito distante daquele de um simples animal domesticado. Quando Conan finalmente enfrenta a criatura, descobre uma força física e uma resistência que tornam o combate quase suicida, apesar de estar armado e ter conseguido atacá-la primeiro.

A descrição de Thak está profundamente ligada às ideias evolucionistas populares e frequentemente mal compreendidas no início do século XX. Howard utiliza uma visão linear da evolução humana que não corresponde ao conhecimento científico atual, imaginando grupos como estágios vivos de uma sequência que caminharia de formas animais até o homem. O recurso funciona dentro da história porque produz desconforto: Murilo percebe características humanas no monstro e sente repulsa justamente por reconhecer uma proximidade que preferiria negar. Para uma leitura atual, vale separar esse efeito narrativo das concepções pseudocientíficas que o sustentam. Thak continua interessante não porque represente um estágio real da evolução, mas porque desmonta a fronteira confortável entre pessoa e fera que os personagens tentam preservar.

Algo semelhante, embora muito mais misterioso, ocorre com os servos de Bit-Yakin em As Joias de Gwahlur. Conan encontra no vale de Alkmeenon o cadáver mumificado do antigo explorador pelishti e um manuscrito que menciona seus servos sem explicar imediatamente quem ou o que eram. Pinturas escondidas mostram figuras gigantescas realizando tarefas para Bit-Yakin, incluindo o transporte de criaturas retiradas de um rio subterrâneo, e a investigação gradualmente revela que esses ajudantes ainda permanecem nas proximidades. Howard os apresenta como seres simiescos enormes, capazes de movimentar-se por passagens desconhecidas, atacar pessoas e sobreviver durante gerações num lugar abandonado pelos homens. Eles não funcionam como animais comuns que por acaso cresceram demais; fazem parte do próprio mistério de Alkmeenon e de uma história que continuou ocorrendo depois que a cidade perdeu seus habitantes originais.

A diferença entre Thak e os servos de Bit-Yakin mostra como Howard reutiliza características semelhantes sem necessariamente criar uma espécie única. Adaptações e enciclopédias posteriores muitas vezes tentaram reunir criaturas desse tipo em categorias gerais, mas os contos originais deixam lacunas significativas. Não sabemos se os homens-macaco de uma região possuem relação com os de outra, nem se todos representam sobreviventes de alguma população antiga. A Era Hiboriana ganha profundidade justamente porque existem coisas parecidas que não precisam ter uma explicação compartilhada. Conan conhece apenas aquilo que encontra, e raramente tem oportunidade de comparar suas observações com estudiosos capazes de criar uma teoria consistente.

O enorme réptil de O Deus na Urna segue outra lógica. A história começa quase como um mistério criminal em Numália, quando Conan é encontrado dentro da casa de antiguidades de Kallian Publico pouco depois da morte do proprietário. Entre os objetos guardados ali está um sarcófago trazido da Estígia e destinado a Kalanthes, sacerdote de Íbis, mas interceptado por Publico porque ele imaginava encontrar algum tesouro no interior. O recipiente estava associado ao símbolo de Set e continha algo vivo, preservado dentro de uma peça funerária que parecia pertencer a uma época muito antiga. Quando a criatura finalmente aparece, revela-se uma serpente gigantesca suficientemente poderosa para matar um homem com facilidade, transformando aquilo que parecia uma investigação de assassinato numa história de sobrevivência.

Howard não explica de maneira definitiva se aquela serpente deve ser considerada animal excepcional, criatura sagrada de Set ou algo produzido por práticas estígias. A dúvida é coerente com outras histórias em que grandes serpentes possuem posição religiosa na Estígia e podem circular por determinados espaços como seres invioláveis. Para um personagem nemédio, a criatura representa um horror importado de uma cultura distante; para alguns estígios, algo semelhante poderia ser recebido como manifestação sagrada. A mesma forma de vida muda de significado conforme quem a observa, e Howard utiliza essa diferença para aproximar religião e monstruosidade sem precisar decidir se uma exclui a outra.

Seres de outros mundos e formas que não pertencem à humanidade

Yag-kosha, de A Torre do Elefante, talvez seja o exemplo mais importante de uma criatura que começa parecendo monstruosa e termina completamente transformada pelo contexto. Conan entra na torre de Yara preparado para encontrar guardas, armadilhas e algum tipo de feiticeiro, mas descobre um ser enorme com cabeça semelhante à de um elefante, corpo humanoide e membros destruídos por tortura. Sua reação inicial é de repulsa e espanto, até perceber que está diante de uma vítima. Yag-kosha explica ter vindo do planeta Yag, atravessando o espaço quando a Terra ainda se encontrava numa fase muito anterior àquela das civilizações hiborianas. Seu povo possuía asas e uma história própria, e ele permaneceu no mundo por tempo suficiente para acompanhar o crescimento de diferentes culturas humanas.

