Alê Santos é um dos nomes mais importantes da ficção especulativa brasileira contemporânea ligada ao afrofuturismo. Escritor, roteirista, comunicador e pesquisador de narrativas negras, ele construiu uma trajetória que atravessa literatura, redes sociais, podcast, jornalismo cultural e projetos audiovisuais. Seu trabalho ganhou projeção inicialmente a partir de textos históricos publicados na internet, mas sua produção literária se ampliou rapidamente para a ficção científica e a fantasia, com obras que combinam ancestralidade, tecnologia, desigualdade, religiosidade, cultura afro-brasileira e imaginação de futuros possíveis. A Câmara dos Deputados o apresenta como autor de ficção científica e fantasia afro-brasileira e destaca tanto Rastros de Resistência quanto O Último Ancestral como pontos centrais de sua carreira.
Essa passagem entre história e especulação é particularmente importante para compreender sua obra. Em Rastros de Resistência, Santos trabalha com personagens e acontecimentos reais da história negra, procurando recuperar trajetórias que muitas vezes aparecem de maneira reduzida ou ausente na narrativa histórica mais difundida. Em O Último Ancestral, ele desloca esse interesse para um universo ficcional no qual passado, memória e ancestralidade não desaparecem diante da tecnologia, mas participam diretamente da construção do futuro. Em entrevistas, o próprio autor descreveu essa transição como uma retomada de seu interesse anterior por ficção científica e fantasia, integrando-o à consciência política e ao repertório construído através de sua atuação com história e cultura negra.
Alê Santos não apenas como representante do afrofuturismo brasileiro, mas um exemplo de uma geração de autores que trata ficção especulativa, cultura pop e história negra como campos que podem conversar sem que um precise ser subordinado ao outro. Sua ficção não utiliza ancestralidade apenas como ornamentação cultural nem tecnologia apenas como sinal de modernidade. Os dois elementos aparecem articulados, permitindo imaginar futuros nos quais conhecimento, memória, espiritualidade e inovação não são definidos exclusivamente pelos modelos tecnológicos e sociais construídos no Norte Global.
Da internet ao livro
Antes de consolidar-se como romancista, Alê Santos ganhou notoriedade através de textos publicados nas redes sociais. Em 2018, uma série de conteúdos sobre a violência colonial praticada pelo rei Leopoldo II da Bélgica no Congo alcançou grande circulação e ajudou a ampliar sua visibilidade como comunicador dedicado a histórias da população negra. O próprio autor relatou posteriormente que a repercussão dessas publicações chamou a atenção de jornalistas, leitores e editoras, criando o caminho para a publicação de seu primeiro livro.
Esse percurso é significativo porque demonstra uma transformação na maneira como escritores podem chegar ao mercado editorial. Em vez de seguir exclusivamente o caminho tradicional de manuscrito, editora e lançamento, Santos construiu primeiro uma audiência através da circulação pública de narrativas históricas. A internet funcionou não apenas como espaço de divulgação posterior, mas como ambiente em que parte de sua linguagem e de seus interesses autorais se tornou reconhecível.
O processo também revela uma característica que continuaria presente em sua obra: a preocupação com quem conta a história e a partir de qual perspectiva. Em entrevistas sobre afrofuturismo, Santos insiste que a questão não se resume a colocar personagens negros em narrativas futuristas. O movimento envolve disputar o imaginário, reorganizar pontos de vista e construir futuros em que experiências negras não apareçam apenas como consequência das decisões de outros grupos.
Essa discussão já estava presente antes de O Último Ancestral. Ao recuperar personagens históricos em suas redes e posteriormente em livro, Santos trabalhava com uma lógica semelhante: tornar visíveis experiências que foram marginalizadas dentro de narrativas dominantes. Quando passa para a ficção especulativa, a operação muda de gênero, mas não desaparece.
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Rastros de Resistência
Publicado em 2019, Rastros de Resistência: Histórias de Luta e Liberdade do Povo Negro foi o primeiro livro de grande projeção de Alê Santos. A obra nasceu diretamente do trabalho que ele vinha desenvolvendo nas redes sociais e reúne narrativas relacionadas à história da resistência negra no Brasil e em outros contextos. O livro recebeu reconhecimento importante ao tornar-se finalista do Prêmio Jabuti de 2020, na categoria Ciências Humanas.
