Geralt de Rívia é o personagem que apresenta boa parte do mundo de The Witcher ao leitor, mas Andrzej Sapkowski constrói sua trajetória de maneira bem diferente daquela sugerida pela imagem mais popular do caçador de monstros solitário. Geralt é um bruxo treinado desde a infância para enfrentar criaturas, maldições e situações que exigem conhecimento técnico, preparo físico e experiência. Ele sabe reconhecer rastros, preparar poções, identificar hábitos de espécies perigosas e avaliar quando uma criatura realmente precisa ser morta. Mesmo assim, os conflitos que mais o transformam quase nunca são aqueles para os quais Kaer Morhen o preparou. Guerras, preconceitos, relações afetivas, decisões políticas e pessoas que não cabem em categorias simples colocam diante dele problemas que nenhuma espada resolve de maneira satisfatória.
Durante boa parte da saga, Geralt tenta se proteger desses conflitos por meio de uma ideia que repete com frequência: a neutralidade. Ele prefere não escolher lados em disputas entre reis, desconfia de causas apresentadas como moralmente absolutas e conhece bem a facilidade com que discursos grandiosos podem justificar violência. Essa posição não nasce de indiferença. Geralt viveu tempo suficiente entre humanos, não humanos, feiticeiros e autoridades para saber que raramente existe uma divisão confortável entre pessoas boas e ruins. O problema é que sua própria vida passa a demonstrar o limite dessa filosofia. Conforme cria vínculos com Yennefer, Jaskier, Ciri e os companheiros que surgem durante a guerra, deixar de escolher passa a significar abandonar pessoas concretas, e isso se torna cada vez mais difícil.
A aparência que o tornou imediatamente reconhecível — cabelos brancos, olhos modificados, medalhão de lobo e espadas — está ligada a um processo muito mais brutal do que a imagem de herói de fantasia costuma sugerir. Geralt não escolheu se tornar bruxo. Foi entregue ainda criança a uma instituição que alterou seu corpo e definiu sua profissão antes que tivesse idade para decidir qualquer coisa. Parte importante de sua personalidade nasce dessa experiência: ele passou a vida sendo necessário para sociedades que, ao mesmo tempo, o tratam como mutante, mercenário ou criatura pouco humana. Sapkowski usa essa posição ambígua para construir um personagem que conhece a exclusão de perto e, justamente por isso, reage de maneira complexa às divisões que encontra pelo caminho.
A formação do bruxo e o mundo que o transformou em ferramenta
Geralt é filho de Visenna, feiticeira e curandeira, e foi levado ainda menino para Kaer Morhen, fortaleza da Escola do Lobo. Ali passou pela formação reservada aos futuros bruxos, que combinava treinamento físico, esgrima, sobrevivência, estudo de criaturas, alquimia e procedimentos capazes de alterar profundamente o organismo. O mais conhecido deles é o Julgamento das Ervas, processo extremamente perigoso ao qual muitos candidatos não sobreviviam. Geralt reagiu às mutações melhor do que o esperado e, por isso, foi submetido a experiências adicionais. Entre as consequências estavam a perda da pigmentação dos cabelos e capacidades físicas acima das de um humano comum, embora os livros nunca o tratem como invulnerável. Ele sofre ferimentos graves, sente dor, precisa se recuperar e depende de preparo quando enfrenta ameaças realmente perigosas.
As mutações também permitem que utilize substâncias tóxicas demais para outras pessoas, parte essencial da atividade dos bruxos. Poções melhoram sentidos, resistência ou desempenho em combate, mas não funcionam como poderes gratuitos; exigem conhecimento e cobram um preço físico. O mesmo vale para os sinais, formas relativamente simples de magia ensinadas em Kaer Morhen. Aard, Igni, Yrden, Quen e Axii fazem parte do repertório de Geralt, porém aparecem nos romances com muito menos frequência do que nos jogos, nos quais precisaram ser transformados em sistemas de combate claros e reutilizáveis. Sapkowski costuma dar mais atenção ao conhecimento do bruxo do que ao espetáculo das habilidades. Saber o que está enfrentando, quando não deve atacar e qual informação o cliente está omitindo costuma importar tanto quanto a capacidade de manejar uma espada.