A origem extraterrestre modifica completamente a posição da criatura dentro da história. Yag-kosha não é um animal deformado nem demônio produzido por magia; pertence a uma espécie inteligente que chegou de outro planeta e cuja aparência apenas parece monstruosa aos olhos humanos. Howard reforça a diferença ao mostrar Conan abandonando o medo quando compreende o sofrimento diante dele. A cena produz uma inversão importante porque Yara, completamente humano em aparência, é muito mais cruel do que o ser que aprisionou e mutilou. O monstruoso deixa de ser uma questão de forma física e passa a depender do que cada personagem faz com o poder que possui.

A história também amplia a escala do universo de Conan. Se Yag-kosha veio de outro mundo e chegou à Terra muito antes da Era Hiboriana, então os reinos conhecidos representam apenas um episódio dentro de uma realidade que atravessa planetas e períodos incompreensivelmente maiores. Howard não desenvolve astronomia, viagens espaciais ou uma civilização extraterrestre detalhada porque essas informações servem principalmente para alterar a perspectiva. Conan não precisa conhecer o planeta Yag nem compreender como alguém poderia atravessar a distância entre estrelas. Basta descobrir que aquilo diante dele tem uma origem que ultrapassa tudo o que seus contemporâneos consideram história antiga.

Thog, em A Sombra Deslizante, produz um efeito semelhante por um caminho muito mais sombrio. A cidade de Xuthal sobrevive isolada no deserto, habitada por uma população que passa grande parte da vida sob o efeito do lótus negro e se entrega a sonhos que considera tão importantes quanto a existência desperta. No centro daquele mundo decadente vive Thog, adorado como deus e temido pelos próprios habitantes. A criatura permanece normalmente escondida sob a cidade, mas sobe quando sente fome e atravessa passagens secretas em busca de vítimas. Os habitantes conhecem o risco, sabem que a população diminui a cada geração por causa dele e ainda assim continuam oferecendo pessoas em sacrifício quando o terror se torna insuportável.

Howard evita fornecer uma anatomia completamente estável para Thog. Sua presença é percebida como sombra, massa, movimento e algo capaz de engolir homens, até que Conan acaba encontrando a criatura em condições em que precisa enfrentá-la diretamente. O efeito depende justamente da dificuldade de olhar para ela como um animal comum. Thog é tratado como entidade antiga, talvez proveniente de um mundo subterrâneo ou de algum lugar ainda menos compreensível, e seu domínio sobre Xuthal dura tempo suficiente para tornar-se parte da cultura local. A população não o derrota porque sua relação com o horror já foi normalizada pela resignação, pelo uso de drogas e pela incapacidade de imaginar outra vida.

A maneira como Thog reduz gradualmente uma civilização inteira também o diferencia de monstros que aparecem apenas como obstáculos físicos. Xuthal poderia abandonar a cidade, organizar resistência ou tentar destruir aquilo que vive sob suas construções, mas seus habitantes perderam a capacidade de agir coletivamente. O monstro sobrevive não apenas porque é forte, mas porque a sociedade ao redor dele se adaptou à própria decadência. Conan e Natala chegam de fora e por isso ainda conseguem considerar a fuga e a luta como possibilidades reais. O horror está tanto na criatura quanto na percepção de que gerações inteiras aprenderam a aceitar sua presença.

Em O Vale das Mulheres Perdidas, Howard apresenta uma entidade alada trazida de uma dimensão que a narrativa chama de Escuridão Exterior. Livia chega ao vale depois de fugir do povo que a mantinha prisioneira e encontra um lugar que inicialmente parece oferecer alívio diante da violência do mundo exterior. Flores de efeito entorpecente, mulheres que a conduzem por aquele ambiente e uma atmosfera quase hipnótica escondem a preparação de um sacrifício. A criatura que surge possui características semelhantes às de um enorme ser alado e não é tratada como espécie natural conhecida. Conan consegue afastá-la, mas o conto não oferece uma explicação detalhada sobre sua origem ou sobre a relação exata entre o ser e as mulheres do vale.

A história foi publicada somente décadas depois da morte de Howard e traz elementos de representação racial e sexual que exigem leitura crítica, como acontece em outros textos do autor. Ainda assim, a criatura tem importância para compreender o tipo de horror que ele inseria na Era Hiboriana. Lugares aparentemente afastados das grandes civilizações podem estar ligados a forças que não pertencem ao mundo comum, e rituais preservados localmente podem funcionar como contato entre humanos e entidades externas. Conan encontra o fenômeno sem possuir um vocabulário capaz de explicá-lo, e a história não oferece ao leitor muito mais segurança do que ele possui.