Embora Rastros de Resistência não seja uma obra de ficção científica, sua presença é fundamental para compreender a produção posterior do autor. O livro organiza uma relação entre memória, apagamento e reconstrução histórica que reapareceria de outra maneira em sua ficção. A ancestralidade não surge apenas como vínculo afetivo com o passado, mas como forma de conhecimento capaz de modificar a maneira como o presente e o futuro são imaginados.
Santos afirmou que Rastros de Resistência nasceu da adaptação de textos que já publicava no Twitter, enquanto O Último Ancestral representaria uma retomada mais direta de seu desejo de escrever fantasia e ficção científica. Essa continuidade mostra que os dois livros não pertencem a universos editoriais completamente separados. Um trabalha com personagens reais; o outro constrói personagens ficcionais. Em ambos, existe uma preocupação com protagonismo negro e com a reorganização de referências culturais.
O fato de Rastros de Resistência ter chegado a uma grande premiação nacional também ampliou a posição pública do autor. Santos deixou de ser conhecido apenas como comunicador digital e passou a ocupar mais claramente o espaço de escritor, abrindo caminho para a publicação de uma obra ficcional de maior escala.
A ficção antes de O Último Ancestral
A entrada de Santos na ficção não começou em 2021. Em entrevistas, ele mencionou que já escrevia histórias especulativas muito antes de sua projeção como autor de Rastros de Resistência. Em 2013, o conto “A Cor dos Seus Olhos” foi publicado em uma antologia internacional ligada ao projeto The Tomorrow Project. O próprio escritor recorda esse episódio como uma experiência anterior que não teve grande repercussão naquele momento, mas que demonstrava um interesse de longa duração por ficção científica.
Essa informação é importante porque evita interpretar O Último Ancestral como uma mudança repentina de alguém que abandonou a não ficção para experimentar outro gênero. Santos já possuía interesse por literatura fantástica, RPG e ficção científica desde antes da consolidação de sua carreira autoral. Ele próprio relaciona parte dessa formação à leitura de autores como Jules Verne e Tolkien e ao contato com RPG durante a juventude.
A passagem para a ficção de maior fôlego acontece, portanto, quando diferentes aspectos de sua trajetória começam a convergir. De um lado havia interesse antigo por fantasia e ficção científica; de outro, pesquisa sobre história negra, atuação em comunicação digital e reflexão sobre representação. O afrofuturismo ofereceu uma estrutura capaz de aproximar essas áreas sem exigir que uma delas fosse reduzida a simples tema decorativo.
Afrofuturismo brasileiro
A relação de Alê Santos com o afrofuturismo é central para sua obra, mas ele não trata o conceito como uma fórmula importada diretamente dos Estados Unidos. Em entrevistas, o escritor diferencia as condições históricas e culturais que orientam produções norte-americanas daquelas que podem orientar uma perspectiva brasileira. Para ele, questões como periferia, educação, desigualdade, Amazônia, biomas e experiências sociais específicas do país ajudam a determinar quais futuros podem ser imaginados por autores brasileiros.
Essa diferença não significa ruptura com a tradição internacional do afrofuturismo. Santos reconhece referências globais e dialoga com um movimento que atravessa literatura, música, cinema e artes visuais. O ponto principal está em evitar que o conceito seja reduzido a uma estética única baseada em tecnologia avançada, arquitetura africana futurista e visual semelhante ao de determinadas produções estadunidenses.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o autor descreveu o afrofuturismo como movimento social, político e estético ligado à disputa de narrativas e à possibilidade de construir protagonismo negro em espaços dos quais historicamente ele foi excluído. Essa concepção amplia o gênero para além de uma categoria da ficção científica.
A partir dessa perspectiva, imaginar tecnologia exige perguntar também quem tem acesso a ela, quem a desenvolve, que experiências ela incorpora e quais conhecimentos foram historicamente classificados como legítimos ou ilegítimos. Em conversa sobre sua obra, Santos já levantou explicitamente a questão sobre o que pode significar tecnologia para comunidades periféricas que não ocupam o centro das inovações associadas ao Vale do Silício.
