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Críticas & Análises

Bacurau: o que acontece quando a ficção científica deixa de imaginar o Brasil como periferia do mundo?

Bacurau começa olhando para o Brasil de muito longe. A Terra aparece do espaço, o país entra no quadro e, pouco depois, a câmera desce até uma estrada no sertão pernambucano, onde Teresa retorna para a pequena comunidade de Bacurau depois da morte de Carmelita, uma de suas moradoras mais antigas. O movimento poderia sugerir aquela trajetória bastante conhecida da ficção científica em que saímos do planeta para contemplar a humanidade como um todo. Só que o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles faz o contrário. Quanto mais se aproxima daquela cidade pequena, mais deixa claro que não está interessado em transformar o sertão numa miniatura exótica de um problema universal. Bacurau será o centro da história, e quem não conseguir compreender isso estará em desvantagem.

Essa escolha parece simples, mas muda bastante a maneira como estamos acostumados a ver o Brasil dentro de parte da ficção científica. Quando imaginamos futuros tecnológicos, megacidades, grandes corporações ou conflitos capazes de redesenhar o mundo, os centros de decisão costumam continuar localizados nos mesmos lugares que já dominam o presente. Países como o Brasil aparecem como mercados, fontes de matéria-prima, paisagens destruídas, territórios a serem explorados ou versões atrasadas de futuros construídos em outro lugar. Mesmo quando a história se passa aqui, existe a tentação de olhar para o país como alguém que chegou de fora e precisa explicar aquilo que encontrou.

Bacurau recusa essa posição. O filme se passa num futuro próximo, mas não transforma o sertão numa paisagem abandonada pela modernidade. Há celulares, internet, sistemas de localização, drones, telas, armas sofisticadas e diferentes formas de tecnologia convivendo com carros antigos, um museu comunitário, medicina popular, histórias de cangaço e relações sociais que atravessam gerações. O futuro não chegou para substituir o passado, nem o passado funciona como sinal de atraso. As duas coisas existem juntas porque a comunidade não precisa abandonar sua própria história para participar do presente.

É justamente aí que a mistura de ficção científica, western, thriller, distopia e horror começa a fazer mais sentido. Bacurau usa esses gêneros não para transformar o sertão em alguma coisa mais parecida com o cinema estrangeiro, mas para inverter a posição normalmente ocupada por quem observa e por quem é observado. Os estrangeiros chegam acreditando que conhecem perfeitamente aquele lugar. Bacurau sobrevive porque conhece a si mesma muito melhor do que eles.


Aviso de spoilers: a partir deste ponto, a análise aborda acontecimentos e revelações importantes do roteiro. O filme foi lançado em 2019, mas mesmo assim fica o aviso.


Bacurau desaparece do mapa antes de começar a desaparecer fisicamente

Uma das primeiras coisas realmente estranhas acontece sem explosões ou qualquer grande demonstração tecnológica. A professora tenta mostrar Bacurau num mapa digital durante a aula e descobre que a cidade simplesmente não está mais lá. As crianças procuram, ampliam a tela, tentam localizar a região e encontram apenas um vazio onde deveria existir sua própria comunidade. A reação seguinte é importante: alguém traz um mapa impresso, e Bacurau continua existindo nele. A cidade não desapareceu do mundo. Desapareceu apenas do sistema utilizado pelo resto do mundo para reconhecê-la.

A diferença parece pequena, mas contém boa parte do filme. A tecnologia normalmente aparece na ficção científica como instrumento que amplia nossa capacidade de enxergar, localizar e compreender. Em Bacurau, ela também pode determinar aquilo que deixaremos de enxergar. Se um lugar não aparece no mapa digital, o problema não está necessariamente no lugar; pode estar na estrutura que decidiu o que merece continuar aparecendo. Bacurau possui casas, ruas, escola, moradores, histórias e um cemitério, mas uma alteração invisível num sistema externo consegue produzir a impressão de que nada disso está ali.

