Outubro começou com uma entrada considerável de terror no catálogo da HBO Max. Não são apenas lançamentos recentes colocados lado a lado para aproveitar o Halloween: a seleção passa por momentos bastante diferentes da história do gênero, dos grandes sucessos sobrenaturais dos anos 1970 e 1980 ao terror adolescente dos anos 2000. No mesmo dia, a plataforma recebeu O Exorcista, O Iluminado, Poltergeist, vários filmes de A Hora do Pesadelo, Premonição 3, A Casa de Cera e outros títulos que permitem montar uma programação praticamente para o mês inteiro. Cenanauta
A quantidade também abre espaço para fazer algo mais interessante do que simplesmente escolher os filmes mais famosos do pacote. O catálogo permite observar como o cinema foi mudando sua maneira de trabalhar o medo: há possessão religiosa, casas assombradas, assassinos que invadem sonhos, ambientes que parecem corroer os próprios personagens e aquele terror dos anos 2000 que misturava violência gráfica, elenco jovem e ritmo de entretenimento comercial. Por isso, nossa seleção não tenta estabelecer quais são os cinco melhores filmes disponíveis, mas escolher cinco portas de entrada para momentos e estilos diferentes do gênero.
1. A Hora do Pesadelo

Quando Wes Craven lançou A Hora do Pesadelo em 1984, o slasher já tinha seus grandes assassinos e uma estrutura bastante reconhecível. Halloween havia transformado Michael Myers numa presença quase abstrata, enquanto Sexta-Feira 13 ajudava a consolidar a fórmula de jovens perseguidos e assassinatos cada vez mais elaborados. Freddy Krueger apareceu dentro desse cenário, mas carregava uma diferença que permitia ao filme escapar de várias limitações do gênero: suas vítimas não estavam seguras nem quando conseguiam fechar a porta do quarto.
A ideia de um assassino capaz de atacar adolescentes durante o sono muda completamente a relação entre perseguidor e vítima. Em outros slashers, fugir, se esconder ou simplesmente abandonar determinado lugar ainda poderia oferecer alguma esperança. Em A Hora do Pesadelo, dormir é inevitável, e o filme passa boa parte do tempo explorando justamente essa dificuldade de separar o que está acontecendo no mundo real daquilo que Freddy controla nos sonhos. Craven aproveita essa liberdade para criar mortes e imagens que não precisam obedecer à lógica física, transformando o pesadelo em parte estrutural do filme, e não apenas em justificativa para um monstro sobrenatural.
O Freddy do primeiro longa também é um pouco diferente daquele que dominaria a cultura popular nas continuações. Ainda existe humor em sua presença, mas ele é muito mais ameaçador e menos interessado em fazer comentários antes de matar alguém. Robert Englund consegue dar personalidade ao personagem sem transformá-lo imediatamente no apresentador macabro que surgiria nos filmes seguintes, e Heather Langenkamp sustenta Nancy como uma protagonista que precisa entender as regras daquele inimigo antes de conseguir reagir.
A HBO Max recebeu em outubro praticamente um pequeno festival de Freddy, com o filme original, várias continuações, Freddy vs. Jason e o remake de 2010 entre as entradas de catálogo. WBD Press Para quem nunca entrou na franquia, porém, o primeiro continua sendo a escolha mais lógica. Além de apresentar Freddy Krueger, é onde a ideia de um assassino dos sonhos aparece de maneira mais simples, estranha e eficiente.
2. O Exorcista