Quem tem direito ao futuro? O afrofuturismo brasileiro não é apenas uma versão nacional do cyberpunk
O Último Ancestral
Publicado em 2021, O Último Ancestral marcou a consolidação de Alê Santos como autor de ficção especulativa de maior fôlego. O romance apresenta um universo afrofuturista marcado por segregação, tecnologia, violência estrutural, espiritualidade e ancestralidade. A sinopse editorial descreve um futuro distópico em que elementos da realidade brasileira são reorganizados dentro de uma narrativa que envolve favelas, religiões, Carnaval, racismo estrutural e desigualdade.
O protagonista Eliah vive em uma sociedade onde diferentes formas de poder disputam o controle sobre a população. Ao longo da narrativa, sua relação com conhecimentos ancestrais e com forças que ultrapassam a tecnologia convencional torna-se fundamental para compreender o conflito. O livro também introduz a ideia de uma “inteligência artificial mandinga”, expressão que resume bem a maneira como Santos procura colocar tecnologia e ancestralidade dentro do mesmo campo imaginativo em vez de apresentá-las como polos opostos.

O Último Ancestral
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A escolha é especialmente significativa porque grande parte da ficção científica ocidental foi construída sobre uma oposição implícita entre tradição e modernidade. O futuro costuma ser representado como território da tecnologia, enquanto conhecimento ancestral aparece associado ao passado. Em O Último Ancestral, essa divisão perde força. A ancestralidade não é algo que precisa ser abandonado para alcançar o futuro; ela participa da própria construção de novas formas de tecnologia, identidade e resistência.
Essa relação também diferencia a obra de uma simples distopia tecnológica. A opressão existente no romance possui ligação com estruturas sociais reconhecíveis, e a especulação não apaga referências brasileiras. O mundo ficcional é transformado, mas continua dialogando com experiências de segregação, desigualdade e racismo que pertencem ao presente.
Ancestralidade como conhecimento
Na obra de Santos, ancestralidade não funciona apenas como lembrança simbólica de pessoas que vieram antes. Ela pode atuar como repertório, tecnologia, memória coletiva e forma de compreensão do mundo. Essa abordagem é particularmente importante para o afrofuturismo porque questiona a ideia de que conhecimento válido precisa necessariamente surgir de instituições modernas ou de modelos científicos ocidentais.
Isso não significa estabelecer uma oposição simples entre ciência e espiritualidade. O interesse está justamente em permitir que categorias diferentes coexistam. Tecnologia avançada pode operar ao lado de tradições religiosas, memórias familiares e formas de saber construídas por comunidades negras. O futuro deixa de ser imaginado como espaço que precisa eliminar o passado para avançar.
Essa estrutura também modifica a maneira como personagens se relacionam com sua própria identidade. A descoberta de uma herança ancestral não representa apenas conhecimento sobre a origem, mas possibilidade de ação no presente. Em O Último Ancestral, memória e poder estão diretamente conectados.
O resultado é uma ficção científica na qual o avanço não consiste necessariamente em afastar-se de tudo aquilo que veio antes. Em vez disso, o futuro pode surgir da reorganização de conhecimentos que foram historicamente apagados, desvalorizados ou separados daquilo que a sociedade chama de tecnologia.
Tecnologia fora do modelo do Vale do Silício
Uma das contribuições mais interessantes de Santos para a discussão afrofuturista brasileira aparece quando questiona a própria definição de tecnologia. Em um debate promovido pelo Canal Curta!, o autor levantou explicitamente a questão sobre como pensar tecnologia a partir de experiências periféricas que não ocupam o centro das inovações produzidas em regiões como o Vale do Silício.
Essa pergunta interfere diretamente na ficção. Se tecnologia é entendida apenas como dispositivo eletrônico sofisticado desenvolvido por grandes corporações, a representação do futuro tende a reproduzir as mesmas relações de poder existentes no presente. O afrofuturismo pode ampliar esse conceito ao incluir conhecimentos comunitários, formas alternativas de organização, cultura material, espiritualidade e soluções desenvolvidas a partir de necessidades locais.
