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Cinco livros para descobrir a fantasia brasileira contemporânea

Do sertão povoado por criaturas sobrenaturais a escolas de magia no Rio de Janeiro, mundos inteiramente inventados e universos nascidos do RPG, cinco obras mostram diferentes caminhos percorridos pela fantasia brasileira nas últimas décadas.

5 livros para conhecer a fantasia brasileira contemporânea

A fantasia publicada no Brasil não se limita a reproduzir castelos medievais, cavaleiros, florestas encantadas e criaturas herdadas das tradições europeias. Autores brasileiros vêm há décadas utilizando o gênero para construir mundos próprios, transportar o sobrenatural para cenários reconhecíveis do país, reinterpretar elementos da cultura popular e experimentar formas de fantasia que dialogam tanto com a literatura quanto com RPGs, quadrinhos, games e outras mídias.

Isso também significa que não existe uma fórmula capaz de definir sozinha aquilo que seria uma “fantasia brasileira”. Uma obra pode se passar no sertão nordestino e incorporar religiosidade, oralidade e cultura popular; outra pode utilizar uma favela carioca como ponto de partida para uma sociedade de bruxos; uma terceira pode criar um universo completamente separado do Brasil e ainda fazer parte da história da fantasia produzida no país.

A seleção abaixo não pretende estabelecer os cinco melhores livros brasileiros do gênero. A proposta é reunir cinco portas de entrada bastante diferentes entre si, capazes de mostrar a variedade da fantasia brasileira contemporânea. Há demônios percorrendo o Nordeste, magia no Rio de Janeiro, sociedades autoritárias em mundos imaginários, mitologias criadas praticamente do zero e um romance diretamente ligado a uma das maiores tradições brasileiras de RPG.

1. O Auto da Maga Josefa — Paola Siviero

O Auto da Maga Josefa

Editora: Gutenberg, do Grupo Autêntica
Publicação: lançado originalmente em formato digital pela Dame Blanche e posteriormente publicado pela Gutenberg em 2021.

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Toninho é um caçador de demônios que percorre pequenas cidades do Nordeste brasileiro montado em Véia, uma mula encantada, e carregando uma peixeira mágica preparada para enfrentar criaturas sobrenaturais. Durante uma de suas viagens, conhece Josefa, uma maga que acaba se tornando sua companheira de aventuras. A parceria, porém, já nasce com uma complicação importante: por ser maga, Josefa é considerada filha do sete-pele e carrega a condenação de ter a alma destinada ao Inferno.

A premissa permite que Paola Siviero transforme o sertão em território de fantasia sem apagar aquilo que torna esse espaço culturalmente específico. Vampiros, demônios, dragões, chupa-cabras, múmias e outras criaturas aparecem ao longo das aventuras, mas sua presença não produz simplesmente uma colagem de monstros estrangeiros colocados dentro de uma paisagem brasileira. O fantástico é adaptado ao mundo em que os personagens vivem, aproximando magia de elementos cotidianos, religiosidade, humor e cultura popular.

É essa integração que dá personalidade ao livro. Uma peixeira pode funcionar como arma mágica, vampiros podem ser colocados em contato com hábitos locais e diferentes referências religiosas coexistem dentro de um universo que trata o sobrenatural com naturalidade. O Nordeste não funciona apenas como uma paisagem exótica destinada a diferenciar a história de uma fantasia europeia: sua oralidade, suas pequenas cidades, seu clima, suas tradições e suas tensões sociais fazem parte da própria construção narrativa.

O Auto da Maga Josefa também dialoga com a tradição do cordel, com histórias contadas oralmente e com uma forma de humor que impede o livro de transformar qualquer referência cultural brasileira em mera solenidade. A fantasia pode ser grandiosa sem precisar abandonar o cotidiano, e monstros podem dividir espaço com situações absurdas, relações de amizade e preocupações bastante humanas.

A obra ganhou reconhecimento antes mesmo de chegar à edição da Gutenberg, recebendo o Prêmio LeBlanc e o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica, além de ter sido finalista do Prêmio Argos. Paola Siviero, nascida em Belo Horizonte e criada em São José dos Campos, também é autora de A Lenda da Caixa das Almas e trabalha com fantasia e ficção científica.

Para quem procura uma fantasia brasileira que não apenas seja escrita no país, mas utilize conscientemente referências culturais nacionais na própria estrutura do mundo, O Auto da Maga Josefa é uma das portas de entrada mais interessantes desta lista.

