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ARQUIVO DO FANTÁSTICO

Carmilla

Carmilla é uma vampira criada pelo escritor irlandês Sheridan Le Fanu e uma das personagens mais importantes da formação do vampiro moderno na literatura. Sua história apareceu inicialmente em capítulos na revista britânica The Dark Blue, entre 1871 e 1872, antes de ser incorporada à coletânea In a Glass Darkly, publicada em 1872. Isso coloca Carmilla mais de duas décadas antes de Drácula, de Bram Stoker, em uma época na qual a figura literária do vampiro ainda estava longe de possuir o conjunto de características que se tornaria familiar no século XX. Le Fanu reúne nessa personagem a aristocracia decadente, a sedução, a invasão do espaço doméstico, a doença inexplicável e uma sexualidade que a sociedade ao redor não consegue acomodar.

A história chega ao leitor por meio de Laura, que narra na idade adulta acontecimentos vividos quando era uma jovem isolada com o pai em um castelo na Estíria, região que atualmente pertence à Áustria. Carmilla aparece como uma visitante quase acidental, acolhida na propriedade depois que a carruagem em que viajava sofre um acidente nas proximidades. A relação que nasce entre as duas rapidamente ultrapassa uma amizade convencional: Carmilla demonstra uma intimidade intensa, fala de amor e união com Laura e alterna afeto, melancolia, possessividade e comportamentos que a jovem não sabe interpretar. Ao mesmo tempo, mortes misteriosas começam a ocorrer na região e a própria saúde de Laura passa a se deteriorar.

Carmilla e Laura

O primeiro encontro entre as duas, na verdade, ocorre muito antes da chegada da carruagem. Quando Laura ainda era criança, uma jovem desconhecida aparece em seu quarto durante a noite, aproxima-se dela e deixa uma lembrança tão perturbadora que o episódio permanece em sua memória durante anos. Quando Carmilla chega ao castelo, Laura percebe que sua nova hóspede é idêntica à figura daquela experiência infantil. Carmilla demonstra reconhecimento semelhante, criando desde o início uma ligação que parece anteceder a convivência das duas.

Le Fanu constrói a relação por meio de aproximações e recuos. Carmilla pode passar longos períodos silenciosa e apática, mas em outros momentos abraça Laura, beija-a e declara sentimentos com uma intensidade que causa simultaneamente atração e desconforto. Laura não reage apenas com medo. Ela se sente fascinada por Carmilla, aprecia sua companhia e admite uma afeição que permanece mesmo quando o comportamento da visitante começa a parecer incompreensível. Essa ambiguidade é fundamental para a personagem, porque o horror não nasce da simples presença de uma criatura reconhecidamente monstruosa, mas da dificuldade de Laura em separar o perigo de alguém por quem sente uma proximidade genuína.

Carmilla também se recusa a explicar aspectos básicos de sua vida. Evita falar sobre a família, sobre o passado e até mesmo sobre sua religião, reage de maneira hostil a determinados símbolos cristãos e mantém hábitos estranhos, como dormir durante grande parte do dia e permanecer fora de casa durante algumas noites. Cada uma dessas características ganha significado gradualmente, conforme Laura percebe que aquilo que parecia apenas uma personalidade excêntrica corresponde a algo muito mais antigo.

Mircalla, Millarca e a família Karnstein

A verdadeira identidade da personagem está ligada à antiga família Karnstein, cujo castelo abandonado permanece como vestígio de uma linhagem aristocrática desaparecida. Carmilla é identificada como Mircalla, condessa Karnstein, uma mulher que viveu aproximadamente um século antes dos acontecimentos narrados. O nome “Carmilla” é um anagrama de Mircalla, assim como Millarca, outra identidade utilizada pela vampira em circunstâncias semelhantes.

Essa repetição de nomes não é apenas um truque para esconder sua identidade. Carmilla segue um padrão de aproximação cuidadosamente elaborado. Ela se infiltra em famílias aristocráticas, estabelece uma relação íntima com uma jovem e permanece ao lado dela enquanto sua saúde se deteriora. O caso de Bertha Rheinfeldt, sobrinha do general Spielsdorf, revela que Laura não é sua primeira vítima recente. Millarca havia sido acolhida pela família de Bertha após circunstâncias muito semelhantes às que levaram Carmilla ao castelo de Laura, e a jovem acabou morrendo depois de adoecer misteriosamente.

A revelação aproxima o vampirismo da ideia de uma ameaça que se esconde dentro das estruturas sociais que deveriam oferecer segurança. Carmilla não arromba portas nem chega ao castelo como uma criatura evidente. Ela é recebida como hóspede, participa da rotina doméstica e estabelece laços com sua vítima antes que qualquer pessoa compreenda o que está acontecendo. Sua origem aristocrática também a coloca dentro do mesmo universo social de Laura e das outras famílias que procura, o que torna sua presença mais fácil de aceitar e mais difícil de identificar como ameaça.

