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5 ficções científicas sobre o primeiro contato que não começam com uma invasão

O primeiro encontro entre a humanidade e uma inteligência extraterrestre costuma ser imaginado como o início de uma guerra. Naves surgem no céu, cidades são atacadas e governos descobrem rapidamente que suas armas não foram feitas para enfrentar visitantes de outros mundos. A ficção científica, no entanto, também construiu encontros muito diferentes, nos quais o maior desafio não está em sobreviver a uma ofensiva, mas em reconhecer uma forma de inteligência que talvez não pense, não perceba o tempo ou sequer se comunique como nós.

As cinco obras desta seleção transformam o primeiro contato em um problema linguístico, científico ou filosófico. Algumas imaginam civilizações dispostas a transmitir conhecimento; outras mostram seres que procuram cooperação ou que parecem completamente indiferentes à humanidade. Em comum, todas substituem a guerra pela dificuldade de compreender o outro.

1. A História da Sua Vida — Ted Chiang

Publicado originalmente em 1998, “A História da Sua Vida” acompanha Louise Banks, uma linguista convocada para estabelecer comunicação com os heptápodes, extraterrestres que chegaram à Terra sem apresentar uma intenção compreensível. A aproximação não depende de armas ou grandes demonstrações tecnológicas, mas do trabalho paciente de identificar sons, símbolos e estruturas gramaticais.

Ted Chiang utiliza a linguagem para explorar algo maior do que a tradução entre espécies. À medida que Louise aprende o idioma alienígena, sua percepção do tempo começa a se modificar. O contato produz uma transformação intelectual profunda, sugerindo que compreender verdadeiramente outra inteligência pode exigir que os humanos abandonem parte da maneira como organizam a própria realidade.

O conto integra a coletânea História da Sua Vida e Outros Contos, publicada no Brasil pela Intrínseca, e inspirou o filme A Chegada, dirigido por Denis Villeneuve em 2016.

A História da Sua Vida — Ted Chiang

2. Contato — Carl Sagan

Em Contato, publicado em 1985, a descoberta começa com um sinal captado por radiotelescópios. A mensagem confirma a existência de uma civilização tecnologicamente avançada e contém instruções para a construção de uma máquina cuja finalidade permanece incerta. Antes que qualquer encontro aconteça, a humanidade precisa decidir se confia no que recebeu.

Carl Sagan acompanha não apenas o esforço científico de Ellie Arroway, mas também as reações políticas, religiosas e culturais provocadas pela mensagem. O contato torna-se um teste para a própria humanidade: diante da possibilidade de não estar sozinha, ela precisa enfrentar suas divisões, seus medos e sua dificuldade de aceitar evidências que não podem ser facilmente repetidas.

Publicado no Brasil pela Companhia das Letras, o romance foi adaptado para o cinema em 1997, com direção de Robert Zemeckis e Jodie Foster no papel de Ellie.

Contato — Carl Sagan

3. Solaris — Stanisław Lem

Os pesquisadores que estudam Solaris sabem que o planeta é coberto por um oceano aparentemente vivo, capaz de produzir estruturas complexas e talvez dotado de consciência. O problema é que décadas de observação não permitiram determinar o que aquela inteligência deseja, se ela compreende a presença humana ou mesmo se o conceito de comunicação possui algum sentido para ela.

A chegada do psicólogo Kris Kelvin à estação orbital coincide com manifestações inquietantes produzidas pelo oceano. Solaris materializa figuras ligadas às lembranças mais dolorosas dos cientistas, mas ninguém consegue saber se isso representa uma tentativa de diálogo, uma experiência, uma reação automática ou algo impossível de traduzir em intenções humanas.

Publicado em 1961, o romance de Stanisław Lem apresenta o primeiro contato como um encontro que talvez jamais possa ser concluído. A humanidade encontra outra inteligência, mas não consegue escapar de sua tendência de interpretar o desconhecido a partir de conceitos humanos.