A própria origem “de Rívia” é menos simples do que parece. Geralt não nasceu na região. Vesemir recomendava que os bruxos adotassem nomes que soassem confiáveis aos clientes, e Geralt escolheu uma origem riviana, chegando a praticar o sotaque para torná-la convincente. Muitos anos depois, durante a guerra, receberia formalmente da rainha Meve um título de cavaleiro associado a Rívia, fazendo com que a identidade inventada se tornasse verdadeira por um caminho completamente inesperado. Esse tipo de ironia aparece com frequência na saga e combina particularmente bem com um personagem que tenta decidir quem é num mundo que já definiu sua função desde a infância.
A profissão também coloca Geralt numa situação social contraditória. Pessoas procuram seus serviços quando uma estrige, aparição, nekkar ou outra criatura ameaça uma comunidade, mas podem demonstrar repulsa assim que o trabalho termina. O bruxo é necessário e desprezado ao mesmo tempo. Essa experiência o torna desconfiado de julgamentos baseados apenas em origem ou espécie, embora ele próprio não esteja livre de preconceitos e erros. Vários contos usam contratos aparentemente convencionais para mostrar que o problema real pode estar na maneira como humanos e criaturas dividem o mesmo espaço. Algumas ameaças precisam ser eliminadas; outras podem ser curadas, afastadas ou simplesmente deixadas em paz.
A estrige de Vizima oferece um dos primeiros exemplos. Geralt poderia cumprir o trabalho matando a criatura, mas procura quebrar a maldição e devolver a princesa à condição humana. Em outros episódios, encontra seres considerados monstruosos que demonstram inteligência, regras próprias e nenhuma intenção especial de atacar pessoas. Sapkowski nunca transforma isso numa tese simplista de que “humanos são os verdadeiros monstros”, porque seu bestiário inclui criaturas genuinamente perigosas e homens capazes de agir com compaixão. O que Geralt aprende repetidamente é que aparência e categoria não bastam para determinar aquilo que está diante dele.
Neutralidade, Blaviken e os vínculos que Geralt tenta evitar
“O Mal Menor” concentra muitas das contradições que acompanham Geralt durante o restante da obra. Em Blaviken, ele se vê no meio do conflito entre Renfri e Stregobor, dois personagens que apresentam versões incompatíveis de uma história marcada por perseguição, violência e desejo de vingança. Geralt rejeita a ideia de escolher simplesmente entre dois males, porque sabe que aceitar essa linguagem pode servir como desculpa para qualquer atrocidade. Quando percebe, porém, que Renfri pretende colocar habitantes da cidade em risco para forçar Stregobor a sair de sua torre, decide intervir. Mata os homens que a acompanham e depois a própria Renfri, impedindo um massacre que a população jamais chega a compreender completamente.
O resultado é o apelido Carniceiro de Blaviken. Para quem observa apenas o que ficou na praça, Geralt é um mutante que matou várias pessoas. Sua intenção e o contexto pouco importam diante da imagem disponível. A experiência reforça sua desconfiança em relação a decisões morais que exigem uma escolha rápida, mas não consegue transformá-lo numa pessoa verdadeiramente indiferente. O mesmo homem que afirma querer ficar fora de conflitos volta repetidamente a interferir quando percebe alguém prestes a pagar um preço que considera injusto.
Jaskier ocupa um lugar importante nessa contradição porque demonstra cedo que Geralt não é tão solitário quanto gosta de imaginar. O trovador é expansivo, inconveniente, vaidoso e frequentemente cria problemas que o bruxo preferiria evitar. Ainda assim, os dois mantêm uma amizade que atravessa anos e não depende de qualquer obrigação profissional. Jaskier escolhe acompanhar Geralt, e Geralt permite essa proximidade mesmo quando passa boa parte do tempo reclamando dela. A relação fornece ao leitor acesso a um lado menos defensivo do personagem e mostra que o isolamento funciona mais como hábito e proteção do que como incapacidade de criar afeto.
Yennefer de Vengerberg torna essa proteção ainda mais difícil de sustentar. Os dois se conhecem durante os acontecimentos de “O Último Desejo”, quando Geralt procura ajuda depois que Jaskier se envolve com um djinn. A feiticeira percebe rapidamente o potencial da criatura e tenta utilizá-lo, enquanto Geralt acaba fazendo um último desejo cuja formulação exata nunca é revelada. A ligação criada naquele momento se torna parte importante da relação, mas não explica sozinha tudo aquilo que os dois vivem depois. Eles passam anos se encontrando, separando-se, procurando outras pessoas e retornando um ao outro porque existe entre ambos uma intimidade que persiste mesmo quando são incapazes de viver juntos de maneira estável.