Kleber Mendonça Filho já explicou que essa ideia nasceu da tensão entre existência física e existência digital. Um lugar continua materialmente presente mesmo depois que alguma estrutura tecnológica deixa de reconhecê-lo. Essa relação ganha uma força particular num país em que comunidades indígenas, rurais, quilombolas e periféricas frequentemente precisam provar uma existência que deveria ser evidente para conseguir acesso a direitos, infraestrutura ou proteção. O filme não precisa transformar isso numa alegoria de uma situação específica porque o mecanismo já é suficientemente conhecido: tornar alguém invisível administrativamente pode ser o primeiro passo para tratá-lo como se não estivesse realmente ali.

O apagamento também prepara aquilo que virá depois. Os invasores não chegam a uma cidade que simplesmente tiveram dificuldade para localizar; chegam a um lugar que foi deliberadamente retirado dos sistemas capazes de conectá-lo ao restante do território. Antes da violência física, houve uma violência informacional. Bacurau precisou deixar de existir para o mundo exterior antes que seus moradores pudessem ser tratados como pessoas cuja morte não produziria consequências.

Por isso, desaparecer do mapa não funciona apenas como mistério de ficção científica. É uma mudança de status. A comunidade continua sabendo perfeitamente onde está, mas alguém de fora decidiu que o resto do mundo não precisava mais saber.

O futuro de Bacurau não substituiu o Brasil que já existia

A ambientação num futuro próximo poderia ter servido para transformar o sertão num cenário radicalmente diferente. Os diretores preferem algo mais interessante: quase tudo parece reconhecível. A estrada continua ruim, há problemas de abastecimento de água, a política municipal continua atravessada por clientelismo e abandono, e a desigualdade não desapareceu simplesmente porque novas tecnologias existem. O futuro chegou de maneira desigual, como costuma acontecer com quase toda tecnologia real.

Essa desigualdade aparece o tempo inteiro. O prefeito Tony Junior distribui mantimentos e medicamentos vencidos tentando converter necessidade em favor político, enquanto uma comunidade que deveria depender dele encontra outras formas de organização. Há aparelhos digitais e acesso à internet, mas o abastecimento de água continua sendo questão central. Os estrangeiros utilizam comunicação sofisticada, equipamentos de vigilância e um drone visualmente disfarçado de disco voador, mas boa parte dessa superioridade tecnológica não lhes fornece aquilo que realmente precisariam saber sobre as pessoas que decidiram atacar.

Essa combinação evita duas imagens muito comuns do futuro brasileiro. A primeira é a de um país simplesmente “atrasado”, onde tecnologia chega como novidade exterior e transforma pessoas que viviam à margem da modernidade. A segunda é a de uma futurização completa em que o Brasil só pode parecer avançado se deixar de parecer Brasil. Bacurau não escolhe nenhuma delas. A escola, o museu, os celulares, o carro de som, as armas antigas e os equipamentos estrangeiros pertencem ao mesmo mundo sem que o filme precise estabelecer uma linha clara entre tradição e progresso.

É uma escolha particularmente importante no sertão, um espaço que o cinema brasileiro e estrangeiro já representou de muitas maneiras, mas que frequentemente aparece associado a escassez, isolamento e passado. Mendonça Filho e Dornelles não fingem que esses problemas desapareceram, mas se recusam a transformá-los na única identidade possível da região. O sertão de Bacurau pode carregar a memória do cangaço e, ao mesmo tempo, reconhecer um drone sobrevoando a cidade. Pode preservar objetos antigos num museu e utilizar tecnologia contemporânea quando ela é útil. Não existe contradição necessária nisso.

A ficção científica do filme surge justamente dessa convivência. O futuro brasileiro não precisa começar depois que tudo aquilo que reconhecemos como brasileiro for apagado.

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Os invasores possuem mais tecnologia, mas entendem muito menos o mundo ao redor

Quando finalmente conhecemos os responsáveis pelos ataques, o contraste fica ainda mais evidente. Os estrangeiros possuem armas modernas, comunicação organizada e recursos suficientes para localizar, acompanhar e matar pessoas como se estivessem participando de uma atividade recreativa. Sua tecnologia reforça uma relação de poder antiga: quem possui os instrumentos de vigilância acredita possuir também conhecimento sobre o objeto observado.

