O som sempre foi uma das ferramentas fundamentais do cinema de terror. Uma porta pode permanecer fora de quadro e ainda assim transformar completamente uma cena quando ouvimos sua dobradiça; passos em um cômodo vazio podem produzir uma ameaça antes que qualquer imagem confirme que existe alguém ali. Em Undertone, primeiro longa-metragem dirigido por Ian Tuason, essa relação deixa de funcionar apenas como recurso de atmosfera e se torna o próprio princípio do filme. A maior parte do que ameaça sua protagonista chega primeiro pelos ouvidos, e o espectador é colocado na posição desconfortável de tentar imaginar aquilo que as imagens deliberadamente se recusam a esclarecer.
Evy Babic, interpretada por Nina Kiri, voltou para a casa da mãe para cuidar dela durante os estágios finais de uma doença. Sua rotina é atravessada pelas responsabilidades de cuidadora, pelo desgaste emocional da situação e pelas gravações de um podcast dedicado a histórias paranormais, apresentado à distância com Justin, personagem cuja voz é interpretada por Adam DiMarco. Evy ocupa o papel da cética do programa, mas essa segurança começa a se deteriorar quando os dois recebem dez arquivos de áudio enviados anonimamente, registrando experiências cada vez mais estranhas vividas por um casal. Conforme as gravações avançam, alguns dos elementos presentes nelas parecem encontrar correspondências inquietantes na própria vida de Evy.
É uma premissa que poderia facilmente conduzir a um terror convencional sobre gravações amaldiçoadas, e Undertone não está completamente livre das referências acumuladas por décadas de histórias desse tipo. O que diferencia o filme é a decisão de tratar os arquivos não como pretexto para mostrar alguma coisa depois, mas como acontecimentos dramáticos em si mesmos. Durante longos períodos, assistimos a Evy simplesmente ouvir, reagir e procurar sentido em ruídos cuja origem não conseguimos verificar. A ausência da imagem deixa de ser uma limitação e passa a transferir para o espectador parte do trabalho que normalmente caberia ao filme: construir mentalmente o que pode estar acontecendo do outro lado daqueles sons.
Por que indicamos
A principal razão para indicar Undertone está na forma como Ian Tuason compreende o som como espaço narrativo. Sua experiência anterior inclui trabalhos com realidade virtual e paisagens sonoras tridimensionais, e o diretor contou que o roteiro do filme já trazia extensas orientações de áudio, chegando a detalhar a posição e o momento de ruídos que posteriormente seriam distribuídos pelo ambiente sonoro. O desenho de som, portanto, não foi uma camada acrescentada depois das filmagens para tornar determinadas cenas mais assustadoras; ele fazia parte da concepção do longa desde sua escrita.
Essa diferença fica particularmente evidente nos arquivos que Evy escuta. Tuason gravou parte deles com um iPhone dentro da própria casa utilizada nas filmagens, mantendo rangidos do piso, movimentos, alterações de distância em relação ao microfone e outras imperfeições que normalmente seriam eliminadas de uma gravação profissional. Posteriormente, a equipe de som acrescentou elementos e trabalhou sua espacialização, mas preservou muito do material bruto justamente porque sua aparência amadora aumentava a sensação de que aquelas gravações poderiam ter sido produzidas por pessoas comuns em uma situação real. Em vez de oferecer ao público um áudio cinematográfico disfarçado de gravação doméstica, o filme tenta conservar a textura pouco controlada de um arquivo que alguém poderia receber pelo celular.
Há também uma compreensão interessante de como nosso cérebro participa da experiência. O filme explora a pareidolia auditiva, fenômeno pelo qual tentamos reconhecer palavras, vozes ou significados em sons ambíguos, além de utilizar gravações invertidas, murmúrios e sobreposições cuja interpretação nunca é imediatamente evidente. Isso permite que Undertone trabalhe com uma forma de medo particularmente adequada ao áudio: quando não conseguimos identificar claramente o que estamos ouvindo, não há uma imagem pronta para limitar as possibilidades. Tuason deixa parte desse espaço em aberto para que cada espectador complete aquilo que falta com referências e medos próprios.
Seria pouco, entretanto, se Undertone fosse apenas uma demonstração técnica de desenho sonoro. O filme encontra uma segunda camada na situação de Evy e na relação com sua mãe, porque o cuidado de uma pessoa em processo de morte coloca a personagem em um estado de exaustão, isolamento e antecipação do luto que contamina sua percepção do que acontece na casa. A dúvida sobre os sons que ela escuta passa a coexistir com outra incerteza mais difícil de separar: quanto daquilo pertence a um acontecimento sobrenatural e quanto pode estar sendo interpretado por alguém emocional e fisicamente desgastado? O Sundance destacou justamente essa sobreposição entre possível assombração, fadiga de cuidadora e pareidolia auditiva ao apresentar o longa.