Geralt e Yennefer compartilham uma experiência importante apesar das diferenças evidentes entre eles. Ambos tiveram seus corpos profundamente modificados e aprenderam a sobreviver construindo imagens capazes de afastar julgamento. Geralt prefere parecer indiferente; Yennefer prefere parecer absolutamente no controle. Os dois reconhecem rapidamente quando o outro está utilizando essas defesas, o que torna a relação intensa e muitas vezes cruel. Em “Um Fragmento de Gelo”, por exemplo, a presença de Istredd expõe a dificuldade de Geralt em dizer claramente o que deseja e a resistência de Yennefer a se colocar numa posição vulnerável. Sapkowski não resolve essas tensões com uma declaração romântica simples e permite que os dois permaneçam imperfeitos.
Ciri e a vida que Geralt não planejou ter
A relação que realmente desmonta a identidade do bruxo solitário nasce antes mesmo de Ciri vir ao mundo. Durante os acontecimentos envolvendo Pavetta e Duny, Geralt invoca a Lei da Surpresa como recompensa e acaba ligado à criança ainda não nascida. Ele passa anos tentando tratar isso como coincidência ou tradição antiga que não precisa determinar sua vida. Quando encontra Ciri em Brokilon, os dois estabelecem uma conexão real, mas ainda se separam. A queda de Cintra e a invasão nilfgaardiana mudam o significado daquela história, porque Ciri perde a família, o reino e a proteção que conhecia.
O reencontro na casa do mercador Yurga encerra a resistência de Geralt. A partir dali, Ciri deixa de ser uma obrigação abstrata associada ao destino e passa a fazer parte de sua vida cotidiana. Ele a leva para Kaer Morhen, participa de seu treinamento e assume um papel paterno que não combina com a existência itinerante que levou até então. A transformação não ocorre apenas porque Geralt passa a gostar dela. Cuidar de Ciri exige permanecer, pensar no futuro de outra pessoa e aceitar que determinadas decisões não podem ser resolvidas simplesmente partindo para a próxima estrada.
Em Kaer Morhen, Geralt ensina aquilo que sabe e divide essa tarefa com Vesemir, Eskel, Lambert e Coën. Ciri aprende movimentação, combate, resistência e técnicas associadas à formação dos bruxos, mas nunca passa pelas mutações que os transformaram. Quando começam a surgir manifestações mágicas e estados de transe, fica claro que a educação oferecida pela Escola do Lobo não é suficiente. Triss Merigold ajuda a reconhecer a natureza do problema, e Yennefer assume depois uma parte decisiva da formação da jovem. É nessa passagem que a relação entre Geralt, Yennefer e Ciri ganha uma estrutura familiar mais clara.
Geralt não deixa de ser bruxo ao se tornar pai, mas a profissão deixa de bastar como explicação para suas escolhas. Antes, ele poderia dizer que estava numa cidade por causa de um contrato ou que seguia determinada estrada porque havia trabalho. Quando Ciri desaparece depois de Thanedd, não existe recompensa, cliente ou neutralidade capaz de justificar aquilo que faz. Ele a procura porque é sua filha.
A derrota para Vilgefortz em Thanedd reforça essa mudança por um caminho doloroso. Geralt é gravemente ferido e precisa de um longo período de recuperação em Brokilon. Acostumado a confiar no próprio corpo e na experiência adquirida em décadas de combate, ele se vê incapaz de simplesmente levantar e seguir Ciri. Quando finalmente parte, possui poucas informações confiáveis e nenhuma garantia de que conseguirá encontrá-la. A busca se transforma numa jornada longa pelo Continente em guerra e reúne ao redor dele pessoas que tornam cada vez menos sustentável a ideia de que Geralt funciona melhor sozinho.