Solaris — Stanisław Lem

4. Encontro com Rama — Arthur C. Clarke

Quando um enorme objeto cilíndrico entra no Sistema Solar, uma expedição humana é enviada para investigá-lo. O que inicialmente parecia um corpo celeste revela-se uma construção alienígena gigantesca, com cidades, estruturas mecânicas e um ambiente interno preparado para despertar durante sua aproximação do Sol.

Em Encontro com Rama, publicado em 1973, Arthur C. Clarke substitui o diálogo direto pela exploração. Os criadores da nave não aparecem para explicar sua tecnologia, negociar ou ameaçar a Terra. Cabe aos astronautas observar uma obra construída segundo necessidades que desconhecem e aceitar que talvez tenham encontrado apenas um vestígio passageiro de uma civilização indiferente à sua existência.

O livro, publicado no Brasil pela Aleph, transforma o primeiro contato em uma experiência de assombro. Rama não chega para conquistar a humanidade nem para salvá-la; apenas atravessa o Sistema Solar, deixando perguntas que os visitantes humanos não têm tempo suficiente para responder.

Encontro com Rama — Arthur C. Clarke

5. Devoradores de Estrelas — Andy Weir

Ryland Grace desperta sozinho em uma nave, sem memória e a milhões de quilômetros da Terra. Enquanto tenta compreender sua missão, ele encontra outra espaçonave e percebe que seu ocupante também procura uma solução para uma ameaça capaz de destruir seu mundo.

O contato entre Grace e o alienígena que ele chama de Rocky começa sem um idioma compartilhado. Os dois precisam criar formas de comunicação, comparar conhecimentos científicos e aprender a trabalhar juntos apesar das diferenças entre seus corpos, sentidos e ambientes. A relação não elimina os perigos da narrativa, mas transforma a cooperação entre espécies em seu principal instrumento de sobrevivência.

Publicado no Brasil pela Suma, Devoradores de Estrelas apresenta a alternativa mais afetiva desta seleção. O primeiro contato não conduz a uma disputa pelo domínio do espaço, mas a uma parceria entre dois indivíduos que descobrem ter mais em comum do que suas biologias permitiriam imaginar.

Devoradores de Estrelas — Andy Weir

Diferentes maneiras de encontrar o outro

Essas obras partem da mesma pergunta — o que aconteceria se descobríssemos que não estamos sozinhos? —, mas recusam uma resposta única. Ted Chiang encontra o alienígena na linguagem; Carl Sagan, no intercâmbio de conhecimento; Stanisław Lem, nos limites da compreensão; Arthur C. Clarke, na exploração de uma tecnologia silenciosa; e Andy Weir, na cooperação entre indivíduos.

Nenhuma dessas histórias elimina completamente o medo. A presença de outra inteligência continua capaz de provocar desconfiança, conflitos políticos e crises pessoais. A diferença está na origem da tensão. O perigo não decorre necessariamente de uma intenção hostil, mas da dificuldade de interpretar seres que podem possuir sentidos, linguagens, histórias e concepções de mundo incompatíveis com as nossas.

Ao imaginar o primeiro contato sem recorrer imediatamente à invasão, essas narrativas deslocam a pergunta central. Em vez de saber se venceríamos uma guerra contra extraterrestres, elas questionam se seríamos capazes de reconhecer uma inteligência verdadeiramente diferente quando finalmente a encontrássemos.


Fontes consultadas:

  • CHIANG, Ted. História da Sua Vida e Outros Contos. Tradução de Edmundo Barreiros. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. Informações editoriais e apresentação disponíveis no Google Livros.
  • SAGAN, Carl. Contato. Tradução de Donaldson M. Garschagen. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Sinopse e informações da edição brasileira disponíveis no Grupo Companhia das Letras.
  • LEM, Stanisław. Solaris. Tradução de Eneida Favre. São Paulo: Aleph, 2015.
  • CLARKE, Arthur C. Encontro com Rama. Tradução de Susana Alexandria. São Paulo: Aleph, 2015. Informações bibliográficas disponíveis no Google Livros.
  • WEIR, Andy. Devoradores de Estrelas. Tradução de Alves Calado. São Paulo: Suma, 2021.

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