O vampirismo como doença

Um dos elementos mais marcantes de Carmilla é a maneira como o ataque vampírico se manifesta no corpo. Laura não começa imediatamente a apresentar ferimentos evidentes ou sinais que permitam reconhecer uma criatura sobrenatural. Ela sente cansaço crescente, fraqueza, melancolia e uma progressiva perda de vitalidade. Sua aparência também se modifica, enquanto sonhos e experiências noturnas passam a acompanhar o avanço da doença.

Essa aproximação entre vampirismo e enfermidade era particularmente adequada ao imaginário do século XIX. A perda gradual de vigor, a palidez e a deterioração física podiam lembrar doenças como a tuberculose, que ocupavam uma posição importante na cultura e na medicina vitorianas. Estudos sobre a novela observam justamente como Le Fanu mistura categorias médicas, sexuais e sobrenaturais ao representar o estado de Laura, tornando difícil separar aquilo que seus personagens compreendem como doença daquilo que o leitor reconhece como ataque vampírico.

Carmilla também possui características que não correspondem exatamente à imagem popular do vampiro consolidada posteriormente. Ela circula durante o dia, embora demonstre hábitos predominantemente noturnos e pouca disposição nas primeiras horas da manhã. Pode assumir uma forma animal, descrita por Laura como uma grande criatura semelhante a um gato negro, e deixa marcas no corpo de suas vítimas. A personagem pertence, portanto, a um estágio da tradição literária em que as regras do vampirismo ainda variavam bastante entre diferentes autores.

Desejo, intimidade e horror

A sexualidade é inseparável da construção de Carmilla. A personagem não limita seu interesse por Laura a gestos vagos que apenas leitores posteriores transformaram em subtexto. Ela fala de amor, deseja proximidade física, abraça e beija Laura e expressa a ideia de que as duas poderiam permanecer unidas. Para uma obra publicada no início da década de 1870, essa representação de desejo entre mulheres é particularmente significativa, mesmo que seja construída dentro de uma narrativa que associa esse desejo a uma presença sobrenatural perigosa.

Por isso, Carmilla tornou-se uma obra central nas discussões sobre a figura da vampira lésbica e sobre a utilização do vampiro como representação de sexualidades consideradas transgressoras. Uma leitura contemporânea precisa, porém, lidar com duas dimensões ao mesmo tempo. A relação oferece um raro espaço literário vitoriano para representar atração entre mulheres com uma intensidade bastante explícita, mas essa atração também é enquadrada pela história como ameaça, contaminação e predadorismo. Estudos sobre literatura gótica e sexualidade analisam justamente essa tensão entre desejo, repressão e monstruosidade.

Laura torna essa relação ainda mais complexa porque sua narrativa não transforma retrospectivamente Carmilla em uma criatura pela qual sente apenas repulsa. Mesmo sabendo o que aconteceu, ela preserva uma memória contraditória da vampira. O medo convive com a lembrança da beleza, da intimidade e da afeição que existiam entre as duas. Le Fanu permite assim que a descoberta da natureza sobrenatural de Carmilla explique parte dos acontecimentos sem apagar completamente aquilo que Laura sentiu.

A destruição de Carmilla

A investigação conduz os personagens às ruínas do castelo Karnstein e ao túmulo de Mircalla. Quando a sepultura é aberta, o corpo da vampira não apresenta a decomposição esperada para alguém morta havia muitas décadas. Carmilla é encontrada preservada e com sinais associados ao sangue de suas vítimas, confirmando materialmente aquilo que até então havia sido reconstruído por relatos, suspeitas e experiências fragmentadas.

Sua destruição segue procedimentos que posteriormente se tornariam familiares nas histórias de vampiros: o corpo é atravessado por uma estaca, decapitado e queimado, e as cinzas são dispersadas. É importante, contudo, que a eliminação física da vampira não produza uma conclusão emocional igualmente simples para Laura. O perigo termina, mas a lembrança permanece. Anos depois, ao registrar a história, a narradora ainda consegue evocar Carmilla tanto como criatura monstruosa quanto como a jovem pela qual sentiu fascínio.

Esse encerramento é uma das razões pelas quais Carmilla não funciona apenas como um monstro derrotado no final de uma história gótica. A personagem continua existindo na consciência de Laura depois de sua morte definitiva. A narradora chega a sugerir que, em determinados momentos, ainda espera ouvir os passos de Carmilla, como se a presença da vampira permanecesse associada não apenas ao trauma, mas também a algo que não foi completamente resolvido dentro dela.