A companhia e a guerra que atravessa a neutralidade
Jaskier continua ao lado do bruxo, mas a companhia cresce com figuras muito diferentes entre si. Milva, arqueira ligada às dríades de Brokilon, possui experiência suficiente para sobreviver numa região tomada pela guerra. Regis parece inicialmente um viajante culto e discreto, até revelar ser um vampiro superior. Cahir é nilfgaardiano e carrega uma relação traumática com a história de Ciri, o que faz Geralt rejeitá-lo durante bastante tempo. Angoulême, por sua vez, vem de uma vida de criminalidade e acaba integrada ao grupo de maneira quase improvável. A convivência não transforma essas pessoas em uma família idealizada, mas cria vínculos baseados em confiança e risco compartilhado.
Regis representa uma das mudanças mais interessantes porque força Geralt a confrontar diretamente categorias aprendidas durante a formação de bruxo. Um vampiro superior deveria, em princípio, pertencer ao tipo de criatura que sua profissão existe para enfrentar. Regis, entretanto, demonstra inteligência, humor, autocontrole e lealdade muito maiores do que as de vários humanos encontrados no caminho. Ele possui ainda uma história própria com violência e sangue, incluindo um período em que perdeu controle e precisou reconstruir a vida. Geralt não ignora aquilo que Regis é, mas passa a tratá-lo como amigo, aprofundando uma ideia presente desde os contos iniciais: saber o nome de uma espécie não significa compreender automaticamente o indivíduo.
Cahir produz uma tensão diferente. Durante muito tempo, Geralt o associa à queda de Cintra e ao medo que Ciri desenvolveu em torno do cavaleiro nilfgaardiano. A decisão de aceitar sua presença não acontece rapidamente, mas a viagem revela um homem que também rompeu com aquilo que seu próprio império esperava dele. Essas relações são importantes porque Sapkowski não faz Geralt mudar de opinião por meio de discursos. A convivência obriga o personagem a ajustar julgamentos construídos em circunstâncias anteriores.
A guerra também deixa de ser uma abstração política. O grupo atravessa vilas destruídas, encontra refugiados, presencia fome, saque e deslocamentos que não possuem qualquer relação direta com as justificativas apresentadas por reis e comandantes. Geralt continua sem acreditar que grandes projetos políticos sejam capazes de justificar tudo aquilo, mas já não consegue fingir que a guerra está fora de sua vida. Ciri desapareceu dentro desse conflito, seus companheiros foram moldados por ele e cada estrada mostra consequências sobre pessoas que jamais participaram das decisões que iniciaram a disputa.
Na Batalha da Ponte sobre o Yaruga, Geralt acaba lutando ao lado das forças de Lyria e Rívia e recebe da rainha Meve o título de cavaleiro. A situação contém uma ironia particularmente adequada ao personagem: o homem que inventou uma origem em Rívia para parecer mais confiável aos clientes acaba oficialmente reconhecido como Geralt de Rívia por participar de uma guerra em que nunca quis se envolver. Não existe transformação repentina em patriota ou soldado. O título nasce de circunstâncias que escapam ao controle do próprio Geralt, como tantas outras partes de sua identidade.
Stygga, Rívia e aquilo que resta da neutralidade
A busca culmina no castelo de Stygga, onde Geralt encontra novamente Vilgefortz e as diferentes trajetórias da saga convergem. A companhia chega até ali depois de atravessar perdas e perigos que transformaram uma busca inicialmente pessoal numa responsabilidade compartilhada. Vários integrantes não sobrevivem ao confronto, e o reencontro com Ciri e Yennefer acontece em meio a uma violência que impede qualquer sensação de vitória limpa. Geralt enfrenta Vilgefortz novamente depois da derrota sofrida em Thanedd e consegue vencê-lo, mas o resultado depende também de circunstâncias e aliados que demonstram quanto sua vida se afastou daquela ideia antiga de autossuficiência.
Stygga encerra algumas ameaças, mas não devolve aos personagens aquilo que perderam. Geralt reencontra Ciri e Yennefer, porém carrega consigo a memória daqueles que morreram para que isso fosse possível. Durante algum tempo, os três conseguem permanecer juntos, e a possibilidade de uma vida que não seja organizada por perseguições parece finalmente existir. Sapkowski não transforma essa estabilidade numa recompensa definitiva porque o mundo ao redor continua sendo o mesmo que acompanhamos desde os primeiros contos: politicamente instável, violento e atravessado por preconceitos que um indivíduo não consegue simplesmente abandonar.