Só que observar não é o mesmo que compreender. Os invasores conseguem localizar pessoas, acompanhar movimentos e trocar informações à distância, mas não entendem Bacurau como comunidade. Para eles, os moradores são alvos distribuídos num território. Conseguem registrar quantas pessoas mataram e transformar a violência em pontuação, mas não percebem as relações que conectam uma pessoa à outra, nem aquilo que a cidade consegue mobilizar quando entende que está sendo atacada.

Essa incapacidade não é acidental. Os estrangeiros já chegaram convencidos de que sabem quem estão enfrentando. O Brasil aparece para eles como território inferior, e o sertão como uma versão ainda mais descartável desse território. Não existe curiosidade real sobre Bacurau porque reconhecer complexidade na comunidade tornaria mais difícil tratá-la como cenário de caça. A ignorância faz parte da própria estrutura de violência.

Os brasileiros do Sul que colaboram com o grupo tornam essa lógica ainda mais incômoda. Eles tentam se distanciar dos moradores de Bacurau, enfatizam características que acreditam aproximá-los dos estrangeiros e demonstram desconforto ao serem colocados na mesma categoria daqueles que ajudaram a transformar em alvo. A cena expõe uma hierarquia na qual proximidade com o poder não significa participação real nele. Para os invasores, as diferenças internas que os colaboradores imaginam possuir importância não alteram completamente a posição que ocupam.

O filme consegue colocar tudo isso dentro de uma estrutura de gênero sem interromper a narrativa para explicar sua política. Um grupo tecnologicamente superior chega a uma comunidade que considera primitiva, prepara uma caçada e descobre que sua leitura do território estava errada. É praticamente uma estrutura clássica de invasão, só que o erro central dos invasores não é subestimar uma arma secreta. É subestimar pessoas.

O museu é a tecnologia mais importante de Bacurau

Entre todas as coisas que os invasores não entendem, talvez nenhuma seja tão importante quanto o museu. Ele aparece inicialmente de maneira quase casual. Quando visitantes chegam à cidade, moradores perguntam se pretendem conhecê-lo, como aconteceria em qualquer lugar que possui orgulho de sua história local. Os motociclistas demonstram pouco interesse. Para quem está apenas passando, aquele prédio parece guardar objetos antigos que não têm utilidade para o presente.

O filme, porém, vai revelando que o museu cumpre uma função muito maior. Ele preserva fotografias, armas e registros associados à história de violência e resistência da região. Juliano Dornelles explicou em entrevista que o espaço foi pensado justamente como lugar onde a comunidade guarda a memória do cangaço e de rebeliões. Isso importa porque Bacurau não começa a entender a resistência quando os estrangeiros aparecem. A cidade já possui uma história sobre aquilo que aconteceu antes e sobre pessoas que, em outros momentos, também precisaram enfrentar formas de violência.

Essa memória não é tratada como decoração folclórica. Quando a comunidade precisa se defender, objetos do museu deixam de ser apenas peças expostas e voltam a adquirir função. É uma imagem poderosa porque dissolve a divisão confortável entre passado morto e presente vivo. Bacurau não idealiza automaticamente tudo que veio antes, mas reconhece que conhecer a própria história significa possuir um repertório maior para interpretar aquilo que está acontecendo agora.

Carla Macedo Martins e Ana Lucia Soutto Mayor chamam atenção para essa função do museu como espaço de narratividade e identificação coletiva. A memória do cangaço não aparece simplesmente para transformar os moradores atuais em cópias de cangaceiros históricos; ela é reinterpretada e atualizada conforme a situação exige. O filme trabalha com herança, não com repetição. A cidade não precisa voltar ao passado para utilizá-lo.

Isso explica por que o museu pode ser entendido como uma tecnologia tão importante quanto qualquer dispositivo eletrônico do filme. Ele armazena informação, permite transmiti-la entre gerações e oferece à comunidade meios de compreender o presente. A diferença é que ninguém de fora considera aquele conhecimento sofisticado porque ele não vem embalado na forma tecnológica que os invasores aprenderam a respeitar.

Quando termina o confronto, uma das decisões mais significativas é não apagar completamente as marcas deixadas nele. O sangue na parede do museu entra para a história local porque a cidade entende que sobreviver não basta. É necessário lembrar como e por que aquilo aconteceu.