Povos não humanos, ilhas perdidas e cidades onde ninguém deveria entrar

O Lago do Negro leva Conan para longe das rotas marítimas conhecidas e apresenta um grupo de seres que ele próprio evita considerar humanos. Na ilha encontrada pelos piratas zingarianos existe uma construção de pedra verde ocupada por gigantes de pele escura, corpos altos e proporcionalmente perfeitos, olhos dourados e mãos dotadas de unhas semelhantes a garras. Eles aparentemente não utilizam linguagem vocal entre si, movimentam-se com organização e possuem uma tecnologia ou poder associado a um lago verde situado no centro de um dos pátios. Howard insiste que Conan os percebe como algo diferente das populações humanas conhecidas, apesar de sua forma geral lembrar a de homens gigantescos.

O lago revela a natureza de seu horror quando um jovem pirata é mergulhado na água e depois reaparece como uma pequena figura rígida colocada numa prateleira ao lado de milhares de outras. Conan percebe que os objetos espalhados pelas paredes não são esculturas, mas vítimas transformadas e reduzidas. Muitas representam povos ainda existentes na Era Hiboriana, enquanto outras possuem características pertencentes a populações que já desapareceram, sugerindo que os habitantes da ilha realizam o mesmo procedimento havia períodos enormes. Não existe explicação sobre a natureza do lago, sobre a origem dos gigantes ou sobre o motivo pelo qual acumulam aquelas figuras. A história funciona porque cada resposta abre uma pergunta ainda maior.

As descrições utilizadas por Howard nessa narrativa reproduzem ideias raciais e evolucionistas do período em que escreveu e precisam ser tratadas com distância crítica. O texto associa aparência física, humanidade e “desenvolvimento” de uma maneira que não corresponde a qualquer compreensão científica atual. Ao mesmo tempo, os próprios seres da ilha não são apresentados como um povo humano africano ou equivalente, mas como uma forma de vida que Conan reconhece instintivamente como diferente da humanidade conhecida. A leitura moderna precisa manter essas duas coisas separadas: o horror ficcional produzido por uma espécie não humana e a linguagem problemática usada pelo autor para descrevê-la.

A ilha também mostra como Howard utiliza distância geográfica para preservar territórios completamente fora do conhecimento dos grandes reinos. Aquilônia pode possuir exércitos, Nemédia bibliotecas e Argos uma extensa tradição marítima, mas ainda existem ilhas que nenhum mapa confiável registra e onde civilizações não humanas permaneceram escondidas por eras. Os piratas chegam ali por acaso e quase são incorporados a uma coleção que aparentemente inclui vítimas de inúmeras épocas. O mundo conhecido pelos personagens é amplo, mas nunca coincide com o mundo inteiro.

As ruínas de Alkmeenon, em As Joias de Gwahlur, trabalham com a mesma ideia em escala terrestre. O vale já era remoto e cercado por lendas quando Bit-Yakin decidiu viver ali, e seus servos continuaram depois da morte do mestre. Conan encontra sacerdotes que imaginam conhecer a história religiosa do lugar, uma falsa encenação de oráculo e, por trás de tudo isso, seres que sobreviveram fora da memória das populações próximas. O passado acumulou tantas camadas que cada grupo interpreta apenas uma parte do que aconteceu. Os monstros tornam-se, nesse sentido, vestígios vivos de histórias que as tradições humanas não preservaram.

Howard utiliza frequentemente animais reais de maneira semelhante, ampliando tamanho, ferocidade ou contexto até que se tornem parte do fantástico. Serpentes gigantes, felinos, aranhas de proporções anormais e outros predadores aparecem em ambientes onde qualquer criatura comum já representaria perigo, mas alguns encontros claramente ultrapassam a zoologia conhecida. A aranha gigantesca de A Torre do Elefante, por exemplo, transforma uma passagem da torre num espaço em que Conan precisa enfrentar um predador enorme e silencioso antes mesmo de descobrir Yag-kosha. O animal não necessita de origem cósmica ou explicação mágica; sua escala e o ambiente fechado bastam para colocá-lo no mesmo universo de horrores que aguardam dentro da construção.