2. A Arma Escarlate — Renata Ventura

A Arma Escarlate

Editora: Novo Século
Publicação: 2011

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Em 1997, durante um tiroteio na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, Hugo Escarlate, de 13 anos, descobre que é bruxo. Jurado de morte por traficantes, ele deixa sua casa decidido a aprender magia e retornar forte o suficiente para proteger a família. Sua formação acaba levando-o até Korkovado, uma escola brasileira de magia cuja existência estabelece imediatamente um diálogo com uma das tradições mais reconhecíveis da fantasia juvenil contemporânea.

A comparação com Harry Potter acompanhou A Arma Escarlate desde seu lançamento, e a própria obra nasceu em diálogo com esse imaginário. O que torna o livro interessante, porém, está justamente no momento em que a comparação começa a deixar de explicar aquilo que Renata Ventura constrói. Korkovado não é simplesmente uma escola britânica de magia transplantada para o Rio de Janeiro. Ela existe dentro de uma sociedade brasileira e, por isso, precisa conviver com seus conflitos, desigualdades e formas particulares de organização.

A magia passa a dividir espaço com violência urbana, preconceito, corrupção, desigualdade social, história brasileira e relações políticas. Hugo não entra em um mundo mágico completamente separado da realidade em que cresceu. Mesmo quando descobre uma sociedade desconhecida e aprende feitiços, aquilo que aconteceu na favela continua determinando suas motivações e sua relação com o poder.

Essa diferença muda também o tipo de protagonista que a série acompanha. Hugo deseja força porque acredita precisar dela para sobreviver e proteger pessoas próximas, mas a busca por poder não acontece sem consequências morais. À medida que aprende sobre magia e sobre a sociedade dos bruxos, precisa lidar também com aquilo que está disposto a fazer quando finalmente possui instrumentos que antes não tinha.

Renata Ventura tem formação em jornalismo e trabalhou com pesquisa e roteiro para cinema documentário antes de se dedicar à literatura. A Arma Escarlate foi seu romance de estreia e deu origem a uma série continuada por títulos como A Comissão Chapeleira e O Dono do Tempo.

Dentro desta seleção, o livro representa uma vertente especialmente importante da fantasia nacional: aquela que utiliza estruturas conhecidas do gênero para perguntar como elas funcionariam se realmente precisassem existir dentro do Brasil, carregando consigo problemas que não desaparecem apenas porque a magia passou a ser real.

3. Ordem Vermelha: Filhos da Degradação — Felipe Castilho

A Ordem vermelha

Editora: Intrínseca
Publicação: lançado originalmente em 2017; recebeu nova edição pela Intrínseca em 2023.

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Untherak é um mundo organizado ao redor de uma estrutura brutal de poder. Uma deusa governa uma sociedade dividida por castas, violência e obediência, estabelecendo uma ordem na qual o lugar ocupado por cada indivíduo parece determinado antes mesmo que ele possa escolher qualquer coisa sobre a própria vida.

É nesse contexto que personagens improváveis acabam envolvidos em uma luta contra o sistema que mantém aquele mundo funcionando. Filhos da Degradação parte de elementos reconhecíveis da fantasia épica — diferentes povos, cidades, criaturas, confrontos e grandes disputas —, mas utiliza esse repertório para construir uma narrativa preocupada constantemente com autoridade, opressão e resistência.

A organização política de Untherak não existe simplesmente para justificar uma guerra ou fornecer vilões aos protagonistas. Ela determina quem possui liberdade, quem deve obedecer, quais vidas são consideradas mais importantes e quais pessoas se beneficiam da permanência daquela estrutura. A aventura e os conflitos fantásticos ganham, assim, uma dimensão política que acompanha praticamente todas as escolhas dos personagens.

Isso diferencia Ordem Vermelha das duas obras anteriores desta lista. Felipe Castilho não precisa transportar o fantástico para uma favela ou para o sertão para produzir fantasia brasileira. Untherak é um mundo imaginário autônomo, mas sua construção participa da literatura produzida no país e demonstra outra possibilidade para autores nacionais: criar universos que não precisam representar diretamente o Brasil para dialogar com questões de poder, desigualdade e resistência.

O romance também funciona bem para leitores que procuram uma fantasia nacional mais sombria, de escala épica e interessada em conflitos coletivos. A pergunta não é apenas se determinado personagem conseguirá vencer um inimigo, mas se uma ordem social construída para parecer eterna pode realmente ser rompida.