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Bacurau não precisa de um herói que chegue de fora

Outra escolha importante está na maneira como o filme distribui protagonismo. Teresa é nossa porta de entrada, mas não chega à cidade para ensinar aos moradores alguma coisa que eles desconheciam. Lunga possui presença suficiente para ocupar facilmente o papel de grande herói de ação, mas tampouco substitui a comunidade. Domingas, Pacote, Acácio, Plínio, Damiano e tantos outros participam de uma rede em que pessoas possuem funções, conhecimentos e relações diferentes.

Essa estrutura afasta Bacurau de uma narrativa bastante familiar, na qual uma comunidade considerada isolada precisa de alguém mais moderno, instruído ou cosmopolita para entender a ameaça que enfrenta. Teresa volta de fora, mas Bacurau não estava esperando por ela para começar a existir. Lunga retorna quando é necessário, mas a resistência não nasce apenas de sua presença. O conhecimento relevante está espalhado entre moradores que conhecem o território, a história e uns aos outros.

Os diretores falaram sobre Bacurau como uma espécie de quilombo “remixado”, uma comunidade de resistência composta por pessoas brancas, negras, indígenas, trans e por outras identidades que convivem sem que o filme precise apresentar essa diversidade como projeto pedagógico para o espectador. A cidade não é uma utopia sem conflitos, mas sua organização social claramente oferece uma alternativa ao mundo hierárquico que aparece do lado de fora. O prefeito deseja controlar pelo favor; os estrangeiros organizam-se por uma lógica de poder e violência; Bacurau responde de maneira mais horizontal e comunitária.

Isso também modifica a violência do desfecho. O contra-ataque não funciona como o momento em que finalmente surge um homem excepcional capaz de salvar todos os demais. A preparação envolve memória, território, comunicação e cooperação. Até o papel de Lunga, talvez o personagem mais facilmente associado ao arquétipo do guerreiro, só faz sentido dentro de uma comunidade capaz de recebê-lo, acioná-lo e lutar junto.

O resultado é uma ficção científica em que a resposta à ameaça externa não aparece na descoberta de uma tecnologia mais poderosa. Bacurau vence uma disputa de conhecimento sobre quem entende melhor aquele lugar.

O western está ali, mas a fronteira mudou de lado

É impossível ignorar o western em Bacurau. Há território, armas, forasteiros, confronto, uma comunidade sob ameaça e uma paisagem que poderia pertencer a várias tradições cinematográficas ligadas ao gênero. Mendonça Filho e Dornelles nunca esconderam essas referências, e programas organizados em torno das influências do filme incluíram westerns, horror, cinema de ação, John Carpenter, Sergio Corbucci e obras do Cinema Novo brasileiro.

Mas a apropriação interessa justamente porque Bacurau não aceita ocupar passivamente o lugar que o western histórico costumava reservar a determinadas populações. Uma parte importante do gênero clássico foi construída a partir da expansão sobre territórios apresentados como disponíveis, perigosos ou pouco civilizados. O herói frequentemente vinha de fora e sua capacidade de dominar aquele espaço servia como prova de competência.

Em Bacurau, quem chega de fora acreditando participar de uma fronteira sem consequências são os invasores. Eles tratam a comunidade como território de caça e imaginam que sua superioridade tecnológica lhes garante o direito de determinar as regras. O filme aceita a estrutura do western apenas para deslocar nossa posição dentro dela. A cidade que poderia ser observada como cenário passa a possuir ponto de vista próprio, enquanto os estrangeiros se tornam pessoas que não entendem onde entraram.

Essa mudança parece pequena, mas produz um efeito importante na maneira como vemos o sertão. A paisagem deixa de ser um vazio esperando acontecimento. Cada estrada, construção e pedaço do terreno pertence a uma história conhecida pelos moradores. Os invasores veem espaço; Bacurau vê lugar. A diferença entre essas duas formas de olhar ajuda a decidir quem conseguirá agir quando o confronto começar.