Essa mistura impede que o leitor saiba previamente que tipo de ameaça aparecerá quando Conan entra numa ruína. Um barulho pode pertencer a um animal comum, a uma criatura antiga, a um homem transformado, a um ser inteligente de outro mundo ou a alguma coisa que não cabe em nenhuma dessas possibilidades. O protagonista também não possui essa informação e precisa observar comportamento, vulnerabilidade e ambiente antes de agir. Howard transforma a incerteza em parte essencial do perigo, pois identificar corretamente um inimigo pode ser mais importante que saber lutar contra ele.

O horror permanece mesmo quando Conan vence

As histórias de criaturas da Era Hiboriana raramente terminam com uma compreensão completa daquilo que foi encontrado. Conan pode matar Thak, sobreviver aos habitantes da ilha do lago verde ou escapar de Xuthal, mas nenhuma dessas vitórias explica de onde vieram todos os seres semelhantes nem garante que não existam outros. Yag-kosha morre de maneira voluntária para libertar-se da prisão física e executar sua vingança, enquanto seu povo e seu planeta continuam praticamente desconhecidos. Os servos de Bit-Yakin são enfrentados dentro de uma aventura específica, mas sua origem não se transforma numa história natural completa. A criatura do vale é afastada sem que a Escuridão Exterior seja mapeada ou definida.

A falta de explicação preserva algo que desapareceria se cada monstro recebesse uma ficha precisa de origem, espécie, poderes e distribuição geográfica. Howard escreveu aventuras, não um manual de criaturas, e muitas vezes o desconhecido precisa permanecer desconhecido para que a sensação de perigo continue depois da última página. Versões posteriores de Conan inevitavelmente expandiram esse material, criaram categorias, relacionaram criaturas entre si e preencheram lacunas para permitir campanhas de RPG, séries de quadrinhos ou universos compartilhados mais sistemáticos. Essas expansões fazem parte da longa história da franquia, mas não devem ser atribuídas automaticamente ao autor original.

Conan sobrevive porque não exige que o mundo faça sentido antes de reagir a ele. Quando enfrenta algo vivo e vulnerável, usa força e velocidade; quando a espada falha, recua e procura entender a razão; quando percebe inteligência numa criatura, pode conversar em vez de atacar; quando encontra sofrimento onde esperava monstruosidade, como acontece com Yag-kosha, é capaz de reconhecer a diferença. A mesma flexibilidade que lhe permite circular entre culturas também aparece diante de formas de vida desconhecidas. Seu instinto não é uma certeza sobrenatural sobre o que cada criatura representa, mas uma capacidade de revisar rapidamente aquilo que imaginava saber.

Os monstros também revelam um dos limites mais importantes da ideia de civilização dentro da Era Hiboriana. Cidades ricas e reinos poderosos tendem a tratar seus mapas e tradições como se descrevessem a totalidade do mundo, enquanto Conan encontra repetidamente provas de que existe muito além deles. A humanidade habita apenas uma camada recente de terras ocupadas antes por outros povos, outras espécies e forças cuja história quase desapareceu. Algumas dessas presenças foram empurradas para regiões remotas; outras dormem sob ruínas ou permanecem escondidas dentro de objetos trazidos de tumbas antigas. O crescimento dos reinos não eliminou esse mundo anterior, apenas o tornou menos visível.

Por isso, o horror das criaturas de Howard não depende apenas de aparência ou violência. Thak perturba porque parece próximo demais do humano; Yag-kosha começa assustador e termina revelando uma humanidade moral que falta a seu torturador; Thog mostra uma cidade inteira submetida durante gerações a uma entidade que ninguém consegue ou deseja combater; os seres da ilha do lago verde preservam vítimas de épocas desaparecidas e sugerem uma história que ultrapassa qualquer registro conhecido. Em todos esses casos, o monstro modifica alguma certeza que os personagens possuíam antes do encontro.

A Era Hiboriana continua sendo um mundo de homens e mulheres disputando reinos, riqueza e sobrevivência, mas nunca se limita a isso. Sob suas cidades existem câmaras antigas, além de suas fronteiras permanecem povos esquecidos e acima do próprio planeta existe um universo do qual criaturas já chegaram muito antes de Conan nascer. A espada resolve muitos conflitos porque a maior parte das ameaças ainda possui carne que pode ser ferida. O medo permanece porque ninguém sabe, antes de desembainhá-la, se aquilo que está diante dela pertence a essa categoria.

Fontes consultadas

Robert E. Howard — A Torre do Elefante (The Tower of the Elephant). Fonte principal para Yag-kosha, sua origem no planeta Yag e a dimensão cósmica do universo de Conan. O conto também foi utilizado para a aranha gigantesca encontrada dentro da torre e para a mudança de percepção de Conan quando compreende que a criatura de aparência monstruosa é, na verdade, uma vítima de Yara.