É difícil separar O Exorcista da reputação construída ao redor dele desde 1973. Durante décadas, o filme foi tratado como uma espécie de teste de resistência para espectadores, cercado por histórias sobre pessoas passando mal nas sessões, reações religiosas e discussões sobre até onde uma produção comercial poderia ir ao representar possessão e profanação. Esse conjunto de histórias ajudou a transformar o longa num monumento do gênero, mas às vezes também esconde o fato de que William Friedkin fez um filme muito mais paciente do que sua fama baseada nas cenas mais chocantes pode sugerir.
A possessão de Regan demora a assumir a forma pela qual o filme ficou conhecido. Antes disso, acompanhamos sua mãe, Chris MacNeil, tentando compreender o que está acontecendo com a filha através de médicos, exames e diferentes hipóteses clínicas. A entrada da religião ocorre depois de uma longa tentativa de encontrar alguma explicação racional, e o próprio padre Damien Karras está longe de ser apresentado como alguém absolutamente seguro de sua fé. Sua crise pessoal é tão importante para o conflito quanto a presença que começa a dominar Regan.
Essa construção ajuda a explicar por que determinadas cenas ainda têm força mesmo depois de tantas décadas de imitações. O filme não depende apenas do choque visual produzido pela possessão, porque passa bastante tempo estabelecendo o cotidiano das personagens e a impotência das pessoas ao redor diante de algo que elas não conseguem compreender. Quando o exorcismo finalmente se torna necessário, ele não surge como espetáculo repentino, mas como consequência de uma longa sequência de tentativas fracassadas.
A chegada de O Exorcista ao catálogo em 1º de outubro coloca um dos filmes fundamentais do horror sobrenatural ao lado de títulos muito posteriores que herdaram parte de sua linguagem. Cenanauta Quem conhece principalmente as inúmeras produções sobre possessão que vieram depois pode encontrar aqui um filme menos acelerado do que espera, mas também entender de onde saiu boa parte das imagens, conflitos e convenções que o subgênero continua reutilizando.
3. O Iluminado

O Iluminado também pertence à categoria daqueles filmes tão conhecidos que algumas de suas cenas podem parecer familiares até para quem nunca assistiu ao longa inteiro. As meninas no corredor, o sangue atravessando as portas do elevador, o triciclo de Danny percorrendo o Hotel Overlook e o rosto de Jack Nicholson atravessando uma porta destruída se tornaram imagens constantemente reproduzidas e parodiadas. Vistas dentro do filme, porém, elas fazem parte de uma construção bem mais lenta e controlada do que essas referências isoladas sugerem.
Stanley Kubrick acompanha Jack Torrance, sua esposa Wendy e o filho Danny durante o período em que a família fica responsável pelo Overlook durante o inverno. O isolamento oferece a Jack a possibilidade de trabalhar em seu livro, mas o hotel possui uma história de violência que começa a afetar a família de maneiras diferentes. Danny percebe elementos sobrenaturais com muito mais clareza, enquanto Jack se torna progressivamente mais instável, e uma das forças do filme está justamente em não separar completamente a influência do lugar dos conflitos que já existiam dentro daquela família antes de sua chegada.
O espaço é fundamental para essa sensação. Corredores parecem grandes demais, determinadas áreas do hotel não se encaixam perfeitamente quando tentamos compreender sua arquitetura e Kubrick repete percursos de maneira quase hipnótica. Em vez de apresentar o Overlook apenas como uma casa assombrada gigantesca, o filme transforma o próprio ambiente em algo difícil de interpretar. Há fantasmas e acontecimentos claramente sobrenaturais, mas a sensação de desconforto também depende da maneira como os personagens ocupam aqueles salões vazios durante semanas de isolamento.
A adaptação é famosa também pelas diferenças em relação ao romance de Stephen King, que nunca escondeu sua insatisfação com várias escolhas feitas por Kubrick. Ainda assim, livro e filme acabaram ocupando lugares enormes dentro do horror por caminhos diferentes. Com O Iluminado novamente disponível na HBO Max em outubro, Cenanauta é uma boa oportunidade para rever justamente o que tornou essa versão tão persistente: não apenas as cenas famosas, mas a forma como o filme utiliza espaço, repetição e isolamento para produzir desconforto antes que a violência finalmente ocupe o centro da história.
4. Poltergeist

Poltergeist, de 1982, começa num lugar muito diferente do Overlook. Em vez de um hotel isolado, encontramos uma família vivendo num bairro planejado, cercada por casas semelhantes, vizinhos e todos os sinais de uma vida suburbana confortável. Essa normalidade é importante porque o filme não transporta seus personagens para um lugar obviamente ameaçador; o horror invade uma casa que, até então, não parecia possuir nada de especial.
A pequena Carol Anne começa a interagir com algo que aparece através da televisão, e fenômenos cada vez mais estranhos passam a acontecer dentro da residência. Objetos se movem, forças invisíveis interferem no ambiente e aquilo que inicialmente poderia ser encarado como uma curiosidade rapidamente assume consequências muito mais graves. O filme consegue alternar espanto, aventura e horror sem permanecer completamente preso a nenhum desses registros, característica que explica parte de sua capacidade de alcançar um público maior do que produções muito mais violentas do período.
A participação de Steven Spielberg como produtor e coautor da história é frequentemente lembrada porque Poltergeist compartilha elementos com o cinema fantástico que ele fazia naquele momento, enquanto Tobe Hooper, diretor de O Massacre da Serra Elétrica, aparece oficialmente na direção. O resultado tem uma combinação curiosa: existe o olhar para a família suburbana e para a infância muito associado ao cinema de Spielberg, mas também imagens bastante agressivas e uma escalada de horror que não trata a casa apenas como cenário para sustos ocasionais.
Entre tantos assassinos, demônios e hotéis mal-assombrados disponíveis no pacote de outubro, Poltergeist oferece outra forma de entrada para o horror dos anos 1980. O filme também chegou ao catálogo no dia 1º, junto ao restante da seleção temática. WBD Press É especialmente interessante para quem gosta de histórias de casas assombradas, porque desloca esse tipo de narrativa das mansões antigas e lugares isolados para um ambiente construído justamente para representar conforto e segurança.
5. A Casa de Cera