É também por isso que chamar o filme simplesmente de “western brasileiro” parece insuficiente. Ele usa o gênero, mas não pede licença para se acomodar dentro dele. Mistura cangaço, ficção científica, horror, sátira política e ação porque seu interesse está menos em reproduzir uma tradição do que em colocar várias tradições a serviço de uma experiência brasileira específica.

O drone em forma de disco voador é uma das melhores piadas do filme

Poucas imagens resumem tão bem a relação de Bacurau com a ficção científica quanto o pequeno disco voador que acompanha os moradores. Por alguns instantes, existe a possibilidade de que o filme esteja introduzindo algo realmente extraterrestre. Depois descobrimos que aquilo é apenas um drone disfarçado.

A brincadeira funciona porque modifica nossas expectativas de gênero, mas também diz bastante sobre a própria tecnologia dos invasores. Eles chegam com um equipamento contemporâneo revestido pela aparência de uma fantasia antiga de ficção científica. A imagem de um futuro espetacular serve como máscara para uma tecnologia de vigilância bastante reconhecível.

É quase o contrário daquilo que acontece com Bacurau. A comunidade pode parecer antiquada para quem olha superficialmente, mas possui conhecimentos, redes e capacidades que os estrangeiros não conseguem reconhecer. O drone parece futurista justamente porque foi decorado para parecer uma imagem de futuro; a cidade parece simples porque aquilo que a torna complexa não está sendo exibido para quem passa de carro.

Esse contraste ajuda a desfazer a associação entre tecnologia e inteligência que organiza boa parte da relação de poder no filme. Ter um equipamento mais sofisticado oferece vantagem real, mas não produz automaticamente compreensão. Os estrangeiros podem observar Bacurau de cima sem perceber aquilo que existe dentro do museu, nas relações entre os moradores ou na memória coletiva. Sua visão é ampla e, ao mesmo tempo, superficial.

A ficção científica costuma perguntar o que novas tecnologias permitem ver. Bacurau parece muito mais interessado em perguntar o que continuamos incapazes de enxergar mesmo quando possuímos câmeras melhores.

A cidade conhece sua história; os invasores só conhecem seus estereótipos

Há uma diferença fundamental entre informação e conhecimento atravessando praticamente todo o filme. Os invasores possuem dados. Sabem onde estão os alvos, quantas pessoas vivem na região e quais caminhos utilizar. Seus colaboradores locais oferecem informações sobre a comunidade. Eles chegam preparados de acordo com aquilo que consideram necessário para cumprir a missão.

O problema é que informação isolada não substitui contexto. Saber que existe um museu em Bacurau não significa compreender por que ele importa. Saber que Lunga é procurado não explica sua relação com os moradores. Identificar pessoas pelo nome ou localização não revela as redes de solidariedade e memória que as conectam. Os estrangeiros conhecem a superfície operacional da cidade, mas interpretam tudo por meio de categorias que já possuíam antes de chegar.

Essa arrogância talvez seja mais importante do que qualquer erro tático. Eles não imaginam que Bacurau possa produzir uma resposta organizada porque decidiram antecipadamente que seus moradores não possuem capacidade para isso. A desumanização facilita a violência e, ao mesmo tempo, impede os invasores de avaliar corretamente aqueles que pretendem matar.

O filme inverte assim uma tradição bastante comum em histórias sobre regiões periféricas, nas quais o personagem de fora possui conhecimento maior do mundo e ajuda pessoas locais a compreender aquilo que está acontecendo. Aqui, os forasteiros possuem recursos e mobilidade global, mas sua visão de mundo é menor. Eles conhecem mais lugares e compreendem menos aquele em que estão.

Bacurau não precisa descobrir sua própria importância diante dos olhos estrangeiros. O museu já estava lá antes que eles chegassem.

O futuro brasileiro de Bacurau não precisa parecer com o futuro de outra pessoa

Talvez seja essa a contribuição mais interessante do filme para a ficção científica brasileira. Seu futuro não depende de erguer arranha-céus futuristas no Recife, imaginar uma São Paulo coberta de neon ou reproduzir no Brasil os cenários que aprendemos a reconhecer como cyberpunk. Nada disso seria ilegítimo, evidentemente, mas Bacurau escolhe outro caminho: pergunta como seria um futuro que continuasse carregando as contradições históricas, sociais e culturais que já existem aqui.