Essa dimensão não surgiu apenas como construção ficcional. Tuason filmou Undertone na casa onde cresceu e onde havia cuidado dos próprios pais durante um período de aproximadamente trinta meses. Em entrevistas, o diretor descreveu o projeto como profundamente ligado à experiência de acompanhá-los durante o declínio de sua saúde, algo que ajuda a entender por que a morte da mãe de Evy não funciona simplesmente como justificativa conveniente para colocá-la sozinha em uma casa assustadora. Existe no filme uma familiaridade desconfortável com a rotina do cuidado, com a culpa associada ao desejo de que uma situação dolorosa termine e com a maneira pela qual uma casa conhecida pode se transformar quando passa a estar associada à proximidade da morte.
A religião também ocupa um espaço importante nesse contexto. A casa é marcada pela iconografia cristã, enquanto Evy carrega uma relação mais conflituosa com a fé que fez parte de sua formação. O sobrenatural, então, não encontra uma personagem completamente alheia à linguagem religiosa, mas alguém que conhece seus símbolos e ao mesmo tempo já não consegue aceitá-los com a segurança que talvez tenha existido em outro momento. A tensão entre ceticismo e crença que organiza o podcast acaba refletindo uma questão mais íntima: o que fazemos com antigas formas de compreender o mundo quando acontecimentos extremos nos colocam novamente diante delas?
Outro mérito está na economia com que o filme transforma suas limitações de produção em linguagem. Undertone foi realizado como um projeto independente de orçamento relativamente pequeno e concentra quase toda sua presença física em Evy, sua mãe e na casa. Em vez de tentar esconder essa escala reduzida, Tuason organiza enquadramentos, movimentos lentos de câmera e grandes áreas vazias para tornar o ambiente progressivamente suspeito. Quando Evy utiliza fones com cancelamento de ruído, por exemplo, o espectador pode perceber partes da casa que a personagem momentaneamente não consegue ouvir, criando uma oposição simples entre aquilo que vemos e aquilo que ela é capaz de perceber.
Essa confiança na restrição ajuda a explicar a trajetória incomum do filme. Ainda apresentado como The Undertone, o longa teve sua estreia mundial no Fantasia International Film Festival em julho de 2025 e recebeu o prêmio do público de melhor longa canadense do festival. Posteriormente adquirido pela A24, passou por alterações antes do lançamento comercial — entre elas, mudanças em algumas vozes — e foi selecionado para a seção Midnight do Sundance de 2026. É significativo que um primeiro longa tão dependente de uma proposta formal específica tenha conseguido ampliar sua circulação sem abandonar justamente a característica que inicialmente o distinguia.
O que esperar do filme
É importante ajustar as expectativas porque Undertone não utiliza sua premissa como ponto de partida para uma sucessão convencional de aparições e confrontos. Grande parte de seus 94 minutos acompanha Evy dentro da mesma casa, escutando arquivos, gravando o podcast, cuidando da mãe e tentando compreender pequenas alterações no ambiente. O ritmo é deliberadamente repetitivo em alguns momentos, porque a própria estrutura depende de retornar aos mesmos espaços e atividades enquanto cada nova gravação modifica o significado do que já vimos. Para quem precisa que um filme de terror esteja continuamente apresentando novas ameaças visíveis, essa abordagem pode produzir mais impaciência do que tensão.
Também não vale apresentar essa escolha como unanimemente bem-sucedida. A recepção crítica do longa foi majoritariamente positiva, mas dividida justamente em relação à capacidade de sua narrativa de acompanhar a inventividade do desenho sonoro. O consenso reunido pelo Rotten Tomatoes destaca o uso de espaço negativo e áudio na construção do medo, enquanto críticas como as publicadas pelo The Guardian, pela Time Out e pelo brasileiro Omelete consideraram que a repetição e elementos mais convencionais da trama diminuem o impacto da proposta à medida que o filme avança. Essa divergência é útil para entender Undertone: sua indicação aqui não depende de considerá-lo um filme sem problemas, mas de reconhecer que há nele uma experiência formal suficientemente singular para justificar a atenção.