É em Rívia que essa realidade alcança Geralt pela última vez na saga principal. Um pogrom contra não humanos se espalha pela cidade, e o bruxo decide intervir para proteger pessoas atacadas pela multidão. A situação rapidamente sai de controle. Geralt luta contra agressores até hesitar diante de um jovem armado com um forcado, momento suficiente para ser atingido gravemente.
O episódio reúne de maneira natural vários aspectos de sua trajetória. Geralt foi treinado para enfrentar criaturas capazes de destruir homens comuns e sobreviveu a inimigos muito mais poderosos do que aquele jovem. Mesmo assim, é ferido numa explosão de intolerância humana, precisamente porque decide não permanecer neutro. A cena não transforma toda a saga numa moral simples sobre monstros humanos; mostra apenas que, quando a escolha finalmente se torna concreta demais para ser evitada, Geralt age de acordo com os vínculos e limites morais que sempre existiram por baixo de seu discurso de distanciamento.
Yennefer tenta salvá-lo utilizando magia até se esgotar, e Ciri acaba retirando os dois dali por meio de suas próprias capacidades. O encerramento assume uma ambiguidade deliberada, aproximando-se de referências arturianas e evitando explicar de maneira objetiva se Geralt morreu, sobreviveu ou passou para outro tipo de existência. Essa abertura permite que a relação entre os três permaneça mais importante do que uma resposta técnica sobre o destino final do bruxo.
Os jogos, a televisão e o Geralt que se tornou mundialmente conhecido
A CD Projekt Red escolheu essa abertura para iniciar sua própria continuação em The Witcher, lançado em 2007. Geralt retorna com perda de memória, recurso que facilita tanto a entrada de novos jogadores quanto a reconstrução gradual de elementos de sua vida anterior. The Witcher 2: Assassins of Kings, de 2011, amplia essa continuidade e coloca o bruxo novamente no centro de conflitos políticos, assassinatos e disputas que ele preferiria observar à distância. Os jogos mantêm vários elementos da personalidade literária, mas adaptam sua profissão às necessidades de uma narrativa interativa.
Essa transformação fica mais evidente em The Witcher 3: Wild Hunt, de 2015. A busca por Ciri recupera a principal relação familiar construída nos romances, enquanto Yennefer, Triss, Jaskier, Zoltan e Emhyr retornam em papéis importantes. Ao mesmo tempo, sinais, alquimia, óleos, bombas, equipamentos e contratos de monstros ganham uma estrutura muito mais detalhada e frequente. Os romances fornecem a base para quase todos esses elementos, mas o jogo precisa convertê-los em mecânicas que possam ser utilizadas durante dezenas de horas.
Algumas imagens associadas hoje a Geralt vêm principalmente dessa adaptação. A presença constante das duas espadas nas costas é um exemplo conhecido, assim como a frequência de uso dos sinais e certos detalhes do preparo para contratos. Nos livros, a espada de prata não funciona exatamente como parte inseparável de sua silhueta em qualquer situação, e a magia costuma ocupar um papel bem mais discreto. Essas diferenças não tornam a versão dos jogos menos válida; apenas mostram como uma adaptação reorganiza o material de origem para responder a outra linguagem.
Os jogos também permitem que o jogador decida relações e posições que nos romances pertencem a uma narrativa fixa. Geralt pode tomar decisões políticas diferentes, conduzir romances de maneiras distintas e chegar a resultados que dependem da participação de quem joga. A continuidade criada pela CD Projekt Red é coerente com a própria história, mas não deve ser utilizada para preencher automaticamente a biografia literária do personagem.
A série da Netflix construiu outra interpretação. Henry Cavill viveu Geralt nas primeiras temporadas, enquanto Liam Hemsworth assumiu posteriormente o papel, e a produção reorganizou cronologias e acontecimentos dos livros desde o início. A versão televisiva preserva a competência em combate, o humor seco e a dificuldade de demonstrar sentimentos, mas reforça a imagem de um personagem muito mais silencioso do que aquele escrito por Sapkowski. Nos romances, Geralt discute longamente política, ética, preconceito, filosofia e a própria natureza do trabalho dos bruxos. Ele pode ser reservado, mas dificilmente é simples.