Felipe Castilho é escritor e roteirista e também criou a série O Legado Folclórico, que utiliza referências brasileiras de maneira muito mais direta, além de Serpentário. Sua produção atravessa literatura, quadrinhos e narrativa para games, e obras como Serpentário e a HQ Savana de Pedra já apareceram entre os finalistas do Prêmio Jabuti.

A presença de Ordem Vermelha aqui ajuda justamente a evitar uma definição estreita de fantasia brasileira. Uma literatura nacional não precisa obrigatoriamente transformar folclore, geografia ou história do país em matéria explícita para possuir identidade própria.

4. O Espadachim de Carvão — Affonso Solano

O Espadachim de Carvão

Editora: Fantasy / Casa da Palavra
Publicação: 2013

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Adapak é filho de um dos quatro deuses de Kurgala e passou boa parte da vida isolado em uma ilha sagrada. Sua existência muda quando criaturas desconhecidas atacam o lugar e o obrigam a partir. Treinado nos mortais Círculos de Tibaul e armado com duas espadas, ele começa a percorrer um mundo que conhece profundamente pelos livros, mas quase nada pela experiência.

Essa diferença entre conhecimento e vivência constitui uma das bases da aventura. Adapak pode saber muito sobre Kurgala, suas histórias e seus povos, mas descobrir o mundo fisicamente significa enfrentar coisas que nenhum texto poderia preparar completamente. Ao mesmo tempo, a tentativa de entender quem está tentando matá-lo conduz a uma investigação sobre sua própria origem e sobre os deuses que estruturaram aquele universo.

Ao contrário de obras que partem de mitologias conhecidas ou reinterpretam diretamente tradições históricas, Affonso Solano construiu Kurgala como uma mitologia própria. Deuses, criaturas, povos, técnicas de combate, religiões e acontecimentos históricos formam um cenário criado para possuir identidade independente, mesmo que continue dialogando com tradições da espada e feitiçaria e da fantasia de aventura.

Essa é justamente a característica que torna O Espadachim de Carvão importante dentro desta lista. A fantasia brasileira não precisa necessariamente perguntar como um vampiro funcionaria no Rio de Janeiro ou como um demônio seria interpretado no sertão. Ela pode também criar uma cosmologia nova, com suas próprias regras, e disputar o mesmo território ocupado pelas grandes séries internacionais de fantasia.

A ação possui papel central no romance. Lutas, perseguições, criaturas e exploração fazem parte de uma narrativa que utiliza o mistério sobre Adapak e sobre o passado de Kurgala para manter a progressão da aventura. A construção mitológica, entretanto, impede que o cenário funcione apenas como um espaço genérico onde esses combates acontecem.

Affonso Solano é escritor, ilustrador e podcaster. Antes e durante sua trajetória literária, trabalhou com ilustração e storyboard e tornou-se conhecido também como um dos criadores do Matando Robôs Gigantes. O Espadachim de Carvão foi seu romance de estreia e posteriormente se expandiu para outros livros e histórias ambientados no mesmo universo.

Para quem procura fantasia brasileira orientada à aventura e à criação de mitologias originais, Kurgala oferece uma direção bastante diferente daquela encontrada nos demais títulos desta seleção.

5. A Joia da Alma — Karen Soarele

A Joia da Alma

Editora: Jambô
Publicação: 2017

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Christian é um aventureiro experiente que pretende realizar uma última missão antes de finalmente se aposentar. O plano não dura muito. Acontecimentos ligados ao passado voltam a persegui-lo e obrigam o personagem a atravessar novamente o Reinado de Arton, desta vez ao lado de um mago aberrante e de uma jovem selvagem.

O grupo procura um poderoso artefato enquanto percebe que outros aventureiros parecem estar constantemente um passo à frente. O que começa como mais uma missão passa gradualmente a envolver erros antigos, memória, redenção e a dificuldade de abandonar completamente uma vida marcada por aventuras.

A Joia da Alma oferece uma porta de entrada diferente para a fantasia produzida no Brasil porque sua origem está diretamente ligada ao RPG. O romance se passa em Tormenta, cenário brasileiro criado no final da década de 1990 e posteriormente desenvolvido por meio de jogos, suplementos, romances, quadrinhos e outras formas de narrativa.