Por isso, o filme pode colocar um drone ao lado de um caminhão-pipa, um celular ao lado de uma arma histórica, mapas digitais ao lado de mapas de papel e cinema de gênero internacional ao lado da memória do cangaço. Uma coisa não cancela a outra. O futuro não aparece como momento em que o Brasil finalmente consegue deixar de ser aquilo que foi; aparece como resultado das continuidades, adaptações e conflitos que atravessaram sua formação.

Isso também explica a liberdade com que o filme mistura gêneros. A ficção científica permite deslocar levemente o presente, o western oferece uma estrutura de confronto territorial, o horror organiza a experiência de ser caçado, a distopia aparece no abandono institucional e o cinema brasileiro fornece uma memória própria de sertão, resistência e cangaço. Nenhuma dessas tradições precisa dominar completamente as demais.

Film at Lincoln Center descreveu Bacurau como um híbrido que atravessa horror, pulp hollywoodiano, spaghetti western e Cinema Novo. Essa mistura não parece indecisão porque o filme sabe exatamente de onde observa todos esses gêneros. A unidade não está no tipo de história que escolheu contar, mas na posição de quem conta.

É uma diferença fundamental. Quando a ficção científica brasileira tenta provar que também consegue reproduzir futuros já consagrados por outras cinematografias, continua correndo o risco de aceitar que o centro do imaginário permanece em outro lugar. Bacurau não precisa disputar esse centro. Ele simplesmente começa a história no sertão e age como se aquilo já fosse suficiente.

O verdadeiro apagamento que o filme combate é o direito de alguém existir apenas quando o centro reconhece

O desaparecimento do mapa volta a fazer sentido quando pensamos no filme inteiro. Bacurau é atacada porque alguém acredita que pode transformar seus moradores em pessoas sem testemunhas, sem consequências e, por extensão, sem história. A violência dos estrangeiros só é possível porque eles enxergam aquela comunidade como pequena demais para importar.

A resposta da cidade não consiste apenas em sobreviver. Consiste em insistir na própria continuidade. É por isso que o museu importa tanto, que as marcas do confronto são preservadas e que a memória reaparece repetidamente como parte da defesa. A comunidade entende algo que seus invasores ignoram: existir não é apenas permanecer fisicamente vivo, mas conseguir inscrever aquilo que aconteceu numa história compartilhada.

Essa talvez seja também a razão pela qual Bacurau continua produzindo leituras tão diferentes sem se esgotar numa única alegoria política. O filme fala de colonialismo, classe, racismo, abandono institucional, violência estrangeira, desigualdade tecnológica e resistência, mas todas essas questões passam por uma disputa anterior sobre quem tem autoridade para dizer quais lugares e quais pessoas importam.

Na maior parte do tempo, a ficção científica olha para o futuro perguntando quais sociedades comandarão novas tecnologias, quais cidades se tornarão centros de poder e quais instituições controlarão o mundo. Bacurau faz uma pergunta mais localizada e talvez mais incômoda: o que acontece com quem continua existindo depois que alguém poderoso decidiu que aquele lugar não deveria mais aparecer no mapa?

A resposta do filme é violenta porque a ameaça também é. Mas há algo anterior à violência que explica por que a cidade consegue reagir. Bacurau sabe quem é. Seus moradores conhecem sua história, preservam lembranças, reconhecem o território e possuem relações que os estrangeiros não conseguem reduzir a coordenadas ou alvos.

É aí que o sertão deixa definitivamente de funcionar como periferia da narrativa. Não porque Bacurau passe a comandar o mundo ou adquira uma tecnologia capaz de colocá-la acima de todos os outros lugares, mas porque o filme nunca aceita que sua importância dependa de qualquer reconhecimento externo.


Fim dos spoilers 


Quando a ficção científica coloca o Brasil apenas na margem de futuros imaginados em outros lugares, ela corre o risco de reproduzir no amanhã as mesmas hierarquias que já organizam o presente. Bacurau oferece uma alternativa mais interessante porque não precisa tornar o sertão parecido com um centro global para considerá-lo digno de uma história sobre tecnologia, poder e futuro. A cidade continua pequena, enfrenta problemas materiais e permanece distante das instituições que deveriam protegê-la. Nada disso a transforma numa comunidade incapaz de compreender o próprio tempo.