Colocar A Casa de Cera ao lado de O Exorcista e O Iluminado não significa fingir que os filmes ocupam o mesmo espaço na história do cinema. A graça de incluí-lo é outra: o longa de 2005 representa muito bem um período específico do terror comercial, quando produções voltadas ao público jovem misturavam slashers, violência mais gráfica, elencos conhecidos da televisão e da cultura pop e uma estética imediatamente reconhecível dos anos 2000.
A história acompanha um grupo de jovens que, durante uma viagem, acaba chegando a uma pequena cidade praticamente vazia. O principal ponto turístico do lugar é um museu de cera, e basta observar o título para imaginar que existe alguma coisa bastante errada naquele cenário. O filme não tenta esconder por muito tempo que seus personagens estão entrando numa armadilha; seu interesse está em descobrir como aquele lugar funciona e em transformar a própria ideia da cera em fonte para algumas das cenas mais desconfortáveis.
Na época do lançamento, boa parte da divulgação se apoiou na presença de Paris Hilton, enquanto nomes como Elisha Cuthbert, Chad Michael Murray e Jared Padalecki reforçavam o perfil adolescente do elenco. Isso contribuiu para que o longa fosse frequentemente tratado como produto de seu momento, às vezes com mais atenção ao elenco do que ao trabalho visual realizado na cidade e no museu. Revisto anos depois, ele oferece uma amostra bastante clara de como o horror popular daquela década estava se afastando dos slashers autoconscientes dos anos 1990 e se aproximando de uma violência mais explícita.
A Casa de Cera também aparece entre as entradas de terror previstas para o catálogo de outubro. Cenanauta Dentro desta seleção, ele serve justamente para quebrar a sequência de clássicos consagrados e lembrar que um mês dedicado ao gênero não precisa virar apenas retrospectiva de filmes canônicos. Há espaço também para produções que foram desprezadas, redescobertas ou simplesmente sobreviveram como lembrança de uma fase específica do cinema de terror.
E ainda dá para montar outras maratonas
Os cinco filmes acima ocupam apenas uma parte do pacote preparado para outubro. Quem quiser continuar com Freddy encontra várias continuações de A Hora do Pesadelo, além de Freddy vs. Jason. Sexta-Feira 13 permite continuar pelo slasher, enquanto Premonição 3 leva a maratona para outra fase do terror adolescente dos anos 2000. Contos do Dia das Bruxas é uma escolha particularmente apropriada para a própria noite de Halloween, enquanto A Casa da Colina Assombrada, de 1959, oferece um caminho para quem quiser recuar algumas décadas e encontrar Vincent Price. WBD Press
A programação também não está limitada ao terror mais pesado. Coraline e o Mundo Secreto, ParaNorman, A Noiva Cadáver e Kubo e as Cordas Mágicas aparecem entre os títulos adicionados no início do mês, permitindo uma seleção de outubro voltada para fantasia sombria e animação. WBD Press Essa variedade talvez seja a parte mais interessante da atualização: em vez de depender de uma única estreia temática, a HBO Max reuniu material suficiente para públicos bastante diferentes passarem outubro explorando o gênero.
Como essas obras são entradas de catálogo e não lançamentos originais da plataforma, faz mais sentido tratá-las aqui do que colocá-las individualmente no No Horizonte. E, para o Descubra, o pacote funciona especialmente bem porque permite fazer exatamente aquilo que a editoria procura: partir de títulos conhecidos para abrir caminhos diferentes dentro do fantástico, sem transformar a recomendação numa simples relação de novidades do streaming