Robert E. Howard — Patifes na Casa (Rogues in the House). Principal referência para Thak, sua origem nas montanhas orientais próximas de Zamora, sua inteligência, sua relação com Nabonidus e o combate contra Conan. A descrição do personagem também foi considerada criticamente por sua associação a concepções evolucionistas hoje superadas.

Robert E. Howard — As Joias de Gwahlur (Jewels of Gwahlur, também publicado como The Servants of Bit-Yakin). Fonte para Alkmeenon, Bit-Yakin e seus servos não humanos. O texto foi utilizado especialmente para mostrar como criaturas podem funcionar como sobreviventes de uma história que já deixou de existir na memória das populações humanas próximas.

Robert E. Howard — O Deus na Urna (The God in the Bowl). Fonte principal para a criatura serpentina preservada no sarcófago estígio, o símbolo de Set e a transformação de uma investigação criminal numa narrativa de horror. Para este artigo foi considerada a versão restaurada do texto original de Howard, evitando alterações introduzidas nas primeiras edições póstumas.

Robert E. Howard — A Sombra Deslizante (The Slithering Shadow, também conhecida como Xuthal of the Dusk). Principal referência para Thog, a cidade de Xuthal e a relação entre uma população decadente e a entidade que a consome ao longo de gerações. O conto foi utilizado também para a dificuldade de definir fisicamente determinadas criaturas de Howard e para a proximidade entre Espada e Feitiçaria e Horror Cósmico.

Robert E. Howard — O Lago do Negro (The Pool of the Black One). Fonte central para os habitantes não humanos da ilha, o lago verde e a transformação de vítimas em pequenas figuras rígidas. A narrativa também sustenta a ideia de que determinadas criaturas atravessaram períodos históricos muito anteriores aos povos existentes na época de Conan.

Robert E. Howard — O Vale das Mulheres Perdidas (The Vale of Lost Women). Utilizado para a entidade alada associada à Escuridão Exterior e para o culto existente no vale. A história também exige contextualização das representações raciais e sexuais características de parte da ficção pulp do período em que Howard escrevia.

Robert E. Howard — A Hora do Dragão (The Hour of the Dragon). Referência complementar para as grandes serpentes sagradas da Estígia e para a convivência entre criaturas fisicamente existentes, religião e interpretação sobrenatural. O romance também reforça a presença de formas de vida e conhecimentos preservados desde civilizações muito anteriores à Era Hiboriana de Conan.

Robert E. Howard — A Fênix na Espada (The Phoenix on the Sword). Fonte complementar para a criatura convocada por Thoth-Amon através do Anel da Serpente, exemplo de entidade que não pertence ao conjunto de animais ou povos conhecidos e cuja presença aproxima as histórias de Conan do horror sobrenatural.

Robert E. Howard — O Demônio de Ferro (The Devil in Iron). Utilizado como referência complementar para Khosatral Khel, entidade de origem não humana que assumiu forma material, foi adorada como divindade e permaneceu praticamente invulnerável até Conan encontrar uma arma capaz de feri-la.

Robert E. Howard — The Coming of Conan the Cimmerian. Editado por Patrice Louinet. Edição restaurada utilizada para conferir os textos da fase inicial do ciclo, sobretudo A Torre do Elefante, Patifes na Casa e O Deus na Urna, preservando as versões de Howard em vez de reescritas editoriais posteriores.

Robert E. Howard — The Bloody Crown of Conan. Editado por Patrice Louinet. Consultado como parte do corpus restaurado para manter a distinção entre as criaturas apresentadas originalmente por Howard e ampliações feitas posteriormente por continuadores da franquia.

Robert E. Howard — The Conquering Sword of Conan. Editado por Patrice Louinet. Referência editorial para textos da fase final do ciclo e para a forma como Howard ampliou progressivamente o contato de Conan com ruínas, criaturas antigas e forças que ultrapassam as fronteiras do mundo humano conhecido.

Patrice Louinet — “Hyborian Genesis: Notes on the Creation of the Conan Stories”. Utilizado como apoio editorial para a cronologia de composição dos contos e para evitar que categorias, origens e relações desenvolvidas posteriormente em quadrinhos, jogos e romances derivados fossem atribuídas ao corpus original.

Mark Finn — Blood & Thunder: The Life & Art of Robert E. Howard. Referência crítica e biográfica para contextualizar a ligação de Howard com Weird Tales, suas trocas com outros autores do período e a combinação entre aventura, Espada e Feitiçaria e Horror Cósmico. Também serviu como apoio para contextualizar concepções raciais e evolucionistas dos anos 1930 presentes em algumas descrições.

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