Isso ajuda a compreender por que a combinação entre ancestralidade e tecnologia em O Último Ancestral não é apenas estilística. Santos está disputando a própria definição de inovação. O futuro não precisa ser construído exclusivamente a partir daquilo que grandes centros econômicos reconhecem como avanço.
Essa perspectiva aproxima sua obra de uma tradição mais ampla da ficção especulativa contemporânea preocupada em descentralizar a produção de futuros. Em vez de perguntar apenas quais máquinas existirão daqui a décadas, a ficção pode perguntar quem terá poder para definir o significado dessas máquinas e quais experiências serão consideradas dignas de participar dessa construção.
Cultura afro-brasileira
A presença da cultura afro-brasileira é uma das características mais importantes da ficção de Santos. Em O Último Ancestral, referências a religiosidade, comunidades periféricas, música, memória e experiências negras brasileiras são integradas ao universo especulativo sem funcionar apenas como explicações culturais destinadas a leitores externos. A própria apresentação institucional do livro pela Câmara dos Deputados destaca sua combinação de fé, cultura e história africana no Brasil dentro de uma fantasia urbana afrofuturista.
Essa integração é importante porque uma parte significativa da fantasia e da ficção científica consumida no Brasil durante décadas foi construída a partir de imaginários europeus ou norte-americanos. Elfos, cavaleiros, impérios galácticos e megacidades cyberpunk tornaram-se referências comuns, enquanto elementos afro-brasileiros eram frequentemente confinados a narrativas realistas, históricas ou folclóricas.
Santos ajuda a romper essa separação ao permitir que elementos da experiência afro-brasileira ocupem o mesmo espaço de tecnologias futuristas, conflitos épicos e especulação científica. O resultado não precisa abandonar gêneros populares para adquirir uma identidade local. Pelo contrário, RPG, fantasia urbana, ficção científica e aventura tornam-se ferramentas para reorganizar referências.
Essa aproximação também amplia o alcance do afrofuturismo brasileiro. Ele não precisa existir somente como uma adaptação nacional de modelos estrangeiros; pode construir suas próprias relações entre história, território, religião, periferia e tecnologia.
Cangoma e a ligação entre música e especulação
Antes de O Último Ancestral, Santos também publicou o conto “Cangoma”, inspirado em uma música de Clementina de Jesus e incluído na coletânea Todo Mundo Tem uma Primeira Vez. A Câmara dos Deputados destaca esse texto como exemplo de produção afrofuturista anterior ao romance.
A escolha de Clementina de Jesus como ponto de partida é particularmente reveladora. Em vez de buscar uma referência exclusivamente dentro da tradição literária de ficção científica, Santos parte de uma figura fundamental da música brasileira e da preservação de repertórios afro-brasileiros.
Esse procedimento demonstra como o afrofuturismo pode trabalhar através de conexões entre linguagens diferentes. Música, história oral, memória e ficção especulativa não precisam permanecer em compartimentos separados.
A própria noção de futuro passa a incluir uma relação ativa com obras culturais do passado. Uma canção pode fornecer não apenas inspiração temática, mas também uma forma de imaginar tecnologias, mundos e experiências novas.
A Malta Indomável
Em 2023, Alê Santos ampliou o universo de O Último Ancestral com A Malta Indomável, obra situada no mesmo espaço ficcional e dedicada a outros personagens e regiões. A publicação demonstra que o universo criado no romance inicial não foi concebido apenas para sustentar uma única história, mas possui potencial para diferentes narrativas e perspectivas.
A expansão também permite aprofundar uma característica fundamental da produção do autor: a combinação entre diferentes repertórios culturais brasileiros. Informações biográficas e editoriais sobre o livro destacam influências afro-brasileiras, indígenas e ribeirinhas, ampliando a geografia imaginária do projeto para além de uma única comunidade ou referência.
Essa escolha é relevante porque impede que o afrofuturismo seja tratado como categoria fechada em torno de um único tipo de experiência. A história negra brasileira sempre esteve ligada a encontros, conflitos e trocas com outros povos, e uma ficção especulativa situada no país pode explorar essas relações sem dissolver suas especificidades.
O crescimento do universo também aproxima Santos de uma tradição de fantasia e ficção científica serializada, na qual personagens e regiões podem receber histórias próprias. Sua formação ligada ao RPG ajuda a explicar parte desse interesse por mundos capazes de sustentar múltiplas narrativas.

