A literatura fantástica brasileira contemporânea reúne universos épicos, assombrações do interior, distopias políticas, futuros afrofuturistas e histórias que transformam elementos da cultura nacional em matéria de fantasia. Embora autores estrangeiros ainda ocupem a maior parte das vitrines, o Brasil possui uma produção diversificada, capaz de dialogar com diferentes tradições sem depender apenas dos modelos importados.
Nesta primeira parte, selecionamos quinze nomes prioritários entre autores consagrados e vozes que ganharam projeção nos últimos anos. A divisão entre fantasia, terror e ficção científica serve apenas como orientação, pois muitos deles atravessam mais de um desses territórios.
Eduardo Spohr
Um dos principais responsáveis pela popularização da fantasia brasileira no século XXI, Eduardo Spohr alcançou grande público com A Batalha do Apocalipse, aventura épica construída em torno de guerras angelicais e referências à tradição judaico-cristã. Também é autor da trilogia Filhos do Éden e da série histórica Santo Guerreiro.
Felipe Castilho
Felipe Castilho combina fantasia, crítica social e referências culturais brasileiras. Entre seus principais livros estão Serpentário, Ordem Vermelha: Filhos da Degradação e a trilogia O Legado Folclórico, que incorpora sacis, curupiras, boitatás e outras figuras do imaginário nacional. Foi finalista do Prêmio Jabuti com Savana de Pedra e Serpentário.
Socorro Acioli
A escritora cearense aproxima o fantástico da religiosidade popular, da tradição oral e das paisagens nordestinas. A Cabeça do Santo, seu romance mais conhecido, acompanha um jovem capaz de ouvir as preces amorosas dirigidas a uma estátua de Santo Antônio. Também publicou Oração para Desaparecer, Emília e A Bailarina Fantasma.
Enéias Tavares
Criador da Brasiliana Steampunk, Enéias Tavares reimagina o Brasil do século XIX como um território habitado por autômatos, máquinas a vapor, magia e versões fantásticas de personagens literários. Seus principais livros incluem A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, Parthenon Místico e As Aventuras de Feldon & Alma.
Carol Chiovatto
Carol Chiovatto é uma das vozes mais interessantes da nova fantasia urbana brasileira. Em Porém Bruxa, uma funcionária pública investiga ocorrências sobrenaturais em São Paulo, enquanto Senciente Nível 5 se aproxima da ficção científica ao discutir inteligência artificial, consciência e relações afetivas.
André Vianco
Referência da literatura vampiresca nacional, André Vianco conquistou leitores com Os Sete, romance sobre vampiros portugueses despertados no litoral brasileiro. Sua extensa bibliografia inclui Sétimo, O Senhor da Chuva, A Casa, a trilogia O Turno da Noite e a saga iniciada por Bento.
Cesar Bravo
Cesar Bravo construiu uma mitologia de horror em torno da cidade fictícia de Três Rios, no interior de São Paulo. Seus livros misturam lendas urbanas, religiosidade, violência, memória e horror corporal. Entre os títulos mais importantes estão Ultra Carnem, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, DVD: Devoção Verdadeira a D., 1618 e Três Rios.
Verena Cavalcante
A literatura de Verena Cavalcante combina infância, trauma, violência familiar, mediunidade e assombrações. Depois dos contos reunidos em Inventário de Predadores Domésticos, a autora publicou o romance Como Nascem os Fantasmas, ambientado no interior paulista e protagonizado por uma menina criada pela avó médium.
Cristhiano Aguiar
Em Gótico Nordestino, Cristhiano Aguiar transforma paisagens, memórias e conflitos do Nordeste em narrativas atravessadas pelo estranho e pelo horror. O autor também publicou Na Outra Margem, o Leviatã e se tornou uma referência importante nas discussões sobre as manifestações regionais do gótico brasileiro.
Oscar Nestarez
Além de escritor, Oscar Nestarez é pesquisador da história do horror literário brasileiro. Sua ficção inclui títulos como Bile Negra, Claroscuro e O Breu de Nós. Doutor em Literatura Comparada pela USP, também publicou estudos e antologias dedicados à recuperação das tradições assustadoras da literatura nacional.

Lu Ain-Zaila
Uma das principais representantes do afrofuturismo brasileiro, Lu Ain-Zaila relaciona tecnologia, ancestralidade africana, racismo, desigualdade e crise ambiental. Sua bibliografia inclui a duologia Brasil 2408, formada por (In)Verdades e (R)Evolução, além de Sankofia, Ìségún e Úkwa: a Vigilante de Mundo
Fábio Kabral
Fábio Kabral mistura afrofuturismo, fantasia, mitologia iorubá e tecnologias alimentadas por forças espirituais. Em seu universo de Ketu Três estão ambientados O Caçador Cibernético da Rua Treze, A Cientista Guerreira do Facão Furioso e O Blogueiro Bruxo das Redes Sobrenaturais. O autor também propôs o conceito de macumbapunk para pensar uma ficção especulativa afro-brasileira.
Aline Valek
Aline Valek trabalha uma ficção científica voltada para relações humanas, identidade, transformações ambientais e experiências urbanas. É autora de As Águas-Vivas Não Sabem de Si e Cidades Afundam em Dias Normais, além de ter participado da organização de Universo Desconstruído, projeto dedicado à presença feminina na ficção científica.
Ana Rüsche
Escritora e pesquisadora, Ana Rüsche explora as relações entre ficção científica, feminismo, ecologia, utopia e organização social. A Telepatia São os Outros foi finalista do Jabuti e do Argos, venceu o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica e posteriormente ganhou uma edição italiana.
Renan Bernardo
Renan Bernardo é um dos escritores brasileiros de ficção científica com maior projeção internacional na atualidade. Seus contos foram publicados em revistas como Clarkesworld, Apex Magazine e Reactor. Autor de Different Kinds of Defiance e Disgraced Return of the Kap’s Needle, já foi finalista dos prêmios Nebula, World Fantasy e Ignyte, embora boa parte de sua obra ainda não tenha edição brasileira.
Um fantástico com identidade brasileira
Os autores desta seleção mostram que o fantástico brasileiro não constitui um movimento uniforme. Há quem recorra à fantasia épica, ao horror corporal ou às viagens espaciais, enquanto outros encontram o insólito nas cidades do interior, nas tradições afro-brasileiras, na religiosidade popular, nas paisagens nordestinas e nos conflitos sociais do país.
Esta é apenas a primeira parte do levantamento. Uma segunda seleção poderá reunir nomes como Braulio Tavares, Ana Paula Maia, Raphael Draccon, Nikelen Witter, Fábio Fernandes, Roberto de Sousa Causo, Ale Santos, Hache Pueyo, Cirilo S. Lemos, Cristina Lasaitis, Octavio Aragão, Paula Febbe, Bruno Ribeiro e Márcio Benjamin.