O filme também não propõe uma fantasia simples em que conhecimento local é automaticamente superior a qualquer tecnologia estrangeira. Os invasores possuem vantagens reais, e Bacurau paga um preço alto por enfrentá-los. A diferença está em mostrar que tecnologia não elimina história, que informação não substitui contexto e que possuir melhores instrumentos não significa compreender melhor aquilo que estamos observando. Um drone consegue enxergar a cidade do alto; o museu consegue explicar por que ela continua de pé.

Talvez seja por isso que Bacurau funcione tão bem como ficção científica brasileira. Seu futuro não é interessante porque antecipa uma invenção, mas porque reorganiza uma pergunta antiga sobre centro e periferia. A cidade que desaparece do mapa continua sendo o lugar onde toda a história importa, enquanto os personagens que chegam convencidos de ocupar o centro do mundo revelam progressivamente o quanto sabem pouco sobre aquilo que encontraram.

Quando o futuro deixa de ser imaginado sempre do ponto de vista de quem observa o Brasil de fora, o país não precisa mais aparecer como atraso, cenário ou problema a ser resolvido. Pode simplesmente produzir seu próprio ponto de vista. Em Bacurau, essa mudança começa no momento em que entendemos que a pequena cidade no sertão não está esperando alguém chegar para colocá-la no mapa. Quem precisa aprender a encontrá-la somos nós.

Fontes consultadas

  • FESTIVAL DE CANNES — “Bacurau”. Festival de Cannes, 2019. Página oficial do filme na competição do 72º Festival de Cannes, com ficha técnica, sinopse e registro do Prêmio do Júri concedido a Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.
    Festival de Cannes — Bacurau
  • CUNNINGHAM, Nick — “Rise Up: Kleber Mendonça Filho and Juliano Dornelles on Bacurau”. Film Comment. Entrevista com os diretores sobre a construção da comunidade, a ideia de Bacurau como um “quilombo remixado” e a função do museu como preservação da história de resistência e do cangaço.
    Film Comment — entrevista com Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
  • SAVAGE, Sophia — “Brazil in a Black Mirror: how Bacurau turns the western on its head”. BFI. Entrevista e análise sobre o desaparecimento de Bacurau dos mapas digitais, a relação entre existência física e apagamento tecnológico e a leitura do filme como inversão de estruturas tradicionais do western.
    BFI — Bacurau e a inversão do western
  • MARTINS, Carla Macedo; MAYOR, Ana Lucia de Almeida Soutto — “‘Bacurau’: no futuro, só resistência?”. Novos Estudos CEBRAP, v. 41, n. 3, 2022. Estudo sobre memória, resistência, cangaço, relações entre arcaico e moderno e a função política do museu dentro da comunidade.
    SciELO — “Bacurau: no futuro, só resistência?”
  • FILM AT LINCOLN CENTER — “Mapping Bacurau”. Film at Lincoln Center, 2020. Programa organizado a partir das referências escolhidas pelos próprios realizadores, situando o filme entre horror, cinema pulp, spaghetti western e Cinema Novo brasileiro.
    Film at Lincoln Center — Mapping Bacurau
  • SHAFFER, Marshall — “Interview: Kleber Mendonça Filho and Juliano Dornelles on Bacurau’s Politics”. Slant Magazine, 12 mar. 2020. Entrevista sobre as relações entre passado, presente e futuro, política e referências cinematográficas utilizadas na construção do filme.
    Slant Magazine — entrevista sobre a política de Bacurau
  • LANES, Daniel Macedo; LARA, Renata Marcelle; RAMARI, Thiago Henrique — “O corpo-comun(idade) de Bacurau como materialização do sujeito-gente”. Policromias — Revista de Estudos do Discurso, Imagem e Som, v. 11, n. 1, 2026. Estudo recente sobre memória, comunidade e resistência coletiva no filme.
    Policromias — comunidade, memória e resistência em Bacurau
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