Nina Kiri é fundamental para que essa experiência funcione. Como quase todas as demais personagens chegam por telefone, podcast ou gravações, longos trechos dependem de sua capacidade de tornar o ato de ouvir dramaticamente legível. Pequenas reações precisam indicar mudanças de humor, suspeita, cansaço e medo sem que exista necessariamente uma segunda pessoa em cena contra quem contracenar. Essa quase solidão visual também faz com que a casa adquira maior importância: quanto mais tempo permanecemos observando Evy naquele ambiente, mais começamos a examinar corredores, portas e áreas fora de foco à procura de algo que talvez sequer esteja ali.
Por essa razão, assistir a Undertone com um sistema de áudio razoável faz diferença maior do que na maioria dos filmes. A mixagem foi posteriormente expandida para Dolby Atmos, permitindo que sons fossem posicionados com mais precisão ao redor e acima do espectador, mas a experiência não depende necessariamente de uma sala de cinema. Em casa, bons fones ou um sistema de som que preserve diferenças de direção e volume ajudam a manter a principal característica do longa, especialmente porque alguns momentos dependem da dúvida sobre se determinado ruído pertence à gravação que Evy está ouvindo, à casa dela ou ao próprio ambiente do espectador.
Esse último aspecto torna sua disponibilidade doméstica curiosamente apropriada. Um filme que explora a vulnerabilidade de permanecer sozinho dentro de uma casa enquanto tentamos identificar sons desconhecidos pode funcionar de maneira diferente quando aquilo que ouvimos se mistura aos ruídos reais do lugar onde estamos assistindo. Não é necessário transformar isso em uma instrução performática nem apagar todas as luzes para que o filme funcione; basta reconhecer que Undertone foi concebido para tornar incerta a fronteira entre som registrado e ambiente. Essa é uma experiência que uma televisão com áudio muito comprimido pode reduzir consideravelmente.
Para quem indicamos
Indicamos Undertone principalmente para quem gosta de terror construído por atmosfera, sugestão e espera, especialmente quando o gênero utiliza suas ferramentas formais de maneira mais importante do que criaturas ou efeitos visuais. Quem se interessa por filmes como Paranormal Activity, The Blair Witch Project ou produções que trabalham com registros supostamente encontrados reconhecerá alguns mecanismos familiares, embora Tuason substitua boa parte do “found footage” por aquilo que ele próprio descreve como uma espécie de found audio: registros cuja imagem precisa ser criada mentalmente pelo público.
Também é uma escolha especialmente interessante para quem acompanha o terror como campo de experimentação cinematográfica. Undertone não inventou o medo produzido pelo som e tampouco esconde suas dívidas com tradições anteriores do gênero, mas reorganiza esses elementos ao colocar a audição no centro da narrativa durante quase toda a duração. Mesmo quando suas escolhas de roteiro são menos interessantes do que sua construção audiovisual, permanece a sensação de um cineasta tentando descobrir até onde pode conduzir o espectador usando menos informação visual, e isso já torna o filme mais estimulante do que produções tecnicamente maiores que tratam o som apenas como acompanhamento para aquilo que já está na tela.
A recomendação exige apenas uma ressalva: quem procura uma narrativa de terror extremamente fechada, acelerada ou interessada em explicar cada aspecto de sua ameaça pode sair menos satisfeito. Undertone prefere preservar ambiguidades, repete deliberadamente situações e permite que algumas de suas ideias permaneçam mais sugestivas do que desenvolvidas. Para nós, essas limitações não anulam aquilo que o filme faz melhor, mas ajudam a definir o público para o qual a indicação realmente faz sentido.
Há ainda uma razão prática para recomendá-lo agora. No Brasil, Undertone está atualmente disponível por assinatura na HBO Max, além de possuir opções digitais de compra em algumas plataformas; a disponibilidade foi verificada em 9 de setembro de 2026 e pode mudar posteriormente. Isso permite que a proposta do Infinitas Formas Indica funcione como pretendemos: não apenas registrar uma obra interessante, mas colocar diante do leitor algo que pode efetivamente descobrir no presente.
Ficha rápida
Obra: Undertone
Título original: undertone
Direção e roteiro: Ian Tuason
Ano: 2026 — estreia mundial da versão original em 2025
País de origem: Canadá
Mídia: Cinema
Pilar: Terror
Vertentes: terror sobrenatural, terror psicológico, horror sonoro
Elenco principal: Nina Kiri, Adam DiMarco, Michèle Duquet, Keana Lyn Bastidas e Jeff Yung
Duração: 94 minutos
Distribuição: A24
Onde assistir no Brasil: HBO Max no momento desta publicação.