Essa dimensão verbal ajuda a compreender por que Geralt continua interessante mesmo quando não está caçando monstros. Seu verdadeiro conflito não é descobrir se consegue matar determinada criatura, mas saber que tipo de pessoa deseja ser num mundo que o ensinou a funcionar como ferramenta. Kaer Morhen lhe deu uma profissão, as mutações deram capacidades excepcionais e a sociedade construiu ao redor dele a imagem do bruxo frio que trabalha por dinheiro. Ao longo dos livros, relações concretas desmontam lentamente essa identidade.
Yennefer mostra que ele é capaz de amar mesmo quando insiste em complicar esse sentimento. Jaskier demonstra que sua vida possui amizades duradouras apesar de toda a retórica de isolamento. Ciri o transforma em pai e coloca diante dele uma responsabilidade que nenhum contrato consegue encerrar. Milva, Regis, Cahir e Angoulême provam que pessoas encontradas durante o caminho podem se tornar indispensáveis. Quando Geralt chega a Rívia, a figura do lobo solitário ainda existe externamente, mas já descreve muito mal o homem que percorreu toda aquela trajetória.
O rosto mais reconhecível de The Witcher continua sendo um caçador de monstros, e essa dimensão nunca deixa de fazer parte dele. O que Sapkowski acrescenta é uma pergunta mais interessante sobre o que acontece quando alguém treinado para identificar criaturas descobre que as divisões fundamentais de sua vida não obedecem a qualquer bestiário. Geralt passa décadas tentando decidir onde termina sua profissão e começa sua responsabilidade diante dos outros. A saga não oferece uma resposta perfeita, mas mostra um homem que termina muito menos disposto a fingir que uma coisa pode ser separada da outra.
Fontes consultadas
Sapkowski, Andrzej — O Último Desejo. SuperNowa, 1993.
Fonte primária para a apresentação de Geralt, sua atuação como bruxo, o episódio de Blaviken, o encontro com Yennefer, a história de Pavetta e Duny e as primeiras discussões sobre neutralidade.
Sapkowski, Andrzej — A Espada do Destino. SuperNowa, 1992.
Fonte para o aprofundamento da relação com Yennefer, a amizade com Jaskier, os encontros com Ciri em Brokilon e a passagem gradual dos contratos individuais para vínculos pessoais mais duradouros.
Sapkowski, Andrzej — O Sangue dos Elfos. SuperNowa, 1994.
Principal referência para Geralt como figura paterna, a permanência de Ciri em Kaer Morhen, o treinamento da jovem e o início dos conflitos políticos da saga principal.
Sapkowski, Andrzej — Tempo do Desprezo. SuperNowa, 1995.
Fonte primária para os acontecimentos de Thanedd, o confronto com Vilgefortz, a grave lesão de Geralt e a separação de Ciri e Yennefer.
Sapkowski, Andrzej — Batismo de Fogo. SuperNowa, 1996.
Principal referência para a formação da companhia de Geralt, sua travessia pelo Continente em guerra, as relações com Milva, Regis e Cahir e a obtenção oficial do título de Geralt de Rívia.
Sapkowski, Andrzej — A Torre da Andorinha. SuperNowa, 1997.
Utilizado para acompanhar a continuidade da busca por Ciri, o desenvolvimento da companhia e as consequências da guerra sobre Geralt e seus aliados.
Sapkowski, Andrzej — A Senhora do Lago. SuperNowa, 1999.
Fonte central para Stygga, o confronto final com Vilgefortz, o reencontro com Ciri e Yennefer, o pogrom de Rívia e o encerramento da trajetória literária de Geralt.
CD Projekt Red — The Witcher. CD Projekt, 2007.
Fonte primária para o início da continuidade dos jogos e para o retorno de Geralt depois dos acontecimentos dos romances.
CD Projekt Red — The Witcher 2: Assassins of Kings. CD Projekt, 2011.
Utilizado para a ampliação da trajetória de Geralt nos jogos e para seu envolvimento nos conflitos políticos posteriores à saga literária.
CD Projekt Red — The Witcher 3: Wild Hunt. CD Projekt, 2015.
Principal referência para a versão de Geralt na terceira parte da continuidade dos jogos, a busca por Ciri e a adaptação da profissão de bruxo às estruturas de RPG.
Netflix — The Witcher. Série de televisão, 2019–.
Fonte primária para a adaptação televisiva de Geralt, incluindo as alterações de cronologia, acontecimentos e caracterização realizadas em relação aos livros.
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