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RPG e construção de mundos
Alê Santos fala frequentemente sobre sua relação com RPG durante a formação como leitor e escritor. Em entrevistas, lembra que o jogo teve importância na adolescência e ajudou a desenvolver sua imaginação, especialmente no contato com fantasia e criação de mundos. Essa influência pode ser percebida na estrutura de O Último Ancestral. O romance não apresenta apenas uma sucessão de acontecimentos, mas um universo com facções, regras, poderes, ambientes e conflitos capazes de existir para além da trajetória imediata de Eliah.
A relação com RPG também aproxima sua obra de uma cultura geek que nem sempre foi reconhecida como espaço de produção negra no Brasil. Santos não trata ficção científica, quadrinhos e jogos como linguagens externas que precisam ser abandonadas para produzir uma literatura politicamente comprometida. Elas fazem parte de sua própria formação cultural.
Isso permite construir uma literatura que pode discutir racismo estrutural e ancestralidade ao mesmo tempo em que oferece aventura, poderes, conflitos épicos e estruturas reconhecíveis pelos leitores de cultura pop.
História e especulação
Uma das continuidades mais importantes entre Rastros de Resistência e O Último Ancestral está na relação entre história e imaginação. No primeiro livro, Santos procura recuperar personagens reais e acontecimentos que foram marginalizados. No segundo, imagina uma sociedade futura a partir das consequências de estruturas históricas que continuam operando no presente.
Esses dois movimentos podem parecer opostos, mas dependem de uma preocupação semelhante. Reconstruir o passado altera a maneira como compreendemos o presente; imaginar o futuro altera a maneira como percebemos quais possibilidades ainda permanecem abertas.
O afrofuturismo é especialmente adequado a essa relação porque recusa uma linha temporal simples na qual passado, presente e futuro são compartimentos independentes. Ancestralidade pode influenciar diretamente uma tecnologia futura, e uma narrativa sobre o futuro pode obrigar o leitor a reconsiderar histórias que foram apagadas no passado.
Santos utiliza essa estrutura sem transformar a ficção em extensão didática de seus textos históricos. O Último Ancestral possui personagens, aventura e conflitos próprios. A história negra fornece profundidade e perspectiva, mas não substitui a construção narrativa.
Representação sem redução temática
Outra característica relevante da produção de Santos é a recusa em imaginar que personagens negros precisam existir apenas dentro de histórias explicitamente sobre sofrimento racial. O racismo e a desigualdade aparecem em sua obra porque fazem parte das estruturas sociais que ele deseja discutir, mas seus personagens também participam de aventuras, disputam poder, utilizam tecnologia, constroem relações e vivem conflitos que pertencem plenamente aos gêneros de fantasia e ficção científica.
Essa diferença é importante para compreender o afrofuturismo como expansão de possibilidades narrativas. Representação não significa apenas inserir personagens negros em histórias preexistentes. Significa também permitir que esses personagens ocupem posições tradicionalmente negadas: cientistas, guerreiros, inventores, líderes, habitantes de futuros avançados e protagonistas de grandes mitologias.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Santos relacionou diretamente o movimento à necessidade de disputar o imaginário social e romper a predominância de narrativas brancas. Essa disputa não acontece somente através de denúncia. Também ocorre quando leitores encontram personagens negros ocupando naturalmente espaços que a ficção popular historicamente reservou a outros grupos.
Por isso, o caráter político da obra não está separado de sua dimensão fantástica. A própria existência de determinados mundos e protagonistas já modifica aquilo que um leitor pode imaginar como futuro possível.
O Último Ancestral e o reconhecimento nacional
O Último Ancestral ampliou significativamente a presença pública de Santos. O romance foi finalista do Prêmio Jabuti de 2022 e também recebeu reconhecimento no CCXP Awards, confirmando sua circulação para além de nichos especializados em ficção científica. O Senac registra as duas obras, Rastros de Resistência e O Último Ancestral, entre os livros do autor reconhecidos pelo Jabuti, enquanto a Câmara também destaca a repercussão nacional de sua ficção.