Antes de Drácula

É comum apresentar Carmilla simplesmente como “a vampira que veio antes de Drácula”, mas sua importância não depende apenas dessa precedência cronológica. Quando Bram Stoker publicou Drácula em 1897, Le Fanu já havia explorado vários elementos que se tornariam importantes na tradição vampírica: o aristocrata sobrenatural ligado a uma linhagem antiga, a entrada do predador em ambientes domésticos, a deterioração gradual das vítimas, a investigação destinada a identificar a criatura e a destruição física do vampiro por meio de procedimentos específicos.

As duas obras, porém, organizam esses componentes de maneiras muito diferentes. Drácula amplia o conflito para uma perseguição que atravessa países e reúne um grupo de personagens contra uma ameaça externa. Carmilla permanece muito mais concentrada na intimidade entre duas mulheres e na lenta transformação de um espaço privado em território de perigo. O horror de Le Fanu está menos interessado em uma guerra aberta contra o vampiro do que na possibilidade de que a criatura já tenha sido acolhida dentro de casa.

A proximidade temporal e temática fez de Carmilla um dos antecedentes mais discutidos de Drácula e da literatura vampírica do final do século XIX. Estudos sobre a obra de Le Fanu também observam sua influência na consolidação de convenções que outros escritores desenvolveriam posteriormente.

A permanência de Carmilla

Carmilla continuou reaparecendo muito depois de 1872 porque sua história permite adaptações bastante diferentes entre si. O cinema apropriou-se especialmente da dimensão erótica da personagem. The Vampire Lovers (1970), dirigido por Roy Ward Baker e protagonizado por Ingrid Pitt, adaptou diretamente a história para a Hammer Film Productions e iniciou a chamada Trilogia Karnstein, posteriormente completada por Lust for a Vampire e Twins of Evil. O British Film Institute identifica a obra de Le Fanu como uma das referências fundamentais para a tradição cinematográfica da vampira lésbica.

Outras adaptações afastaram-se consideravelmente do texto original. Vampyr (1932), de Carl Theodor Dreyer, utilizou elementos associados a In a Glass Darkly, enquanto Blood and Roses (1960), de Roger Vadim, reinterpretou a história em um ambiente contemporâneo. Mais recentemente, a websérie canadense Carmilla, iniciada em 2014, transportou Laura e Carmilla para uma universidade e reformulou a relação entre as duas a partir de uma perspectiva abertamente queer, posteriormente continuada no longa The Carmilla Movie (2017).

A personagem atravessou essas mudanças porque reúne elementos que continuam reconhecíveis mesmo quando época, cenário e regras sobrenaturais são alterados. Carmilla é ao mesmo tempo aristocrata, predadora, amante, invasora e objeto de desejo, e sua relação com Laura não pode ser reduzida inteiramente a nenhuma dessas funções. Antes de o vampiro ganhar a forma cultural que hoje associamos imediatamente ao nome de Drácula, Sheridan Le Fanu já havia criado uma personagem cuja monstruosidade dependia justamente da intimidade que conseguia estabelecer com suas vítimas.

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Fontes consultadas

  • Joseph Sheridan Le Fanu — Carmilla. Texto integral da novela, utilizado como fonte primária para a relação entre Carmilla e Laura, a família Karnstein, as manifestações do vampirismo, a investigação e a destruição da personagem. Project Gutenberg.
    https://www.gutenberg.org/ebooks/10007
  • Joseph Sheridan Le Fanu — In a Glass Darkly. Richard Bentley and Son, 1872. Coletânea em que Carmilla foi publicada em livro, utilizada para o contexto original da obra dentro da produção sobrenatural de Le Fanu.
    https://www.gutenberg.org/ebooks/37172
  • Simon Cooke — “‘Ambiguous Alternations’: A Note on Mirroring, Symmetry, Doubling and the Uncanny Effects of Le Fanu’s ‘Carmilla’”. The Victorian Web. Estudo sobre duplicidade, identidade, desejo e os elementos inquietantes construídos na relação entre Laura e Carmilla.
    https://victorianweb.org/authors/lefanu/carmilla.html
  • Diane Mason — “‘The languor which I had long felt began to display itself in my countenance’: Vampires, lesbians and masturbators”. Manchester University Press, 2008. Referência para as relações entre vampirismo, sexualidade, doença e discursos médicos do século XIX presentes na leitura de Carmilla.
    https://academic.oup.com/manchester-scholarship-online/book/19990/chapter-abstract/178932867
  • British Film Institute — “A short history of lesbian vampires on screen”. Referência para a influência de Carmilla sobre o cinema de vampiros e para adaptações e releituras posteriores da personagem.
    https://www.bfi.org.uk/lists/lesbian-vampires

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