Arton é, portanto, um universo compartilhado. Diferentes autores e jogadores contribuíram para ampliar sua geografia, história, povos, religiões, personagens e conflitos. Essa relação entre literatura e RPG faz parte de uma tradição importante da fantasia brasileira, que nem sempre se desenvolveu exclusivamente dentro de editoras literárias convencionais.

Karen Soarele utiliza esse cenário compartilhado sem transformar o romance numa explicação interminável sobre o universo de Tormenta. O conhecimento prévio de Arton naturalmente acrescenta referências e contexto, mas a narrativa acompanha personagens e conflitos próprios e pode funcionar como ponto de contato para leitores que ainda não conhecem profundamente o cenário.

A própria escolha de um aventureiro veterano ajuda nesse processo. Em vez de acompanhar apenas jovens descobrindo o mundo pela primeira vez, A Joia da Alma também está interessada no peso que uma vida inteira de escolhas pode deixar sobre alguém que imaginava finalmente estar encerrando esse ciclo.

Karen Soarele é escritora e mestre em Escrita Criativa pela PUCRS. Além de A Joia da Alma, escreveu A Deusa no Labirinto, também ambientado em Tormenta e finalista do Prêmio Jabuti na categoria Romance de Entretenimento. Sua atuação profissional no mercado de RPG reforça justamente a conexão entre diferentes mídias que caracteriza parte significativa da fantasia produzida no Brasil.

Não existe uma única fantasia brasileira

Os cinco livros selecionados partem do mesmo campo literário, mas apresentam concepções muito diferentes sobre aquilo que uma fantasia produzida no Brasil pode ser.

O Auto da Maga Josefa coloca demônios, magia e criaturas sobrenaturais no sertão nordestino e incorpora elementos culturais brasileiros à própria linguagem do fantástico. A Arma Escarlate utiliza a estrutura de uma sociedade secreta de bruxos para tratar também de desigualdade, violência urbana e problemas sociais do Rio de Janeiro. Ordem Vermelha abandona completamente nossa geografia e constrói um mundo próprio para discutir poder e resistência. O Espadachim de Carvão aposta numa mitologia original orientada à aventura, enquanto A Joia da Alma representa a forte ligação entre literatura fantástica e a tradição brasileira de RPG. Essas diferenças já estavam no centro da proposta original da seleção.

A variedade torna problemática qualquer tentativa de estabelecer uma característica obrigatória para definir “fantasia brasileira”. Escrever sobre o Brasil, utilizar nosso folclore e criar personagens situados em paisagens nacionais são caminhos importantes, mas não constituem os únicos meios de produzir fantasia brasileira. Um autor do país pode construir um mundo inteiramente imaginário e ainda participar de uma tradição literária nacional, assim como acontece em qualquer outra literatura.

Ao mesmo tempo, obras que utilizam diretamente o Brasil demonstram algo que o domínio histórico da fantasia anglófona às vezes faz parecer menos evidente: não há motivo para que determinados cenários sejam considerados naturalmente fantásticos enquanto outros precisem justificar sua presença no gênero. Uma escola de magia pode existir no Rio de Janeiro, uma jornada de caça a demônios pode atravessar o Nordeste e um universo de RPG criado no Brasil pode alcançar a complexidade normalmente associada a cenários estrangeiros.

Também existe uma dimensão industrial e cultural nessa produção. A fantasia brasileira contemporânea não cresce apenas por meio do romance tradicional. Ela circula entre editoras independentes e grandes grupos, eventos de cultura pop, RPGs, quadrinhos, podcasts, plataformas digitais e comunidades de leitores. Em muitos casos, esses espaços não são apenas canais de divulgação, mas participam diretamente da criação dos mundos e dos públicos que os mantêm vivos.

Por isso, descobrir fantasia brasileira significa menos procurar uma versão nacional de modelos já conhecidos e mais observar quantas formas diferentes o gênero assumiu por aqui. Os cinco livros desta lista oferecem apenas algumas delas, mas já mostram que a produção do país pode ir do sertão a um universo completamente inventado sem deixar de fazer parte da mesma história.


Nesta reescrita, preservei os cinco títulos e o argumento central da curadoria, mas reduzi o formato de ficha biográfica e desenvolvi melhor o ponto que considero mais importante do artigo: fantasia brasileira não significa obrigatoriamente fantasia ambientada no Brasil. Essa ideia já aparecia no encerramento original e agora passa a funcionar como conclusão de toda a seleção.

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