O sucesso do livro também produziu interesse em outras mídias. Projetos de adaptação audiovisual foram anunciados, demonstrando a capacidade de seu universo de circular para além da literatura.
Esse tipo de expansão é relevante dentro do contexto brasileiro porque grandes universos de fantasia e ficção científica nacionais ainda encontram dificuldades para atravessar diferentes mídias com a mesma frequência encontrada em propriedades estrangeiras. A atenção recebida pelo livro sugere uma ampliação gradual do espaço para projetos especulativos brasileiros de maior escala.
Ao mesmo tempo, o reconhecimento não elimina a especificidade de sua proposta. O livro alcançou leitores justamente mantendo referências afro-brasileiras e discussões sociais no centro da construção de mundo.
Afrofuturismo sem copiar Wakanda
A popularização mundial de Pantera Negra colocou o termo afrofuturismo diante de um público muito maior, mas também criou uma tendência a reduzir o conceito ao imaginário visual de Wakanda. Santos já discutiu esse problema ao diferenciar o repertório norte-americano daquele que pode surgir da experiência brasileira.
Wakanda trabalha com questões relacionadas a colonialismo, exploração de recursos, diáspora e relações raciais específicas dos Estados Unidos e da história africana imaginada pela Marvel. Uma produção brasileira pode dialogar com esse repertório e ainda assim precisar lidar com periferias, desigualdade educacional, formação urbana, religiões afro-brasileiras, Amazônia e outras dimensões que não ocupam o mesmo lugar no contexto norte-americano.
Essa diferença não exige criar uma definição rígida de “afrofuturismo brasileiro”. O próprio campo continua em desenvolvimento e reúne autores com propostas bastante diferentes. A contribuição de Santos está em mostrar uma das possibilidades: combinar ficção científica e fantasia com experiências negras brasileiras sem considerar a cultura local um obstáculo à universalidade.
Nesse sentido, O Último Ancestral não funciona simplesmente como uma “Wakanda brasileira”. Seu universo é construído a partir de outras tensões sociais e de outra relação entre ancestralidade, periferia e tecnologia.
Um autor entre literatura e cultura pop
A carreira de Alê Santos também demonstra como as fronteiras entre literatura, cultura digital e cultura pop se tornaram mais permeáveis. O escritor construiu visibilidade no Twitter, trabalhou com podcast, escreveu para veículos de comunicação, participou de debates sobre games e storytelling e desenvolveu ficção influenciada por RPG, fantasia e ficção científica.
Essa trajetória produz uma relação com leitores diferente daquela de autores cuja carreira se organiza exclusivamente ao redor do mercado literário tradicional. Parte do público pode conhecer Santos por uma thread histórica, outra por uma entrevista sobre afrofuturismo, outra por Rastros de Resistência e outra diretamente por O Último Ancestral.
O percurso também combina produção autoral e reflexão pública sobre os próprios gêneros em que trabalha. Santos não apenas escreve afrofuturismo; participa de debates sobre o significado do termo, suas diferenças regionais e sua relação com tecnologia e representação.
Essa posição ajuda a explicar por que sua obra se tornou referência em discussões contemporâneas sobre ficção científica brasileira. Ele atua simultaneamente como criador de histórias e como alguém que participa da construção crítica do espaço em que essas histórias circulam.
Afrofuturismo e ficção científica brasileira
A presença de Alê Santos também ajuda a questionar uma visão estreita da ficção científica brasileira. Durante muito tempo, a história do gênero no país foi apresentada a partir de uma seleção relativamente limitada de autores e temas, enquanto obras produzidas por escritores negros ou ligadas a outras tradições culturais recebiam menos atenção.
O crescimento do afrofuturismo tornou essa limitação mais visível. A ficção científica brasileira não precisa ser definida apenas pela maneira como autores nacionais responderam a modelos anglófonos ou europeus. Ela pode surgir da relação entre tecnologia e conhecimentos afro-brasileiros, de futuros imaginados a partir das periferias e de conflitos produzidos pela história racial do país.
Santos ocupa posição importante nesse processo porque sua obra alcançou editoras de grande circulação e premiações nacionais sem abandonar esse repertório. Isso contribui para transformar aquilo que é percebido como parte central da ficção especulativa brasileira, e não apenas como produção periférica dentro dela.
Seu trabalho também dialoga com outros autores brasileiros contemporâneos que vêm construindo futuros a partir de experiências sociais diferentes daquelas que dominaram o cânone anterior. O resultado é um campo mais amplo, no qual não existe uma única resposta sobre o que torna uma ficção científica especificamente brasileira.
Ancestralidade e futuro não são opostos
Talvez a ideia mais importante para compreender a produção de Alê Santos seja a recusa de uma oposição automática entre ancestralidade e futuro. Uma concepção bastante comum de progresso imagina que avançar significa abandonar tradições e substituir formas antigas de conhecimento por tecnologias novas. O afrofuturismo permite reorganizar essa relação ao perguntar quais conhecimentos foram excluídos da definição dominante de modernidade.
Em O Último Ancestral, essa questão deixa de ser apenas teórica porque participa diretamente da construção do mundo e dos conflitos. A ancestralidade possui efeitos concretos, enquanto a tecnologia não é apresentada como território neutro. Sistemas tecnológicos podem ser utilizados para controle, segregação ou emancipação dependendo das relações sociais que os sustentam.
A combinação permite imaginar um futuro em que inovação não exige apagamento cultural. Personagens podem participar de sociedades tecnologicamente avançadas sem abandonar as tradições que ajudam a estruturar sua identidade.
Essa abordagem também diferencia o trabalho de Santos de algumas distopias em que tecnologia aparece simplesmente como ameaça. O problema não está na existência da tecnologia, mas em quem a controla, quais valores ela incorpora e quais formas de conhecimento foram excluídas durante sua construção.
Uma trajetória ainda em expansão
Alê Santos pertence a uma geração cuja produção ainda está sendo construída, e qualquer verbete sobre sua obra precisa reconhecer essa condição. Rastros de Resistência, O Último Ancestral e A Malta Indomável já permitem identificar temas e procedimentos recorrentes, mas não formam uma carreira encerrada. Sua atuação continua atravessando literatura, audiovisual, quadrinhos e outros formatos.
Essa abertura é especialmente relevante para o Arquivo do Fantástico. Registrar autores contemporâneos significa acompanhar transformações enquanto elas acontecem, sem esperar que décadas de recepção decidam previamente quais nomes merecem fazer parte da história do gênero.
No caso de Santos, já é possível observar uma contribuição clara para a expansão do afrofuturismo e da ficção especulativa brasileira. Seu trabalho aproxima história negra, cultura afro-brasileira, tecnologia, RPG, fantasia e ficção científica sem tratar esses elementos como partes incompatíveis.
A importância de sua produção está também na maneira como ela desloca a pergunta sobre pertencimento. Um futuro brasileiro não precisa repetir imagens tradicionais de Brasil, da mesma maneira que uma ficção negra não precisa limitar-se ao passado ou ao realismo social. Alê Santos trabalha justamente nesse espaço de abertura, no qual ancestralidade fornece recursos para imaginar mundos que ainda não existem e a ficção especulativa se torna uma forma de disputar quem possui o direito de imaginar esses mundos.
Fontes consultadas:
- CÂMARA DOS DEPUTADOS — perfil de Alê Santos no programa Encontro com o Autor, com informações sobre Rastros de Resistência, Cangoma e O Último Ancestral.
- SENAC SÃO PAULO — perfil do autor e informações sobre sua produção afrofuturista e suas indicações ao Prêmio Jabuti.
- ESTADO DE MINAS — “O afrofuturismo de Ale Santos: das páginas para as telas”, entrevista sobre formação literária, RPG, Rastros de Resistência e O Último Ancestral.
- BRASIL DE FATO — “O afrofuturismo de Ale Santos: ‘Quero reconstruir o imaginário social brasileiro’”, entrevista sobre afrofuturismo, representação e disputa do imaginário.
- NERD ZOOM — entrevista com Alê Santos sobre O Último Ancestral e as particularidades do afrofuturismo brasileiro.
- MERCADIZAR — entrevista sobre a passagem das narrativas históricas das redes sociais para Rastros de Resistência e sobre a criação de O Último Ancestral.
- HARPERCollins / Google Books — informações editoriais e apresentação de O Último Ancestral.
